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| Foto: Rosemary Ketchum |
Em praticamente todos os continentes, o cenário político das últimas décadas passou a ser marcado por um fenômeno que se repete com intensidade crescente: a polarização. O que antes era um elemento natural do debate democrático — a existência de visões divergentes — transformou-se, em muitos países, em uma divisão profunda, emocional e, por vezes, irreconciliável entre grupos políticos e sociais.
Nos Estados Unidos, na Europa, na América Latina e em partes da Ásia, o clima político deixou de ser apenas competitivo para se tornar abertamente hostil. Famílias se dividem por votos, amizades se rompem por opiniões políticas, e instituições tradicionais enfrentam desconfiança crescente. O mundo entrou em uma fase em que a política não é mais apenas sobre programas de governo, mas sobre identidade, pertencimento e, em alguns casos, sobrevivência ideológica.
Especialistas em ciência política apontam que a polarização não é um fenômeno novo. O século XX foi marcado por grandes divisões ideológicas, como o confronto entre capitalismo e comunismo durante a Guerra Fria. No entanto, a polarização atual tem características diferentes: ela é mais difusa, mais emocional e amplificada pelas redes sociais.
Hoje, o antagonismo político não se organiza apenas em torno de sistemas econômicos ou projetos de Estado, mas em torno de valores culturais, morais e identitários. Temas como imigração, direitos civis, religião, gênero e segurança pública se tornaram campos de batalha ideológicos, muitas vezes com mais impacto eleitoral do que propostas econômicas concretas.
Nos Estados Unidos, a divisão entre democratas e republicanos atingiu níveis históricos. Pesquisas mostram que eleitores de ambos os partidos têm hoje uma percepção mais negativa do adversário político do que em qualquer outro período desde a década de 1960. O outro lado deixou de ser visto como um concorrente legítimo e passou a ser tratado como uma ameaça à nação.
Esse fenômeno ganhou força especialmente a partir dos anos 2010, com o avanço das redes sociais como principal fonte de informação política. Plataformas digitais, estruturadas em algoritmos que priorizam conteúdos de alto engajamento, passaram a privilegiar mensagens mais radicais, emocionais e divisivas.
O resultado foi a criação das chamadas “bolhas informacionais”. Dentro delas, os usuários são expostos majoritariamente a conteúdos que confirmam suas próprias crenças, reforçando convicções e ampliando a desconfiança em relação a qualquer narrativa divergente. O debate público, antes mediado por instituições tradicionais como jornais e universidades, tornou-se fragmentado e, muitas vezes, caótico.
Na Europa, o cenário também mudou de forma significativa. Países que por décadas mantiveram sistemas políticos relativamente estáveis passaram a assistir ao crescimento de partidos populistas e nacionalistas. Na França, na Itália, na Alemanha e em outras nações, o discurso anti-imigração e a crítica às elites políticas tradicionais ganharam espaço.
Esse movimento tem raízes econômicas e culturais. A crise financeira de 2008 deixou marcas profundas, especialmente entre as classes médias e trabalhadoras. O desemprego, a precarização do trabalho e a sensação de perda de identidade cultural alimentaram discursos que prometiam restaurar a soberania nacional e proteger as fronteiras.
O referendo do Brexit, no Reino Unido, tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da polarização contemporânea. O país se dividiu entre os que defendiam a permanência na União Europeia e os que viam na saída uma forma de recuperar autonomia política e econômica. O resultado foi uma ruptura política que redefiniu o papel britânico no cenário internacional.
Na América Latina, a polarização também se intensificou. Países como Brasil, Argentina, Chile e Colômbia passaram por eleições altamente disputadas, com discursos ideológicos mais duros e uma divisão clara entre campos políticos.
No Brasil, por exemplo, o ambiente político se transformou profundamente a partir da década de 2010. Escândalos de corrupção, crises econômicas e mudanças no cenário social contribuíram para a formação de um clima de desconfiança em relação às instituições. A política passou a ocupar um espaço central nas conversas cotidianas, nas redes sociais e até nas relações familiares.
Na Argentina, a alternância entre governos de orientação liberal e peronista também aprofundou divisões. O debate político deixou de ser apenas sobre economia e passou a envolver visões de mundo distintas, com narrativas que disputam o sentido do país.
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| Foto: Rosemary Ketchum |
No Chile, os protestos de 2019 revelaram uma sociedade profundamente insatisfeita com o modelo econômico e político vigente. O processo constituinte que se seguiu mostrou, ao mesmo tempo, o desejo de mudança e a dificuldade de construir consensos em um ambiente polarizado.
Na Ásia, o cenário é igualmente complexo. Em países como Índia e Filipinas, líderes com discursos nacionalistas e fortes bases populares consolidaram poder com apoio de parcelas significativas da população. A política, nesses casos, passou a ser marcada por narrativas de identidade nacional e segurança.
O avanço da polarização tem múltiplas causas, mas algumas delas se repetem em diferentes contextos. A desigualdade econômica é uma das principais. Em sociedades onde a riqueza se concentra em poucos grupos, cresce a sensação de injustiça e abandono, abrindo espaço para discursos mais radicais.
Outro fator importante é a crise de representatividade. Em muitos países, partidos tradicionais perderam credibilidade, seja por escândalos de corrupção, seja por incapacidade de responder às demandas sociais. Esse vazio político foi ocupado por lideranças que se apresentam como outsiders, prometendo romper com o sistema.
A tecnologia também desempenha um papel central. A velocidade com que a informação circula hoje não tem precedentes históricos. Notícias falsas, teorias conspiratórias e discursos extremistas podem se espalhar em minutos, alcançando milhões de pessoas.
Ao mesmo tempo, a lógica das redes sociais favorece conteúdos que provocam indignação ou medo. Emoções fortes geram mais engajamento, o que, por sua vez, aumenta a visibilidade dessas mensagens. O resultado é um ambiente digital onde a moderação e o diálogo têm menos espaço.
Pesquisadores apontam que a polarização atual não é apenas ideológica, mas também afetiva. Isso significa que as pessoas não apenas discordam politicamente, mas também desenvolvem sentimentos negativos em relação aos apoiadores do outro lado. O adversário deixa de ser visto como alguém com outra opinião e passa a ser percebido como um inimigo.
Esse tipo de polarização afeta diretamente a governabilidade. Em sistemas políticos altamente divididos, torna-se mais difícil aprovar reformas, negociar acordos e construir políticas públicas de longo prazo. O resultado é a paralisia institucional ou a adoção de medidas unilaterais, que podem aprofundar ainda mais as divisões.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o Congresso tem enfrentado dificuldades para aprovar leis importantes, devido à forte divisão entre os partidos. Em outros países, a polarização tem levado a protestos, crises institucionais e até tentativas de ruptura democrática.
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| Foto: Rosemary Ketchum |
A imprensa também enfrenta desafios nesse cenário. O jornalismo, tradicionalmente visto como mediador do debate público, passou a ser alvo de críticas e desconfiança. Em muitos contextos, veículos de comunicação são acusados de favorecer um lado político, o que reduz sua credibilidade entre parte do público.
Esse ambiente cria um ciclo difícil de romper. A desconfiança nas instituições alimenta a polarização, e a polarização, por sua vez, enfraquece ainda mais as instituições.
Apesar do cenário preocupante, especialistas afirmam que a polarização não é necessariamente o fim da democracia. Em alguns casos, ela pode representar o surgimento de novos debates e a inclusão de temas antes ignorados. O problema surge quando a divisão impede qualquer forma de diálogo.
A história mostra que sociedades polarizadas podem encontrar caminhos de reconciliação. Após períodos de conflito intenso, países como África do Sul, Espanha e Alemanha passaram por processos de reconstrução institucional e social.
O desafio, no entanto, é encontrar mecanismos que reduzam a hostilidade sem eliminar o pluralismo político. Democracias saudáveis dependem da existência de opiniões divergentes, mas também de regras comuns e respeito mútuo.
Entre as possíveis soluções apontadas por especialistas estão reformas no sistema eleitoral, maior transparência institucional, educação política e regulação das plataformas digitais. O objetivo é criar um ambiente em que o debate público seja mais informado e menos dominado por emoções extremas.
A educação política, em especial, aparece como um elemento central. Cidadãos mais informados tendem a ser menos suscetíveis a discursos simplistas ou manipuladores. Além disso, o desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico pode ajudar a reduzir a influência de notícias falsas.
Outro ponto importante é o papel das lideranças políticas. Discursos conciliadores e compromissos institucionais podem ajudar a reduzir tensões. Por outro lado, retóricas incendiárias tendem a aprofundar divisões e dificultar o diálogo.
O mundo vive, portanto, um momento de transição. A polarização não é um fenômeno isolado, mas parte de um conjunto de transformações sociais, tecnológicas e econômicas que redefinem a política contemporânea.
Em meio a esse cenário, a pergunta que se impõe é simples, mas profunda: até que ponto a democracia pode suportar a divisão sem perder sua essência? A resposta, como mostram os acontecimentos recentes, dependerá da capacidade das sociedades de reconstruir pontes em um mundo cada vez mais marcado por muros ideológicos.


