companhia das letras

Análise: Sagarana, de Guimarães Rosa

terça-feira, 10 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta


O livro que marcou a estreia de Guimarães Rosa na literatura brasileira

ISBN-139788526024649
ISBN-10: 8526024647
Ano: 2019 / Páginas: 344
Idioma: português
Editora: Global

Sagarana traz cenários e personagens típicos do interior do país, mais especificamente do sertão de Minas Gerais. Morros, riachos, jagunços, vaqueiros, bois e cavalos povoam as páginas das estórias magistralmente construídas por Guimarães Rosa, cuja habilidade para criar enredos e protagonistas diversos e repletos de detalhes encanta leitores até hoje e permanece influenciando gerações e gerações de escritores.

A linguagem inventiva de Sagarana é outro aspecto que distinguiria para sempre o autor no campo da literatura brasileira. Ao mesmo tempo em que incorpora fragmentos essenciais da oralidade sertaneja, pescando regionalismos e recuperando antigas expressões de linguagem do sertão, Rosa inova com a criação de neologismos cuidadosamente lapidados.

Dentre os nove contos que fazem parte do livro, destacam-se os célebres A hora e vez de Augusto Matraga, Conversa de bois e O burrinho pedrês. Em que pese as narrativas terem como espaço o ambiente sertanejo, o leitor perceberá que os dilemas apresentados por suas personagens ultrapassam naturalmente a dimensão local, refletindo dramas e vivências que se mostram universais.

Esta edição traz um texto de apresentação de autoria de Walnice Nogueira Galvão, professora emérita de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP) e grande especialista na obra rosiana. A capa foi concebida pelos designers gráficos Victor Burton e Anderson Junqueira e traz uma foto de autoria de Araquém Alcântara, um dos maiores fotógrafos de natureza do Brasil, tirada em 2012 no município de Jaíba, Minas Gerais.

Contos / Ficção / Literatura Brasileira


Enredo
Sagarana: O Burrinho Pedrês

O conto de “O burrinho Pedrês” como nas demais narrativas de Guimarães Rosa é relativamente simples. Tudo se baseia no burrinho chamado “Sete-de-ouros” que por falta de montaria tem a tarefa de levar uma boiada vendida pelo Major Saulo (dono da fazenda). Durante a viagem ficasse sabendo que o Vaqueiro Silvino quer matar o Vaqueiro Badu por causa de uma moça, toda a intenção de briga foi denunciada pelo ajudante de ordens Francolim mais mesmo assim nada foi feito. Silvino tenta provocar um acidente no intuito de fazer os bois atropelarem Badu, que no final não acabou dando certo, sendo assim deixando Silvino irritado e tramando sua morte depois da travessia do ribeirão que estava cheio pelas chuvas na viagem de volta. No retorno Badu está bêbado por isso foi deixado com o burrinho Sete-de-ouros. Ao atravessarem o ribeirão morrem na enchente oito vaqueiros, inclusive Silvino. Badu é salvado pelo burro Sete-de-Ouros que consegue chegar à outra margem para o descanso merecido.

Personagens

1. Sete-de-Ouros: animal miúdo e resignado, idoso, muito idoso, beiço inferior caído. Outros nomes que tivera ao longo de anos e amos: Brinquinho, Rolete, Chico-Chato e Capricho.
2. Major Saulo: corpulento, quase obeso, olhos verdes. Só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo. Estava sempre rindo: riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; riso mudo, de normal. Não sabia ler nem escrever, mas cada ano ia ganhando mais dinheiro, comprando mais gado e terras.
3. João Manico: vaqueiro pequeno que montou o burrinho Sete-de-Ouros na ida. Na volta, trocou de montaria. Na hora de entrar na água, refugou, alegando resfriado, e escapou da morte.
4. Francolim: espécie de secretário do Major Saulo, encarregado de pôr ordem nos vaqueiros. Obedece cegamente às ordens do Major. Foi salvo, na noite da enchente, pelo burrinho Sete-de-Ouros.
5. Raymundão: vaqueiro de confiança do Major Saulo. Enquanto tocam a boiada, vai contando a história do zebu Calundu.
6. Zé Grande: vai à frente da boiada, tocando o berrante.
7. Silvino: vaqueiro; perdeu a namorada para Badu e planejava matar o rival na volta, depois de deixarem a boiada no arraial.

Tempo

O tempo da narrativa é físico (ou cronológico), a história acontece no decorrer de um dia, conforme foi narrado no próprio conto:

“E a existência de Sete-de-Ouros cresceu toda em algumas horas – seis da manhã à meia-noite – nos meados do mês de janeiro de um ano de grandes chuvas [...]”

Espaço

A narrativa acontece num ambiente físico, representado pelo vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais. O ápice da história ocorre na travessia do córrego da Fome.

Foco narrativo

O conto do burrinho pedrês é contando em terceira pessoa. Por se tratar de um conto, o propósito do autor é contar uma história baseada naqueles personagens.

Estilo

Em “O Burrinho pedrês” o autor abusa de descrições, figura de linguagem da região, uma linguagem culta com palavras não usadas no dia a dia.

Verossimilhança

No conto há diversas partes verossímeis, como por exemplo, o próprio ambiente e as situações em que o “burrinho” passa. Situações com o vaqueiro Badu e o Silvino por certa moça e há um desejo de vingança por parte de Silvino.

Movimento Literário

Modernismo-Terceira Fase.
Com a transformação do cenário sócio-político do Brasil, a literatura também se transformou. O fim da Era Vargas, a ascensão e queda do Populismo, a Ditadura Militar, e o contexto da Guerra Fria, foram, portanto, de grande influência na Terceira Fase.

Na prosa, tanto no romance quanto no conto, houve a busca de uma literatura intimista, de sondagem psicológica e introspectiva, tendo como destaque Clarice Lispector. O regionalismo, ao mesmo tempo, ganha uma nova dimensão com a recriação dos costumes e da fala sertaneja com Guimarães Rosa, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil central. A pesquisa da linguagem foi um traço característico dos autores citados, sendo eles chamados de instrumentalistas.

A geração de 1945 surge com poetas opositores das conquistas e inovações modernistas de 1922. A nova proposta, inicialmente, é defendida pela revista Orfeu em 1947. Negando a liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras características modernistas, os poetas de 1945 buscaram uma poesia mais “equilibrada e séria”, tendo como modelos os Parnasianos e Simbolistas. No fim dos anos 40, surge um poeta singular, não estando filiado esteticamente a nenhuma tendência: João Cabral de Melo Neto.

Conclusão

A obra de Guimarães Rosa apresenta um regionalismo de novo significado: a fusão entre o real e o mágico, de forma a radicalizar os processos mentais e verbais inerentes ao contexto fornecedor de matéria-prima, traz à tona o caráter universal. O folclórico, o pitoresco e o documental cedem lugar a uma maneira nova de repensar as dimensões da cultura, flagrada em suas articulações no mundo da linguagem.

Entre as experiências vividas pelo autor estão as viagens pelo sertão brasileiro, principalmente o mineiro, acompanhadas pelos famosos caderninhos de anotações. Neles, Guimarães Rosa registrava palavras e expressões do povo brasileiro que, mais tarde, transformaria em metáforas poéticas. Voltada para as forças virtuais da linguagem, a escritura de Guimarães Rosa procede abolindo intencionalmente as barreiras entre narrativa e lírica, revitalizando recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações, onomatopéias, rimas internas, elipses, cortes e deslocamentos sintáticos, vocabulário insólito, com arcaísmos e neologismos, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos.
Imerso na musicalidade da fala sertaneja, o autor procurou fixá-la na melopéia de um fraseio no qual soam cadências populares e medievais.
O trabalho com o mito poético é outra característica da obra de Guimarães.

Postagem mais recente
Next Story Postagem mais antiga Página inicial
siga-nos no Instagram: @postliteral
Leia[+]
© all rights reserved
made with by templateszoo