TOLEDO, Caio Navarro de. O Governo Goulart e o Golpe de 64. São Paulo: Brasiliense, 1982. 1. ed. Coleção Tudo é História, v. 48. ISBN 85-11-02048-9. A obra integra a produção historiográfica dedicada à crise política brasileira de 1961 a 1964 e à análise das condições que conduziram ao golpe político-militar de 1964.
O Governo Goulart e o Golpe de 64, de Caio Navarro de Toledo, é uma obra de interpretação histórica que procura reconstruir um dos períodos mais decisivos da história política brasileira contemporânea: os anos compreendidos entre a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, e a deposição de João Goulart, em abril de 1964. Publicado originalmente em 1982, o livro pertence à Coleção Tudo é História, da Editora Brasiliense, e foi concebido em um momento em que a própria memória do golpe ainda estava profundamente atravessada pelas disputas políticas e ideológicas da ditadura militar. O ponto de partida de Toledo é particularmente significativo porque ele se recusa a tratar 1964 como acontecimento repentino ou como resultado exclusivo das ações de João Goulart. Ao contrário, sua interpretação procura demonstrar que o golpe deve ser compreendido como o desfecho de uma crise política, econômica e social que se desenvolveu ao longo de vários anos. A primeira formulação do autor já estabelece essa perspectiva ao afirmar que o governo Goulart “nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado” (p. 3). A frase funciona como chave interpretativa para todo o livro. Em vez de apresentar o golpe como ruptura inesperada, Toledo constrói uma narrativa de longa tensão, na qual a possibilidade de ruptura institucional aparece desde a crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros. O episódio de agosto de 1961 é, portanto, mais do que uma introdução cronológica: ele funciona como demonstração de que a democracia brasileira já apresentava fragilidades estruturais antes da queda de Goulart. A tentativa de impedir sua posse, apoiada por setores militares e conservadores, foi contida pela mobilização de políticos, militares nacionalistas e setores populares em defesa da legalidade. O autor interpreta esse episódio como um primeiro ensaio da dinâmica que voltaria a aparecer em 1964: de um lado, forças que aceitavam utilizar mecanismos extraconstitucionais para impedir a ascensão ou permanência de determinados grupos no poder; de outro, setores sociais que buscavam preservar a ordem constitucional. Essa leitura permite compreender o título do livro em seu sentido mais amplo. O objeto não é apenas “o governo Goulart”, tampouco somente “o golpe de 64”, mas a relação histórica entre ambos. O governo é apresentado como espaço de condensação de conflitos que envolviam trabalhadores urbanos, camponeses, estudantes, empresários, militares, partidos políticos, imprensa, organizações nacionalistas, grupos de esquerda e setores conservadores. O período 1961-1964, segundo Toledo, caracterizou-se pela crise econômico-financeira, pela instabilidade político-institucional, pelo crescimento das mobilizações populares, pelo fortalecimento do movimento operário e rural, pela crise partidária e pelo acirramento da luta ideológica. O mérito da construção narrativa está justamente em não separar esses fatores. A economia não aparece como pano de fundo independente da política; as greves não são tratadas como acontecimentos isolados; as Reformas de Base não são apresentadas apenas como propostas administrativas; e o anticomunismo não é reduzido a uma simples opinião ideológica. Todos esses elementos são articulados em uma interpretação na qual diferentes grupos sociais disputam o sentido e o controle do Estado. A linguagem do autor é claramente marcada por uma perspectiva marxista de análise social, o que fica evidente tanto na utilização de conceitos como “classes dominantes”, “classes populares”, “burguesia”, “capitalismo”, “imperialismo” e “Estado burguês” quanto na interpretação das relações políticas a partir de interesses de classe. Essa característica não constitui um defeito em si mesma; ao contrário, é essencial para compreender o projeto intelectual da obra. Toledo não pretende construir uma narrativa supostamente neutra, mas oferecer uma interpretação histórica fundamentada em uma determinada concepção das relações entre estrutura econômica, conflito social e poder político. O próprio autor reconhece que as interpretações sobre o período Goulart permaneciam conflitantes e observa que a direita havia utilizado categorias como “subversão”, “corrupção”, “crise de autoridade” e “desordem” para justificar posteriormente a implantação do regime autoritário. A obra procura, portanto, deslocar o foco explicativo: em vez de perguntar simplesmente por que Goulart teria fracassado, pergunta quais forças sociais e políticas estavam em disputa, quais interesses estavam em jogo e por que determinados setores optaram pela ruptura institucional. Essa mudança de perspectiva constitui uma das principais contribuições do livro.
“O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado.”
( p. 3.)
A reconstrução do período parlamentarista constitui uma das partes mais importantes do argumento porque demonstra que o governo Goulart não começou propriamente com o exercício pleno da Presidência. Após a crise de 1961, o Congresso aprovou uma emenda constitucional que instituiu o parlamentarismo como solução de compromisso. Para Toledo, essa solução não deve ser entendida simplesmente como mecanismo institucional destinado a evitar uma guerra civil. Ela representava também uma forma de restringir os poderes de Goulart e, consequentemente, reduzir a capacidade do Executivo de implementar determinadas políticas. O autor chama essa alternativa de “golpe branco” porque, embora preservasse formalmente a legalidade, modificava substancialmente o funcionamento do regime constitucional. A análise é particularmente interessante porque revela uma característica recorrente da história política brasileira: a utilização de mecanismos institucionais para solucionar crises que, na realidade, expressavam conflitos sociais mais profundos. O parlamentarismo aparece como uma tentativa de produzir estabilidade por meio da limitação do poder presidencial, mas rapidamente se mostra incapaz de resolver as contradições econômicas e políticas que haviam produzido a crise. Entre setembro de 1961 e janeiro de 1963, sucedem-se três Conselhos de Ministros, enquanto a situação econômica se deteriora e as tensões políticas se ampliam. Toledo demonstra que a crise econômica não pode ser separada da crise política. O país carregava problemas decorrentes do modelo desenvolvimentista anterior, entre eles endividamento externo, inflação, desequilíbrios entre agricultura e indústria e dificuldades de abastecimento. Ao mesmo tempo, a expansão da urbanização e das demandas trabalhistas aumentava a pressão social sobre o Estado. Essa convergência de fatores cria o ambiente no qual as Reformas de Base passam a ocupar posição central no debate público. O autor procura demonstrar que Goulart não era, originalmente, um revolucionário interessado na destruição do capitalismo brasileiro. Em uma passagem significativa, recupera declarações do próprio presidente nas quais ele defendia um capitalismo que qualificava como “humanizado” e “patriótico” (p. 6). Essa observação é essencial para o argumento de Toledo, pois procura desconstruir a imagem de Goulart como agente de uma iminente revolução comunista. O presidente era um político identificado com o trabalhismo e com o nacional-reformismo, mas não defendia a abolição do sistema capitalista. Sua estratégia consistia em realizar reformas dentro da ordem existente. É justamente essa característica que torna a reação conservadora, na leitura do autor, historicamente reveladora. Se as Reformas de Base eram apresentadas como ameaça revolucionária, seria necessário investigar por que mudanças compatíveis, em sua interpretação, com a modernização do capitalismo brasileiro provocavam tamanha resistência. A Reforma Agrária ocupa posição privilegiada nessa análise. Toledo observa que a proposta buscava responder simultaneamente às necessidades de expansão do capitalismo industrial e à preservação da própria ordem burguesa. Assim, uma das teses fundamentais do livro é que o conflito não pode ser explicado pela oposição simplista entre capitalismo e socialismo. O conflito central estava relacionado à forma de desenvolvimento do capitalismo brasileiro, à distribuição da propriedade, à participação dos trabalhadores na política e ao grau de autonomia que as classes populares poderiam conquistar dentro do sistema. A rejeição às reformas, nessa perspectiva, não significava apenas rejeição a uma determinada política de governo. Significava também a defesa de determinadas estruturas de propriedade e de poder. O retorno ao presidencialismo, em janeiro de 1963, não resolve essas contradições. Ao contrário, transfere para o governo Goulart uma responsabilidade ainda maior. O chamado “governo de trapézio” torna-se uma imagem adequada porque Toledo identifica uma tentativa constante de conciliação entre interesses antagônicos. O ministério reunia conservadores, trabalhistas, técnicos, nacionalistas e militares, enquanto o Plano Trienal de Celso Furtado procurava combinar combate à inflação e desenvolvimento econômico. O fracasso desse projeto revela uma das fragilidades estruturais do governo: sua dificuldade em construir uma base política capaz de sustentar simultaneamente as demandas populares e a confiança dos setores empresariais. O autor é particularmente crítico da política de conciliação de Goulart. Para ele, o governo procurava atender a interesses que se tornavam progressivamente incompatíveis. A política econômica, por exemplo, exigia contenção salarial enquanto os trabalhadores pressionavam pela recuperação de sua participação na renda nacional. O resultado foi um governo que, segundo a interpretação de Toledo, não conseguiu conquistar integralmente nenhum dos principais blocos sociais. As classes populares desconfiavam de suas concessões aos setores conservadores, enquanto as classes dominantes progressivamente abandonavam o apoio ao Executivo.
“A política deixava de ser privilégio do Parlamento e do Executivo e invadia as fábricas, as ruas, o campo e os quartéis.”
(Caio Navarro de Toledo, formulação-síntese associada à apresentação da obra.)
O aspecto mais interessante da segunda metade do livro é justamente a análise da politização da sociedade brasileira. Toledo demonstra que a crise de 1964 não pode ser compreendida apenas através das instituições formais. O país vivia uma expansão extraordinária da participação política. Trabalhadores organizavam greves, camponeses reivindicavam terra, estudantes mobilizavam-se por reformas universitárias, setores militares discutiam questões relacionadas à hierarquia e à participação política, enquanto organizações empresariais estruturavam uma forte campanha contra o governo. A sociedade brasileira encontrava-se politizada em níveis que ultrapassavam os espaços tradicionais da política institucional. O Comício da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, aparece como um dos pontos culminantes desse processo. Segundo Toledo, cerca de 200 mil pessoas participaram do ato, que contou com ministros, governadores, parlamentares, militares, sindicalistas e lideranças estudantis. O conteúdo dos discursos e das faixas revela a intensidade da polarização: slogans como “Reformas ou Revolução”, “Legalidade para o PCB” e “Defenderemos as Reformas à bala!” expressavam um ambiente político radicalizado. O próprio Goulart anunciou naquele momento medidas relacionadas à nacionalização de refinarias e à desapropriação de propriedades rurais, além de defender novas reformas. Para Toledo, o comício não deve ser interpretado isoladamente. Ele representa a culminância de uma transformação política na qual setores populares passaram a pressionar o Executivo para ultrapassar os limites tradicionais do pacto populista. Ao mesmo tempo, a direita também se organizava. O autor dedica atenção especial ao complexo IPES/IBAD, apresentado como instrumento de mobilização político-ideológica empresarial. A obra registra que o número de integrantes do IPES cresceu significativamente e que seus recursos provinham de empresários brasileiros e estrangeiros, banqueiros, proprietários rurais e empresas multinacionais. Essa análise é fundamental porque desloca a compreensão do golpe para além dos quartéis. A derrubada de Goulart, na interpretação de Toledo, não foi uma operação exclusivamente militar. Ela contou com a articulação de setores empresariais, grupos políticos conservadores, segmentos das classes médias, organismos de imprensa e apoio internacional. O autor chama atenção para a diferença entre a atuação do IPES e do IBAD, caracterizando o primeiro como organização voltada à produção e disseminação de ideias e o segundo como instrumento mais diretamente relacionado à ação política. Essa concepção do golpe como resultado de uma coalizão civil-militar é um dos pilares da obra. A participação norte-americana aparece como elemento adicional dessa articulação. Toledo analisa a atuação do governo dos Estados Unidos, a influência do embaixador Lincoln Gordon e o apoio concedido a governadores oposicionistas. O ponto mais contundente é a discussão da Operação Brother Sam, plano de apoio logístico e militar aos golpistas que previa o deslocamento de navios, aviões, armas e combustível para a costa brasileira. Ao mesmo tempo, o autor evita uma explicação mecanicista segundo a qual o golpe teria sido simplesmente “fabricado em Washington”. Essa ressalva é intelectualmente importante. Toledo afirma que a participação norte-americana foi relevante, mas insiste que os agentes internos foram decisivos na preparação e no desencadeamento do movimento. Essa posição impede que a intervenção externa seja utilizada como explicação totalizante. O golpe é apresentado como fenômeno brasileiro, ainda que inserido no contexto internacional da Guerra Fria e apoiado por interesses estrangeiros. Essa perspectiva é especialmente importante para compreender a historicidade da obra. Escrito antes do fim da ditadura militar e durante um período de intensa disputa pela interpretação de 1964, o livro também participa de uma batalha pela memória. A própria seleção das categorias e dos acontecimentos representa uma intervenção no debate historiográfico. Toledo pretende questionar tanto a versão conservadora que caracterizava o governo Goulart como ameaça revolucionária quanto interpretações que explicavam a queda do presidente exclusivamente por seus erros administrativos. A economia em crise, portanto, é reconhecida, mas não é apresentada como causa suficiente. A instabilidade política também é reconhecida, mas não explica sozinha a ruptura. A radicalização popular é reconhecida, mas o autor procura mostrar que ela foi acompanhada por uma contramobilização igualmente intensa da direita. O golpe surge, então, como resultado de uma convergência de fatores.
“A crescente radicalização política do movimento popular e dos trabalhadores [...] levou o conjunto das classes dominantes e setores das classes médias [...] a condenar o governo Goulart.”
( p. 58.)
A análise do fracasso das esquerdas constitui talvez a parte mais autocrítica da obra. Toledo não transforma a esquerda em protagonista idealizado de uma narrativa de resistência frustrada. Pelo contrário, dedica atenção às suas divisões internas, às avaliações equivocadas da correlação de forças e à excessiva confiança em determinadas estruturas políticas. O CGT, as Ligas Camponesas, os Grupos de Onze e o chamado “dispositivo militar” de Goulart são analisados de maneira crítica. O autor argumenta que a esquerda superestimou sua capacidade de mobilização e subestimou a força institucional e social dos adversários. O fracasso da greve geral de 31 de março de 1964 é utilizado como evidência dessa fragilidade. O CGT possuía forte presença política, mas não necessariamente correspondia a uma organização sindical profundamente enraizada em todas as bases operárias. A mesma crítica aparece em relação às Ligas Camponesas, cuja capacidade de resistência armada havia sido superestimada. A prisão de Miguel Arraes e a rápida neutralização das tentativas de resistência rural demonstraram a enorme desigualdade de forças existente no momento do golpe. Toledo é particularmente severo ao analisar a crença de setores da esquerda no chamado “legalismo das Forças Armadas”. A ideia de que existiria um dispositivo militar suficientemente forte para proteger Goulart é apresentada como erro de avaliação. A instituição militar, na interpretação do autor, possuía uma coesão conservadora que não poderia ser neutralizada pela existência de setores nacionalistas em seu interior. Essa análise contribui para afastar outra interpretação simplista do golpe: a de que a esquerda foi derrotada simplesmente porque não reagiu. Para Toledo, a derrota estava relacionada a um conjunto mais complexo de fatores: fragmentação ideológica, isolamento diante de parcelas significativas da população, radicalização predominantemente retórica e dependência política em relação ao reformismo de Goulart. A conclusão do livro retoma essas questões e apresenta sua tese de maneira direta. Entre 1961 e 1964, teria surgido no interior do Estado brasileiro um Executivo empenhado em realizar um programa amplo de reformas econômicas, sociais e políticas. Entretanto, essas reformas permaneceram, em grande medida, como consignas políticas porque não conseguiram superar a resistência do Congresso e as ambiguidades do próprio governo. É nesse ponto que o livro apresenta uma de suas interpretações mais fortes: as Reformas de Base não eram, na leitura de Toledo, um programa revolucionário destinado à superação do capitalismo. A Reforma Agrária, por exemplo, pretendia responder a problemas do desenvolvimento capitalista e preservar, ao mesmo tempo, a ordem burguesa. Dessa maneira, a reação das classes dominantes aparece como desproporcional em relação ao conteúdo efetivo das reformas. O problema estaria menos na ameaça imediata de uma revolução socialista e mais no risco de que trabalhadores e setores populares ampliassem sua participação política e alterassem a correlação de forças dentro do sistema. Essa é uma das ideias centrais que conferem unidade ao livro. O golpe não é apresentado simplesmente como reação a uma suposta revolução iminente, mas como tentativa de interromper um processo de crescente participação popular que ameaçava modificar os limites tradicionais da democracia brasileira. A conclusão também relativiza a ideia de um nacionalismo plenamente consolidado no governo Goulart. Toledo reconhece a existência de medidas nacionalistas e de aproximação com organizações populares, mas considera o nacionalismo do governo mais retórico do que efetivamente consequente e destaca a permanência de negociações com interesses estrangeiros. Essa avaliação revela novamente a perspectiva crítica do autor: nem Goulart nem a burguesia nacional são tratados como atores homogêneos. O governo possui contradições; a burguesia possui interesses variáveis; as esquerdas possuem divergências profundas; e os militares também apresentam correntes internas distintas. A história do golpe é construída justamente a partir dessas tensões. Ao final, porém, a correlação de forças se reorganiza em favor dos setores conservadores. A burguesia brasileira, diante da crise econômica e do crescimento das mobilizações populares, abandona progressivamente qualquer compromisso significativo com as reformas. A intervenção militar completa esse processo e estabelece uma nova ordem político-institucional. Toledo caracteriza esse resultado como “modernização-conservadora”: as estruturas capitalistas poderiam ser modernizadas, mas sem a participação política das classes trabalhadoras e populares que haviam pressionado por reformas.
“As reformas exigidas pelo capitalismo brasileiro seriam agora implementadas.”
( p. 58.)
Como obra historiográfica, O Governo Goulart e o Golpe de 64 possui uma qualidade particularmente relevante: sua interpretação é suficientemente estruturada para oferecer ao leitor uma explicação global do período, mas preserva a complexidade dos atores envolvidos. Toledo não constrói um enredo de heróis e vilões individuais. O verdadeiro objeto narrativo é a crise de um sistema político. João Goulart aparece como personagem central, mas não como causa única dos acontecimentos. Sua personalidade política, suas hesitações, sua estratégia de conciliação e sua relação com os setores populares são analisadas dentro de um campo de forças muito maior. O mesmo vale para os militares, para as organizações de esquerda, para o empresariado e para os Estados Unidos. Essa abordagem é particularmente eficaz porque impede que o golpe seja transformado em uma anedota sobre alguns indivíduos. Ao mesmo tempo, o livro apresenta uma limitação que precisa ser considerada em uma leitura acadêmica: sua matriz interpretativa é bastante definida. A utilização do vocabulário marxista e da análise de classes conduz a seleção dos problemas e a hierarquização das causas. Isso não invalida a pesquisa, mas exige do leitor uma leitura crítica, capaz de distinguir entre os acontecimentos documentados e a interpretação que o autor constrói a partir deles. A própria obra oferece instrumentos para esse exercício ao encerrar-se com indicações de leitura que incluem autores de diferentes perspectivas e trabalhos sobre economia, movimentos sociais, processos políticos e o golpe de 1964. O livro, portanto, não pretende ser uma cronologia neutra. É uma interpretação histórica situada, produzida em determinado contexto intelectual e político, e justamente por isso permanece relevante para o estudo da historiografia brasileira. Sua principal contribuição está em demonstrar que 1964 não pode ser compreendido fora da dinâmica política dos anos anteriores. A deposição de Goulart foi preparada por uma sucessão de crises, disputas, mobilizações e alianças. O autor evidencia que a democracia brasileira já vinha sendo pressionada por setores dispostos a ultrapassar seus limites constitucionais e que, paralelamente, os movimentos populares conquistavam uma presença política inédita. O conflito entre esses dois processos produziu uma polarização que atingiu as instituições, as ruas, os sindicatos, o campo, as universidades e os quartéis. O golpe foi, nessa perspectiva, a vitória de uma determinada solução para a crise: a solução autoritária, militarizada e conservadora. A força do livro está em fazer o leitor perceber que essa solução não era inevitável desde o início, mas tornou-se possível em razão da correlação de forças construída ao longo do período. A derrota das esquerdas também não é tratada como consequência natural de sua inferioridade, mas como resultado de erros estratégicos, fragmentação, ilusões políticas e incapacidade de avaliar corretamente a força dos adversários. Da mesma forma, a queda de Goulart não é explicada apenas pela incompetência administrativa. Toledo reconhece os problemas do governo, inclusive o fracasso do Plano Trienal e as dificuldades econômicas, mas os insere em um contexto no qual diferentes projetos de sociedade disputavam a direção do Estado. É precisamente essa articulação entre economia, política e conflito social que confere ao livro sua maior importância. Mais de seis décadas depois dos acontecimentos analisados, a obra conserva valor como interpretação histórica e como instrumento de reflexão sobre os limites e as possibilidades da democracia brasileira. Seu enredo histórico é construído de maneira linear e cumulativa: inicia-se com a crise de 1961, acompanha o parlamentarismo, passa pela recuperação dos poderes presidenciais, examina as Reformas de Base, descreve a crescente politização da sociedade, acompanha a organização da direita e das esquerdas e chega ao golpe de 1964. Essa arquitetura narrativa dá ao leitor a percepção de que o desfecho é resultado de uma longa acumulação de conflitos. O mérito de Toledo consiste justamente em transformar um acontecimento frequentemente apresentado como ruptura abrupta em processo histórico inteligível. O Governo Goulart e o Golpe de 64 é, assim, uma leitura fundamental para quem deseja compreender não apenas o que aconteceu em 1964, mas por que a democracia brasileira chegou àquele ponto. É uma obra de interpretação forte, intelectualmente comprometida e historicamente provocadora, cuja principal virtude é colocar o golpe dentro da história social e política do Brasil, em vez de tratá-lo como episódio isolado. Mesmo quando suas conclusões podem ser discutidas ou confrontadas com outras correntes historiográficas, o livro permanece valioso porque obriga o leitor a considerar a multiplicidade dos interesses envolvidos, a atuação organizada de diferentes grupos sociais e a relação entre crise econômica, mobilização popular e ruptura institucional. Como síntese histórica, apresenta densidade suficiente para o leitor acadêmico e clareza suficiente para o leitor não especializado. Como interpretação, oferece uma tese definida e coerente. Como documento de sua própria época, revela também a maneira pela qual a historiografia brasileira buscava reinterpretar 1964 ainda durante o processo de abertura política. É justamente essa combinação entre história do período e história da interpretação do período que torna a obra especialmente significativa.
Avaliação do enredo: ★★★★★ (5/5)
