A Volta ao Mundo em Oitenta Dias — análise do romance A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne



Uma análise literária do clássico de aventura de Júlio Verne que acompanha a extraordinária jornada de Phileas Fogg ao redor do planeta, examinando como o romance articula ciência, tecnologia, tempo e aventura no contexto da modernidade do século XIX.

VERNE, Júlio. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (Around the World in Eighty Days). Romance de aventura. Paris: publicado originalmente em 1873.


Entre os grandes romances de aventura do século XIX, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne, ocupa uma posição singular por sintetizar dois impulsos fundamentais da modernidade: a fascinação pelo progresso tecnológico e o desejo humano de explorar o mundo. Publicado em 1873, o romance surge em um período de extraordinária transformação histórica, quando ferrovias, navios a vapor e linhas telegráficas encurtavam distâncias que durante séculos haviam separado continentes. Verne capta esse momento histórico com precisão literária, transformando uma simples aposta em um percurso narrativo que atravessa geografias, culturas e imaginários.

A história inicia-se em Londres, no Reform Club, onde o enigmático cavalheiro inglês Phileas Fogg leva uma vida marcada por regularidade absoluta. Sua rotina é tão metódica que parece funcionar como um relógio humano. Fogg é um personagem cuja personalidade se define pela precisão, pela disciplina e pela absoluta confiança na lógica.

A aposta que desencadeia toda a narrativa nasce de uma discussão aparentemente trivial entre membros do clube. Após lerem um artigo que afirmava ser possível dar a volta ao mundo em oitenta dias graças às novas rotas de transporte, os cavalheiros iniciam um debate sobre a viabilidade dessa façanha.

Fogg, com sua habitual serenidade, declara que é perfeitamente possível realizar tal jornada. Diante do ceticismo de seus colegas, ele faz uma aposta monumental: vinte mil libras esterlinas de que conseguirá completar a circunavegação do planeta dentro desse prazo.

Esse gesto aparentemente impulsivo revela muito sobre o personagem. Phileas Fogg não age movido por entusiasmo aventureiro ou desejo de fama; sua motivação deriva de um princípio racional. Para ele, a viagem é essencialmente um problema matemático de tempo, distância e organização.

Assim que a aposta é formalizada, Fogg inicia imediatamente sua jornada, acompanhado por seu recém-contratado criado francês, Jean Passepartout. A escolha desse companheiro não poderia ser mais significativa para o desenvolvimento da narrativa.

Passepartout é o oposto de seu mestre. Enquanto Fogg representa a disciplina britânica e o autocontrole absoluto, Passepartout incorpora espontaneidade, emoção e improvisação. Essa dualidade cria uma dinâmica narrativa fundamental: o contraste entre a racionalidade calculada e a imprevisibilidade da experiência humana.

O início da viagem já evidencia a lógica peculiar de Fogg. Ele não demonstra entusiasmo diante da perspectiva de cruzar o planeta; para ele, a jornada é apenas a execução de um plano cuidadosamente calculado.

Essa atitude revela a visão científica que permeia toda a obra de Verne. O mundo é apresentado como um sistema que pode ser compreendido e organizado através do conhecimento técnico.

A primeira etapa da viagem leva os personagens da Inglaterra até a Europa continental e, em seguida, rumo ao Oriente Médio e à Índia. À medida que o romance avança, Verne constrói uma narrativa que combina aventura, geografia e tecnologia.

O leitor acompanha descrições detalhadas de rotas ferroviárias, sistemas de transporte e paisagens exóticas. Em uma passagem que ilustra a transformação das distâncias no século XIX, o narrador descreve o impacto da ferrovia transcontinental nos Estados Unidos:

“Antigamente, a viagem de Nova York a São Francisco, nas melhores condições possíveis, consumia ao menos seis meses. Agora é realizada em sete dias.” (p.191)

Essa observação revela um dos temas centrais do romance: a compressão do espaço pelo avanço tecnológico. Para Verne, o progresso científico não apenas transforma a sociedade; ele altera a própria percepção do mundo.

O planeta torna-se menor, mais acessível, mais interconectado.

Durante a passagem pela Índia, ocorre um dos episódios mais memoráveis da narrativa: o resgate da jovem Aouda. A personagem estava prestes a ser sacrificada em um ritual de sati — prática tradicional em que a viúva era queimada junto ao corpo do marido falecido.

Ao descobrir o plano, Passepartout e Sir Francis Cromarty convencem Fogg a intervir para salvá-la.

Embora o protagonista seja frequentemente descrito como emocionalmente distante, sua decisão de participar do resgate demonstra que seu caráter não se limita à frieza racional.

Após a fuga bem-sucedida, Aouda é acolhida pelos viajantes e passa a acompanhá-los. O episódio também revela o reconhecimento de sua gratidão pelos homens que arriscaram a própria vida para salvá-la:

“Aouda agradeceu pateticamente aos seus salvadores; seus belos olhos exprimiam melhor que suas palavras toda a sua gratidão.” (p.95)

Esse momento marca uma mudança importante na dinâmica da narrativa. A presença de Aouda introduz uma dimensão emocional que antes estava praticamente ausente.

Até então, a viagem era uma sequência de cálculos logísticos e desafios técnicos. Com a inclusão da personagem, a história passa a explorar também relações humanas.

Outro episódio revelador ocorre quando Fogg decide recompensar o guia que os auxiliou na Índia oferecendo-lhe o elefante Kiouni, animal que havia sido comprado para atravessar uma região sem ferrovias.

O gesto surpreende Passepartout, que percebe que seu mestre, apesar da aparência impassível, possui senso profundo de justiça e generosidade.

Nesse momento, Fogg declara ao guia:

“Você foi útil e dedicado. Paguei pelo seu serviço, mas não pela sua dedicação.” (p.94)

Essa frase sintetiza a ética do personagem. Para Fogg, a dedicação humana não pode ser reduzida a simples transação econômica.

À medida que a viagem prossegue, surge também o personagem detetive Fix, que acredita erroneamente que Fogg seja um ladrão procurado pela polícia inglesa. Convencido de que o cavalheiro é responsável pelo roubo de um banco em Londres, Fix decide segui-lo ao redor do mundo esperando uma oportunidade para prendê-lo.

Esse elemento introduz tensão narrativa adicional. Enquanto Fogg luta contra o tempo para vencer a aposta, Fix tenta atrasar sua jornada.

A perseguição cria situações de suspense que se somam aos obstáculos naturais da viagem.

O romance também revela grande interesse de Verne pela descrição das infraestruturas modernas. A ferrovia, os navios a vapor e os sistemas de transporte aparecem quase como personagens da narrativa.

A viagem pelos Estados Unidos oferece um exemplo notável dessa fascinação tecnológica. O narrador descreve em detalhes a expansão da ferrovia transcontinental e sua importância para a integração do território americano.

Essa atenção aos detalhes técnicos não é apenas decorativa. Ela reflete o projeto literário de Verne: transformar a ciência e a tecnologia em matéria narrativa.

Ao longo da jornada, Fogg enfrenta inúmeros desafios: atrasos, tempestades, ataques indígenas e imprevistos mecânicos. No entanto, ele mantém sempre a mesma atitude imperturbável.

Passepartout frequentemente reage com ansiedade diante das dificuldades, enquanto Fogg responde com calma absoluta.

Essa diferença de temperamento constitui um dos principais motores dramáticos do romance.

Ao aproximar-se do final da jornada, parece que a aposta foi perdida. Acreditando ter chegado a Londres tarde demais, Fogg retorna silenciosamente para sua casa.

Entretanto, uma descoberta inesperada muda completamente o resultado da história.

Passepartout percebe que, ao viajar constantemente para leste, os viajantes haviam ganho um dia inteiro devido à rotação da Terra.

Essa revelação transforma o desfecho do romance.

Como explica o narrador:

“Phileas Fogg havia ganho um dia em sua viagem, simplesmente porque havia viajado constantemente para leste.” (p.277)

Graças a essa diferença de tempo, Fogg chega ao Reform Club poucos instantes antes do prazo final.

A cena final da aposta é uma das mais icônicas da literatura de aventura. Quando a porta do salão se abre, Fogg entra calmamente e anuncia:

“Aqui estou, senhores!” (p.275)

Com isso, ele vence a aposta e recupera a fortuna que havia arriscado.

No entanto, o verdadeiro significado da viagem não está na vitória financeira. Ao final da narrativa, o narrador observa que Fogg aparentemente não ganhou nada com sua volta ao mundo — exceto algo muito mais valioso.

Durante a jornada, ele havia desenvolvido sentimentos por Aouda, que mais tarde se tornaria sua esposa.

Esse detalhe final revela uma dimensão simbólica da narrativa. A viagem, que começou como desafio matemático, termina como transformação humana.

Phileas Fogg, homem inicialmente definido pela rigidez mecânica de sua rotina, descobre a possibilidade de uma vida afetiva.

Nesse sentido, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias não é apenas um romance de aventura. É também uma narrativa sobre o encontro entre cálculo e experiência, entre racionalidade e emoção.

Júlio Verne utiliza a jornada ao redor do planeta para refletir sobre o próprio espírito da modernidade.

A tecnologia reduz distâncias, acelera viagens e amplia horizontes, mas o verdadeiro valor da experiência humana continua sendo encontrado nas relações que surgem ao longo do caminho.

Assim, a história de Phileas Fogg permanece fascinante não apenas pela aventura, mas pelo modo como revela o encontro entre ciência, tempo e humanidade no mundo moderno.

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