companhia das letras

ANÁLISE: A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa

terça-feira, 10 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta



“A terceira margem do rio” é uma das narrativas que compõem o volume Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, publicado originalmente em 1962. Agora, graças às belas ilustrações de Thaís dos Anjos, o pai, aquele “homem cumpridor, ordeiro, positivo”, a mãe e os três filhos adquirem novos matizes, e o rio “grande, fundo, calado que sempre”, permanece “de meio a meio” a cada quadrinho, fazendo outra vez, nessa renovada leitura do conto rosiano, nosso coração bater “no compasso do mais certo”.

ISBN-13: 9788520929292
ISBN-10: 852092929X
Ano: 2012 / Páginas: 64
Idioma: português
Editora: Nova Fronteira

ANÁLISE

A reflexão sobre o conto de Guimarães Rosa, a análise visual da obra de Guto Lacaz, a leitura auditiva da música de Caetano Veloso, e da obra de arte da artista Marilá Dardote, essa última diferenciada com relação ao titulo, nos permite analisar intertextualmente de acordo com os elementos contidos nelas e interrelacionados umas as outras.
O conto é narrado em primeira pessoa pelo narrador-personagem, o filho narra a jornada de um pai que passa a viver no meio de um rio em uma canoa estabelecendo ali uma terceira margem. A travessia infinita do pai num rio que está representado por três margens, que nos remetem o irreal.
Partindo para a análise dos recursos de estilo o autor vem nos trazer a estranheza vazada em seu estilo típico.
Na prosa, o tempo é cronológico a vida do narrador, ou seja, o filho está aprisionado ao tempo e ao princípio de continuidade para ele, o tempo corre numa fatalidade devoradora de tempo vivido, o amadurecimento que o mesmo adquiriu na difícil tentativa de entender a decisão do pai. O espaço, esse como intervalo de tempo à presença do rio que limitava o encontro entre pai e filho, mistério no descrever da decisão tomando pelo pai, passando transcendentemente aos olhos do leitor no ir e vir do rio e da vida de ambas as pessoas. O ambiente onde ocorre a descrição da história dando a entender que a mesma se passa às margens de um rio.
O que vem a ser “A Terceira Margem”?
A tal expressão nos leva a analisar o subconsciente, a fim de despertamos para o entendimento do mundo abstrato. A terceira margem é aquilo que não se vê, não se toca, não se conhece, ou seja, aquilo que está além do compreensível. É o enigmático.
A psicanálise tenta compreender o homem. O pai busca sempre em silêncio a compreensão de si mesmo, assim o personagem resolve abandonar a família e o mundo e mergulha numa busca de um vazio existencial. Seu itinerário oscila entre as fronteiras do real e do surreal e a canoa construída pela imaginação do autor leva o personagem para uma zona enigmática e obscura para a condição humana.
Na composição da letra da música de Caetano Veloso “A terceira margem do rio”, temos uma releitura da obra de Guimarães Rosa, pois a mesma a reproduz de maneira poética. O cantor usou a técnica da metalinguagem para fazer um intercambio simbólico dos elementos descritos na prosa utilizando os mais variados neologismos da interpretação de cada significado.
Portanto podemos demonstrar uma proposta traçada por uma linha que evidência as relações entre a literatura, a música e a filosofia através da leitura desta canção.
Em seus primeiros versos, Caetano Veloso se refere ao silêncio característica peculiar do pai, onde é encenado entre sons de paus ocos e uma imagem de águas, o rio em seu movimento são expressos por um conto, nesse conto do rio, a madeira representa a canoa no silêncio nas águas, sendo assim, a palavra se faz margem ao expressar o silêncio.
O pai que permanece sempre na terceira margem do rio-linguagem, se torna o próprio rio. Ambos com a mesma característica, silencioso e sério.
“Um dos contos mais enigmáticos de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio possui um jogo de palavras e uma estruturação que velam e revelam leituras diferentes do mesmo conto. Este jogo textual e estas diferentes leituras são percebidas por Caetano Veloso e reveladas em sua canção. O musico capta estes elementos e os condensa em texto poético.”
Já nas obras de arte contemporânea de Guto Lacaz, ao criar dois barcos iguais com cores distintas, e fazendo uso de um espelho posto entre ambos, o qual refletia a imagem de um terceiro, homônimo ao conto de Guimarães Rosa e a música de Caetano Veloso “A terceira margem do rio”. Os barcos representavam a canoa usada pelo pai no navegar do longo rio, o espelho dar ideia de limitação em relação a existência do filho e a inexistência do pai.
Podemos destacar que Guto Lacaz é um artista plástico que procura cruzar os campos da ciência com o do imaginário. Pois ele mostra em sua obra explicitamente que a arte responde com a incerteza e a indeterminação, instigando a curiosidade de compreensão daqueles que a apreciam.
Uma curiosidade a ser observada na obra de Guto é que ele usou três cores primárias para diferenciar os barcos e três nomes para distinguir seus significados, ressaltando que, tanto as cores como os nomes são alusivas ao tema da obra. E os nomes usados nas embarcações foram inspirados nas canções antigas usadas por Caetano Veloso.
Terra: representa o filho, bem como a distância entre a primeira margem onde se encontra o mesmo, e a terceira margem onde ele enxerga a miragem, vulto do pai.
Cajuína: representa o percurso do rio, o movimento das águas, que por mais que as mesmas fossem cristalinas tornavam-se uma barreira, um obstáculo de imensa opacidade limitando o encontro ambos os personagens.
Odara: é uma palavra do dialeto baiano, cuja expressão significa supremacia, beleza, etc. E está representado o pai em busca da paz da beleza suprema, da tranquilidade, do descanso eterno.
Podemos perceber na obra de Marilá Dardote dois aspectos do objeto livro: sua forma e seu conteúdo funcional. Assim ele é usado pelas ideias como meio e veículo em diferentes funções, representando ao mesmo tempo o mundano e o enigmático.
Essa obra distinguiu-se apenas da inexistência da letra “A” e da palavra “Rio” no início e final do título, essa terceira margem é apenas a margem do pai criada pelo filho no seu inconsciente. A ausência da letra”A” e da palavra”Rio”, está ligada a falta que o filho sentia do pai, a solidão no qual ele se encontrava a ausência do diálogo entre ambos.
O livro de Marilá com a impossibilidade de ser manuseado retrata o aprisionamento do filho as margens do que não existia, as paginas infolheáveis do livro remetem a ideia de limitação entre o existente e o inexistente, o acessível e o inacessível, a tocável e o intocável. Assim como Guto, Marilá também usou três cores diferentes, preto, branco e cinza, essa representação abstrata de uma terceira margem relata em silêncio o isolamento do pai para o mundo do inconsciente, a terceira margem é o que não se vê, o pai busca o desconhecido dentro de si.

3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Contudo Guimarães Rosa, Guto Lacaz, Caetano Veloso e Marilá Dardote, entrelaçaram essa história imaginária e ao mesmo tempo reflexiva de três formas distintas. A palavra “A terceira margem”, ocupa o lugar da transcendência por meio da qual o escritor rompe os limites entre o mundo cotidiano e metafísico.
Deixando claro a ideia abstrata de existência do filho e a inexistência do pai, querendo deixar o leitor com ambas as ideias em seus pensamentos, relatando em silencio a característica do isolamento pai e do pensar do filho.
Na canção é possível observar o uso da metalinguagem a partir dos elementos descritos na prosa que nos fazem evidenciar as relações entre literatura, música e filosofia.
A ideia do espelho nas canoas deixa claro que para o filho, o pai ainda existe nem que seja apenas no imaginário.
Outro aspecto imperceptível e constante entre as obras é o silêncio e a impossibilidade que está presente principalmente no livro de Marilá Dardote.

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