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| Imagem: Pexels / Rene Terp |
A cozinha sempre foi o coração simbólico da casa brasileira, mas nos últimos anos ela deixou de ser apenas o lugar onde se prepara a comida e voltou a ocupar o centro das rotinas, das conversas e até das estratégias de sobrevivência financeira. Entre o aumento do custo de vida, a popularização das redes sociais gastronômicas e o renascimento de receitas afetivas, o ato de cozinhar passou a ser, ao mesmo tempo, necessidade, prazer e resistência.
Dados de institutos de pesquisa de consumo mostram que o brasileiro tem cozinhado mais em casa desde a pandemia. Mesmo com a retomada de bares e restaurantes, a tendência não retrocedeu completamente. O que antes era uma prática cotidiana, quase automática, agora é encarado com novos significados: economia, saúde, criatividade e até terapia.
A redescoberta da cozinha doméstica não aconteceu por acaso. Com a inflação dos alimentos e o encarecimento de refeições fora de casa, preparar o próprio almoço ou jantar deixou de ser apenas um hábito tradicional e passou a representar uma estratégia concreta de controle de gastos. O arroz, o feijão e o frango, combinação clássica do prato brasileiro, voltaram a ser protagonistas de um movimento silencioso: o retorno ao básico.
Especialistas em economia doméstica afirmam que cozinhar em casa pode reduzir em até 40% o custo mensal com alimentação. O número varia conforme a região e os hábitos de consumo, mas a lógica é simples: comprar ingredientes e preparar as refeições em casa sai, na maioria das vezes, mais barato do que depender de aplicativos de entrega ou restaurantes.
Mas a volta para o fogão não é apenas uma questão de dinheiro. Ela também revela uma mudança cultural. A cozinha, antes associada à obrigação, especialmente para as mulheres, passa a ser vista como um espaço de experimentação e autonomia. Homens, jovens e até crianças têm ocupado o espaço com mais frequência, seja para preparar receitas simples ou testar pratos mais elaborados.
Essa transformação se reflete diretamente no crescimento de conteúdos culinários nas redes sociais. Perfis de receitas rápidas, vídeos de preparo em tempo real e desafios gastronômicos acumulam milhões de visualizações diariamente. O fenômeno não é novo, mas ganhou força com a popularização dos vídeos curtos e da estética “caseira” — aquela em que a cozinha não precisa ser perfeita, apenas funcional e acolhedora.
No meio desse movimento, uma categoria de receitas ganhou destaque: as chamadas receitas de conforto. São pratos simples, afetivos, geralmente associados à infância ou a momentos familiares. Bolo de fubá, macarrão com molho caseiro, pão de queijo e arroz doce voltaram a circular com força nas mesas e nas telas.
A explicação, segundo psicólogos e estudiosos do comportamento alimentar, está na relação emocional que o ser humano mantém com a comida. Em períodos de instabilidade, a tendência é buscar sabores familiares, que transmitam sensação de segurança e pertencimento. A cozinha, nesse contexto, deixa de ser apenas funcional e assume um papel simbólico.
Entre as receitas que se tornaram símbolo dessa nova fase, uma das mais populares é o clássico frango assado com batatas. Simples, acessível e capaz de alimentar toda a família, ele representa a síntese do momento atual: comida de verdade, feita em casa, com ingredientes que cabem no bolso.
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| Imagem: Pexels / R. Askarov |
Frango assado com batatas: o clássico que nunca sai de cena
Ingredientes:
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1 frango inteiro ou em pedaços
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4 batatas médias cortadas em cubos grandes
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4 dentes de alho amassados
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Suco de 1 limão
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2 colheres de sopa de azeite
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Sal e pimenta-do-reino a gosto
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Páprica ou colorau a gosto
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Ervas secas (alecrim ou orégano)
Modo de preparo:
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Tempere o frango com alho, limão, azeite, sal, pimenta e páprica.
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Deixe marinar por pelo menos 30 minutos.
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Em uma assadeira, distribua o frango e as batatas.
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Leve ao forno médio por cerca de 1 hora e 20 minutos, virando as batatas na metade do tempo.
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Sirva quente, com arroz e salada.
A receita, apesar de simples, resume uma lógica que vem se consolidando: pratos completos, com poucos ingredientes, que alimentam bem e custam menos. É a chamada cozinha de sobrevivência elegante, em que a simplicidade não significa falta de sabor.
Nos supermercados, a mudança de comportamento também é visível. Produtos básicos, como farinha, ovos, leite e óleo, voltaram a ter grande saída. Ao mesmo tempo, ingredientes considerados “gourmet” passaram a ser substituídos por alternativas mais baratas. O parmesão importado dá lugar ao queijo nacional; o vinho caro, a versões mais acessíveis.
Essa adaptação não é necessariamente negativa. Pelo contrário: muitos chefs e cozinheiros defendem que a criatividade nasce justamente das limitações. Cozinhar com o que se tem à mão, respeitando a sazonalidade e o orçamento, é uma prática antiga que volta a fazer sentido.
O conceito de cozinha de aproveitamento também ganhou força. Cascas, talos e sobras passaram a ser incorporados em receitas. A casca de banana vira carne vegetal, o talo da couve entra no refogado, o pão amanhecido se transforma em torradas ou pudim.
A lógica é dupla: economia e sustentabilidade. Menos desperdício significa menos gasto e menor impacto ambiental. Para muitas famílias, essa prática deixou de ser apenas uma escolha consciente e passou a ser uma necessidade.
Outro fator que contribuiu para o retorno da cozinha doméstica foi o aumento da preocupação com a saúde. Com mais tempo em casa e maior acesso à informação, muitos brasileiros passaram a observar melhor o que estão comendo. A redução de alimentos ultraprocessados e o aumento do consumo de comida feita do zero se tornaram metas comuns.
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| Imagem: Pexels / Houzlook .com |
Nutricionistas destacam que preparar a própria comida permite maior controle sobre ingredientes, quantidade de sal, açúcar e gordura. Além disso, o ato de cozinhar cria uma relação mais consciente com a alimentação.
Essa mudança também se reflete na popularização das marmitas caseiras. Levar comida de casa para o trabalho, prática comum em décadas passadas, voltou com força. As marmitas deixaram de ser vistas como sinal de economia extrema e passaram a representar organização e inteligência financeira.
Em escritórios, canteiros de obra e até universidades, o som de tampas sendo abertas na hora do almoço se tornou novamente comum. Arroz, feijão, legumes e alguma proteína formam a base das refeições, muitas vezes preparadas no domingo para a semana inteira.
Essa organização semanal, conhecida como “meal prep”, ganhou adeptos principalmente entre jovens adultos. A proposta é simples: separar algumas horas do fim de semana para cozinhar em maior quantidade, armazenar porções e facilitar a rotina dos dias úteis.
O modelo, importado de tendências estrangeiras, ganhou versão brasileira. Em vez de salmão e quinoa, entram o frango desfiado, o arroz integral, a carne moída e os legumes refogados.
Ao mesmo tempo, a gastronomia continua sendo entretenimento. Programas de culinária, reality shows e documentários sobre comida seguem entre os conteúdos mais assistidos em plataformas de streaming. O público acompanha desde competições de alta gastronomia até vídeos de receitas rápidas feitas em cozinhas pequenas.
Essa dualidade — a cozinha como necessidade e como espetáculo — revela a complexidade do momento atual. Enquanto alguns cozinham para economizar, outros buscam experiências gastronômicas mais sofisticadas em casa, reproduzindo pratos de restaurantes famosos.
No entanto, especialistas afirmam que o ponto de equilíbrio está na simplicidade. A chamada cozinha cotidiana, feita com ingredientes acessíveis e técnicas básicas, continua sendo a base da alimentação de milhões de brasileiros.
Um exemplo clássico é o feijão, presença quase obrigatória na mesa nacional. Preparado em panela de pressão, temperado com alho, cebola e louro, ele representa não apenas nutrição, mas também tradição.
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| Imagem: Pexels / Tom Davis |
Feijão caseiro tradicional
Ingredientes:
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2 xícaras de feijão carioca
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1 folha de louro
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3 dentes de alho picados
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1 cebola pequena picada
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2 colheres de sopa de óleo
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Sal a gosto
Modo de preparo:
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Deixe o feijão de molho por 8 horas.
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Cozinhe na panela de pressão com água e louro por cerca de 25 minutos.
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Em outra panela, refogue o alho e a cebola no óleo.
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Acrescente o feijão cozido e deixe ferver.
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Ajuste o sal e sirva.
Receitas como essa atravessam gerações e continuam sendo transmitidas de forma oral, de mãe para filho, de avó para neto. Em muitas famílias, o caderno de receitas ainda é um objeto precioso, guardado como herança afetiva.
Ao mesmo tempo, a tecnologia redefine a forma como se aprende a cozinhar. Hoje, é possível acessar milhares de receitas com poucos cliques. Aplicativos, vídeos e assistentes virtuais transformaram o celular em um verdadeiro livro de culinária portátil.
Esse acesso facilitado ao conhecimento culinário democratizou a cozinha. Pessoas que antes se sentiam inseguras diante do fogão agora encontram instruções passo a passo, com imagens e vídeos explicativos.
Mas a abundância de informação também trouxe um novo desafio: o excesso de receitas complexas e ingredientes difíceis de encontrar. Em resposta, surgiram perfis e canais especializados em receitas econômicas, com poucos ingredientes e preparo simples.
O sucesso desses conteúdos revela uma tendência clara: o brasileiro quer comer bem, mas sem complicação. Receitas com três, quatro ou cinco ingredientes têm mais engajamento do que pratos sofisticados.
Um exemplo é o famoso macarrão de uma panela só, que viralizou nas redes sociais.
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| Imagem: Pexels / Pitamaas |
Macarrão cremoso de uma panela
Ingredientes:
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500 g de macarrão
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1 caixa de creme de leite
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1 lata de molho de tomate
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200 g de presunto picado
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200 g de queijo ralado
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Sal e temperos a gosto
Modo de preparo:
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Cozinhe o macarrão em água com sal.
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Escorra e volte para a panela.
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Acrescente o molho de tomate, o creme de leite, o presunto e o queijo.
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Misture até ficar cremoso.
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Sirva quente.
Receitas assim se tornaram símbolo de praticidade. Elas atendem a um público que precisa cozinhar rápido, com orçamento limitado e pouco tempo disponível.
No entanto, chefs e especialistas alertam para a importância do equilíbrio. A praticidade não deve substituir completamente a qualidade nutricional. O ideal é combinar receitas rápidas com alimentos frescos e variados.
Nesse contexto, as feiras livres voltaram a ganhar destaque. Comprar frutas, legumes e verduras diretamente dos produtores se tornou uma alternativa mais barata e saudável em comparação aos supermercados.
Além do preço, as feiras oferecem alimentos mais frescos e fortalecem a economia local. O contato direto com os feirantes também resgata uma relação mais humana com a comida, algo que se perdeu em parte com a industrialização dos alimentos.
Para muitos brasileiros, a cozinha voltou a ser o lugar onde o dia começa e termina. O café passado na hora, o almoço feito com calma e o jantar simples, mas quente, criam uma sensação de rotina e estabilidade.
Em um país marcado por desigualdades e incertezas econômicas, o ato de cozinhar se tornou uma forma de retomar o controle sobre a própria vida. Escolher os ingredientes, temperar a comida e compartilhar a mesa são gestos simples, mas carregados de significado.
A cozinha, afinal, nunca foi apenas sobre comida. Ela é memória, identidade e, cada vez mais, estratégia de sobrevivência. Entre panelas, receitas e contas a pagar, o brasileiro redescobre diariamente que cozinhar não é só uma tarefa doméstica — é também um ato de cuidado consigo mesmo e com os outros.




