Resenha: Pense de novo: o poder de saber o que você não sabe, Adam Grant



Adam Grant constrói em Pense de novo uma obra que parte de uma premissa simultaneamente simples e desconfortável: pensar bem não significa apenas formular ideias, acumular informações ou defender argumentos com competência, mas também desenvolver a disposição de questionar aquilo que já julgamos saber. Publicado originalmente em 2021 e traduzido no Brasil por Carolina Simmer, o livro se organiza em quatro grandes movimentos — repensamento individual, interpessoal e coletivo, seguidos de uma conclusão voltada para decisões de vida e carreira —, transformando uma questão psicológica em um problema intelectual, profissional e social. A imagem inaugural dos bombeiros de Mann Gulch estabelece com eficiência a metáfora que sustentará praticamente todo o argumento: diante de uma realidade que muda, conhecimentos que antes eram úteis podem converter-se em obstáculos. Wagner Dodge sobrevive ao incêndio porque consegue abandonar respostas automáticas e formular uma alternativa que parece absurda para os demais; seus companheiros, ao contrário, permanecem presos às ferramentas, procedimentos e expectativas que haviam aprendido como indispensáveis. Grant transforma essa tragédia em uma parábola sobre a rigidez cognitiva, mas o mérito do episódio está em não reduzi-lo a uma simples lição motivacional. O autor mostra que nossas convicções não são apenas ideias abstratas: muitas vezes elas se incorporam à identidade. É por isso que abandonar uma crença pode parecer uma espécie de fracasso pessoal. No caso dos bombeiros, abandonar as ferramentas significava, simbolicamente, perguntar quem seriam eles sem aquilo que definia seu trabalho. A mesma estrutura aparece em situações menos dramáticas: profissionais que continuam utilizando métodos ultrapassados, empresas que insistem em produtos decadentes, indivíduos que preservam opiniões formadas décadas antes e pessoas que confundem coerência com virtude. A crítica de Grant é especialmente pertinente porque desmonta uma valorização contemporânea da certeza. Em uma cultura que frequentemente recompensa quem fala com segurança, o autor reivindica o valor intelectual da dúvida. O problema, contudo, é que sua tese não pretende transformar a dúvida em princípio absoluto. O próprio Grant reconhece que há situações em que pregar, argumentar ou fazer política são atitudes legítimas; o que ele propõe é que saibamos distinguir esses modos de pensamento do chamado “modo cientista”, no qual hipóteses permanecem abertas à revisão. Essa distinção é uma das ideias mais fortes do livro porque impede que a abertura mental seja confundida com relativismo. Repensar não significa considerar todas as opiniões igualmente válidas, nem abandonar critérios de evidência para manter uma espécie de neutralidade permanente. Significa, antes, submeter nossas próprias convicções ao mesmo escrutínio que aplicamos às convicções alheias. Grant acerta ao deslocar a inteligência de seu lugar tradicional de prestígio: saber muito pode ser insuficiente quando o conhecimento acumulado impede a atualização. A história do BlackBerry ilustra esse paradoxo com particular clareza. Mike Lazaridis possuía enorme capacidade técnica e havia criado um produto revolucionário, mas a mesma confiança que sustentara seu sucesso tornou-se um obstáculo quando o mercado mudou. O fracasso, portanto, não decorre simplesmente de ignorância, mas da incapacidade de reconhecer que uma competência passada pode perder sua utilidade diante de novas circunstâncias. Nesse sentido, Pense de novo é menos um livro sobre “pensar diferente” do que sobre aprender a desconfiar do próprio conforto intelectual.

“Preferimos o conforto da certeza ao desconforto da dúvida.” (p. 15).

A primeira parte do livro é também aquela em que Grant apresenta sua contribuição conceitual mais interessante: a descrição dos três modos mentais que frequentemente ocupam nosso raciocínio — pastor, advogado e político — em oposição ao cientista. O pastor protege aquilo que considera sagrado; o advogado procura encontrar falhas na posição adversária; o político busca aprovação e apoio. Nenhum desses papéis é necessariamente inútil, e Grant é cuidadoso ao não demonizá-los. O problema surge quando passamos a utilizá-los indistintamente, sobretudo quando nossas crenças são ameaçadas. O cientista, em contraste, não parte de uma conclusão que precisa ser preservada, mas de uma hipótese que pode ser confirmada, modificada ou descartada. É uma distinção aparentemente elementar, mas extremamente produtiva porque transforma o repensamento em comportamento observável. A humildade intelectual deixa de ser uma virtude vaga e passa a significar perguntar quais evidências poderiam demonstrar que estamos errados. O livro é particularmente persuasivo quando demonstra que inteligência e flexibilidade não são sinônimos. Grant recorre a pesquisas sobre raciocínio motivado para mostrar que pessoas cognitivamente habilidosas podem ser ainda mais eficientes na defesa das próprias posições, encontrando justificativas sofisticadas para aquilo que já desejam acreditar. Quanto mais competente é alguém em argumentar, portanto, maior pode ser sua capacidade de racionalizar um erro. Esse ponto dá profundidade à obra porque impede uma leitura superficial segundo a qual bastaria “ser inteligente” para pensar melhor. O que importa é a disposição de utilizar a inteligência contra nossas próprias certezas. O capítulo dedicado à confiança aprofunda essa questão ao explorar a chamada humildade confiante. Grant não recomenda insegurança permanente; ao contrário, mostra que confiança e dúvida podem coexistir. A dúvida sobre as próprias capacidades pode estimular busca por informação, colaboração e aprendizado, desde que não se transforme em paralisia. O caso de Halla Tómasdóttir, apresentado como exemplo de alguém que converteu a síndrome do impostor em estímulo para aprender e experimentar, sintetiza essa ideia. A crítica que se pode fazer aqui é que Grant às vezes aproxima fenômenos psicológicos distintos com uma fluidez narrativa que torna sua argumentação mais elegante do que rigorosamente delimitada. O leitor recebe uma sucessão impressionante de pesquisas, histórias e exemplos, mas nem sempre é convidado a examinar profundamente as limitações metodológicas de cada estudo. O autor não escreve um tratado acadêmico, e isso explica parte dessa escolha; ainda assim, quando a obra utiliza a autoridade da pesquisa científica para sustentar recomendações comportamentais, seria desejável uma diferenciação mais rigorosa entre evidência experimental, correlação e relato ilustrativo. A própria organização bibliográfica demonstra a amplitude das fontes consultadas, mas a experiência de leitura é conduzida prioritariamente pela narrativa, não pela discussão metodológica. Essa é simultaneamente uma virtude e uma limitação. Para o leitor geral, a acessibilidade torna conceitos psicológicos complexos compreensíveis; para um leitor acadêmico, porém, a facilidade narrativa pode produzir a impressão de que fenômenos humanos altamente complexos são mais facilmente generalizáveis do que realmente são. Ainda assim, Grant compensa parcialmente esse risco ao insistir que repensar não é uma operação instantânea, mas um hábito. A transformação proposta pelo livro é menos uma mudança pontual de opinião e mais uma alteração da relação que estabelecemos com nossas próprias opiniões. Nesse aspecto, sua crítica ao excesso de confiança é mais sofisticada do que parece: ele não pede que deixemos de acreditar em alguma coisa, mas que deixemos de confundir a intensidade da nossa crença com a qualidade da evidência que a sustenta.

“Se conhecimento é poder, saber o que não sabemos é sabedoria.” (p. 35).

O segundo grande movimento de Pense de novo desloca o problema do indivíduo para suas relações com outras pessoas. É nesse ponto que a obra se torna especialmente relevante para a vida pública, porque Grant percebe que mudar de opinião é difícil não apenas porque somos apegados às nossas ideias, mas porque frequentemente transformamos conversas em disputas identitárias. O capítulo sobre conflito construtivo propõe uma distinção essencial entre conflito de tarefa e conflito pessoal: discordar sobre uma ideia pode ampliar a qualidade de uma decisão, enquanto transformar a discordância em ataque à pessoa destrói as condições para o aprendizado. Grant utiliza exemplos de equipes criativas, debates e relações profissionais para defender aquilo que chama de “clube da luta positivo”, uma espécie de ambiente no qual críticas fortes são permitidas desde que tenham como finalidade melhorar o trabalho. A proposta é valiosa porque confronta uma tendência contemporânea de interpretar qualquer discordância como hostilidade. Entretanto, também exige maturidade que nem sempre pode ser criada simplesmente por uma técnica de comunicação. Relações atravessadas por desigualdade de poder, preconceitos ou insegurança não funcionam como debates entre interlocutores simétricos. O próprio livro reconhece posteriormente que o poder influencia quem fala, quem é ouvido e quais crenças permanecem sem questionamento. Essa percepção torna a discussão sobre persuasão mais complexa. Grant argumenta que tentar vencer um debate diretamente pode ser menos eficaz do que ajudar o interlocutor a formular suas próprias razões para mudar. A ideia de autopersuasão é coerente com o projeto geral da obra: pessoas tendem a resistir quando sentem que estão sendo obrigadas a abandonar uma posição, mas podem reconsiderá-la quando percebem internamente suas inconsistências. O exemplo das vacinas é particularmente importante porque mostra o limite de uma estratégia baseada apenas na apresentação de fatos. Grant descreve situações nas quais mensagens destinadas a corrigir informações falsas produziram o efeito contrário, fortalecendo a resistência de pessoas que já desconfiavam das vacinas. O argumento não é que evidências sejam irrelevantes, mas que a maneira como são apresentadas pode ativar mecanismos defensivos. Aqui o livro toca em uma questão fundamental da comunicação contemporânea: informação não circula em uma mente neutra. Ela encontra identidades, emoções, experiências e comunidades de pertencimento. A persuasão mais eficaz, segundo Grant, passa por perguntas, escuta e construção de autonomia, não simplesmente por uma avalanche de argumentos. Essa parte é forte porque desloca a crítica da pessoa “irracional” para o próprio processo de comunicação. Entretanto, novamente há um limite. A ênfase na escuta e na conversa pode soar excessivamente otimista quando aplicada a situações em que o interlocutor não está interessado em compreender, mas em manipular, provocar ou preservar deliberadamente uma posição. O modelo funciona melhor em ambientes onde existe alguma disposição para diálogo. Ainda assim, a principal contribuição permanece válida: se queremos mudar a mente de alguém, precisamos compreender que uma conversa não é uma competição cujo objetivo é produzir um derrotado. A persuasão que humilha tende a produzir resistência; a persuasão que permite que o indivíduo preserve sua autonomia pode abrir espaço para revisão. Essa percepção também ajuda a explicar por que o livro rejeita a ideia de que simplesmente expor alguém a “o outro lado” resolve a polarização. O laboratório de conversas difíceis descrito por Grant mostra que a forma de enquadrar uma questão pode alterar profundamente a possibilidade de consenso. Em um experimento citado pelo autor, quando uma questão era apresentada como complexa e composta por múltiplas perspectivas, todas as duplas participantes conseguiram produzir uma declaração conjunta, contra 46% das que receberam uma versão neutra tradicional. O dado é revelador porque sugere que a nuance não é um luxo intelectual: pode ser uma ferramenta concreta de despolarização.

A terceira parte amplia ainda mais a escala da argumentação e pergunta como produzir culturas nas quais repensar deixe de ser uma virtude individual para se tornar uma prática coletiva. É aqui que Pense de novo ultrapassa definitivamente o gênero do livro de autoajuda empresarial e se aproxima de uma reflexão sobre educação, instituições e cultura organizacional. No capítulo dedicado à escola, Grant defende que ensinar não deveria significar apenas transferir respostas, mas formar pessoas capazes de questionar as próprias fontes de conhecimento. O exemplo da professora Erin McCarthy é particularmente significativo: ao utilizar deliberadamente um livro didático antigo e incorreto, ela cria uma situação em que os alunos precisam perceber que livros não são autoridades infalíveis e que narrativas históricas podem ser revistas. Essa concepção é especialmente importante para a educação histórica, pois reconhece que conhecimento histórico é produzido por seleção, interpretação, evidência e revisão. Ao perguntar quais narrativas foram incluídas e quais foram excluídas, a atividade descrita por Grant aproxima a sala de aula do trabalho efetivo do historiador. O mérito do autor está em apresentar o questionamento não como rebeldia contra o conhecimento, mas como uma das condições de sua construção. “Bons professores introduzem novos pensamentos, mas ótimos professores mostram novas formas de pensar”, afirma Grant ao discutir a educação. Essa formulação sintetiza uma das melhores ideias do livro. A escola que simplesmente exige respostas pode produzir estudantes capazes de reproduzir informações; a escola que ensina a revisar hipóteses produz aprendizes mais preparados para situações nas quais as respostas ainda não existem. O mesmo princípio aparece na discussão sobre organizações. O episódio do astronauta Luca Parmitano, que percebe água acumulando-se dentro de seu capacete durante uma caminhada espacial, serve para mostrar a importância de culturas capazes de interromper procedimentos quando surgem sinais inesperados. Em ambientes de alto risco, o problema não é apenas possuir protocolos, mas possuir autorização cultural para dizer que um protocolo talvez não seja adequado à situação presente. Grant relaciona isso ao conceito de segurança psicológica e à necessidade de criar grupos desafiadores, nos quais ideias possam ser criticadas antes que seus erros se tornem desastres. O argumento é particularmente forte quando o autor observa que algumas organizações formalizam o conflito produtivo por meio de equipes encarregadas de testar planos, enquanto a própria revisão por pares da ciência funciona como mecanismo institucional de contestação. Contudo, essa parte também evidencia uma limitação estrutural do projeto de Grant: o livro frequentemente transforma boas práticas institucionais em recomendações relativamente acessíveis, mas não explora com a mesma profundidade os obstáculos políticos que impedem sua implementação. Não basta dizer aos funcionários que devem discordar se a cultura da organização pune quem discorda. Não basta recomendar abertura intelectual se a hierarquia determina quem pode falar. A mudança cultural exige alterações de incentivos, distribuição de poder e mecanismos de responsabilização. Grant percebe o problema, mas sua abordagem permanece predominantemente psicológica. Mesmo assim, seu diagnóstico é poderoso: instituições que aprendem são aquelas capazes de admitir que seus próprios procedimentos podem estar errados. A organização saudável não é a que nunca falha, mas aquela que transforma falhas em informação. A educação saudável não é a que transmite um conjunto definitivo de respostas, mas aquela que prepara indivíduos para continuar perguntando depois que a aula termina. O valor dessa perspectiva está em compreender o conhecimento como processo, e não como estoque.

No último movimento, Grant leva a lógica do repensamento para a esfera mais íntima das escolhas de vida. Carreira, felicidade, propósito, relacionamentos e identidade aparecem como sistemas abertos, sujeitos a mudanças que tornam perigoso o apego excessivo a planos antigos. O autor recomenda, de maneira provocadora, abandonar a ideia de que precisamos estabelecer uma trajetória definitiva para os próximos dez anos e propõe pensar em passos suficientemente próximos para permitir revisão. Essa proposta é uma consequência coerente do argumento desenvolvido desde o caso BlackBerry: assim como uma empresa pode fracassar quando confunde seu produto atual com sua identidade, uma pessoa pode permanecer presa a uma versão antiga de si mesma. Grant também questiona a noção popular de que devemos “encontrar nossa paixão” como se cada indivíduo tivesse uma vocação predeterminada escondida em algum lugar. Em vez disso, apresenta evidências e exemplos segundo os quais paixões podem ser desenvolvidas pelo aprendizado, pelo esforço e pelo domínio progressivo de uma atividade. A ideia é libertadora porque reduz a pressão de descobrir uma única profissão capaz de produzir felicidade permanente. Mais importante, Grant desloca a felicidade de um objetivo isolado para um possível efeito colateral de aprendizado, contribuição e propósito. O exemplo da estudante que decide permanecer na universidade de que não gostava, mas modifica a maneira como investe seu tempo e cria uma pequena comunidade ao seu redor, é representativo: em vez de esperar que o ambiente mude para então sentir-se bem, ela modifica suas ações dentro daquele ambiente. O argumento não deve, contudo, ser interpretado como uma defesa da permanência em situações ruins. O próprio autor faz questão de afirmar que não recomendaria permanecer em um emprego, relacionamento ou lugar detestado quando existe alternativa. Sua questão é outra: antes de mudar todo o cenário, talvez seja necessário perguntar se estamos reproduzindo os mesmos padrões dentro de cenários diferentes. É nesse ponto que a obra se aproxima de uma crítica ao consumismo psicológico da reinvenção permanente. Trocar de cidade, emprego ou relacionamento pode ser uma mudança legítima, mas não necessariamente altera os hábitos cognitivos que produziram a insatisfação original. Grant é mais convincente quando apresenta essa questão como hipótese do que quando parece transformá-la em princípio geral. A vida humana possui fatores sociais, econômicos e estruturais que não podem ser reduzidos à flexibilidade mental. Ainda assim, a recomendação de realizar periodicamente um “check-up de vida” possui grande valor prático: revisar objetivos, crenças e compromissos antes que o custo de abandoná-los se torne insuportável. O livro termina, portanto, retornando à sua metáfora inicial. Assim como o bombeiro precisa reconhecer quando suas ferramentas deixaram de ser úteis, o indivíduo precisa reconhecer quando determinadas ideias, metas ou identidades já não correspondem à realidade. A grande contribuição de Grant está justamente nessa mudança de perspectiva: abandonar uma crença não precisa significar fracasso; pode significar aprendizado. Essa conclusão também revela o aspecto mais humanista do livro. Repensar não é apenas melhorar decisões ou aumentar produtividade. É diminuir arrependimentos, ampliar a capacidade de aprender com outras pessoas e preservar a possibilidade de mudar sem interpretar a mudança como traição de si mesmo.

Como obra de divulgação psicológica, Pense de novo é particularmente bem-sucedido na combinação entre pesquisa, narrativa e aplicabilidade. Grant escreve com clareza, utiliza histórias concretas para apresentar conceitos abstratos e mantém uma estrutura progressiva que acompanha a expansão do problema: primeiro o indivíduo, depois suas relações, em seguida as instituições e finalmente a própria trajetória de vida. O sumário já evidencia essa arquitetura, organizada em repensamento individual, interpessoal e coletivo, até chegar às decisões de carreira e vida. Essa construção é uma de suas maiores virtudes porque impede que o repensamento seja tratado como mero exercício de desenvolvimento pessoal. Ao mesmo tempo, a estratégia narrativa é também sua principal fragilidade. Grant utiliza muitos exemplos — empresários, cientistas, políticos, professores, astronautas, estudantes e profissionais — e frequentemente os conecta a resultados de pesquisas, o que produz uma leitura dinâmica, mas pode gerar certa sensação de repetição. O conceito central é tão abrangente que, depois de demonstrado em diversos contextos, algumas histórias passam a funcionar mais como variações de uma tese já estabelecida do que como novas descobertas. Há também uma tensão entre a promessa de pensamento científico e a própria forma de divulgação adotada pelo autor: o livro defende a necessidade de reconhecer incertezas, mas por vezes apresenta resultados de pesquisas em uma sequência que privilegia a força retórica da conclusão em detrimento da discussão detalhada de seus limites. Essa crítica não invalida sua proposta; ao contrário, torna a leitura mais interessante quando o próprio leitor aplica ao livro o método que ele recomenda. É possível aceitar a tese geral de Grant e, simultaneamente, questionar algumas de suas extrapolações. Talvez essa seja justamente a maneira mais adequada de ler Pense de novo. Não como um manual cujas recomendações devem ser adotadas integralmente, mas como um convite para testar suas próprias recomendações contra a experiência e contra novas evidências. O livro também ganha força quando reconhece que a flexibilidade não significa ausência de convicções. O modo cientista não elimina valores, posições ou compromissos; ele exige que essas posições permaneçam suscetíveis à revisão quando novas evidências justificarem isso. Nesse sentido, a obra tem uma dimensão ética que vai além da psicologia cognitiva. Em uma época marcada por polarização, algoritmos que reforçam certezas e disputas nas quais mudar de opinião é frequentemente interpretado como derrota, Grant reivindica uma forma diferente de força intelectual: a capacidade de dizer “posso estar errado” sem sentir que a própria identidade entrou em colapso. Sua proposta mais profunda, portanto, não é ensinar o leitor a duvidar de tudo, mas a construir uma identidade suficientemente segura para suportar a dúvida. Isso explica por que a ideia de flexibilidade aparece no final como alternativa à consistência rígida: nossa identidade não precisa estar ancorada na obrigação de permanecer iguais a nós mesmos. Pense de novo é, assim, uma obra mais relevante pelo problema que formula do que pela originalidade absoluta de cada uma de suas respostas. Humildade intelectual, pensamento crítico, revisão de crenças, escuta ativa e aprendizagem contínua são ideias presentes em diferentes tradições filosóficas, científicas e educacionais. A originalidade de Grant está em reuni-las em uma estrutura narrativa acessível e mostrar como elas se relacionam com fenômenos contemporâneos tão distintos quanto fracassos empresariais, polarização política, educação, comunicação, carreira e felicidade. Seu maior mérito é fazer o leitor perceber que o pensamento crítico precisa voltar-se também para o próprio pensador. Seu maior limite é, justamente, acreditar algumas vezes que uma disposição individual de repensar pode produzir mudanças que dependem igualmente de estruturas sociais e institucionais. Ainda assim, essa tensão não diminui o valor da obra; pelo contrário, oferece uma oportunidade para que o leitor a repense. Ao final, a pergunta mais importante deixada por Grant não é se estamos certos ou errados, mas se continuamos dispostos a descobrir. É nesse sentido que Pense de novo consegue realizar aquilo que promete: não necessariamente mudar a opinião do leitor sobre todas as coisas, mas alterar sua relação com a própria certeza.

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