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O retorno sangrento de uma lenda: por que “Kill Bill: The Whole Bloody Affair” reacende o culto ao cinema de Tarantino

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Divulgação

Quando Kill Bill chegou aos cinemas no início dos anos 2000, o projeto parecia, ao mesmo tempo, uma homenagem e um desafio. Quentin Tarantino, já consagrado por filmes como Pulp Fiction e Cães de Aluguel, decidiu mergulhar em um universo de referências que ia do cinema de artes marciais ao western italiano, passando pelos animes japoneses e pelo exploitation americano. O resultado foi um épico de vingança dividido em dois volumes, lançados em 2003 e 2004, que se tornaram instantaneamente objetos de culto. Duas décadas depois, a história retorna aos cinemas brasileiros em uma nova montagem: Kill Bill: The Whole Bloody Affair, a versão definitiva do quarto longa-metragem do diretor.

A chegada dessa edição estendida, com quase cinco horas de duração, reacende o interesse pelo filme e por tudo o que ele representou na trajetória de Tarantino. Lançada originalmente nos Estados Unidos em dezembro e com estreia prevista no Brasil para março de 2026, a nova versão reúne os dois volumes em um único épico de vingança, aproximando o público da visão original do diretor.

Para entender o impacto dessa nova edição, é preciso voltar à história de Beatrix Kiddo, personagem interpretada por Uma Thurman. Conhecida como A Noiva, ela é uma ex-assassina profissional que integrava o grupo Deadly Viper Assassination Squad, liderado por Bill, seu mentor e amante. No dia de seu casamento, grávida e tentando abandonar a vida de violência, ela é traída pelo próprio grupo e brutalmente atacada. O massacre a deixa em coma por anos. Quando desperta, sua única motivação passa a ser a vingança.

Essa premissa simples, quase arquetípica, foi transformada por Tarantino em uma narrativa fragmentada, estilizada e carregada de referências. O filme mistura duelos de espadas, tiroteios, humor negro e coreografias de luta elaboradas, criando uma experiência visual que muitos críticos consideram o exemplo mais puro do estilo do diretor. A combinação de trilha sonora marcante, estética vibrante e ritmo irregular transformou Kill Bill em uma obra singular, distante das narrativas convencionais de Hollywood.

A personagem de Uma Thurman também se tornou um ícone. Vestida com o macacão amarelo inspirado em Bruce Lee, ela entrou para o panteão das heroínas do cinema contemporâneo. Sua jornada não era apenas uma busca por vingança, mas uma travessia emocional que envolvia culpa, maternidade e redenção. A violência estilizada, quase operística, era apenas a superfície de uma história profundamente pessoal.

Quando os dois volumes foram lançados, muitos espectadores estranharam a divisão. O primeiro filme era dominado pela ação e pelas sequências de luta, especialmente o confronto com a gangue Crazy 88, em uma das cenas mais celebradas do cinema moderno. O segundo, por outro lado, assumia um tom mais introspectivo, com diálogos extensos, revelações emocionais e o encontro final entre a protagonista e Bill.

Essa estrutura, que parecia fragmentada, era na verdade consequência de uma decisão prática. O projeto original de Tarantino era um único filme de longa duração. Porém, por questões comerciais e de distribuição, o estúdio optou por dividi-lo em duas partes. Agora, duas décadas depois, The Whole Bloody Affair finalmente apresenta o filme como o diretor imaginou desde o início: um único épico de vingança com 4 horas e 31 minutos de duração.

Essa versão estendida não é apenas uma junção simples dos dois volumes. Ela inclui mudanças de ritmo e de montagem, reorganizando certos momentos-chave da narrativa. O objetivo é criar uma experiência mais fluida, que respeite o arco emocional da protagonista e o tom geral da história.

Além disso, a nova edição traz uma sequência inédita de sete minutos em anime, produzida pelo estúdio japonês Production I.G, o mesmo responsável por Ghost in the Shell. O segmento expande a história da gangue Crazy 88, aprofundando o universo dos assassinos e reforçando a influência do cinema japonês e da cultura pop oriental no projeto.

Outro aspecto importante é a ausência de cortes de censura. Na época do lançamento original, algumas cenas tiveram a violência reduzida para atender às classificações indicativas. A nova versão restaura o sangue em cores vivas e a intensidade estilizada que sempre fizeram parte da proposta estética de Tarantino.

Essa decisão reforça a identidade do filme. Kill Bill nunca foi uma obra sobre realismo. Pelo contrário, sempre assumiu o exagero como linguagem. O sangue jorrando como tinta, os duelos coreografados como danças e os cenários quase teatrais fazem parte de uma proposta que mistura homenagem e paródia.

O filme é, antes de tudo, uma colagem de influências. Tarantino sempre foi um diretor cinéfilo, conhecido por transformar referências em material autoral. Em Kill Bill, ele dialoga com o cinema de kung fu dos anos 1970, os filmes de samurai japoneses, os westerns spaghetti de Sergio Leone e até os animes violentos dos anos 1980.

Essa mistura de estilos não é apenas estética. Ela define o próprio ritmo do filme. Há momentos que lembram um western silencioso, com personagens trocando olhares antes do duelo. Em outros, a ação explode em sequências frenéticas de espadas e tiros. Essa alternância de tons faz parte da assinatura do diretor.

A nova versão chega em um momento curioso da carreira de Tarantino. O cineasta já declarou diversas vezes que pretende se aposentar após seu décimo filme. Como Kill Bill é frequentemente considerado um dos projetos mais ambiciosos de sua trajetória, o retorno dessa obra aos cinemas funciona também como uma espécie de celebração de sua filmografia.

Para os fãs, The Whole Bloody Affair representa a chance de experimentar o filme como ele sempre deveria ter sido visto: em uma única sessão, sem intervalos de anos entre os volumes. A experiência se aproxima mais de um romance épico do que de um filme tradicional, com capítulos, flashbacks e mudanças de tom.

Essa estrutura, aliás, é uma das marcas de Kill Bill. O filme não segue uma ordem cronológica. A história é contada em fragmentos, com saltos temporais e capítulos que funcionam quase como contos independentes. Essa abordagem permite que cada segmento explore um gênero diferente, do anime ao western, do drama familiar ao filme de artes marciais.

O impacto cultural de Kill Bill também é inegável. O macacão amarelo de Uma Thurman se tornou um dos figurinos mais reconhecíveis do cinema moderno. As trilhas sonoras do filme, que misturam músicas japonesas, italianas e americanas, influenciaram gerações de cineastas e músicos. As sequências de luta, especialmente o confronto contra a gangue Crazy 88, continuam sendo estudadas como exemplos de coreografia cinematográfica.

A personagem de Beatrix Kiddo também ajudou a redefinir o papel das mulheres nos filmes de ação. Ela não era apenas uma guerreira invencível, mas uma personagem emocionalmente complexa, movida por traumas, perdas e desejos de redenção. Essa combinação de vulnerabilidade e força ajudou a transformar A Noiva em um ícone cultural.

A nova versão também convida o público a revisitar o filme sob outra perspectiva. Ao assistir à história completa de uma só vez, a jornada de Beatrix se torna mais coesa e emocionalmente impactante. O que antes parecia uma coleção de episódios separados passa a funcionar como uma única narrativa, com começo, meio e fim bem definidos.

Para os cinemas, a estreia de The Whole Bloody Affair representa um evento especial. Filmes com quase cinco horas de duração são raros, especialmente em um mercado dominado por produções de ritmo acelerado e duração padrão. A experiência se aproxima mais de uma maratona cinematográfica do que de uma sessão convencional.

Essa proposta dialoga com uma tendência recente do cinema: a valorização das versões estendidas e das montagens do diretor. Em um mundo dominado pelo streaming, onde o público está acostumado a maratonar séries por horas, a ideia de um filme longo deixou de ser um obstáculo. Pelo contrário, passou a ser um atrativo para espectadores em busca de experiências mais imersivas.

No caso de Kill Bill, essa experiência tem um sabor especial. O filme sempre foi pensado como uma obra única, e sua divisão em dois volumes foi uma decisão comercial. Agora, duas décadas depois, o público finalmente pode ver a história completa como Tarantino imaginou.

A estreia brasileira, marcada para 5 de março de 2026, deve atrair tanto fãs antigos quanto novos espectadores curiosos. Para quem viu os filmes nos anos 2000, será uma oportunidade de revisitar a história sob uma nova forma. Para quem nunca assistiu, a nova versão oferece uma porta de entrada para um dos projetos mais marcantes do cinema contemporâneo.

Mais do que um simples relançamento, Kill Bill: The Whole Bloody Affair funciona como um lembrete da força autoral de Tarantino. Em uma indústria cada vez mais dominada por franquias e universos compartilhados, o filme continua sendo um exemplo de cinema pessoal, estilizado e cheio de identidade.

O retorno desse clássico aos cinemas mostra que algumas histórias não envelhecem. Elas apenas aguardam o momento certo para serem contadas novamente. E, no caso de Kill Bill, essa nova versão promete reacender o fascínio por uma das vinganças mais icônicas da história do cinema.

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