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As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift — 1726

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Publicada anonimamente em 1726 sob o título completo "Viagens a Várias Nações Remotas do Mundo, em Quatro Partes, por Lemuel Gulliver", a obra de Jonathan Swift disfarça-se propositalmente como um relato de viagens marítimas, gênero então extremamente popular na Inglaterra graças a autores como Daniel Defoe, apenas para subverter completamente essa fórmula e transformá-la no instrumento satírico mais devastador de toda a literatura inglesa do período Augustano. Swift, clérigo anglo-irlandês e figura política intensamente envolvida nas disputas partidárias entre Tories e Whigs de sua época, constrói o livro em quatro partes distintas, cada uma correspondendo a uma viagem específica de seu narrador, o cirurgião de navio Lemuel Gulliver, e cada uma delas explorando um ângulo satírico diferente sobre a natureza humana, a política e a própria capacidade da razão de conduzir o homem a algum tipo de virtude genuína.

Na primeira viagem, a Lilliput, Gulliver desperta como prisioneiro gigante de um povo minúsculo, de apenas quinze centímetros de altura, cuja sociedade reproduz em miniatura, e por isso mesmo com ironia ainda mais cortante, todas as vaidades e absurdos da política inglesa contemporânea. A disputa entre os partidos Tramecksan e Slamecksan, distinguidos apenas pela altura dos tacões de seus sapatos, satiriza abertamente a rivalidade entre Tories e Whigs, enquanto a guerra civil entre Lilliput e o império vizinho de Blefuscu, motivada pela discordância sobre qual extremidade de um ovo cozido deve ser quebrada primeiro, ironiza com crueldade as guerras religiosas europeias, incluindo os conflitos entre católicos e protestantes, supostamente travados por diferenças doutrinárias que, vistas de fora, revelam-se tão triviais quanto essa disputa culinária. O próprio Gulliver, tratado como maravilha física pelos lilliputianos, torna-se instrumento involuntário de suas manobras políticas e militares, e sua desproporção corporal funciona como metáfora recorrente da obra inteira sobre como a perspectiva relativa distorce completamente nosso julgamento moral e nossa compreensão do que realmente importa.

A segunda viagem inverte essa relação de escala: em Brobdingnag, Gulliver torna-se o ser minúsculo entre gigantes de proporções descomunais, e essa inversão permite a Swift um dos golpes satíricos mais eficazes do livro, quando Gulliver, orgulhoso de sua civilização europeia, descreve ao rei gigante a história política, militar e institucional da Inglaterra, apenas para receber como resposta o julgamento devastador do monarca de que os ingleses devem constituir "a raça mais perniciosa de pequenos vermes repugnantes que a natureza jamais permitiu rastejar sobre a superfície da terra". Essa inversão de perspectiva, na qual o observador orgulhoso se torna, ele mesmo, objeto de escrutínio moral implacável, é central à estratégia satírica de Swift ao longo de toda a obra, forçando o leitor inglês a se ver através de olhos alheios e descobrir, nesse espelho deformado, uma imagem bem menos lisonjeira do que aquela que costuma cultivar de si mesmo.

A terceira viagem, mais fragmentada e episódica, leva Gulliver a Laputa, ilha voadora habitada por filósofos, matemáticos e cientistas tão absortos em abstrações teóricas inúteis que precisam de servidores especiais, chamados "flappers", apenas para lembrá-los fisicamente de prestar atenção ao mundo concreto à sua volta. Esse episódio constitui a sátira mais direta de Swift contra a Royal Society e o excesso de racionalismo científico divorciado de qualquer aplicação prática ou bom senso, ridicularizando experimentos absurdos como a tentativa de extrair raios de sol de pepinos ou de construir casas começando pelo telhado, numa crítica que, curiosamente, antecipa debates contemporâneos sobre ciência desconectada de propósito humano genuíno. A viagem inclui ainda a passagem por Glubbdubdrib, onde Gulliver pode invocar espíritos de figuras históricas e descobre que grande parte da história registrada é fraudulenta, e por Luggnagg, onde encontra os Struldbrugs, seres imortais cuja existência eterna revela-se não uma benção, mas uma maldição de decrepitude física e mental infinita, desmontando qualquer fantasia romântica sobre a imortalidade.

É, contudo, na quarta e última viagem, ao país dos Houyhnhnms, que a sátira de Swift atinge seu ponto mais radical e mais perturbador. Ali, Gulliver encontra uma sociedade de cavalos racionais, os Houyhnhnms, que vivem segundo princípios de razão pura, virtude, moderação e ausência quase completa de emoções perturbadoras, enquanto os seres que mais se assemelham fisicamente aos humanos, os Yahoos, são criaturas brutais, sujas, violentas e movidas por impulsos primitivos e destrutivos, mantidas pelos cavalos racionais como animais de carga desprezíveis. O choque devastador para Gulliver, e por extensão para o leitor, é reconhecer nos Yahoos repugnantes um espelho fiel da própria humanidade, o que o leva, ao retornar à Inglaterra, a um estado de misantropia tão profunda que ele passa a preferir literalmente a companhia de cavalos comuns à de sua própria família, incapaz de tolerar o cheiro e a presença de outros seres humanos, incluindo a esposa. Esse desfecho radicalmente pessimista tem gerado, há praticamente trezentos anos, um debate crítico interminável: seria essa quarta parte uma expressão da própria misantropia genuína de Swift, refletindo um desespero sincero quanto à possibilidade de virtude humana, ou seria antes uma ironia ainda mais sofisticada, na qual o próprio Gulliver, ao idealizar de forma tão extremada e desumanizada a razão fria dos Houyhnhnms, comete o mesmo tipo de loucura orgulhosa e desequilibrada que a obra inteira vinha satirizando desde o início, tornando-se ele próprio, ironicamente, o alvo final da sátira de Swift.

Vale destacar, por fim, que a genialidade estrutural do livro reside precisamente nessa progressão calculada, das sátiras mais específicas e localizadas contra a política inglesa contemporânea, em Lilliput, até a interrogação mais ampla e filosófica sobre a própria natureza da razão e da virtude humana, nos Houyhnhnms, revelando como Swift usa o gênero aparentemente inocente da narrativa de viagens fantásticas, então em voga, como veículo perfeito para contrabandear uma das críticas mais corrosivas já escritas sobre o orgulho intelectual, a hipocrisia institucional e os limites, talvez insuperáveis, da capacidade humana de agir de acordo com os ideais que professa, um ceticismo radical que distingue Swift de contemporâneos iluministas mais otimistas e que garantiu à obra uma atualidade perturbadora que atravessa os quase trezentos anos que já nos separam de sua primeira publicação.