Entre Raízes e Ruínas: o luto como travessia e a reconstrução possível nas cicatrizes da culpa


Publicado de forma independente em 2025, Entre raízes e ruínas, de Vitor Zindacta. Entre raizes e ruinas, é um romance que mergulha sem concessões na experiência do luto, da culpa e da tentativa de reconstrução pessoal após perdas devastadoras. Com 250 páginas e classificado como romance brasileiro contemporâno, o livro acompanha Ana, 42 anos, cuja trajetória é marcada por escolhas impulsivas, distanciamentos familiares e uma sucessão de tragédias que a obrigam a confrontar o próprio passado.

Desde as primeiras páginas, o leitor é colocado diante de uma voz narrativa íntima e confessional. O romance se constrói em primeira pessoa, aproximando o público da consciência fragmentada de Ana. Logo no início, a decisão que desencadeia sua derrocada é apresentada de forma direta: “Eu me lembro do peso na garganta ao fechar a porta da casa dos meus pais.” (p. 9). A frase sintetiza o eixo central da obra: a ruptura com as raízes como ato fundacional de uma vida que se tornará ruína.

A partida da casa dos pais, motivada pelo amor por Tom, é tratada não como gesto romântico, mas como ato carregado de presságios. O silêncio dos pais, a ausência de despedidas efusivas e a sensação de vazio antecipam o fracasso que se desenrolará ao longo da narrativa. “Não olhei para trás quando saí. Não podia.” (p. 9). O não-olhar para trás é simbólico: representa tanto o rompimento com o passado quanto a recusa em encarar as consequências.

A cidade grande, que prometia oportunidades, transforma-se rapidamente em espaço de confinamento emocional. O apartamento apertado, o cheiro de mofo, as promessas de Tom que nunca se concretizam compõem um cenário de degradação progressiva. A queda de Tom, entregue ao álcool e ao jogo, é retratada sem caricaturas, mas com contundência. “O dinheiro escorria como água, levando nossa estabilidade, nossos sonhos.” (p. 14). A imagem da água que escorre evoca a perda de controle e a impossibilidade de reter aquilo que se desfaz.

O romance ganha densidade ao articular dois eixos paralelos: o colapso conjugal e o exercício da maternidade em condições adversas. Ana torna-se mãe de Clara e, depois, de Lucas, uma criança com necessidades especiais. A sobrecarga física e emocional amplia a sensação de insuficiência que a acompanha desde a juventude. O leitor acompanha uma mulher que se sente permanentemente aquém do que deveria ser: filha falha, esposa enganada, mãe que acredita não dar conta.

O ponto de inflexão dramático da narrativa é a morte súbita de Clara, atropelada enquanto se dirigia à faculdade. O impacto é descrito com economia verbal, o que intensifica sua brutalidade. “O grito que soltei não tinha som, apenas ecoava dentro de mim.” (p. 75). A ausência de som no grito traduz a paralisia emocional de Ana e inaugura uma nova camada de ruína: não apenas a da escolha errada no passado, mas a da perda irreversível no presente.

O luto é tratado como experiência prolongada, quase física. “Clara se foi. Minha filha, minha menina, esmagada por um carro enquanto caminhava para a faculdade.” (p. 68). A repetição do fato, a necessidade de nomeá-lo, revela a tentativa de dar forma ao que parece incompreensível. Zindacta evita sentimentalismos fáceis; o que se impõe é a culpa corrosiva que acompanha Ana. A personagem associa a morte da filha às próprias decisões, como se cada erro do passado tivesse pavimentado o caminho para a tragédia.

O funeral, descrito como esvaziado de presenças e de sentido, reforça o isolamento que Ana construiu ao longo dos anos. “O funeral de Clara foi um vazio que espelhava o meu.” (p. 91). A solidão não é circunstancial, mas consequência direta do afastamento da família e da ausência de laços duradouros. A cidade que prometia liberdade entrega anonimato.

A fuga de Tom após a morte da filha não surpreende, mas aprofunda a sensação de abandono. A nota deixada por ele é sintética e covarde: “Não posso mais. Desculpe-me.” (p. 107). O gesto final do marido reforça a ideia de que Ana sempre esteve sozinha na sustentação emocional da família. Se antes havia a ilusão de parceria, agora resta apenas o reconhecimento da falência.

O que distingue Entre raízes e ruínas de narrativas melodramáticas é a insistência na ambiguidade moral da protagonista. Ana não é retratada como vítima pura; ela reconhece suas escolhas, admite o orgulho que a impediu de procurar os pais e identifica na própria vergonha uma barreira para qualquer reconciliação. O título do romance funciona como chave interpretativa: as ruínas são o resultado visível das decisões, mas as raízes — a família, a memória, a possibilidade de retorno — permanecem subterrâneas, esperando ser revisitadas.

A presença de Lucas, filho que exige cuidados constantes, impede que Ana sucumba completamente. Ele é âncora e responsabilidade. Nos dias que se repetem, descritos como mecânicos, a maternidade torna-se a única estrutura que impede o colapso total. “Os dias eram sem fim, uma corrente de momentos que se repetiam.” (p. 124). A metáfora da corrente retoma a ideia de aprisionamento, mas também sugere continuidade: mesmo no sofrimento, a vida prossegue.

Estilisticamente, Zindacta aposta em frases diretas, imagens sensoriais e uma construção narrativa que privilegia a interioridade. A prosa é marcada por repetições temáticas — culpa, silêncio, vazio — que não empobrecem o texto, mas reforçam o estado psicológico da narradora. A repetição é recurso expressivo: traduz o ciclo mental de quem revisita constantemente o mesmo erro, a mesma memória, o mesmo arrependimento.

Há, no entanto, um risco inerente à escolha da intensidade constante: o romance raramente oferece respiros. A atmosfera é quase sempre densa, o que pode tornar a leitura emocionalmente exigente. Contudo, essa opção parece coerente com a proposta da obra, que, inclusive, alerta para o impacto de seus temas sensíveis. O luto, a dependência alcoólica, as dificuldades financeiras e a culpa não são elementos periféricos; são o núcleo da narrativa.

Ao longo das páginas, cresce a expectativa em torno da possibilidade de retorno às “raízes”. A pergunta que move a trama não é apenas se Ana conseguirá sobreviver ao luto, mas se terá coragem de confrontar o passado e buscar reconciliação com os pais. O romance não promete finais fáceis, e essa honestidade é um de seus méritos. A redenção, se vier, será resultado de enfrentamento, não de esquecimento.

Entre raízes e ruínas consolida-se, assim, como uma estreia literária que aposta na força da voz interior e na exposição crua das fragilidades humanas. Ao narrar a trajetória de uma mulher que precisa atravessar as próprias ruínas para reencontrar suas raízes, Vitor Zindacta entrega um romance que dialoga com temas universais — culpa, perda, arrependimento e reconstrução — sem perder a ancoragem na realidade brasileira contemporânea.

Mais do que uma história de dor, o livro é uma reflexão sobre as consequências das escolhas e sobre a difícil arte de pedir perdão — aos outros e a si mesmo.

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