companhia das letras

Resenha: O auto da compadecida, de Ariano Suassuna

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta

João Grilo e Chicó são os amigos inseparáveis que protagonizarão a história vivida no sertão nordestino. Assolados pela fome, pela aridez, pela seca, pela violência e pela pobreza, tentando sobreviver num ambiente hostil e miserável, os dois amigos usam da inteligência e da esperteza para contornarem os problemas.

ISBN-13: 9788561559885
ISBN-10: 8561559888
Ano: 2013 / Páginas: 192
Idioma: português
EditoraAgir

RESENHA

O livro Auto da Compadecida de Ariano Suassuna mistura elementos da cultura popular com autos medievais e com a literatura de cordel, se aproximando mais à espetáculos de circo e tradição popular do que à teatros modernos. Idealizada para ser representada, a obra utiliza, na escrita, traços orais com regionalismo, evidenciando o cenário nordestino. Os personagens da obra são simbólicos, representam mais do que indivíduos, estruturas sociais. Desta forma, fica fácil reconhecer a peça como uma crítica social, que satiriza costumes, tradições, religiões, bem como as dificuldades e a cultura da sociedade nordestina.

A crítica religiosa é um elemento muito presente em toda a obra. Desde o início, na primeira fala do personagem Palhaço já se pode perceber a inferência da falta de moralidade religiosa: “Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um padre e um bispo, para exercício da moralidade” (SUASSUNA, 1975, 2). Tem-se o Palhaço como representação do próprio autor, que, ao escrever a peça, abordou a problemática do mundanismo de sua igreja. Desta forma, ele reconhece que sua alma é cheia de insensatez e de lábia, como a de qualquer homem.

No cenário de personagens religiosos temos o padre João, o Sacristão e o bispo. O primeiro só está preocupado em conseguir dinheiro para sua aposentadoria; o segundo e o terceiro, cheios de solércia e má intenção, ajudam a completar o quadro da igreja corrompida que Suassuna pintou em sua obra.

O protagonista de todas as peripécias é João Grilo, um homem magro e pobre que depende de sua astúcia para sobreviver. Em várias críticas literárias, João Grilo é frequentemente comparado com Macunaíma, personagem de Mario de Andrade, porém, ao contrario deste, João trabalha duro e ajuda seu amigo Chicó, e suas travessuras são justificáveis por sua extrema pobreza.

Chicó é o típico contador de histórias. O mentiroso puro que cria causos para satisfazer suas vontades. Trabalha com João Grilo na padaria e juntos formam uma dupla de palhaços. Seus patrões (o padeiro e sua mulher) representam a burguesia que está apenas preocupada em acumular dinheiro e explorar seus funcionários. Para completar o time burguês, está Antônio de Moraes, senhor de terras que se impõe pela violência, medo e dinheiro.

Também é possível analisar em toda a peça os elementos da cultura popular nordestina. Além da fala, da interação e do jogo da convivência das dicotomias sociais (extrema pobreza/extrema riqueza), o autor incluiu crenças nordestinas, como o Encourado.

O Encourado é o diabo. Segundo a crença, ele se veste todo de couro, como um boiadeiro. É promotor do Julgamento e não tem nenhuma misericórdia. Na obra ele é retratado como um antagonista de João Grilo, mas este vence no final.

O Auto da Compadecida foi escrito em 1955 e ainda é uma referência literária. Seu conteúdo denuncia a imoralidade religiosa, a mesquinharia dos homens, o preconceito e a luta pelo poder. Sendo o texto teatral e com muito regionalismo, Ariano Suassuna conseguiu uma aproximação do público, possibilitando a disseminação de suas denúncias.

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