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A Odisseia de Nolan: quando a grandiosidade vira sonífero

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Foto: Reprodução | Mat Damon como Odisseu

A Odisseia, de Christopher Nolan, é um daqueles filmes que chegam às telas carregados de uma expectativa tão monumental que parecem destinados, antes mesmo da estreia, a serem tratados como acontecimentos históricos. Adaptar o poema atribuído a Homero é, por si só, uma empreitada quase desmedida: trata-se de uma obra que atravessou séculos, sobreviveu a traduções, interpretações, adaptações, releituras e apropriações, e cuja influência sobre a literatura ocidental é praticamente impossível de dimensionar. Portanto, seria ingênuo exigir de Christopher Nolan uma simples transposição cinematográfica do texto homérico. A Odisseia não poderia ser filmada exatamente como foi escrita, e talvez nem devesse. O diretor tem uma linguagem própria, obsessões temáticas reconhecíveis e uma maneira muito particular de manipular tempo, memória, culpa, percepção e realidade. Era inevitável, portanto, que sua Odisseia fosse, antes de tudo, uma Odisseia de Nolan. O problema é que, em vez de encontrar um equilíbrio entre a força monumental do material original e sua assinatura autoral, o diretor parece ter se apaixonado tanto pela própria possibilidade de reinventar Homero que acabou sufocando a história sob camadas e mais camadas de “importância”. O resultado é um filme tecnicamente impressionante, conceitualmente ambicioso e, em diversos momentos, visualmente espetacular, mas também excessivamente solene, artificialmente grandioso e, sobretudo, cansativo. Com 2 horas e 52 minutos, A Odisseia transforma uma narrativa cuja força reside justamente na variedade de aventuras, personagens, encontros e mudanças de atmosfera em uma experiência que frequentemente parece estar se esforçando para convencer o espectador de que aquilo que está vendo é extremamente profundo. E é justamente aí que começa o problema. Homero não precisava desse tipo de insistência. Seu poema já contém monstros, deuses, vingança, sedução, guerra, nostalgia, violência, astúcia, família, identidade e destino. Não era necessário acrescentar uma espessa camada de solenidade contemporânea sobre tudo isso. Nolan parece desconfiar da simplicidade do mito e, por isso, transforma quase cada acontecimento em uma peça de um grande mecanismo interpretativo. O que poderia ser aventura passa a ser alegoria; o que poderia ser emoção passa a ser conceito; o que poderia simplesmente acontecer passa a precisar significar alguma coisa. E, depois de algum tempo, o espectador começa a sentir que está diante menos de uma narrativa épica e mais de uma gigantesca demonstração de competência cinematográfica. É o tipo de filme em que cada imagem parece dizer “olhe como isto é importante”, cada silêncio parece anunciar uma revelação e cada diálogo parece ter sido cuidadosamente colocado para explicar ao público a dimensão filosófica daquilo que ele acabou de assistir. O resultado, ironicamente, é o oposto da grandiosidade pretendida: uma espécie de anestesia narrativa. A Odisseia de Nolan é, em muitos momentos, um sonífero de mãos cheias.

A diferença mais evidente em relação ao poema homérico está justamente na maneira como Nolan reorganiza a natureza da história. No texto antigo, os deuses não são simplesmente metáforas psicológicas: eles interferem no mundo, favorecem personagens, provocam acontecimentos, punem, protegem e disputam influência. Atena é uma presença ativa; Poseidon é uma força concreta contra Odisseu; Zeus participa da ordem cósmica que estrutura a narrativa. Nolan, fiel à sua conhecida preferência por interpretações psicológicas e ambiguidades perceptivas, reduz significativamente essa dimensão sobrenatural e transforma aquilo que em Homero pertence ao universo divino em algo mais próximo de memória, culpa, trauma, percepção e projeção. A própria Atena passa a ser uma presença ambígua, cuja existência pode ser interpretada de maneira muito menos literal. Também desaparecem ou são profundamente modificados elementos importantes do poema, incluindo o encontro com os feácios, enquanto o retorno de Odisseu a Ítaca recebe outra construção dramática. A mudança mais significativa, entretanto, está no final. Homero constrói o reconhecimento entre Odisseu e Penélope em torno da famosa cama impossível de ser deslocada, objeto que funciona como prova de identidade e como símbolo da intimidade construída pelo casal. Nolan substitui esse mecanismo por outro, relacionado a uma espécie de identificação através de um alfinete de ouro associado a Atena, e modifica radicalmente o destino posterior do protagonista. Na versão cinematográfica, Odisseu carrega uma culpa mais explícita pelas consequências da Guerra de Troia, enquanto o filme cria ainda a noção dos “povos do mar” e utiliza esse contexto para deslocar o mito para uma espécie de reflexão sobre a transição entre história, memória e tradição oral. São alterações legítimas? Sem dúvida. Uma adaptação não é uma tradução audiovisual palavra por palavra, e Nolan tem todo o direito de interpretar Homero segundo suas próprias preocupações. Aliás, talvez fosse impossível fazer um filme de quase três horas seguindo integralmente a arquitetura narrativa do poema sem produzir uma obra ainda mais fragmentada. O problema não está em mudar Homero; está em mudar Homero para Nolan e, depois, tornar Nolan mais importante do que Homero. A história original possui uma elasticidade extraordinária justamente porque aceita o maravilhoso sem precisar explicá-lo o tempo inteiro. O filme, ao contrário, parece sentir necessidade de justificar psicologicamente aquilo que antes simplesmente existia. O sobrenatural vira trauma. O destino vira consequência. Os deuses viram manifestações internas. A aventura vira estudo de culpa. A astúcia de Odisseu, uma das características centrais do personagem homérico, é substituída em vários momentos por uma espécie de introspecção pesada. E Penélope, Telêmaco, os pretendentes e os demais personagens acabam orbitando a reconstrução psicológica de um Odisseu que parece menos o herói astuto de uma tradição épica e mais um protagonista típico do cinema de Nolan, sempre carregando alguma ferida moral que precisa ser decifrada. A interpretação é coerente com o autor, mas não necessariamente enriquecedora para o material adaptado.

Anne Hathway como Penelope | Reprodução

É possível perceber, inclusive, que a intenção de Nolan não era simplesmente contar novamente A Odisseia, mas transformar o mito em uma espécie de tratado sobre memória, culpa, identidade, responsabilidade e as consequências das escolhas humanas. É uma proposta intelectualmente defensável e até bastante interessante no papel. Nolan tem todo o direito de perguntar o que aconteceria se retirássemos dos deuses parte da responsabilidade pelo sofrimento de Odisseu e colocássemos esse peso sobre o próprio personagem. Em Homero, a existência humana está permanentemente atravessada por forças que ultrapassam o indivíduo; em Nolan, existe uma tendência muito mais forte a responsabilizar o próprio homem por aquilo que lhe acontece. A mudança altera completamente o eixo moral da narrativa. O filme parece perguntar não apenas “como Odisseu voltará para casa?”, mas “que homem voltará para casa depois de tudo aquilo que fez?”. É uma pergunta legítima, talvez até poderosa. O problema é que Nolan parece incapaz de fazer essa pergunta sem construir ao redor dela uma catedral cinematográfica. Tudo precisa ser monumental. Tudo precisa ser simbólico. Tudo precisa carregar um peso histórico, psicológico ou metafísico. O que era uma narrativa de aventuras, mesmo quando trágica e filosófica, passa a parecer uma aula de três horas sobre a própria importância da narrativa. Há uma espécie de excesso autoral que acaba produzindo um paradoxo curioso: quanto mais Nolan tenta aprofundar A Odisseia, mais distante fica da espontaneidade que torna o poema tão fascinante. Homero consegue passar do terror ao humor, do maravilhoso ao cotidiano, do heroico ao doméstico, da violência à ternura, sem que a obra pareça precisar pedir licença para mudar de tom. Nolan parece desconfortável com essa liberdade. Sua versão é mais uniforme, mais pesada, mais controlada. E essa rigidez cobra um preço enorme no ritmo. Cenas que poderiam durar alguns minutos parecem durar uma eternidade porque precisam sustentar diálogos explicativos, pausas dramáticas, enquadramentos grandiosos e uma trilha sonora que constantemente lembra ao espectador que ele está testemunhando algo monumental. O filme parece ter medo de ser simplesmente divertido. E isso é especialmente frustrante porque a história de Odisseu é, por natureza, uma história extraordinariamente divertida. Há um ciclope, sereias, feiticeiras, monstros marinhos, gigantes, deuses, viagens impossíveis, disfarces, emboscadas, vingança e um sujeito tentando desesperadamente voltar para casa. É praticamente uma máquina narrativa perfeita. Nolan tinha à disposição um dos maiores repertórios de aventura já produzidos pela imaginação humana e decidiu transformá-lo, em vários momentos, numa meditação excessivamente séria sobre a condição humana. Não há nada de errado com a seriedade, mas há algo de profundamente errado quando a seriedade começa a eliminar o prazer. A Odisseia não deveria parecer uma reunião interminável de acadêmicos discutindo o sentido da existência enquanto alguém, ao fundo, toca uma música ensurdecedora.

No fim, A Odisseia é menos um fracasso de adaptação do que um caso de excesso de autor. Não é possível dizer que Nolan não tenha compreendido o tamanho do material que tinha nas mãos; o problema talvez seja justamente o contrário. Ele compreendeu tanto a dimensão histórica e literária de Homero que parece ter decidido que cada minuto do filme precisava estar à altura desse legado. E nenhum filme consegue respirar quando tenta ser monumental o tempo inteiro. A fidelidade absoluta ao poema seria impossível e provavelmente indesejável, e a visão particular do diretor era inevitável. A questão nunca deveria ser “por que Nolan mudou Homero?”, mas “o que Nolan ganhou ao mudar Homero?”. Em algumas escolhas, há ganhos reais: a transformação dos deuses em manifestações ambíguas dá ao filme uma identidade própria; a exploração da culpa de Odisseu cria uma dimensão psicológica interessante; a alteração do final revela uma tentativa legítima de fazer o mito dialogar com preocupações modernas; e a ideia de trabalhar a fronteira entre memória, história e tradição oral é coerente com uma obra preocupada com aquilo que lembramos e com aquilo que esquecemos. Mas esses ganhos são enterrados sob uma quantidade tão grande de firulas cinematográficas, discursos solenes, silêncios calculados, simbolismos, explicações e grandiloquência que a experiência se torna exaustiva. É como se Nolan tivesse recebido a missão de contar uma das maiores histórias da humanidade e concluído que precisava provar, a cada dez minutos, que sabia que estava contando uma das maiores histórias da humanidade. O resultado é uma obra que parece monumental sem ser necessariamente emocionante, sofisticada sem ser necessariamente profunda e grandiosa sem ser necessariamente envolvente. A fotografia, os efeitos, a escala, as locações e a construção visual podem impressionar, mas cinema não é uma competição para descobrir quantas toneladas de importância podem ser colocadas sobre uma história antes que ela afunde. E é justamente isso que acontece aqui: A Odisseia afunda sob o próprio peso. Para quem chega ao filme sem conhecer Homero, talvez toda essa solenidade possa parecer sinônimo de profundidade. Para quem conhece o poema, porém, existe uma sensação permanente de que algo essencial ficou pelo caminho: o prazer da narrativa, a fluidez do mito, a multiplicidade de tons e aquela extraordinária capacidade de Homero de transformar uma aventura em reflexão sem jamais precisar transformar cada cena em uma tese. Nolan quis fazer sua Odisseia, e isso é legítimo. O problema é que sua Odisseia parece estar constantemente tentando se impor sobre a Odisseia de Homero. No processo, o diretor transforma uma das maiores aventuras da literatura em um espetáculo tão preocupado em parecer épico que acaba esquecendo de ser divertido. É um filme que pode ser admirado, estudado, discutido e até reverenciado por sua escala, mas que dificilmente será lembrado pelo prazer de assisti-lo. Quando os créditos finalmente chegam, a sensação não é a de ter terminado uma grande jornada ao lado de Odisseu, mas a de ter sobrevivido a uma longa apresentação sobre por que aquela jornada é importante. E talvez essa seja a maior ironia de todas: um filme chamado A Odisseia que faz o espectador sentir que sua verdadeira aventura foi conseguir chegar ao fim.

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