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POST LITERAL

O Segundo Dilúvio, de Garrett Putman Serviss — 1912

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Publicado inicialmente em capítulos na revista pulp "The Cavalier" ao longo de 1911, antes de ser reunido em volume no ano seguinte, "O Segundo Dilúvio" representa um dos exemplos mais característicos daquilo que se costuma chamar de ficção científica de catástrofe, gênero que floresceu vigorosamente nas décadas finais do século dezenove e nas primeiras do século vinte, período em que autores anglófonos processavam literariamente as ansiedades geradas pelas rápidas transformações científicas e tecnológicas da era industrial. Garrett Serviss não era propriamente um romancista profissional, mas sim um astrônomo formado pela Universidade Cornell que se tornou um dos mais influentes divulgadores científicos de sua geração nos Estados Unidos, escrevendo colunas regulares de popularização astronômica para jornais como o New York Sun e o New York Herald, uma trajetória que explica com bastante clareza o rigor especulativo, ainda que hoje datado, com que constrói a premissa central de seu romance mais célebre.

A trama gira em torno de Cosmo Versál, astrônomo genial mas excêntrico e socialmente marginalizado, que calcula que a Terra está em rota de colisão iminente com uma nebulosa cósmica composta essencialmente por vapor de água, um encontro que provocará chuvas torrenciais capazes de elevar o nível dos oceanos em vários quilômetros, submergindo praticamente toda a superfície terrestre habitada. Ridicularizado pela comunidade científica estabelecida e pela opinião pública em geral, que trata suas advertências apocalípticas com o mesmo desdém que a sociedade costuma reservar a profetas de desastre não credenciados, Versál decide agir por conta própria e constrói uma arca moderna, batizada de forma reveladora, movida por motores avançados e blindada contra as intempéries previstas, numa reencenação claramente deliberada e explícita do mito bíblico de Noé, só que filtrada através da racionalidade científica e da tecnologia industrial do início do século vinte, em vez da intervenção divina direta.

O aspecto mais provocador e moralmente incômodo do romance, aquele que a crítica especializada em ficção científica costuma destacar como seu elemento mais duradouramente perturbador, é justamente o processo pelo qual Versál seleciona quem será salvo dentro de sua arca limitada e quem será deliberadamente abandonado ao dilúvio. Serviss constrói essa seleção com uma lógica eugenista bastante característica do pensamento científico da época, favorecendo cientistas, intelectuais, artistas e representantes daquilo que o próprio texto chama de "a flor e a nata da humanidade", uma escolha narrativa que revela, involuntariamente ou não, os pressupostos elitistas e as ansiedades sociais de uma classe educada americana que temia, no início do século vinte, tanto o avanço tecnológico descontrolado quanto a possibilidade de dissolução da ordem civilizacional estabelecida caso a sobrevivência da espécie dependesse de decisões tão radicais quanto essa. O próprio Versál, ao debater internamente as implicações éticas de decidir quem vive e quem morre, funciona como veículo narrativo para que Serviss explore, de maneira ainda relativamente simplista mas historicamente significativa, o peso moral que recai sobre qualquer indivíduo investido do poder absoluto de redefinir os rumos da espécie humana inteira.

A narrativa acompanha com considerável detalhe apocalíptico a devastação progressiva do planeta: a submersão de Nova York, retratada com um fascínio mórbido pela destruição de símbolos urbanos e capitalistas da modernidade americana, a inundação da Europa inteira, incluindo cenas específicas de Paris sendo tomada pelas águas, e episódios de pânico coletivo, motins a bordo da própria arca e disputas ferozes entre sobreviventes desesperados por um lugar garantido de salvação, elementos que antecipam de maneira bastante reconhecível muitos dos tropos que o cinema e a literatura de catástrofe contemporâneos ainda exploram extensivamente hoje, quase um século depois. Após o pico do dilúvio, quando as águas finalmente começam a recuar, o romance segue os sobreviventes na tarefa monumental de reconstruir a civilização a partir do zero, um segmento final que permite a Serviss especular sobre que tipo de sociedade emergiria dessa segunda origem, uma "Nova América" reconstituída a partir dos escombros submersos da anterior, oferecendo ao leitor uma visão otimista e progressista de reconstrução racional que contrasta com a devastação quase bíblica descrita anteriormente.

Vale registrar que Serviss não era estranho ao gênero especulativo de proporções cósmicas, tendo escrito anteriormente "Edison's Conquest of Mars" (1898), uma sequência não autorizada de "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells que imaginava uma contraofensiva terrestre liderada pelo próprio inventor Thomas Edison contra os marcianos invasores, o que situa Serviss numa linhagem de ficção científica americana fortemente influenciada pelo modelo britânico estabelecido por Wells, mas already inclinada para um otimismo tecnológico e um heroísmo científico individualista tipicamente americanos, em contraste com o pessimismo civilizacional mais profundo que costuma marcar a obra do próprio Wells. "O Segundo Dilúvio" permanece, hoje, um documento fascinante menos por seu valor estritamente literário, que a crítica contemporânea considera modesto e datado em sua caracterização e em seu estilo, e mais como retrato revelador das ansiedades apocalípticas, das fantasias eugenistas de seleção social e do otimismo tecnológico que atravessavam o imaginário científico popular americano nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, um momento histórico em que a fé cega no progresso científico ainda não havia sido definitivamente abalada pelas catástrofes que o século vinte reservaria em seguida.