
Franklin Távora, escritor cearense que também assinou sob o pseudônimo de Semprônio, publicou "O Matuto" como segundo romance de sua trilogia conhecida como "Literatura do Norte", projeto literário concebido em resposta direta e deliberadamente polêmica à obra de José de Alencar. Enquanto Alencar buscava na figura indígena e num passado remoto o substrato cultural para fundamentar a nacionalidade brasileira, Távora defendia uma tese radicalmente diferente: era no homem mestiço do Norte, no sertanejo das regiões canavieiras de Pernambuco, que residia o verdadeiro caráter formador da nação, justamente por essa região possuir a colonização portuguesa mais antiga e, portanto, mais tempo de adaptação e miscigenação com o meio tropical. Essa disputa entre os dois escritores não era meramente estética, mas ideológica e regionalista, com Távora dedicando inclusive um conjunto de cartas críticas, as "Cartas de Semprônio a Cincinato", para atacar diretamente romances como "Iracema" e "O Gaúcho".
A narrativa se desenrola nas fazendas próximas a Goiana, em Pernambuco, e utiliza como pano de fundo histórico a Guerra dos Mascates, o conflito ocorrido entre 1710 e 1715 que opôs a aristocracia rural de Olinda, os "mazombos" ou senhores de engenho brasileiros, aos comerciantes portugueses de Recife, os chamados "mascates". Curiosamente, embora a obra narre esse episódio histórico, Távora recua a trama até 1706, alguns anos antes do conflito propriamente dito, justamente para ter espaço narrativo de construir com detalhe a figura do matuto, o tipo social e cultural que dá título ao livro e que constitui o verdadeiro objeto de interesse do autor, mais até do que os próprios eventos bélicos, que serão retomados com mais desenvoltura na continuação, "Lourenço" (1881).
Os protagonistas centrais são Lourenço, um menino de índole naturalmente má adotado por um casal de matutos, Francisco e Marcelina, e é através da trajetória desse personagem que Távora dramatiza uma pergunta que atravessa toda a obra: seria possível a redenção moral de um indivíduo marcado pela violência através da educação e do exemplo? Diferentemente do protagonista de seu romance anterior, "O Cabeleira", que era um bandido de índole originalmente boa mas mal encaminhado pelas circunstâncias, Lourenço representa o caso inverso, o da maldade natural que pode ser corrigida. É reveladora, aliás, a longa passagem em que o narrador compara o sertanejo bruto e violento, mas transparente e sincero, ao cortesão citadino, refinado e polido, mas fundamentalmente corrupto e traiçoeiro, numa oposição entre o sertão e a Corte que se tornaria um dos lugares-comuns mais duradouros do regionalismo brasileiro, encontrando eco décadas depois em Euclides da Cunha e sua análise do sertanejo em "Os Sertões".
Um aspecto particularmente relevante para a crítica contemporânea, especialmente no artigo acadêmico de Manoel Carlos Fonseca de Alencar publicado na revista História (UFG), é a análise da dubiedade fundamental com que Távora trata o povo nortista. O matuto é simultaneamente forte, leal, probo e verdadeiro, mas também violento, licencioso, ignorante e propenso ao banditismo, uma ambivalência que o autor resolve narrativamente criando a figura complementar de matutos obedientes, resignados e trabalhadores, como o próprio Francisco e Marcelina, aos quais o leitor deve nutrir simpatia e identificação, enquanto reserva a violência mais extremada a personagens secundários ou a figuras históricas de bandidos célebres da região, como o próprio Cabeleira ou Jesuíno Brilhante, cujas trajetórias reais se cruzam com os grandes períodos de seca que assolaram o sertão nordestino, inclusive a Grande Seca de 1877 a 1879 que o próprio Távora testemunhou enquanto escrevia a obra.
Um recurso estilístico particularmente valioso do romance, e que reforça seu caráter fundacional para o regionalismo brasileiro, é a incorporação direta de poesia popular coletada pelo próprio autor entre os sertanejos de Pernambuco, com Távora relatando explicitamente ter ouvido essas cantigas "jornadeando" entre Recife e Goiana durante seus tempos de estudante, e transcrevendo-as no romance com o rigor quase etnográfico que os folcloristas da época, como Silvio Romero, viriam a exigir cientificamente para a coleta do saber popular genuíno, em contraste com a poesia meramente inspirada no popular mas produzida por eruditos. As festas juninas, os sambas e saraus campestres, os cantadores e repentistas que se dividiam entre lavradores fixos e almocreves itinerantes, tudo isso compõe um panorama etnográfico da vida sertaneja que Távora descreve com uma mistura reveladora de encantamento estético e reprovação moral, sobretudo ao retratar as mulheres mestiças das festas populares com um erotismo latente que, segundo a análise crítica mais recente, evidencia como o autor já antecipava a construção do estereótipo racializado da mulata e da cabocla como símbolos sexualizados da identidade nacional brasileira, um tema que atravessaria boa parte do pensamento social e literário do país nas décadas seguintes.