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| Imagem: Apple Tv / Reprodução |
Em uma vida após a morte onde as almas têm uma semana para decidir onde passar a eternidade, Joan é confrontada em escolher entre o homem com quem passou a vida e seu primeiro amor, que morreu jovem e a esperou por décadas para ela chegar.
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Há filmes que se apoiam em grandes efeitos para falar de temas universais, e há aqueles que escolhem o caminho inverso: reduzem o espetáculo ao mínimo e deixam que a emoção carregue a narrativa. Eternidade, estrelado por Elizabeth Olsen, pertence a esse segundo grupo. À primeira vista, a premissa parece simples, quase um exercício de fantasia romântica: uma mulher morre e precisa escolher com qual dos dois grandes amores de sua vida passará a eternidade. Mas o filme rapidamente revela que sua proposta não é responder a essa pergunta — e sim explorar o peso emocional que ela carrega.
A história começa de forma quase banal, com um casal idoso, Larry e Joan, atravessando os últimos momentos de uma vida longa e cheia de pequenas tensões domésticas. Eles não são um casal idealizado; discutem, ironizam um ao outro, carregam décadas de convivência. A morte chega sem cerimônia, sem grandiosidade. Ele morre primeiro, de forma repentina, e ela o segue pouco depois, já doente. Essa abertura é importante porque o filme deixa claro desde o início que a eternidade que será explorada ali não é a dos mitos religiosos, mas a das relações humanas, com suas imperfeições e desgastes.
Quando Larry desperta no além, ele não encontra portões dourados nem julgamentos solenes. A primeira imagem marcante do filme é a de um trem silencioso, com passageiros jovens, todos aparentemente tranquilos, como se estivessem apenas mudando de cidade. Esse momento estabelece o tom da narrativa: a morte não é o fim, mas uma sala de espera. Uma funcionária do “sistema” explica que cada alma tem uma semana para escolher o tipo de eternidade que deseja viver. A ideia é simples, mas profundamente perturbadora. O que significa escolher a própria eternidade? E, mais ainda, como fazer isso quando a vida foi marcada por amores diferentes, em momentos diferentes?
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| Imagem: Apple Tv / Reprodução |
O reencontro entre Larry e Joan é uma das primeiras cenas de forte carga emocional. Eles surgem jovens novamente, na idade em que foram mais felizes. Há uma troca de olhares tímidos, quase constrangidos, como se estivessem se vendo pela primeira vez. O filme não dramatiza esse momento com trilha sonora grandiosa; ao contrário, ele deixa o silêncio falar. O que existe ali não é apenas amor — é história compartilhada, é a sensação de que aquela pessoa conhece todas as suas versões.
Mas a narrativa se complica quando surge Luke, o primeiro marido de Joan, morto ainda jovem, que esperou décadas por ela no limbo do além. O triângulo amoroso que se forma não é juvenil, nem marcado por rivalidade agressiva. É um conflito silencioso, feito de memórias, gestos e expectativas. Luke representa o amor interrompido, a promessa que nunca se concretizou. Larry representa a vida inteira, com seus altos e baixos, com as brigas e as reconciliações.
Uma das frases que sintetiza o espírito do filme surge quando Joan, ao revisitar as memórias de sua juventude com Luke, sussurra: “Foi o pior dia da minha vida”. Ela se refere ao momento em que se despediram antes da guerra. A frase não é dita em tom dramático; ela vem quase como um suspiro, uma constatação tardia. É nesse instante que o filme deixa claro que não está interessado em um romance idealizado. Ele quer falar sobre o peso do tempo, sobre aquilo que não aconteceu, sobre as vidas possíveis que ficaram para trás.
A estrutura narrativa reforça esse tema ao criar espaços de memória física, como os arquivos onde as lembranças ganham forma. Joan caminha por corredores onde cenas de sua vida se reproduzem como dioramas vivos. O espectador assiste a essas lembranças ao lado dela, como se estivesse folheando um álbum de fotografias que, de repente, ganhou movimento. Há uma cena em que ela observa a si mesma, jovem, rindo em uma cozinha pequena. Nada de extraordinário acontece ali, mas a emoção surge justamente dessa banalidade. O filme parece dizer: a eternidade não está nos grandes momentos, mas nos pequenos.
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| Imagem: Apple Tv / Reprodução |
Elizabeth Olsen constrói sua personagem com um tipo raro de contenção. Joan não é uma heroína romântica nem uma figura idealizada. Ela é, antes de tudo, alguém que passou a vida inteira colocando os outros em primeiro lugar. Em determinado momento, um dos personagens sugere que ela nunca fez uma escolha pensando em si mesma. Essa observação ecoa ao longo do filme e se transforma em um dos seus principais conflitos internos. A crítica destacou justamente esse aspecto: a personagem se encontra “presa no meio de uma situação impossível”, tentando não sacrificar a própria felicidade.
Há uma cena particularmente comovente em que Larry observa Joan enquanto ela fala com Luke. Ele não intervém, não faz escândalo. Apenas observa, com um olhar cansado, quase resignado. Nesse momento, o filme apresenta uma das suas frases mais dolorosas, dita por ele em tom quase casual: “Eu pensei que tinha mais tempo”. A frase, embora simples, resume a tragédia de muitos relacionamentos: a ilusão de que sempre haverá uma segunda chance para dizer o que ficou guardado.
O filme constrói seu drama a partir dessas pequenas frases, desses momentos quase sussurrados. Não há grandes monólogos, nem declarações épicas. Quando Luke relembra o primeiro encontro com Joan, ele não fala de paixão avassaladora, mas de um detalhe: o jeito como ela segurava a xícara de café. Esse tipo de memória, aparentemente insignificante, ganha uma força enorme no contexto da história. Afinal, são esses pequenos detalhes que formam uma vida.
O conceito do além apresentado pelo filme também funciona como metáfora emocional. Os diferentes mundos eternos disponíveis — desde paraísos românticos até ambientes mais excêntricos — não são apenas cenários fantasiosos. Eles representam estados emocionais. Cada eternidade é, no fundo, uma versão idealizada de um sentimento. Luke vive em uma espécie de paraíso montanhoso, congelado no tempo, como o amor jovem que nunca envelheceu. Larry, por outro lado, permanece no espaço de transição, quase como se ainda estivesse esperando a vida continuar.
Esse contraste revela uma das reflexões centrais do filme: o amor idealizado pode ser bonito, mas o amor vivido é mais profundo. A juventude de Luke e Joan é retratada como uma promessa eterna, uma fotografia preservada. Já o casamento com Larry é cheio de rugas, conflitos, dias comuns. Mas é justamente essa imperfeição que lhe dá densidade.
Em determinado momento, Joan diz algo que sintetiza essa ideia: “Eu não sou mais aquela garota”. A frase não é um rompimento, mas um reconhecimento. Ela entende que o amor não é apenas o que sentimos no início, mas aquilo que nos transforma ao longo do tempo. O filme insiste nessa ideia ao mostrar que o amor verdadeiro não é o mais intenso, nem o mais bonito, mas o que resiste.
A crítica observou que a história se constrói a partir do “choque entre a vida que você viveu e a vida que imaginou viver”. Essa tensão é o coração emocional da narrativa. Luke representa a vida imaginada. Larry, a vida vivida. Joan precisa decidir não apenas entre dois homens, mas entre duas versões de si mesma.
Há uma sequência particularmente poderosa em que Joan observa suas memórias com Larry. Não são cenas grandiosas: eles discutindo na cozinha, rindo no sofá, dividindo uma refeição simples. O filme transforma esses momentos em algo quase sagrado. A câmera permanece por alguns segundos a mais do que o habitual, como se quisesse convencer o espectador de que aquilo, sim, é a eternidade: o cotidiano.
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Outra frase marcante surge quando um dos coordenadores do além pergunta a Joan: “Quando foi a última vez que você se sentiu completamente feliz?”. A pergunta ecoa não apenas para a personagem, mas para o público. O filme usa essa provocação como eixo emocional. Em vez de perguntar com quem ela deve ficar, a narrativa pergunta: em que momento da vida ela foi mais ela mesma?
O desfecho evita soluções grandiosas. Não há revelações cósmicas nem julgamentos divinos. A escolha de Joan é íntima, silenciosa. Ela decide voltar para Larry, mesmo sabendo que isso pode significar o vazio. A decisão não é apresentada como a opção mais romântica, mas como a mais verdadeira. Ela escolhe o amor que a transformou, não o que a congelou no tempo.
Quando finalmente encontra Larry novamente, ele não está em um paraíso. Está trabalhando como bartender em um espaço neutro, como se tivesse desistido de escolher. A cena do reencontro é construída com extrema simplicidade. Eles se olham, sorriem, e não dizem nada por alguns segundos. O silêncio é a linguagem do filme. A eternidade, ali, não é um lugar — é aquele olhar.
A narrativa termina sem grandes discursos, apenas com a sugestão de que eles seguirão juntos. Não há promessas de felicidade eterna, apenas a ideia de companhia. O filme parece afirmar que a eternidade não é um paraíso perfeito, mas a continuidade de um vínculo.
No plano simbólico, a história fala sobre a forma como as pessoas se relacionam com o próprio passado. Todos carregam amores interrompidos, escolhas que poderiam ter sido diferentes, versões de si mesmos que ficaram pelo caminho. Eternidade transforma esse sentimento em narrativa concreta, dando forma a uma pergunta universal: se fosse possível voltar, o que escolheríamos?
O longa também dialoga com outras obras que exploram o amor após a morte, mas evita o tom melodramático. A crítica apontou que o filme tenta equilibrar leveza e reflexão, misturando fantasia com questões existenciais. Em vez de respostas, ele oferece sensações.
Talvez a cena mais emocionante seja aquela em que Joan observa uma memória simples: ela e Larry sentados em silêncio, sem nada de especial acontecendo. Ela sorri ao ver a cena e diz, quase para si mesma: “Foi aqui que eu fui feliz”. A frase não aparece como clímax, mas como constatação. É um reconhecimento tardio, como tantos que fazemos apenas quando algo termina.
O filme não é sobre escolher entre dois homens. É sobre aceitar o tempo vivido. É sobre perceber que o amor não é uma fotografia perfeita, mas um processo cheio de falhas. E, acima de tudo, é sobre entender que a eternidade talvez não seja um lugar distante, mas aquilo que permanece dentro de nós.
Ao final, o que fica não é a imagem de um paraíso ou de um amor ideal. O que permanece é o silêncio entre duas pessoas que se conhecem profundamente. O filme parece sussurrar ao espectador: “A eternidade não é o que você sonhou, é o que você construiu”.
E é justamente essa ideia que transforma a obra em algo mais do que uma comédia romântica com fantasia. Ela se torna um retrato melancólico e sensível sobre o tempo, as escolhas e as memórias que nos definem. Porque, no fim das contas, a pergunta central do filme não é “com quem passar a eternidade”, mas algo muito mais simples e doloroso: “quando, exatamente, fomos felizes — e por quê?”.



