A NÃO VIOLÊNCIA: UMA HISTÓRIA FORA DO MITO — ENTRE O IDEAL MORAL E A REALIDADE HISTÓRICA
LOSURDO, Domenico. A não violência: uma história fora do mito. Tradução de Carlo Alberto Dastoli. Rio de Janeiro: Revan, 2012. 320 p. Tradução de: La non-violenza: una storia fuori dal mito. ISBN 978-85-7106-426-3. 1. Gandhi, Mahatma, 1869-1948. 2. Não-violência — História. 3. Pacifismo — História. I. Título. CDD 303.6. CDU 316.485.26.
Domenico Losurdo constrói em A não violência: uma história fora do mito uma investigação histórica e política destinada a questionar uma das imagens mais consolidadas da cultura política contemporânea: a ideia de que a não violência constitui um princípio universal, coerente e historicamente homogêneo, capaz de ser aplicado indistintamente a diferentes sociedades, conflitos e momentos históricos. O propósito do autor não é simplesmente atacar a não violência enquanto ideal ético, tampouco negar a importância histórica de figuras como Gandhi ou Martin Luther King, mas investigar as contradições existentes entre os princípios declarados por determinados movimentos e as circunstâncias concretas nas quais esses princípios foram aplicados. Desde a introdução, a obra estabelece sua problemática a partir de uma observação histórica decisiva: o século XX foi marcado por guerras e revoluções que, embora empregassem formas extremas de violência, frequentemente justificavam essa violência como instrumento necessário para alcançar uma paz definitiva. Losurdo chama atenção para o fato de que a própria guerra pôde ser apresentada como mecanismo de purificação, regeneração ou libertação, como ocorreu na atmosfera intelectual que cercou a Primeira Guerra Mundial. A historicidade é, portanto, o elemento metodológico central do livro. Para Losurdo, não se pode avaliar a não violência abstraindo os conflitos concretos que determinaram sua formação. A experiência histórica modifica os conceitos, transforma os sujeitos e altera aquilo que uma sociedade considera moralmente aceitável. Por isso, o autor insiste na ideia de que os acontecimentos históricos deixam marcas irreversíveis: depois da experiência das trincheiras, por exemplo, a guerra já não poderia ser facilmente apresentada como uma experiência espiritual de amadurecimento coletivo. O mesmo raciocínio será aplicado à Revolução Russa, ao colonialismo, às guerras de independência, à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, à Segunda Guerra Mundial e às transformações geopolíticas posteriores. O livro não possui, nesse sentido, um “enredo” convencional, mas apresenta uma narrativa histórica argumentativa: parte dos antecedentes cristãos e abolicionistas do pacifismo norte-americano, acompanha sua crise diante da escravidão e da Guerra de Secessão, desloca-se para a formação do pensamento de Gandhi, confronta o gandhismo com Marx, Engels e Lenin, examina a relação entre não violência e resistência ao fascismo, alcança Martin Luther King e o radicalismo afro-americano, analisa a posterior santificação de Gandhi e King, passa pelo Tibete e pelo Dalai Lama, chega às chamadas “revoluções coloridas” e termina discutindo a possibilidade de uma não violência realista em um mundo submetido à ameaça nuclear. A própria estrutura do sumário confirma essa amplitude e mostra que Losurdo pretende escrever uma história política do conceito, e não uma biografia intelectual de Gandhi.
“As grandes experiências históricas, com frequência trágicas, não acontecem sem deixar rastros profundos e ensinamentos mais ou menos conhecidos.”
(Domenico Losurdo, A não violência, p. 21 da edição digital.)
A primeira grande demonstração da tese ocorre no exame do pacifismo cristão e abolicionista dos Estados Unidos. Losurdo recupera grupos que, no início do século XIX, procuravam estabelecer uma ordem política fundada na rejeição da violência. Em 1812, David L. Dodge publicou War Inconsistent with the Religion of Jesus Christ, defendendo uma interpretação radical do cristianismo segundo a qual a violência deveria ser recusada mesmo quando praticada sob autoridade estatal. Posteriormente, a American Peace Society e a New England Non-Resistance Society aprofundaram esse projeto, associando a rejeição da guerra à crítica da escravidão. É nesse ponto que o método de Losurdo se torna particularmente produtivo. Em vez de aceitar a autodefinição desses grupos como movimentos simplesmente não violentos, ele investiga o modo como seus princípios funcionavam diante de situações concretas. A escravidão cria o primeiro grande teste: se um escravo foge e é perseguido por forças policiais que pretendem devolvê-lo ao proprietário, a recusa absoluta da violência pode significar a defesa indireta da ordem escravista. A pureza moral do militante pode, paradoxalmente, coincidir com a perpetuação da violência exercida contra a vítima. O problema se torna ainda mais dramático quando o conflito entre escravidão e abolicionismo assume a forma de guerra civil. Losurdo não apresenta a Guerra de Secessão como uma simples vitória da violência sobre a não violência, mas como uma situação na qual diferentes formas de violência se confrontam: a violência institucional da escravidão, a violência da repressão e a violência empregada para destruí-la. O caso de Charles Stearns é revelador porque demonstra como a defesa intransigente da não violência pode terminar em sua própria negação quando o militante percebe que permanecer passivo diante da agressão significa abandonar aqueles que pretende defender. O autor identifica aqui uma das contradições fundamentais do pensamento não violento: é possível recusar pessoalmente a violência, mas isso não significa necessariamente deixar de participar de relações sociais violentas. A omissão também pode possuir consequências políticas. Essa conclusão é reforçada pelo episódio de Angelina Grimké, que reconhece a impossibilidade de preservar simultaneamente a não violência absoluta e a defesa imediata de pessoas submetidas à escravidão. Para ela, uma guerra temporária poderia representar um mal menor diante da permanência indefinida da escravidão. Losurdo, portanto, desloca a pergunta de “violência ou não violência?” para uma questão mais complexa: “quem exerce a violência, contra quem, em que circunstâncias e com quais consequências?”. Essa mudança é essencial para compreender o restante do livro.
“Uma guerra temporária é um mal incomparavelmente menor do que a escravidão permanente.”
(Angelina Grimké, citada por Domenico Losurdo, p. 66 da edição digital.)
A análise de Gandhi constitui o núcleo mais provocativo da obra. Losurdo procura desfazer aquilo que considera uma construção retrospectiva de Gandhi como símbolo absoluto e universal da não violência. Sua intenção não é negar que Gandhi tenha desenvolvido uma concepção política original, nem que sua ação tenha produzido efeitos históricos relevantes, mas demonstrar que o pensamento gandhiano foi mais complexo, contraditório e condicionado pelas circunstâncias históricas do que permite supor a imagem posteriormente consagrada. O autor mostra que Gandhi conheceu e valorizou diferentes tradições intelectuais. Em Londres, entre 1888 e 1891, entrou em contato com círculos vegetarianos e teosóficos e aprofundou sua aproximação com a tradição indiana da ahimsa. Mais tarde, durante sua permanência na África do Sul, desenvolveu formas organizadas de resistência que culminariam na Satyagraha Association, fundada em 1906. A questão fundamental para Losurdo é que essa trajetória não pode ser interpretada como uma linha reta que conduziria naturalmente a uma filosofia absoluta da não violência. Gandhi também se relacionou com conflitos militares do Império Britânico e, em determinadas circunstâncias, aceitou formas de participação ou colaboração que entram em tensão com a imagem posterior do líder pacifista. O próprio sumário do livro explicita a intenção de investigar “a participação na I Guerra Mundial como ‘mal necessário’”, “a ideologia da guerra em Gandhi”, a “participação na guerra e promoção racial” e a posterior “invenção da tradição não violenta”. O ponto de Losurdo é especialmente forte quando aplicado à relação entre ética e responsabilidade. Uma pessoa pode possuir uma intenção sinceramente não violenta e, ainda assim, produzir consequências violentas. O autor denomina esse problema de “heterogênese dos fins”: as consequências históricas de uma ação podem escapar às intenções originais de seus protagonistas. Em 1942, por exemplo, Gandhi lançou uma campanha de desobediência civil em plena Segunda Guerra Mundial, utilizando o lema “Aja ou morra”. Segundo Losurdo, a mobilização acabou acompanhada de incêndios contra instalações policiais, agências postais e estações ferroviárias, produzindo milhares de mortos e feridos. O autor entende que uma análise baseada na ética da responsabilidade não pode simplesmente excluir Gandhi da cadeia causal desses acontecimentos porque sua doutrina declarada permanecia não violenta. Essa análise é posteriormente ampliada para a independência da Índia e a formação de Índia e Paquistão. Losurdo reconhece que Gandhi trabalhou para conter a violência, mas sustenta que uma avaliação histórica completa não pode ignorar a catástrofe que acompanhou a independência e a enorme migração forçada entre as duas comunidades. O argumento não deve ser entendido como uma tentativa simplista de responsabilizar Gandhi pelos conflitos que se seguiram à independência. A força da análise está justamente em mostrar que movimentos políticos produzem efeitos que não podem ser inteiramente controlados por seus líderes e que conceitos morais, quando transformados em estratégias de mobilização de massas, entram inevitavelmente em contato com estruturas de poder, identidades coletivas e conflitos sociais.
“Não há dúvida de que este último, no âmbito do desafio lançado ao governo imperial, quer evitar o uso da violência.”
(Domenico Losurdo, A não violência, p. 299 da edição digital.)
A comparação entre Gandhi, Lenin e o movimento socialista amplia o argumento e impede que o livro seja reduzido a uma simples crítica do gandhismo. Losurdo investiga diferentes formas de emancipação e pergunta se a oposição entre violência e não violência é suficiente para distinguir projetos políticos. O sumário dedica capítulos específicos às relações entre socialismo, antimilitarismo e gandhismo, à Primeira Guerra Mundial, à violência revolucionária, a Marx e Engels, a Sorel e ao confronto entre Gandhi e os bolcheviques. O autor procura mostrar que tanto a violência revolucionária quanto a não violência podem assumir funções emancipadoras ou conservadoras dependendo das circunstâncias históricas. Essa perspectiva reaparece com especial força na análise de Martin Luther King. A imagem de King como “Gandhi negro” é examinada criticamente, porque o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos ocorreu em um contexto no qual a segregação racial, a violência policial e a supremacia branca constituíam estruturas institucionais concretas. A questão da autodefesa torna-se, portanto, inseparável da discussão sobre não violência. Mais decisiva ainda é a questão do Vietnã: se um militante afro-americano recusa a violência em seu próprio país, mas é obrigado a participar de uma guerra em outro país, pode sua posição continuar sendo chamada coerentemente de não violenta? Losurdo utiliza uma provocação de Stokely Carmichael para explicitar o problema: se um militante era orientado a não atirar no Mississippi, mas acabava baleado no Vietnã, a universalidade do princípio exigiria perguntar por que a não violência deveria valer apenas em determinado território. O problema conduz a uma distinção metodológica fundamental entre ética da convicção e ética da responsabilidade. A primeira avalia o ato segundo a fidelidade do indivíduo a determinado princípio; a segunda considera também as consequências produzidas por esse ato. Losurdo sustenta que uma política historicamente responsável não pode limitar-se à pureza das intenções. O caso de Garrison é novamente emblemático: sua campanha abolicionista era declaradamente não violenta, mas contribuiu para produzir uma radicalização moral que intensificou o conflito em torno da escravidão. A mesma lógica pode ser aplicada a Gandhi, King e a outros protagonistas. A grande contribuição do livro nesse ponto consiste em demonstrar que a fronteira entre violência e não violência não é simplesmente comportamental. Ela é também política, social e histórica. Uma greve, uma desobediência civil, uma sanção econômica, uma ocupação territorial, uma repressão policial ou uma intervenção militar podem produzir diferentes formas de coerção, mesmo quando somente algumas recebem o nome de “violência”. O autor procura, assim, desmontar a aparência de neutralidade da linguagem política.
“Quando se passa do plano da ética da convicção para o plano da ética da responsabilidade, a violência acaba manifestando-se também na prática diária da não violência.”
(Domenico Losurdo, A não violência, p. 299 da edição digital.)
Nas partes finais, Losurdo amplia a investigação para o uso contemporâneo da linguagem da não violência, especialmente nas chamadas “revoluções coloridas” e nas disputas geopolíticas posteriores à Guerra Fria. É nesse momento que a crítica deixa de ser predominantemente histórica e assume uma dimensão diretamente política. Para o autor, um ideal moral pode ser apropriado por diferentes forças e convertido em instrumento de legitimação. Assim, determinados movimentos de oposição podem ser apresentados internacionalmente como manifestações espontâneas e puramente pacíficas, enquanto seus vínculos com interesses externos, estruturas midiáticas, financiamento internacional e estratégias de mudança de regime permanecem menos visíveis. O capítulo dedicado ao tema examina explicitamente a relação entre “não violência”, “revoluções coloridas” e “Grande Jogo”. Losurdo utiliza o caso iraniano de 2009 e outros episódios para argumentar que o vocabulário gandhiano pode ser convertido em recurso de disputa geopolítica, transformando adversários do Ocidente em encarnações da violência e seus aliados em novos “Gandhis”. A discussão da mídia é igualmente importante: imagens de grande impacto moral podem condensar acontecimentos complexos em símbolos imediatamente reconhecíveis, fazendo com que a percepção pública de um conflito seja orientada pela imagem do manifestante pacífico diante do poder violento. Essa crítica, entretanto, é também o ponto em que o livro se torna mais controverso. A interpretação de Losurdo é fortemente marcada por uma perspectiva anti-imperialista e marxista, e sua desconfiança diante de determinadas narrativas liberais pode conduzi-lo, em alguns momentos, a conceder peso elevado demais às estruturas geopolíticas externas e a reduzir a autonomia de movimentos internos que possuíam demandas sociais reais. O mérito de sua abordagem está menos em fornecer uma explicação definitiva para cada caso do que em obrigar o leitor a desconfiar de categorias políticas excessivamente puras. A não violência pode ser instrumento de emancipação, forma de resistência, técnica de mobilização, mecanismo de pressão, linguagem moral ou recurso de legitimação geopolítica. A mesma palavra pode adquirir significados radicalmente diferentes conforme a estrutura social na qual é empregada. Por isso, a conclusão de Losurdo não é uma defesa simples da violência revolucionária nem uma condenação absoluta do pacifismo. O que ele procura defender é uma concepção realista da política, na qual princípios éticos devem ser confrontados com as consequências concretas de sua aplicação. O resultado é uma obra intelectualmente provocadora, historicamente ambiciosa e deliberadamente incômoda. Seu maior mérito consiste em destruir a falsa tranquilidade proporcionada por conceitos absolutos: nem toda violência possui a mesma natureza, assim como nem toda não violência produz os mesmos resultados. A obra também tem limitações. Em alguns momentos, a argumentação torna-se repetitiva, sobretudo porque o autor retorna várias vezes à oposição entre ética da convicção e ética da responsabilidade; além disso, sua crítica a Gandhi, King, ao Dalai Lama e às revoluções coloridas pode parecer excessivamente orientada pela necessidade de desmontar mitos, levando-o ocasionalmente a privilegiar os aspectos contraditórios dos personagens em detrimento de suas contribuições positivas. Ainda assim, essa característica é coerente com o projeto declarado desde o título: escrever uma história “fora do mito”. O livro não pretende oferecer santos nem vilões, mas sujeitos históricos submetidos às contradições de seus próprios contextos. É precisamente por isso que A não violência permanece uma leitura relevante para quem deseja compreender os limites das categorias morais aplicadas à política. Sua contribuição não está em provar que a violência é necessária, mas em mostrar que a ausência de violência física imediata não significa necessariamente ausência de coerção, conflito ou poder. Ao final, a pergunta mais importante deixada por Losurdo não é se devemos ser violentos ou não violentos, mas de que maneira podemos avaliar historicamente as ações políticas, seus agentes, suas estruturas e suas consequências sem transformar princípios morais em mitologias incapazes de explicar a realidade.
“Não há ideal, por mais nobre que seja, que não se possa transformar em ideologia da guerra ou em palavra de ordem para reivindicar a hegemonia.”
(Domenico Losurdo, A não violência, p. 292 da edição digital.)
Avaliação do enredo/arquitetura argumentativa: ★★★★★ (5/5)
