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POST LITERAL

À Véspera (Накануне / On the Eve), de Ivan Turguêniev — 1860

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Terceiro romance de Turguêniev, "À Véspera" ocupa uma posição estratégica dentro do que se costuma chamar de "projeto literário" do autor: é o instantâneo do momento imediatamente anterior ao surgimento do niilismo de Bazárov, aquele arquétipo que explodiria dois anos depois em "Pais e Filhos" (1862) e que colocaria em marcha as transformações ideológicas que arrastariam a Rússia até os abalos revolucionários de 1917. Escrito em poucos meses após uma longa gestação mental, o romance nasceu de circunstâncias curiosas: Turguêniev baseou o enredo central em um caderno de notas deixado por Vassíli Karatiêev, um jovem que partiu para servir na Guerra da Crimeia e de onde não voltaria vivo. Nessas páginas esboçadas, ainda inacabadas, o autor encontrou o germe da história de amor entre uma jovem russa e um revolucionário búlgaro, retendo sobretudo uma cena de viagem a Tsaritsino que considerou particularmente vívida.

A trama gira em torno de Elena Stákhova, filha de uma mãe hipocondríaca e de um pai ocioso e supérfluo, figura típica da aristocracia rural russa do século dezenove. Elena é disputada por dois pretendentes que representam, cada um a seu modo, a intelectualidade russa estagnada: Chúbin, um escultor talentoso mas superficial em suas paixões, e Bersiêniev, um filósofo teórico incapaz de transformar ideias em ação concreta. A tensão entre esse triângulo, no entanto, é desestabilizada pela chegada de um quarto elemento decisivo, Dmítri Insárov, estudante búlgaro pobre, inteligente e movido por um único desejo, libertar seu povo do domínio turco. É justamente Bersiêniev quem, encantado pelo búlgaro, o apresenta ao restante do grupo, desencadeando os dramas amorosos e os choques geracionais que estruturam o restante da narrativa.

Um dos pontos mais ricos de análise crítica é justamente essa figura do estrangeiro sedutor, recorrente em toda a obra de Turguêniev, presente também em "Rúdin" e em "Pais e Filhos". Insárov representa, para o núcleo jovem do romance, o chamado à ação que existe fora da mente e fora das artes, a transformação direta e concreta do estado das coisas, algo que faz Bersiêniev sentir-se reduzido a mero teórico e Chúbin a mestre das superficialidades estéticas. Para Elena, amar o revolucionário búlgaro significa apropriar-se, por extensão, de uma grandeza que ela mesma ainda não possui como jovem mulher confinada pelas convenções sociais russas, razão pela qual ela abraça não apenas o homem, mas toda a causa política que o acompanha. Ao se casar secretamente com Insárov, Elena desaponta profundamente sua mãe e enfurece seu pai, que planejava um casamento arranjado com o funcionário pomposo e satisfeito de si Kurnatóvski, evidenciando o choque entre gerações que Turguêniev sempre tratou com atenção sensível às transformações sociais de sua época.

A obra também é lida como um documento precoce da chamada "questão da mulher" (jiénski voprós) na literatura russa, antecipando, no ano seguinte à sua publicação, romances como "A Moça do Internato" de Nadiéjda Khvoshchínskaia. Elena representa a fagulha da primeira onda feminista russa, a mulher que se liberta das vontades familiares, escolhe seus próprios pretendentes e decide tomar parte em grandes feitos históricos, mesmo que esses feitos pertençam, a rigor, à causa de outro povo. O desenlace é de um pessimismo característico do autor: Insárov, que quase morre de pneumonia e apenas parcialmente se recupera, tenta retornar à Bulgária com Elena no estopim da Guerra da Crimeia, mas morre em Veneza antes de completar a jornada. Elena, então, leva o corpo do marido para ser enterrado nos Balcãs e simplesmente desaparece da narrativa, num final que recusa qualquer consolo sentimental.

Vale registrar que a recepção crítica da época, embora reconhecesse o interesse do romance, apontou fragilidades estruturais notáveis, sobretudo o que se considerou um retrato relativamente "de madeira" do herói búlgaro Insárov, cuja caracterização psicológica não atingiria a mesma profundidade de Elena, que acabou concentrando toda a atenção interpretativa dos leitores e tradutores, a ponto de as primeiras versões francesa e alemã do livro terem sido publicadas simplesmente sob o título "Eléna" ou "Helena". A crítica progressista, notadamente o influente artigo de Nikolai Dobroliúbov na revista Sovriêmennik, celebrou justamente a escolha de Elena por um revolucionário em detrimento de um artista ou intelectual, provocando desconforto no próprio Turguêniev, que sempre se identificou com um liberalismo mais moderado, mas que, ironicamente, viu seu próprio mapeamento das correntes ideológicas russas ultrapassar suas intenções autorais originais, num daqueles casos em que a boa literatura acaba dizendo mais do que o escritor pretendia dizer.