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Resenha analítica de Nordeste: uma visão em quadrinhos da civilização do açúcar, de Gilberto Freyre

Publicado originalmente em 1937, Nordeste ocupa um lugar singular na obra de Gilberto Freyre. Se Casa-grande & senzala é frequentemente celebrado como o grande marco da interpretação sociológica da formação brasileira, Nordeste funciona como seu complemento ecológico, geográfico e, em muitos sentidos, político. Trata-se de um ensaio que busca compreender não apenas uma região, mas a complexa engrenagem histórica que articula natureza, economia, cultura e poder no Brasil. Nesta resenha, analisamos a obra em tom jornalístico, destacando sua relevância, suas contribuições metodológicas e suas limitações, com base em passagens do próprio texto. Desde o prefácio, Freyre delimita seu projeto com clareza: trata-se de um “estudo ecológico do Nordeste do Brasil”, mais especificamente de “um dos Nordestes”, o agrário, centrado na cana-de-açúcar . Essa escolha não é trivial. Ao enfatizar que existem “pelo menos dois” Nordestes — o agrário e o pastoril —, o autor rompe com visões homogêneas...

Resenha analítica de O Brasil como problema, de Darcy Ribeiro

Publicado originalmente como uma reunião de ensaios e intervenções intelectuais, O Brasil como problema , de Darcy Ribeiro, constitui uma das mais contundentes interpretações do país no século XX. Mais do que um diagnóstico circunstancial, a obra se impõe como um projeto de pensamento: uma tentativa de compreender o Brasil em sua formação histórica, suas contradições estruturais e suas possibilidades de futuro. Em tom assumidamente engajado, Darcy não apenas descreve o país — ele o interpela, provoca e convoca à ação. Desde a “Nota do autor”, o livro se apresenta como um discurso deliberadamente interessado, recusando qualquer pretensão de neutralidade. Darcy explicita sua posição com rara franqueza: “Nenhum escritor é inocente, eu também não... Confesso que quero mesmo é fazer sua cabeça” . A frase, localizada nas páginas iniciais da obra (p. 9-10), funciona como chave interpretativa. Trata-se de um intelectual que assume a dimensão política do pensamento e reivindica o direito — e o ...

A poética do traço e a ética da diferença em Diferentes, sim, e daí?

Em um cenário editorial amplamente dominado pela palavra escrita como eixo estruturante da narrativa, Diferentes, sim, e daí? , de Gustavo Rosa, apresenta-se como uma obra que tensiona, com elegância e profundidade, os limites do que convencionalmente se entende por “leitura”. Trata-se de um livro que prescinde do texto verbal para construir, por meio de imagens, uma experiência estética e reflexiva que ultrapassa o campo da literatura infantojuvenil, alcançando dimensões filosóficas, sociais e afetivas. A escolha por uma narrativa puramente visual não é, aqui, um recurso de simplificação, mas antes uma estratégia sofisticada de comunicação, que convoca o leitor a um exercício ativo de interpretação e sensibilidade. A epígrafe atribuída a Paul Géraldy — “precisamos parecer um pouco com os outros para compreender os outros, mas precisamos ser um pouco diferentes para amá-los” — funciona como chave hermenêutica da obra. Nela se inscreve a tensão fundamental que atravessa todas as páginas...

Resenha crítica da obra Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite

A poesia contemporânea brasileira tem se destacado, nas últimas décadas, por um movimento de intensa experimentação formal e temática, no qual o sujeito lírico deixa de ser apenas um mediador de sentimentos para tornar-se também um campo de tensão entre linguagem, corpo e pensamento. É nesse território inquieto que se insere Irene ou da Tensilidade, de Danilo da Costa-Cobra Leite, uma obra que não apenas se lê, mas se experimenta — quase como um organismo vivo, pulsante, fragmentado e profundamente sensorial. Desde o título, a obra já se anuncia como um espaço de ambiguidade e densidade. “Irene”, palavra de origem grega que remete à paz, contrasta com “tensilidade”, termo que evoca tensão, elasticidade, resistência à ruptura. Essa dualidade atravessa toda a obra: paz e conflito, corpo e linguagem, desejo e dissolução, presença e ausência. Trata-se de um livro que desafia o leitor a abandonar expectativas lineares e mergulhar em uma experiência poética radical, na qual forma e conteúdo ...

Resenha: Ódio ao poema, de Vitor Miranda

Ódio ao Poema , de Vitor Miranda, é uma obra que se posiciona deliberadamente contra a própria tradição que a sustenta: a poesia. Desde o título, há um gesto provocativo, quase iconoclasta, que sugere uma negação do fazer poético — mas que, paradoxalmente, só pode existir dentro dele. O livro se apresenta como uma espécie de manifesto fragmentado, um anti-poema que, ao atacar a poesia, revela sua permanência e inevitabilidade. A obra mergulha em um fluxo textual que mistura crítica social, violência urbana, ironia, metalinguagem e referências culturais diversas. Em vez de buscar a beleza tradicional ou a musicalidade clássica, Miranda aposta no choque, na repetição, na ruptura e na saturação. O poema deixa de ser objeto estético elevado para se tornar um corpo ferido, um organismo em decomposição, um produto de mercado, uma vítima e, simultaneamente, um agente de denúncia. Mais do que um livro de poesia, Ódio ao Poema é uma reflexão radical sobre o lugar da literatura em um mundo ma...

CRÍTICA | Sem Saída (2011)

A crítica cinematográfica exige, por vezes, um olhar atento àquilo que o cinema de gênero oferece como entretenimento puro, e "Sem Saída" (Abduction, 2011), sob a batuta do diretor John Singleton, é um exemplo contundente de como o suspense adolescente pode ser bem executado quando alinhado a uma narrativa de ritmo acelerado e constante movimento. Protagonizado por Taylor Lautner, o filme não se propõe a revolucionar a sétima arte, mas cumpre com louvor a sua missão de entregar um thriller de perseguição que mantém a tensão em níveis elevados desde a primeira cena. A premissa que ancora o filme é um clássico moderno da desconfiança: Nathan Harper, um estudante vivendo o tédio suburbano, descobre involuntariamente que toda a sua existência foi baseada em uma mentira. A partir do momento em que encontra sua foto em um banco de dados de crianças desaparecidas, a película abandona qualquer pretensão de drama cotidiano para mergulhar em uma espiral de espionagem, traições e segred...

Onde ler livros gratuitos na internet: 50 plataformas confiáveis reunidas

Em um cenário em que o acesso ao conhecimento ainda esbarra em barreiras econômicas e geográficas, cresce o número de iniciativas que disponibilizam livros digitais de forma gratuita e legal. Plataformas como o Portal Domínio Público , o Projeto Gutenberg e o Internet Archive consolidam um movimento que une universidades, fundações e organizações independentes em torno da democratização da leitura. De acervos acadêmicos especializados a bibliotecas digitais de alcance global, esses repositórios oferecem desde clássicos da literatura até obras científicas contemporâneas em acesso aberto. A seguir, reunimos uma curadoria abrangente de sites confiáveis que permitem baixar ou ler livros gratuitamente em diferentes formatos, ampliando as possibilidades de estudo, pesquisa e formação de leitores em todo o mundo. Site Link + Descrição Portal Domínio Público Acessar site — Biblioteca do governo brasileiro Projeto Gutenberg https://www.gutenberg.org/ — Clássicos domínio público Internet Ar...

Resenha: Viagem na Coreografia da Mente, org. Gabriela Queiroz

A antologia Viagem na Coreografia da Mente: A Experiência Simbólica no Fluxo de Consciência, organizada por Gabriela Queiroz e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece-se como um marco de experimentação literária derivado de oficinas imersivas do portal EducaMondru. A obra propõe uma incursão profunda pelos recantos da mente, utilizando o fluxo de consciência não apenas como estilo, mas como ferramenta poética para desbravar vertentes psicológicas e dimensões existenciais. Ao reunir autores como Arthur Petrola, Gabriele Gomes, Juliana Dias, Lincoln de Barros e Patrícia Najjar, o volume constrói uma narrativa polifônica que desafia a organização lógica tradicional em favor de uma apresentação subjetiva e ininterrupta das impressões humanas. O projeto gráfico, pontuado por colagens em tom de stippling, reforça visualmente essa fragmentação do eu, sugerindo que a identidade é uma composição constante de memórias, traumas e percepções imediatas. A técnica central explorada na coletâ...

Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, org. Kellen Dias e Leila Mendes

A publicação de Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade, organizada por Kellen Dias e Leila Mendes e lançada pela Mondru Editora em 2025, estabelece um marco fundamental na cartografia literária contemporânea brasileira ao deslocar o eixo da produção intelectual do rigor asséptico dos gabinetes para a vibração orgânica do verso. Esta antologia não se propõe apenas como uma reunião de textos, mas como um manifesto de ocupação. Ao questionarem onde reside o fenômeno poético, as organizadoras evocam a tradição de Adélia Prado para sentenciar que, entre aquelas cujas auras vibram fêmea, não cabe a passividade do gauche. A obra apresenta-se como um emaranhado poético que ressoa como bandeiras em meio a um campo de guerra simbólico, oferecendo rumo e esperança através de vozes que, embora transitem pela Academia, recusam-se a ser domesticadas por ela. O livro é um organismo vivo que abriga o som de mulheres que se refazem incorpóreas em corpos de poesia, desafiando a premissa ...