Home Christian Dancini: Um diálogo sobre literatura
Home Christian Dancini: Um diálogo sobre literatura
Imagem: O autor Christian Dancini / Divulgação

Em um mundo fragmentado por ruídos incessantes e pela urgência da comunicação instantânea, a poesia de Christian Dancini surge como um convite à suspensão. O autor, que se prepara para o lançamento da sua obra em 2025, propõe um exercício de contemplação que desafia a velocidade do quotidiano. Para Dancini, o ato de escrever não é apenas uma forma de expressão, mas um estado de "estar suspenso" — uma fusão íntima entre o observador e a alma do mundo, capturada em detalhes que escapam ao olhar comum.

Nesta entrevista exclusiva, mergulhamos nas camadas mais profundas do processo criativo do poeta. Christian revela como transforma o silêncio — por vezes pesado como uma pedra, por vezes preenchido por memórias — em versos que buscam o rigor da brevidade e a precisão do instante. Entre a melancolia solar e a aceitação da efemeridade, ele descreve a poesia como um organismo vivo, uma "poeira estelar" que, uma vez libertada, ganha luz própria e deixa de pertencer ao seu criador.

Convidamo-lo a silenciar os ruídos externos e a entrar neste diálogo sobre vida, luto, solidão e a busca incessante pelo inalcançável. Descubra a voz de um artista que, na impossibilidade de voar, faz das palavras o seu céu.

Arte: Colagem digital

REDAÇÃO: Christian, o título da sua obra de 2025 evoca uma imobilidade contemplativa. Como você define esse estado de estar "suspenso" no processo de escrita?

CHRISTIAN: Estar “suspenso” é fundir o observador com aquilo que é observado: é o ofício de contemplar. Escrevo como se minha alma saísse e alcançasse as imagens abstratas de uma natureza visível apenas aos olhos atentos, minuciosos. É como evocar imagens mnemônicas e descrever, ao mesmo tempo, o apocalipse e o gênesis, fazendo o papel de criador e criatura. Esse livro foi escrito sob a embriaguez de imagens poderosas que vinham como um soco para a superfície. Portanto, estar “suspenso” é o ato de contemplar não só contemplando, mas também, com as palavras, alcançando a alma do mundo que se mostra nos detalhes de suas estruturas.

REDAÇÃO: Sua poesia parece buscar o que há entre as palavras. O silêncio, para você, é um vazio ou uma forma de preenchimento?

CHRISTIAN: O silêncio é uma pedra que carrego no peito, compreende? O silêncio da ausência, o do desamparo, o silêncio da solidão, dos delírios e da angústia. Na minha escrita, tendo a buscar preencher esse oco com imagens; talvez isso defina toda a minha vida. Sempre busquei preencher o que não há, o que é ausente, com gritos e murmúrios. Mas talvez exista algo no momento entre a palavra e o silêncio — e é isso também o que busco: um rigor estrito, direto, algo como um transe circular e vertiginoso que, ao chegar ao fim, atinja o nirvana. Do ponto de vista do leitor, trazer o silêncio para a superfície, apontando-o com palavras, é fazer com que dessa quietude nasçam palavras que voltam a apontar para o nada. Atingir o nível de precisão para colocar essa engrenagem para funcionar é dar vida própria ao poema, que, ao fim, não precisará mais do poeta e se alimentará de sua própria luz.

REDAÇÃO: Em seus fragmentos, percebe-se um cuidado rigoroso com a brevidade. Como você sabe o momento exato em que um poema está pronto e que nada mais deve ser dito?

CHRISTIAN: Como você sabe se está pronto para qualquer coisa? Estamos realmente prontos em algum momento da vida? Dar à luz é semelhante à escrita do poema: ele nasce da fusão entre dois seres (realidade e irrealidade; silêncio e palavra; possibilidade e criação), cria-se como um embrião dentro da mente e fora, no papel. Como um organismo, o poema está em constante mutação; vide seu sentido, suas interpretações infinitas. O poema é uma possibilidade, assim como o ser humano, assim como qualquer ser. O poema nunca está pronto, mas, em algum momento, ele irá sair do útero (do poeta) e habitará a eternidade, como a poeira estelar que somos; somos compostos da mesma matéria que estrutura o poema; somos possibilidades infinitas.

REDAÇÃO: A passagem do tempo é um tema recorrente. Escrever é uma tentativa de paralisar o "instante" ou de aceitar a sua fuga?

CHRISTIAN: Acredito que sejam ambos, pois não são excludentes. Em um momento, suspenso, observo o instante sendo o instante; depois, deixo-o partir. Não existe a possibilidade de agarrar o tempo, paralisar a vida e habitar um momento, e isso é o que mais dói. Com certeza (aliás, perceptivelmente), há essa necessidade no livro de segurar pessoas, o tempo, a vida em seus lampejos... mas acho que, ao final, há uma aceitação de que o universo é efêmero, que a vida existe no movimento — e, sem isso, não seria vida.

REDAÇÃO: Como a sua colaboração com a Poesia Primata influenciou a estética visual e a curadoria dos seus textos mais recentes?

CHRISTIAN: Sempre busco aprimorar (talvez não seja essa a palavra correta) aquilo que escrevo. Acredito que conhecer alguns autores e ter recebido essa oportunidade de publicar com eles me fez conhecer um mundo (ou uma São Paulo) que antes não conhecia. Assim como em tudo que é vida, a minha poesia se molda nesses encontros e desencontros.

REDAÇÃO: Há uma melancolia solar em seus versos, algo que brilha e dói ao mesmo tempo. Você escreve para se curar ou para manter a ferida da percepção aberta?

CHRISTIAN: Eu escrevo para alcançar o inalcançável, para habitar os momentos sendo eles, para atingir pessoas que se foram e para, principalmente, deixar fluir com as lágrimas os lampejos de uma melancólica felicidade, de uma nostálgica efemeridade. Eu tenho medo, sou vulnerável, frágil; minha pele é toda queimada, qualquer menor toque me dói. Não fui feito para essa vida, acredito também não ser humano (metaforicamente) — ou talvez ser demasiado humano. Se eu pudesse escolher, seria pássaro, mas como não posso, sou sempre outro; sou poeta na impossibilidade de voar.

REDAÇÃO: O que mudou na sua voz poética desde os seus primeiros escritos até chegar a este "silêncio por um instante" em 2025?

CHRISTIAN: Muitos sonhos, muitos lutos, muitas dores; muita leitura também. Aprimorei-me tecnicamente, “surrealizei”, abstraí cada vez mais. Aprendi a montar palavras como quebra-cabeças, a rodar os versos como um cubo mágico, até acertar as cores (ou, às vezes, deixar bagunçado mesmo). Alguns críticos dizem que amadureci, outros que enlouqueci (o que também não está errado). No começo, quando escrevia, algumas imagens se repetiam sem ser proposital. Nesse livro de 2025, eu propositalmente repeti algumas palavras para criar um transe sincrético no leitor, a ponto de angustiar e provocar.

REDAÇÃO: Muitos leitores descrevem sua obra como uma experiência de respiração. Você pensa no ritmo pulmonar do leitor quando estrutura as quebras de linha?

CHRISTIAN: Sim, cada verso é um fôlego; cada palavra, uma molécula que compõe a estrutura da respiração. Meus poemas são como a meditação, onde a respiração é de suma importância. Acho que meus poemas são o ato de fechar os olhos e olhar para dentro; nisso, a respiração diminui e é possível ver mais do que quando os olhos estão abertos — é possível ser o universo.

REDAÇÃO: Qual a importância do espaço em branco na sua página? Ele faz parte do texto tanto quanto as letras?

CHRISTIAN: O espaço em branco é a pausa necessária para maturar uma ideia que o verso anterior propôs. É mastigar antes de engolir. Matutar imagens fragmentadas e criar sentido — não um sentido lógico, mas sim um sentimento próprio do leitor. É aí então que sei que o poema pode ser potencialmente perigoso. Olhar para dentro, dar espaço e silêncio ao pensamento — e principalmente ao sentimento — pode moldar vidas.

REDAÇÃO: Em um mundo saturado de ruídos e opiniões rápidas, o quão político é o ato de publicar um livro que convida ao silêncio?

CHRISTIAN: É um ato revolucionário que, como toda revolução, não se faz só. Desde o parto do poema até atingir os leitores, eu convido ao silêncio todos os seres que estão burocratizados demais. O poema hoje, na minha percepção e criação, é o ato de subverter, moldar e dobrar o ruído contemporâneo até chegar ao silêncio, utilizando os versos como ferramentas de revolução.

REDAÇÃO: Quais são os autores ou artistas visuais que mais dialogam com a sua busca pelo essencial e pelo mínimo?

CHRISTIAN: Poderia citar inúmeros — e deixar de citar outros. Mas, essencialmente para o livro “Suspensos”, eu me inspirei em Herberto Helder, Roberto Piva, Hilda Machado, Rumi, Rimbaud, Baudelaire, François Villon, Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Mário Cesariny, Pizarnik... inúmeros, como disse.

REDAÇÃO: O fragmento, por definição, é algo inacabado. Você sente que sua obra é um grande mosaico de partes que nunca se fecham totalmente?

CHRISTIAN: Sim. Como anteriormente disse, o poema nunca está realmente pronto; ele se molda entre os leitores, entre críticos e outros poetas, mas principalmente entre o passado e o agora do poeta, criando o futuro daquilo que conhecemos como poesia. Tentar dizer o indizível é isso: estar sempre continuando os poemas, até mesmo depois da morte.

REDAÇÃO: Existe algum cenário ou ambiente específico que seja o "habitat" ideal para a sua inspiração surgir?

CHRISTIAN: Esse livro, especificamente, foi criado dentro de casa, em minha escrivaninha, de madrugada, habitando o silêncio. Porém, eu me inspiro bastante em alguns lugares da minha cidade, como o Cruzeiro, a Brasital, a Praça da Matriz, a biblioteca. O que me inspira, além do local, são pessoas, eventos, sonhos, vivências e memórias.

REDAÇÃO: No livro de 2025, a presença do "ar" sugere leveza, mas também a falta de chão. Como você equilibra a leveza estética com a gravidade dos temas existenciais?

CHRISTIAN: Por muito tempo, vivi em um estado de torpor, tanto causado pela medicação psicotrópica quanto pela perda da possibilidade de sentir. Meus poemas desse livro nascem desse estado de choque, de torpor. Portanto, para além da necessidade de silêncio e da revolução do poema, há também esse lado do livro e da minha vida: por sentir tanto, foi-me apagada toda possibilidade de sentir aquilo que via e vivia.

REDAÇÃO: A solidão é um elemento presente na sua poesia. Ela é uma condição necessária para o seu trabalho criativo ou um tema que você busca desmistificar?

CHRISTIAN: Eu nunca busquei a solidão, ela me buscou. Sempre fui diferente e deixado de lado pelas pessoas, entende? Então, abracei-a, melancólica e existencialmente. Hoje estou só mesmo ao lado de pessoas, mesmo em uma multidão, mesmo entre os que amo. A poesia é também um reflexo do que se é. A civilização aprendeu a buscar pelo contato humano como meio de salvação, apoiar-se no outro. A solidão, que chegou cedo, não me permitiu ter esse amparo em qualquer um; a poesia é uma forma de irromper à superfície desse oceano que me submerge.

REDAÇÃO: Como você lida com a interpretação dos leitores? Incomoda-lhe quando dão um sentido muito concreto a algo que você deixou propositalmente vago?

CHRISTIAN: Não me incomoda. Acredito que o leitor também cria o poema enquanto o lê; por mais torpe que seja a interpretação, por mais concreta e errônea, se aquilo o tocou e faz sentido para ele, eu não tenho autoridade para interferir nesse quesito. Principalmente porque o poema é um ser alheio tanto ao poeta quanto ao leitor. O poema pertence apenas a si mesmo.

REDAÇÃO: A efemeridade das coisas parece ser o que as torna belas na sua escrita. Você tem medo do que é permanente?

CHRISTIAN: Eu tenho medo do efêmero; portanto, medo de viver. Aquilo que é permanente, eu não tenho nem certeza se resiste à primeira tempestade de realidade, ao primeiro raiar de sol na noite. Tudo é efêmero, nada é permanente, apenas a mudança. Acredito ainda que a morte também não é fixa, mas ainda não sei o que vem depois.

REDAÇÃO: Se a sua poesia fosse uma imagem ou uma fotografia, que luz e que enquadramento ela teria?

CHRISTIAN: Os olhos da minha avó.

REDAÇÃO: O que Christian Dancini ainda não conseguiu dizer através da poesia, mas continua tentando?

CHRISTIAN: Eu tento pedir ajuda. Toda forma de arte que produzo é um grito, é a queda de uma sequoia numa floresta desabitada. Tento não só dizer, mas alcançar a necessidade de continuar vivo, dar sentido a uma vida poderosamente agressiva para uma criança perdida que busca seu lugar no mundo.

REDAÇÃO: Para encerrar, Christian, se pudéssemos resumir o "instante" em uma única palavra, qual seria a sua.

CHRISTIAN: Vida. 

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