
Poucos projetos literários acompanharam a vida de um escritor com a fidelidade obsessiva com que "Confissões do Impostor Felix Krull" acompanhou Thomas Mann. As primeiras anotações para o romance surgem já em 1905, ainda antes da publicação de "Morte em Veneza", mas a escrita efetiva só começa em 1910, com fragmentos publicados em 1911 e 1919, reunidos posteriormente em livro em 1922 sob o título "Confissões do Impostor Felix Krull: O Livro da Infância". Depois disso, Mann abandonou o projeto por décadas inteiras, dedicando-se a obras como "A Montanha Mágica", a tetralogia de "José e Seus Irmãos" e "Doutor Fausto", e só retomou o manuscrito entre 1951 e 1954, praticamente na véspera de sua morte em 1955, sem que se perceba qualquer descontinuidade estilística entre as partes escritas com quatro décadas de intervalo, um feito notável que evidencia a extraordinária constância da voz narrativa que Mann havia criado. O resultado final, publicado como "Primeira Parte das Memórias", corresponde a apenas metade do que o autor projetara originalmente, que seriam seis partes ao todo, o que faz da obra, definitivamente, um grande fragmento inacabado, coroando a carreira do autor com um mistério estrutural: nunca saberemos, de fato, como Mann pretendia concluir a trajetória de seu personagem mais singular.
O próprio nome do protagonista já revela a ironia fundamental que estrutura o livro: "Felix" significa "o feliz" ou "o afortunado" em latim, enquanto "Krull" ecoa fonicamente a palavra alemã "krumm", que significa torto, desonesto, enviesado, resultando naquilo que a crítica descreve precisamente como "um vilão feliz". Narrado inteiramente em primeira pessoa pelo próprio Felix, já maduro e relembrando sua trajetória, o romance assume a forma de uma autobiografia fictícia que trabalha deliberadamente com a ambiguidade da voz narrativa: Krull se autodenomina, ao longo do texto, com uma variedade impressionante de rótulos igualmente desonrosos, vagabundo, gigolô, fraudador, ladrão, impostor, e ao mesmo tempo se considera um ser superior, quase predestinado a uma existência de exceção, dotado desde o berço de um talento natural para a sedução, a representação e o embuste.
Mann trabalha aqui, de maneira deliberadamente paródica, com dois grandes modelos da tradição literária alemã e europeia. Por um lado, o "Bildungsroman", o romance de formação cujo exemplo máximo é o "Wilhelm Meister" de Goethe, só que Mann frustra sistematicamente o clímax de maturação moral e espiritual que esse gênero normalmente promete, já que a "formação" de Krull não conduz a nenhuma virtude ou sabedoria elevada, mas ao aperfeiçoamento progressivo de sua capacidade de trapacear com elegância e savoir-faire. Por outro lado, o estilo grandiloquente e reflexivo das próprias memórias de Goethe, "Poesia e Verdade", que Mann parodia através do tom pomposo e autoindulgente que Krull emprega para narrar até os episódios mais vergonhosos de sua vida, criando aquele equilíbrio precário entre homenagem e sátira que a crítica identifica como marca registrada de toda a obra madura de Mann.
Ao mesmo tempo, o romance dialoga intensamente com a tradição europeia do romance picaresco, aproximando-se de personagens como o Simplicissimus de Grimmelshausen, a Moll Flanders de Defoe ou o Tom Jones de Fielding, malandros de origem humilde que sobem na vida através do engenho e da adaptabilidade moral. A diferença crucial, porém, é que Krull não é um simples vigarista movido pela sobrevivência ou pela vingança social, mas um esteta do embuste, alguém para quem a fraude se confunde com a própria arte da representação teatral, e que compreende, com clareza quase freudiana (não por acaso Mann admirava e correspondia-se com Sigmund Freud), a total arbitrariedade das convenções sociais e das aparências que regem o mundo burguês, jogando com elas na fronteira precisa entre o legítimo e o escandaloso.
A trajetória biográfica de Krull segue o movimento clássico da ascensão social, mas ironizado: filho de um fabricante de champanhe cujo negócio fracassa, levando o pai ao suicídio, o jovem Felix é forçado a buscar sustento próprio e obtém um emprego como ascensorista em um hotel de Frankfurt, posição que Mann usa de maneira sutilmente cômica como metáfora invertida da ascensão social, já que Krull literalmente sobe e desce em um elevador, mas permanece confinado a lançar apenas "breves olhares ocasionais" sobre a riqueza e o refinamento da alta sociedade que observa de fora. Sua verdadeira ascensão começa quando, sob o nome falso de Armand, rouba as joias de uma rica hóspede do hotel, para depois, em uma das reviravoltas mais deliciosamente irônicas do romance, seduzi-la, tornando-se seu amante justamente quando ela descobre, excitada em vez de indignada, que foi ele mesmo quem a roubara. A partir daí, Krull leva uma vida dupla entre o emprego diurno e as conquistas noturnas, até que sua trapaça mais ambiciosa se concretiza quando o jovem aristocrata Marquês de Venosta, descobrindo sua farsa, em vez de denunciá-lo, propõe uma cumplicidade: Krull assumirá sua identidade numa viagem ao redor do mundo que os pais do marquês haviam planejado, permitindo que o verdadeiro Venosta permaneça na Europa perseguindo uma amante indesejada pela família.
É particularmente revelador que Krull, ao justificar sua motivação para aceitar essa segunda impostura, não invoque o ganho material como razão principal, mas sim algo mais existencial: a possibilidade de "renovar o eu desgastado", de despir o velho Adão e revestir-se de uma identidade nova, uma declaração que eleva o personagem de simples vigarista a uma espécie de artista existencial da reinvenção pessoal, obcecado não pelo lucro mas pela metamorfose contínua da própria persona. É em Lisboa, primeira parada dessa viagem sob identidade falsa, que o fragmento disponível se encerra, com Krull travando debates filosóficos abstrusos sobre arte, arquitetura, mitologia e religião com intelectuais aristocráticos europeus, tratando essas discussões como um jogo competitivo de retórica no qual triunfa não por possuir a verdade, mas por saber exatamente o que o interlocutor deseja ouvir, numa demonstração final e definitiva de sua arte suprema como impostor e sedutor, antes que a morte de Mann interrompesse para sempre o destino final de seu personagem mais charmosamente amoral.