companhia das letras

Resenha: Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman

Este livro, que fez juz ao premio Amalfi concedido ao melhor livro de sociologia publicado na Europa, discute o que a sociologia pode nos ensinar sobr

domingo, 22 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta


ISBN: B008FPZPVG
Ano: 2004 / Páginas: 203
Idioma: português
Editora: Zahar

Em sua obra, Zygmunt Bauman procura explicar essa liquidez ao falar sobre as relações humanas da pós-modernidade. Ao ler esta obra, entende-se que a pós-modernidade trouxe insegurança, dúvida, liberdade e fragilidade para estas relações, tanto amorosas como sociais. Nas primeiras paginas da obra, Bauman deixa claro o objetivo de seu trabalho: “A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.” (BAUMAN, 2004, p. 8).

A tese de Bauman é que vivemos em um mundo líquido, que detesta tudo o que é sólido e durável. Em quatro capítulos, Bauman explica como funciona esse amor líquido do homem, que não quer viver na solidão, mas tampouco quer uma relação muito próxima para não perder a sua liberdade. “[...] a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar.”(BAUMAN, 2004, p.23). Eis as escolhas dos homens que Bauman analisa.
A obra esta estruturada em quatro capítulos (Apaixonar-se e desapaixonar-se; Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade; Sobre a dificuldade de amar o próximo; Convívio destruído) e Bauman considera o cidadão da nossa líquida sociedade moderna como o homem sem vínculos – Der Mann ohne Verwandtschaften – considerado o herói de sua obra.
Apaixonar-se e desapaixonar-se é o objeto de estudo do primeiro capítulo da obra, em que o homem faz isso com grande facilidade. Bauman faz um paralelo do amor com a morte, pois a mesma dificuldade que se tem para amar, pode ser transposta para a morte. A definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” esta completamente ultrapassada. Os padrões do amor, foram baixados e como resultado a própria palavra amor passa a ser referência para quaisquer tipos de experiências e não necessariamente aquelas em que realmente há um relacionamento sólido.
No amor, a comunhão e a troca são importantes por serem o meio pelo qual se pode chegar ao produto final. O amor se transformou em um investimento, em que se investe tempo, dinheiro, esperando que tudo aquilo que foi investido, retornasse como lucro. Com a perda de alguns valores e a individualização das pessoas, torna-se mais difícil alcançar o nível de ser apto a amar.
O desejo é um impulso, e a sua completa realização encontra-se no suicídio. A realização do desejo alimenta o individuo ao mesmo tempo que o definha. O amor, mesmo sendo um sentimento puro e cheio de boas intenções, caminha ao lado do poder, o que pode trazer o temor para esse relacionamento. O que torna mais cômodo o fato de ser temido do que o de ser amado.
O medo de não obter sucesso no relacionamento faz as pessoas procurarem alternativas para superar o fracasso no amor, trazendo uma superficialidade que fez com que os seres humanos fossem capazes de superar e “apagar” esse amor que não deu certo. A tendência disso é tornar as pessoas mais parecidas com as maquinas, seres frios e mecânicos.
No segundo capítulo da obra, Bauman faz uma reflexão sobre o homo sexualis, afirmando que a cultura nasceu do encontro dos sexos. O sexo deve ser algo racional e desprovido de ilusão. O homo sexualis saiu de cena e deu espaço para outros dois “solitários”, o homo economicus e o homo consumens. O primeiro precisa manter a economia em movimento e o segundo faz da compra a sua terapia e a busca pelas melhores ofertas à cura para sua solidão.
Houve uma separação entre o sexo e a reprodução, em que a reprodução tornou-se objeto da medicina. Os filhos são planejados conforme a necessidade e desejo dos pais, Bauman ainda cita que os filhos são um objeto de consumo emocional.
Trata também sobre o consumismo, em que o importante não é acumular bens, e sim, usá-los e descarta-los para que se possam adquirir novos bens. Na sociedade de hoje o consumismo não se limita a esse bens, mas também ao próximo, houve uma inversão de valores.
O sexo nos dias de hoje, se tornou um ato banalizado. Já não há amor no ato como antigamente, nos dias de hoje a busca pelo prazer se tornou mais importante que o amor complementando o prazer. Como dito anteriormente o amor não é mais o ponto importante do relacionamento e sim o prazer, já que o ato de dispensar o indivíduo e partir pra outra se tornou muito comum.
Bauman fala sobre o celular como um acessório indispensável, já que por a pessoa estar o tempo todo conectada, há uma facilidade de estar em contato com outras pessoas sem necessidade de proximidade física. Outro ponto é o namoro na internet, as vantagens desse compromisso são a segurança transmitida e a falta de compromisso, assim como a opção de poder escolher o “produto” mais agradável, mais uma vez atestando a liquidez e a fragilidade de entrar em um relacionamento na pós-modernidade.
Já no capítulo terceiro, Bauman trata da dificuldade de amar o próximo. Coloca que o mandamento de “amar o próximo como a si mesmo” não pode ser considerado um ato razoável, pois coloca o amor próprio como um dado indiscutível. “O amor próprio é uma questão de sobrevivência, e a sobrevivência não precisa de mandamentos”(BAUMAN, 2005 p.46).
O autor fala sobre como o mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança já que afirma que esta foi condenada a uma vida cheia de frustrações. Em nossa sociedade, adepta a reflexão, não se reforça muito a confiança.
Junto com a reflexão vem a moral em que Emmanuel Levinas se pergunta “por que eu deveria ser ético?” como se perguntando o que ganha um com isso. E Bauman responde afirmando que a moral é uma manifestação da humanidade estimulada, que não serve a propósito algum tampouco é guiada pela expectativa de lucro, conforto, glória ou auto-engrandecimento. E claro, nessa sociedade de hoje, as boas ações são estimuladas pela busca do lucro que se obteria em praticá-la.
As forças da globalização dissolvem o mundo pessoal e as pessoas tentam agarrar-se a si mesmo, o que produz uma luto por sentido e identidade. A mixofobia, descrita pelo autor como sendo a fobia do diferente, tem raízes banais, como indica Richard Sennet, “o sentimento nós, que expressa um desejo de ser semelhante, é uma forma de os homens evitarem a necessidade de examinarem uns aos outros com maior profundidade”.
Uma “comunidade da mesmice” como descreve Bauman, nos trás uma sensação de segurança. O fato de querer permanecer em um ambiente homogêneo, na companhia de pessoas “iguais” por exemplo, fez com que algumas cidades norte-americanas com a característica de homogeneidade, desenvolvessem um certo medo ao que estava fora daquela realidade perdendo as habilidades de conviver com a diferença, alimentando assim a mixofobia.
No último capítulo o autor trata da xenofobia e da preocupação com a segurança na sociedade moderna. A imigração nos Estados Unidos é muito forte, um dos grandes pilares do pais, porém o desprezo a estes imigrantes é um ataque à essa característica de sua identidade. Estes imigrantes são acusados da epidemia financeira presente no mundo moderno e são os grandes criminosos e culpados pelos males do Estado-nação.
Bauman fala sobre o lixo humano produzido pela humanidade, onde a ordem social e o progresso econômico são as principais causas dessa seleção, do descarte e da exclusão das pessoas que não se encaixam na nova ordem social.
Ressalta ainda que o Estado moderno produziu “pessoas sem Estado”, o trabalhador explorado que pode ser facilmente substituído. A elite global contrasta com os refugiados que ocupam fisicamente um determinado espaço, mas não pertencem a ele.
Para finalizar, Bauman afirma que o único consolo diante da realidade sombria da modernidade líquida, é a constatação de que a história ainda não terminou e que o homem ainda pode tomar escolhas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Bauman conseguiu sintetizar a relação conturbada do homem dos dias de hoje em todos os pontos mais importantes. O amor foi destruído, e o prazer colocado em seu lugar. A banalização do amor, dos relacionamentos, o sentido de segurança de não mais estar próximo fisicamente à pessoa mas sim poder estar conectado a ela sem sofrer, transformaram o mundo moderno em um lugar onde não faz mais sentido se viver.
Esse isolamento e insegurança do ser humano traz consequências devastadoras, que podem acabar com o convívio humano, como a xenofobia e a mixofobia que nada mais faz com que o ser humano deseje estar só, afastados de todos.
O que posso concluir com a leitura dessa obra é que realmente no mundo de hoje, a fragilidade existente nas relações humanas é uma coisa que não deveria acontecer. Ao transportar o amor apenas ao prazer é onde se perdem os laços humanos. O autor conseguiu reunir nesta obra, todos os pontos impactantes da modernidade e do avanço tecnológico pras nossas relações.
O fato desse desprendimento do ser humano para com o outro traz impactos muito fortes na sociedade, como a insegurança de viver com as diferenças, a banalização do sexo e da reprodução apenas visando o lucro, o que me faz pensar aonde o ser humano esta querendo chegar com tudo isso.
O contato com o outro já não é mais o mesmo e isso pode-se observar em uma mesa de bar, onde era pra ser um lugar para compartilhar momentos com o outro, as pessoas estão fixadas em seus celulares, sem ao menos olhar para a pessoa que esta ali, a sua frente. É ai que pode-se colocar uma questão, o avanço tecnológico que por um lado é extremamente bom em vários aspectos pode estar tornando a sociedade egoísta e colocando cada um dentro de uma bolha de isolamento?
Tudo isso me fez pensar que o ser humano está caminhando para a solidão, o egoísmo tomou conta das pessoas e as esta afastando cada vez mais.
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