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A Montanha Mágica, de Thomas Mann — 1924 (Der Zauberberg)

Vitor Zindacta by Vitor Zindacta
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Publicada em 1924, "A Montanha Mágica" é considerada, junto com "Buddenbrooks", a obra-prima definitiva de Thomas Mann, um romance monumental que sintetiza quase toda a cultura europeia pré-Primeira Guerra Mundial numa única narrativa ambientada num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços. Curiosamente, o livro começou sua existência de forma muito mais modesta: Mann iniciou o projeto em 1912 como uma pequena novela cômica, uma espécie de contraponto satírico à sua recém-concluída "Morte em Veneza", inspirada diretamente pela experiência pessoal do autor ao visitar sua esposa, então internada com uma doença respiratória no sanatório do Dr. Friedrich Jessen em Davos. O que deveria ser um texto breve e humorístico acabou interrompido pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, período durante o qual Mann, alinhado inicialmente com posições nacionalistas alemãs em contraste com o irmão Heinrich Mann, escreveu ensaios de defesa do esforço bélico. É somente após o fim da guerra, e depois de uma reavaliação profunda de sua própria posição política, que Mann retoma o texto em 1919 com um tom e uma ambição completamente transformados, abandonando definitivamente qualquer intenção puramente satírica para produzir uma vasta reflexão sobre a sociedade burguesa europeia, suas forças destrutivas latentes e sua marcha inconsciente rumo à catástrofe.

O enredo, na superfície, é de uma simplicidade quase enganosa: Hans Castorp, jovem engenheiro de Hamburgo recém-formado, viaja para visitar seu primo Joachim Ziemssen, internado com tuberculose no sanatório fictício Berghof, em Davos, planejando permanecer apenas três semanas antes de assumir sua carreira no estaleiro familiar. Um resfriado leve, diagnosticado pelo diretor do sanatório, o excêntrico e loquaz Dr. Behrens, como sintoma da mesma doença que aflige seu primo, faz com que Castorp seja persuadido a permanecer, e essa permanência, prolongada por sucessivos pretextos médicos e por sua crescente fascinação pelo ambiente insular da montanha, acaba se estendendo por sete anos inteiros, um período que só termina quando a eclosão da Primeira Guerra Mundial o arrasta de volta ao mundo real como recruta anônimo, seu destino final deixado deliberadamente em suspenso pelo autor, mas fortemente sugerido como fatal no campo de batalha.

A obra funciona simultaneamente como exemplo clássico do "Bildungsroman", o romance de formação alemão cujo modelo maior é o "Wilhelm Meister" de Goethe, e como sofisticada subversão desse próprio gênero. Como o protagonista típico dessas narrativas, o imaturo Castorp deixa sua casa e é exposto à arte, à cultura, à política, ao amor e à fragilidade humana através de uma vasta galeria de personagens que Mann concebeu explicitamente como "representantes e mensageiros de distritos intelectuais, princípios e mundos inteiros". O contraste central e mais duradouramente influente da obra se dá entre Lodovico Settembrini, humanista italiano iluminista que compara a si mesmo a Prometeu, portador da luz e da razão, defensor obstinado da democracia, da tolerância e dos valores burgueses do trabalho, e Leo Naphta, jesuíta de origem judaica convertido ao catolicismo que abraça uma forma paradoxal de totalitarismo comunista hegeliano, personagem que Mann concebeu como paródia direta do filósofo húngaro Georg Lukács. Esse embate ideológico incessante entre humanismo iluminista e radicalismo reacionário, travado através de intermináveis debates filosóficos que Castorp observa passivamente sem jamais conseguir se posicionar definitivamente entre um e outro, funciona como alegoria direta da própria fragilidade da recém-nascida República de Weimar, incapaz de escolher um rumo claro entre forças opostas que a disputam.

Diferentemente do "Bildungsroman" clássico, contudo, que normalmente culminaria com o protagonista alcançando maturidade, autoconhecimento e uma visão de mundo consolidada, "A Montanha Mágica" termina de maneira radicalmente anticlimática, com Castorp reduzido a um soldado anônimo entre milhões, sob fogo num campo de batalha qualquer da Primeira Guerra, uma subversão irônica e desesperada de todas as expectativas que o gênero havia consagrado. Antes desse desfecho, porém, o momento que Mann considerava o verdadeiro coração filosófico do romance é o célebre capítulo "Neve", no qual Castorp, perdido numa tempestade nos Alpes e à beira da morte por hipotermia, tem uma visão onírica que passa por paisagens idílicas mediterrâneas até culminar num pesadelo de crueldade extrema, o sacrifício ritual de uma criança por sacerdotisas num templo clássico. Ao despertar e refletir sobre essa experiência, Castorp chega à conclusão de que, por caridade e amor, o homem nunca deveria permitir que a morte governasse seus pensamentos, a única frase de todo o romance que Mann grifou em itálico, ainda que o próprio Castorp esqueça rapidamente essa revelação, deixando-a como episódio isolado em vez de verdadeira transformação permanente, o que reforça a ambiguidade fundamental de todo o livro quanto à capacidade humana de realmente aprender e evoluir através do sofrimento.

Vale destacar ainda a extraordinária meditação sobre a natureza subjetiva do tempo que atravessa toda a obra, claramente influenciada pela filosofia de Henri Bergson: a estrutura narrativa do romance reflete deliberadamente essa reflexão, já que os primeiros cinco capítulos, cobrindo apenas o primeiro ano de estadia de Castorp no sanatório, ocupam aproximadamente metade do texto total, enquanto os seis anos restantes, marcados pela monotonia e pela rotina que comprimem a percepção subjetiva do tempo, são narrados nos dois capítulos finais, uma assimetria formal que espelha exatamente a experiência psicológica do próprio protagonista. Soma-se a isso o uso recorrente e quase obsessivo do número sete ao longo de toda a narrativa, desde os sete anos de permanência de Castorp até os sete quartos de jantar do sanatório e as sete letras dos sobrenomes dos primos, um detalhe que reforça o caráter de conto de fadas e de iniciação mítica que Mann conscientemente emprestou à obra, comparando o próprio Castorp a um cavaleiro em busca do Graal na tradição de Parsifal, ainda que ele permaneça, como o próprio autor reconheceu, uma figura pálida e mediana, o burguês alemão médio dividido entre ideais humanistas elevados e uma propensão perigosa ao filistinismo obstinado e às ideologias radicais, retrato perturbadoramente profético do próprio destino alemão que se consumaria poucas décadas depois da publicação do romance.