Home Baixada Santista: Uma Contribuição à Análise Geoambiental – Cenira Maria Lupinacci da Cunha e Regina Célia de Oliveira | Resenha científica
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Título: Baixada Santista: uma contribuição à análise geoambiental
Organização: Cenira Maria Lupinacci da Cunha; Regina Célia de Oliveira
Edição: 1ª edição
Local: São Paulo
Editora: Editora Unesp Digital
Ano: 2015
Formato: Recurso digital (ePub)

O livro Baixada Santista: uma contribuição à análise geoambiental, organizado por Cenira Maria Lupinacci da Cunha e Regina Célia de Oliveira, constitui uma obra coletiva de natureza interdisciplinar que se dedica à investigação das relações entre dinâmica ambiental, urbanização e planejamento territorial em uma das regiões mais complexas do litoral brasileiro. Publicado pela Editora Unesp, o volume reúne estudos desenvolvidos principalmente nos programas de pós-graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), financiados por instituições como CNPq e Fapesp, evidenciando seu caráter acadêmico e científico.

Desde suas primeiras páginas, o livro apresenta uma tese central clara: os ambientes litorâneos brasileiros, particularmente aqueles que passaram por intensa urbanização, encontram-se em um estado de fragilidade ambiental agravado pela pressão do desenvolvimento econômico e pelo crescimento urbano desordenado. Como afirmam as organizadoras na introdução, “os ambientes litorâneos foram os primeiros ocupados pelo homem europeu no Brasil e apresentam, nos dias atuais, elevados índices de urbanização”

Essa ocupação histórica, associada às características naturais desses territórios — como solos instáveis, dinâmica hidrológica complexa e geomorfologia sensível —, gera uma combinação de fatores que tornam a gestão territorial particularmente desafiadora.

A obra tem como objetivo central compreender as interações entre as características físicas da Baixada Santista e as formas de ocupação humana ao longo do tempo. Segundo as organizadoras, os estudos reunidos no livro buscam “realizar um diagnóstico das condições ambientais da Baixada Santista, apontando problemáticas ambientais municipais a serem gerenciadas pelo poder público nos processos de planejamento”

Trata-se, portanto, de um trabalho que articula análise científica, cartografia, planejamento urbano e reflexão socioambiental.

Do ponto de vista metodológico, o livro adota uma abordagem multiescalar. Os estudos abrangem desde análises regionais em escala de 1:100.000 até investigações municipais detalhadas em escala de 1:50.000 e análises urbanas específicas em escala de 1:10.000, como no caso de Cubatão. Essa escolha metodológica permite compreender tanto os processos estruturais que moldam o território quanto os problemas concretos enfrentados pelas cidades. A introdução do livro destaca que esse refinamento analítico permite identificar áreas críticas e propor medidas específicas de gestão ambiental e territorial.

Um dos méritos centrais da obra é a contextualização histórica da formação urbana da Baixada Santista. A região ocupa uma posição singular na história brasileira, pois foi um dos primeiros espaços colonizados pelos europeus. Essa condição histórica produziu uma ocupação territorial precoce e contínua, marcada por ciclos econômicos sucessivos — da economia colonial ao desenvolvimento industrial e portuário. Essa trajetória histórica moldou profundamente a paisagem regional e as estruturas urbanas atuais.

Nesse sentido, os capítulos iniciais discutem a relação entre urbanização e industrialização, enfatizando o papel dessas forças na transformação do espaço geográfico. O processo de urbanização acelerada é analisado como resultado de uma dinâmica histórica mais ampla, que envolve a industrialização nacional e a expansão das atividades econômicas. Como ressalta o texto ao discutir a urbanização brasileira, a industrialização produziu um fenômeno de concentração populacional nas cidades, transformando profundamente o espaço urbano e gerando novas demandas de infraestrutura, planejamento e gestão territorial.

Essa análise dialoga com autores clássicos da geografia urbana e da sociologia urbana, como Henri Lefebvre, Manuel Castells e Paul Singer, citados ao longo da obra. A incorporação dessas referências teóricas demonstra a preocupação dos autores em situar o caso da Baixada Santista dentro de debates mais amplos sobre urbanização, industrialização e planejamento urbano.

Outro eixo analítico fundamental do livro é a discussão sobre planejamento urbano e gestão territorial. A obra examina o papel do Estado na regulação do espaço urbano e na tentativa de equilibrar crescimento econômico, qualidade de vida e preservação ambiental. Nesse contexto, os autores enfatizam a importância de instrumentos de planejamento, como planos diretores e zoneamentos urbanos, que procuram ordenar o uso do solo e reduzir os impactos negativos da urbanização.

No entanto, o livro também evidencia as limitações desses instrumentos. A experiência brasileira demonstra que o planejamento urbano frequentemente ocorre de forma tardia, tentando organizar territórios que já foram profundamente transformados por processos econômicos e sociais. Essa tensão entre planejamento e realidade urbana constitui um dos temas recorrentes da obra.

A Baixada Santista aparece como um exemplo emblemático dessa contradição. A região reúne características que intensificam os desafios do planejamento territorial: forte urbanização, intensa atividade portuária, turismo massivo e fragilidade ambiental. Além disso, a região apresenta uma complexa configuração socioespacial, marcada por desigualdades sociais e ocupações irregulares em áreas ambientalmente sensíveis.

A introdução destaca que grande parte da urbanização ocorreu em áreas de planície quaternária e encostas íngremes, o que gera problemas como enchentes, deslizamentos e instabilidade estrutural das construções. Segundo o texto, “a problemática principal relaciona-se à urbanização sobre os terrenos planos e inconsistentes da planície quaternária e sobre as vertentes íngremes dos Morros Isolados”

Esses processos evidenciam como decisões territoriais inadequadas podem produzir riscos ambientais e sociais significativos.

Outro aspecto relevante discutido no livro é a relação entre turismo e urbanização. A Baixada Santista é uma das principais regiões turísticas do estado de São Paulo, recebendo milhões de visitantes anualmente. Esse fluxo turístico exerce forte pressão sobre o território, estimulando a expansão imobiliária e a construção de infraestrutura urbana. Embora o turismo gere desenvolvimento econômico, ele também contribui para a degradação ambiental e a transformação da paisagem natural.

Nesse sentido, a obra evidencia que o turismo pode atuar como vetor de urbanização acelerada e especulação imobiliária, fenômeno comum em regiões litorâneas. A ocupação intensiva da orla marítima, a construção de condomínios e a expansão urbana sobre áreas ambientalmente frágeis constituem alguns dos problemas identificados pelos autores.

Outro elemento central da análise é a importância estratégica do Porto de Santos. Como maior porto da América Latina, ele desempenha papel fundamental na economia brasileira e exerce forte influência sobre a dinâmica regional. A presença do porto gera empregos, investimentos e infraestrutura, mas também cria desafios logísticos e ambientais, como congestionamentos, poluição e pressão sobre o espaço urbano.

A obra demonstra que a Baixada Santista não pode ser compreendida apenas como uma região turística ou urbana, mas como um território multifuncional que desempenha papéis logísticos, econômicos e ambientais simultaneamente. Essa complexidade exige abordagens integradas de planejamento e gestão territorial.

Do ponto de vista científico, o livro destaca-se pela articulação entre geografia física e geografia humana. Os capítulos analisam elementos como geomorfologia, hidrologia, uso do solo, urbanização e dinâmica socioeconômica, construindo uma visão abrangente do território. Essa abordagem interdisciplinar permite compreender como fatores naturais e sociais interagem na produção do espaço geográfico.

Além disso, a obra apresenta uma importante contribuição cartográfica. Os estudos incluem zoneamentos geoambientais e mapas temáticos que auxiliam na identificação de áreas de risco, zonas de preservação e regiões adequadas para diferentes tipos de uso do solo. Esses instrumentos são fundamentais para o planejamento territorial e para a formulação de políticas públicas.

Outro mérito do livro é sua relevância para o debate sobre sustentabilidade urbana. A Baixada Santista representa um laboratório privilegiado para compreender os impactos da urbanização em ambientes costeiros. Os problemas identificados na região — como ocupação irregular, poluição, risco geológico e degradação ambiental — refletem desafios enfrentados por diversas cidades litorâneas no Brasil e no mundo.

A obra também possui grande valor para gestores públicos, planejadores urbanos e pesquisadores interessados em políticas territoriais. Ao apresentar diagnósticos detalhados e análises críticas, o livro contribui para a formulação de estratégias de desenvolvimento mais sustentáveis.

Em síntese, Baixada Santista: uma contribuição à análise geoambiental constitui uma obra fundamental para a compreensão da relação entre urbanização e meio ambiente em regiões costeiras brasileiras. Ao combinar rigor científico, análise territorial e reflexão crítica sobre políticas públicas, o livro oferece uma contribuição significativa para os estudos geográficos e para o debate sobre planejamento urbano no Brasil.

Mais do que um diagnóstico regional, a obra revela como o desenvolvimento econômico, quando dissociado de planejamento ambiental adequado, pode gerar processos de degradação territorial e risco social. Nesse sentido, o livro reafirma a importância de políticas públicas baseadas em conhecimento científico e planejamento integrado.


Biografia das organizadoras

Cenira Maria Lupinacci da Cunha é professora doutora do Departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro. Atua no Laboratório de Geomorfologia e desenvolve pesquisas voltadas à geomorfologia aplicada, planejamento ambiental e análise geoambiental de territórios urbanos e costeiros. Sua produção acadêmica concentra-se na relação entre dinâmica natural e ocupação humana do território.

Regina Célia de Oliveira é professora doutora do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Suas pesquisas concentram-se em geografia urbana, planejamento territorial e gestão ambiental. Ao longo de sua carreira, tem contribuído significativamente para estudos sobre planejamento urbano e análise ambiental em regiões metropolitanas brasileiras.

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