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POST LITERAL

O Primo Pons, de Honoré de Balzac — 1847

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Escrito entre julho de 1846 e maio de 1847, "O Primo Pons" figura entre as últimas grandes obras concluídas de "A Comédia Humana", o vastíssimo edifício ficcional através do qual Balzac se propôs a catalogar quase todos os tipos sociais da França de sua época. O romance nasceu de circunstâncias curiosas: originalmente concebido como uma pequena novela intitulada "Os Dois Músicos" ou, alternativamente, "O Velho Músico", Balzac interrompeu sua escrita para dedicar-se à composição de "A Prima Bette", que se tornou um sucesso imediato, e só então retornou ao texto anterior, expandindo-o consideravelmente até transformá-lo num romance de proporções muito maiores. Essa dupla obra, publicada em conjunto sob o título geral "História dos Parentes Pobres", constitui um díptico deliberadamente simétrico e contrastante que o próprio Balzac resumiu com precisão: enquanto "A Prima Bette" retrata a parente pobre, insultada, que se vinga de todo o sofrimento acumulado infiltrando-se destrutivamente em várias famílias, "O Primo Pons" apresenta o parente pobre, igualmente insultado, mas de coração bondoso, incapaz de qualquer instinto de vingança.

A trama acompanha Sylvain Pons, músico sexagenário de uma orquestra teatral parisiense, cujas duas grandes paixões na vida, a colecionismo obsessivo de obras de arte raras e o apreço quase glutão pela boa gastronomia, definem toda sua existência solitária de celibatário. Para satisfazer esse segundo prazer, já que seu salário modesto de músico não lhe permite requintes culinários próprios, Pons cultiva a rotina humilhante de se autoconvidar para jantar semanalmente nas casas de diversos parentes ricos por afinidade, entre eles a família Camusot de Marville, cujo patriarca ocupa o cargo de presidente da Câmara do Tribunal Real de Paris. A esposa deste, a implacável Amélie Camusot, nutre por Pons um desprezo profundo, tolerando sua presença semanal apenas por uma mistura de obrigação social e pela utilidade eventual que o velho primo demonstra ao desempenhar pequenos favores e serviços para a família, incluindo tentativas insistentes de arranjar um bom casamento para a filha única do casal, Cécile, cujo dote modesto de cem mil francos a torna uma pretendente pouco atraente no mercado matrimonial burguês da época.

O ponto de virada dramático da narrativa ocorre quando Pons, tentando provar sua gratidão à família, apresenta aos Camusot o rico banqueiro Frédéric Brunner como potencial marido para Cécile. As negociações avançam favoravelmente até que, durante a apresentação oficial do noivo à extensa parentela parisiense, Brunner ouve por acaso que o presidente Camusot pretende conceder a Pons uma pensão vitalícia de mil e duzentos francos, interpretando erroneamente esse gesto como suborno pago ao velho primo em troca de sua intermediação no casamento arranjado. Ofendido com essa suposta mercantilização disfarçada da união, Brunner rompe o compromisso imediatamente, e a família Camusot, humilhada publicamente diante de toda a sociedade burguesa parisiense que já aguardava o anúncio nupcial, decide culpar inteiramente Pons pelo fracasso, acusando-o, sem qualquer fundamento real, de ter armado deliberadamente essa desonra por vingança. Banido de todas as casas que costumava frequentar e transformado em pária social da noite para o dia, o golpe psicológico revela-se fatal para o frágil equilíbrio emocional do velho colecionador, que se recolhe definitivamente ao apartamento modesto que compartilha, na Rue de Normandie, com seu único e verdadeiro amigo, o pianista alemão Wilhelm Schmucke.

É precisamente nesse ponto da narrativa que o romance sofre a transformação estrutural mais notável apontada pela crítica: de um retrato relativamente contido e intimista de um homem humilhado por parentes ricos, "O Primo Pons" se metamorfoseia num drama de proporções muito mais amplas e sombrias, na medida em que uma nova galeria de personagens completamente inéditos dentro do universo de "A Comédia Humana" entra em cena assim que se descobre, quase por acaso, o valor imenso e insuspeitado da coleção de arte que Pons acumulou ao longo de décadas de aquisições discretas e criteriosas. A porteira do edifício, Madame Cibot, inicialmente apresentada como figura de cuidado quase maternal para os dois velhos solitários, revela sua verdadeira natureza predatória ao se aliar ao ferro-velho Rémonencq, ao negociante de arte Élie Magus e ao médico ambicioso Poulain, formando uma verdadeira coalizão de abutres que orquestra, sob a fachada hipócrita de solicitude benevolente, o isolamento progressivo de Pons e a expropriação sistemática de seu tesouro artístico. O verdadeiro arquiteto dessa trama de despojamento, contudo, é o advogado sem escrúpulos Fraisier, contratado nominalmente para defender os interesses de Madame Cibot, mas que na verdade trabalha duplamente, também a serviço secreto da própria família Camusot, que deseja recuperar a coleção como forma de complementar retroativamente o dote de Cécile.

O que distingue fundamentalmente "O Primo Pons" de outras grandes obras de Balzac, e o que a crítica mais recente costuma destacar como sua qualidade emocional mais singular dentro de toda "A Comédia Humana", é o registro patético e comovente que o autor reserva à amizade entre Pons e Schmucke, provavelmente a relação afetiva mais pura e desinteressada de toda a produção balzaquiana. Balzac chegou a considerar intitular o romance "Os Dois Amigos", em homenagem direta à célebre fábula de La Fontaine, embora tenha finalmente rejeitado essa ideia por considerá-la uma espécie de usurpação sacrílega demasiado direta. Schmucke, ingênuo ao ponto de jamais perceber as tramas que se armam ao redor de seu amigo moribundo, e cuja dedicação a Pons é descrita com uma ternura raramente encontrada em outras partes da obra do autor, normalmente mais interessado em julgar friamente a sociedade do que em comover o leitor, torna-se ele próprio, após a morte de Pons, vítima do mesmo mecanismo social implacável, sendo pressionado e manipulado por Fraisier a renunciar praticamente toda a herança que o amigo lhe deixara, até morrer, pouco depois, literalmente de coração partido, tendo perdido tudo o que realmente valorizava no mundo.

Vale ressaltar, por fim, que o romance dialoga intensamente com a própria biografia pessoal de Balzac na época de sua composição: obcecado, àquela altura, pela perspectiva já praticamente confirmada de seu casamento com a condessa polonesa Ewelina Hańska, o autor viajava pela Europa acumulando compulsivamente mobílias, porcelanas, esmaltes e pinturas de mestres antigos para mobiliar a futura casa do casal, uma paixão real por bricabraque e colecionismo que se projeta diretamente na coleção idealizada de obras de arte que Pons acumula ao longo do romance, funcionando quase como o museu ideal que o próprio Balzac sonhava construir. Essa dimensão biográfica confere ao livro uma camada adicional de melancolia irônica, já que a obra termina justamente com a devastação implacável de tudo aquilo que Pons mais amara e cuidadosamente reunira ao longo da vida, entregue finalmente às mãos avarentas daqueles que jamais compreenderam seu valor artístico genuíno, mas apenas seu preço de mercado, numa demonstração final e definitiva daquilo que Balzac considerava a verdadeira "comédia terrível da morte de um solteirão entregue, pela força das circunstâncias, à rapacidade das naturezas ávidas que se reúnem ao seu leito".