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| Imagem: Acervo Pessoal / Divulgação |
Em meio ao concreto de Paraisópolis, uma das maiores comunidades do Brasil, o som dos violinos desafia a frieza dos códigos jurídicos. Nesta entrevista exclusiva, conversamos com Breno, autor que decidiu cruzar o limiar entre a técnica do Direito e a sensibilidade da música erudita. Com personagens vulneráveis e um cenário pulsante, sua obra mergulha nos dilemas de um advogado em busca de sentido e de uma maestrina que vê nos anjos a força para resistir. Prepare-se para descobrir como a ficção pode humanizar a lei e como a esperança, por vezes, precisa de uma trilha sonora para sobreviver ao caos.
REDAÇÃO: Breno, para começarmos, como surgiu a ideia de unir o universo erudito de uma orquestra em Paraisópolis com o cotidiano caótico do Direito?
BRENO: O Direito é como a venda: está em todo lugar. A partir do momento que o morador de Paraisópolis (bem como de qualquer outro lugar) sai para comprar seu pão, ele já está realizando um contrato jurídico, embora verbal. Ele realiza ali uma transação na qual o comerciante paga tributos, e onde incidem taxas de recolhimento de lixo e a tarifa de iluminação pública. Além disso, o asfalto que o morador pisa — mesmo que a comunidade não seja totalmente asfaltada — é fruto de uma série de licitações feitas pela Prefeitura e de reuniões, contratos e submissão a normas jurídicas. Ou seja, o Direito está em todos os lugares, inclusive na própria Paraisópolis, que antigamente era um loteamento de milionários. O fato de ter sido ocupada aos poucos leva a uma longa discussão sobre direito à moradia, usucapião, Poder Público e muito mais. Além disso, como está na própria trama, existe um dilema jurídico entre o Conservatório de Música e a Prefeitura. Era o cenário ideal para uma história.
REDAÇÃO: A protagonista Raíssa enfrenta uma angústia profunda ao ver o Conservatório ameaçado. O quanto da sua própria visão sobre a importância da cultura nas periferias está refletido nela?
BRENO: Principalmente o fato de não se curvar. Mesmo em condições adversas e em um lugar com tantos convites para caminhos ruins, ela mantém a esperança e aplica o seu dom musical na comunidade. Como descrito no capítulo "A Orquestra", quando ela vê os pássaros voando, conclui que cada um contribui como pode para o universo. Os pássaros com o voo — nos dando uma visão mais amena sobre a vida, talvez, dado que falamos tanto em dinheiro — e ela com a arte. Essa força dela é algo que admiro muito e quis relatar, inspirando-me no caso real da orquestra que é regida pelo maestro Paulo Rydlewski.
REDAÇÃO: O Dr. Jackson é descrito como "carismático e atrapalhado". Por que escolher um protagonista tão imperfeito para lidar com uma causa tão nobre?
BRENO: A ideia era fugir de personagens perfeitos. Quase sempre isso é pregado em campanhas de marketing e em histórias que viralizam. Vejo que hoje as pessoas buscam se espelhar em indivíduos bem-sucedidos, que têm respostas prontas na ponta da língua e foco total em perspectivas financeiras. Isso é bom, claro, mas o problema é quando se torna o único foco. Principalmente porque, se você não se encaixa nesse padrão, está fora. Desse modo, um personagem que sofre, chora e tem vulnerabilidades (no caso dele, um deslize em relação à Mariane) foge um pouco da figura do advogado ambicioso. O fato de ele focar em uma causa social e ser atrapalhado gera mais empatia, humaniza a trama e mostra que seres humanos podem errar e não precisam usar uma máscara de perfeição o tempo todo. Uma das inspirações para o personagem foi Jake Brigance, do renomado autor John Grisham.
REDAÇÃO: No livro, a Prefeitura alega irregularidades no imóvel. Você se inspirou em algum caso real de descaso com instituições culturais para compor esse conflito?
BRENO: Sim, inspirei-me em dois casos reais. O primeiro aconteceu com a Orquestra dos Meninos, em São Caetano do Sul, nos anos 90, que inclusive inspirou um filme da Globo Filmes. O segundo foi o longo processo de desapropriação do antigo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, ao lado do Theatro Municipal, onde hoje funciona a Praça das Artes. Fiquei muito intrigado com a ferocidade do instituto da desapropriação em contraste com a arte.
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| Imagem: Aarte gráfica / Divulgação |
REDAÇÃO: O Dr. Jackson lida com vários casos simultâneos (Mariane, Dona Bete, irmãos Martins). Como foi o processo de equilibrar esses núcleos sem perder o foco na Orquestra?
BRENO: Um escritório de advocacia comum lida com muitos casos; a pouca quantidade que eles têm, por enquanto, serve para ilustrar a trama. Insiro outros casos menores na narrativa, mas amplifico esses três principais. A ideia é mostrar que o advogado era muito ocupado e que a orquestra servia a ele como algo a mais — um capítulo novo com um convite espiritual que mexe com ele. Com exceção dos Irmãos Martins, que vivem em outro patamar e cujo caso não tem conexão direta com a realidade da Orquestra, busco intercalar o tema musical em diálogos com a Mariane e a Dona Bete, por exemplo.
REDAÇÃO: O sócio do Dr. Jackson funciona como um "pé no chão" para o escritório. Como você descreve a dinâmica dessa parceria?
BRENO: A parceria é fundamental para o Dr. Jackson, pois ele convive com o Dr. Marcos, um homem muito racional e centrado. O Dr. Marcos representa a esperança de que os relacionamentos não estão todos perdidos e que nem toda mulher que cruzar seu caminho irá estragar sua vida (já que Jackson tem uma vida amorosa frustrada). Os excessos de Jackson são "quebrados" pela convivência com Marcos e pela realidade prática do escritório. Em certo momento, Jackson vê o sócio buscando a filha na escola e conclui que uma das coisas mais belas que um homem pode ter é uma família. Ele precisa aceitar isso aos poucos, à medida que se desprende de sua visão angustiante sobre a vida.
REDAÇÃO: Em que momento da escrita você percebeu que o caso da Orquestra seria o "grande mestre" para o Dr. Jackson?
BRENO: Ele sempre teve uma conexão com a arte. No fundo, o Direito não o faz feliz; é apenas seu lado racional e a necessidade de se manter. Com a Orquestra, ele se conecta a um lado místico que ainda não consegue explicar, mas que está ali ao seu lado o tempo todo. O caso é um convite para mergulhar nesse universo espiritual profundo.
REDAÇÃO: Qual foi o maior desafio de transpor o sentimento de uma regência para as páginas de um livro?
BRENO: Não foi simples encontrar os termos corretos para descrever a música clássica com seus estrondos, altos e baixos, intensidades e suavidades. Procurei fazer isso em toda a obra, inserindo colocações poéticas e frases soltas entre os capítulos. Acredito que o capítulo "A Orquestra" seja um dos mais bonitos que já escrevi, pois contém não só a descrição de sentimentos, mas um arco que narra a inspiração da Raíssa e aproxima o leitor do meu objetivo central.
REDAÇÃO: Esse é um livro sobre fé, sobre música ou sobre a justiça dos homens?
BRENO: Pergunta precisa. A literatura é uma manifestação do "Eu", composto de dúvidas, certezas, fé e razão. A música é o elemento central, assim como a jornada jurídica, mas a obra aborda implicitamente elementos de fé e justiça. Sobre a fé, temos pontos complexos: Raíssa tem plena convicção de que seu trabalho é inspirado por Deus; as crianças sentem essa energia, mas ainda não a entendem. Já o Dr. Jackson é muito conectado ao sentimento de justiça, embora sua fé esteja abalada. A abordagem também intercala a justiça dos homens, mas cada um está em um "barco" diferente: temos homens em mansões e outros nas ruas, e a justiça não é sentida da mesma forma por eles. Sem centralizar apenas nisso, Orquestra Harmônica dos Anjos provoca reflexões sobre esses temas, especialmente nos capítulos "Uma Orquestra que se conecta com o céu" e "Homens das Calles".
REDAÇÃO: Qual a importância de localizar essa história em Paraisópolis?
BRENO: Paraisópolis possui um contexto social amplo que minha obra certamente não esgota. O que mais me chamou a atenção foi o aspecto cultural fortíssimo, que se manifesta pela Orquestra, pela Companhia de Dança, grupos de rap e muito mais. A principal mensagem de Paraisópolis é a resiliência. Partindo do princípio de que é uma comunidade com pessoas de bem que buscam crescer através da arte, pareceu o cenário ideal.
REDAÇÃO: Sobre a personagem Mariane: ela representa uma tentação ou um desafio para o amadurecimento de Jackson?
BRENO: Serei direto: ela representa uma tentação, mas não ao ponto de atrapalhar sua jornada. Mariane é uma mulher complexa. Embora no primeiro livro eu tenha focado mais em sua beleza, no segundo explorarei mais sua personalidade. Ela certamente agregará à vida do Dr. Jackson, ajudando-o a aliviar a tensão jurídica constante. A questão é que Jackson é "casado" com a advocacia e, por experiências passadas ruins, a vê como uma ameaça por acreditar que não a merece.
REDAÇÃO: Como você define o "tom" da narrativa?
BRENO: Ela se destaca por um tom leve dentro do drama jurídico. Há muitas cenas engraçadas e os personagens são bastante divertidos.
REDAÇÃO: Qual foi a cena mais difícil de escrever?
BRENO: Tive mais facilidade com os embates jurídicos, como no caso da Ágatha, que foi inspirado em uma história real e tema do meu TCC em Direito. A epifania musical foi o maior desafio. Sou atraído pela narrativa mística e precisei de muita pesquisa para encontrar os termos técnicos que expressassem o que eu desejava.
REDAÇÃO: O que a Orquestra ensina a Jackson que os livros de Direito não foram capazes de mostrar?
BRENO: Quando Euclides da Cunha foi à Guerra de Canudos, percebeu que a luta daquele povo era sobre uma realidade muito mais profunda do que os homens do Estado poderiam entender. O mesmo ocorre no Direito. Na cena do Tribunal, exemplifico que há homens engravatados que falam em justiça, mas não a compreendem de fato, pois não conhecem a realidade dos "novos Capitães da Areia". Quem garante que quem escreve a lei conhece a realidade fática?
REDAÇÃO: Você espera que sua ficção ajude a dar visibilidade a projetos sociais semelhantes?
BRENO: É difícil explicar o propósito único desta obra. Por mais que a orquestra seja um tema central, a Mariane é uma personagem muito querida para mim. Foi uma tentativa de criar uma figura cativante como a Gabriela, de Jorge Amado. Claro que, comparada à maturidade de Gabriela, Mariane ainda está distante, mas minha essência como romancista está lá. Sigo o princípio de Eclesiastes 11:1: "Lança o teu pão sobre as águas". Lancei a obra para que cada um tenha sua visão, focando na Mariane, no conflito da Orquestra e em certas revoltas pessoais em relação ao caso Ágatha. Publiquei pensando especificamente na visibilidade de Paraisópolis.
REDAÇÃO: Existe um "vilão" personificado na história?
BRENO: Não há um vilão clássico. A Prefeitura até poderia ocupar esse papel, mas a crítica é direcionada à frieza das leis, especialmente ao instituto da desapropriação — o que remete ao "Leviatã" de Thomas Hobbes. Para ter um vilão ao estilo John Grisham, eu precisaria de um personagem incisivo brigando pelo fechamento do Conservatório, mas a inspiração não seguiu esse caminho.
REDAÇÃO: Como você acredita que os anjos se manifestam no dia a dia da periferia?
BRENO: Esse é um campo amplo. No passado, convivi com pessoas que afirmavam ver anjos. Não sou cético quanto ao mundo metafísico. Acredito que a Bíblia tem razão ao dizer que há coisas que o olho humano não está pronto para ver, acessíveis apenas através de um alicerce espiritual sólido. Não sei se anjos estão fisicamente na Orquestra de Paraisópolis, mas onde há energia positiva e propósito, uma força superior está ao lado deles.
REDAÇÃO: Como foi o seu processo de pesquisa técnica?
BRENO: Tenho segurança nos termos jurídicos, embora o leitor muito técnico possa questionar alguns pontos no caso do Augusto. Na música, recorri a amigos músicos, li artigos e assisti a apresentações da Orquestra para garantir clareza e autenticidade.
REDAÇÃO: O que o leitor pode esperar do desfecho?
BRENO: Não darei spoilers, mas o leitor sentirá alívio e uma mensagem de esperança. Os medos são como as ondas do mar: vistos de longe parecem ferozes, mas ao chegarem à praia, apenas tocam nossos pés. Haverá, sim, mudanças internas profundas nos personagens.
REDAÇÃO: Qual mensagem principal você gostaria que ficasse ecoando na mente do leitor?
BRENO: Esperança em meio ao caos. Essa é a essência que deve permanecer após as 286 páginas de tensão e sonhos. Como diz 1 Coríntios 13, devem permanecer a fé, a esperança e o amor — sendo o amor o maior deles. O amor não é fácil, pois somos todos diferentes, mas a esperança pode ser nossa maior fortaleza.


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