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Há filmes que se apoiam em grandes encenações, efeitos visuais e estruturas narrativas complexas para causar impacto. Outros, porém, escolhem o caminho oposto: reduzem tudo ao essencial e deixam que a força da realidade fale por si. A Voz de Hind Rajab, candidato da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026, pertence a esse segundo grupo. Em vez de apostar em grandes cenas ou construções dramáticas elaboradas, o longa escolhe uma estratégia radicalmente simples e dolorosa: transformar um pedido real de socorro no centro absoluto de sua narrativa.
O filme se inspira em um episódio verídico ocorrido durante o conflito entre Israel e Palestina. No coração da história está Hind, uma menina de cinco anos que ficou presa em um carro sob ataque em Gaza e conseguiu entrar em contato com voluntários do Crescente Vermelho. O que se ouve ao longo do filme não é apenas uma representação dramática, mas a reprodução de uma ligação real, feita em um momento de desespero e expectativa.
Essa decisão narrativa muda completamente a forma como o espectador se relaciona com a história. Não se trata de acompanhar personagens fictícios em uma trama de suspense ou drama humanitário. O que o filme oferece é o testemunho de uma voz infantil que espera por ajuda enquanto o mundo ao redor desmorona. O impacto não vem de cenas explícitas de violência, mas do simples fato de que aquela voz existe, de que aquele pedido de socorro foi real e de que a situação que o gerou continua a se repetir em diferentes formas.
A diretora Kaouther Ben Hania, conhecida por trabalhos anteriores de forte carga social, opta por confiar no peso do tema mais do que na construção formal do filme. Essa escolha é consciente e define toda a experiência. O longa se estrutura em torno do áudio da ligação e das tentativas de resgate, sem recorrer a artifícios visuais grandiosos ou a encenações que dramatizem o sofrimento de forma excessiva.
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| Imagem: Festival do rio / Divulgação |
Essa abordagem minimalista produz efeitos ambíguos. Por um lado, a proposta é devastadora em sua simplicidade. A ausência de imagens explícitas ou de dramatizações pesadas impede que o espectador se distancie emocionalmente do que está acontecendo. Não há filtros visuais, não há cortes para cenas de ação ou distrações narrativas. O que resta é a voz da criança, frágil, humana e desesperada, ocupando o centro de toda a experiência.
Por outro lado, a crítica aponta que essa mesma escolha acaba limitando o desenvolvimento formal do filme. Ao confiar quase exclusivamente no impacto do tema, a obra corre o risco de se tornar repetitiva em sua estrutura, como se o dispositivo narrativo se esgotasse antes que o filme termine. O assunto cresce em importância, mas a forma cinematográfica não evolui na mesma proporção, criando um desequilíbrio entre conteúdo e linguagem.
Mesmo assim, é difícil ignorar o impacto emocional do longa. A cada nova cena, a cada novo trecho de áudio, o espectador é retirado da distância confortável que normalmente acompanha o consumo de notícias sobre conflitos internacionais. Em vez de estatísticas, mapas ou imagens genéricas, o público se depara com a presença concreta de uma criança falando, respirando e esperando por socorro.
Essa presença vocal tem um efeito devastador. Ela elimina qualquer tentativa de neutralidade emocional, porque não há como ouvir aquela voz sem reagir. O filme não faz discursos políticos diretos, nem apresenta análises geopolíticas complexas. Sua força está justamente na simplicidade do testemunho humano. O horror não surge de imagens chocantes, mas da consciência de que aquela situação é real e continua acontecendo.
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| Imagem: Festival do rio / Divulgação |
Em muitos momentos, o longa parece mais um documento sonoro do que uma obra de ficção tradicional. A ligação telefônica não é usada como recurso dramático, mas como prova concreta de um acontecimento. O desconforto que o filme provoca não vem de escolhas estilísticas agressivas, e sim do fato de que aquela voz pertence a uma criança real, em uma situação de risco real.
A comparação com outros filmes que usam o telefone como eixo narrativo é inevitável. Obras como o dinamarquês Culpa, que também se passa em grande parte durante uma ligação, exploram o recurso como ferramenta de suspense ficcional. Em A Voz de Hind Rajab, porém, a situação é completamente diferente. Não se trata de uma construção dramática inventada, mas de uma gravação real, o que muda completamente o peso emocional da experiência.
O efeito disso é um desconforto profundo. O espectador percebe que não está assistindo a um espetáculo de entretenimento, mas a uma representação de um sofrimento concreto. A sensação de impotência se torna parte da experiência cinematográfica. Assim como os personagens do filme, que tentam ajudar mas não conseguem intervir diretamente, o público também se vê reduzido à condição de testemunha.
Essa consciência da própria impotência é um dos elementos mais perturbadores do longa. O filme não oferece soluções, nem finais reconfortantes. Ele apenas apresenta a realidade de uma situação-limite, em que todos parecem incapazes de atravessar a distância entre empatia e ação. A experiência do espectador espelha a dos personagens: todos querem ajudar, mas ninguém consegue fazer o suficiente.
Essa abordagem evita o melodrama. O filme não busca lágrimas fáceis, nem manipula o público com trilhas sonoras grandiosas ou discursos emocionais. Seu impacto é mais seco, mais contido. A dor surge da própria situação, não da forma como ela é encenada.
Essa contenção emocional pode causar estranhamento em alguns espectadores, acostumados a narrativas que conduzem as emoções de forma mais explícita. Mas é justamente essa sobriedade que torna o filme tão incômodo. Não há catarse, não há resolução emocional clara. O espectador sai da sessão carregando o peso daquilo que ouviu, sem a sensação de alívio que muitos dramas oferecem.
No contexto do cinema contemporâneo, A Voz de Hind Rajab surge como uma obra necessária. O conflito entre Israel e Palestina continua a gerar histórias, imagens e testemunhos, e o filme se insere nesse conjunto de narrativas que tentam dar rosto humano a uma tragédia coletiva.
Mas, em vez de apostar em grandes panoramas ou em histórias ficcionais ambientadas na guerra, o longa escolhe um recorte íntimo e específico. Ao acompanhar uma única voz, uma única criança, ele transforma o conflito em algo concreto e pessoal. O espectador deixa de pensar em números e estatísticas e passa a se concentrar em uma vida individual, em um pedido de ajuda que ecoa ao longo de toda a narrativa.
Essa escolha reforça o caráter político do filme, ainda que ele não se apresente como um manifesto. A simples existência da ligação, e o fato de ela ter sido necessária, já é suficiente para expor a brutalidade da situação. O filme não precisa de discursos inflamados ou de cenas chocantes para transmitir sua mensagem. A voz de Hind faz isso sozinha.
No fim das contas, A Voz de Hind Rajab é um filme que coloca o espectador diante de uma pergunta incômoda: o que significa assistir a uma tragédia em tempo real sem poder fazer nada para impedi-la? A experiência proposta pela diretora não oferece respostas fáceis. Ela apenas nos coloca na posição de testemunhas, obrigando-nos a ouvir, sentir e refletir.
Talvez por isso o filme seja descrito como uma obra necessária, ainda que imperfeita. Sua força não está na forma cinematográfica, mas no tema que carrega. Ele não busca ser um espetáculo, nem uma lição de estilo. Seu objetivo é outro: transformar uma voz esquecida em testemunho, e um pedido de socorro em memória coletiva.
Ao fazer isso, o longa prova que, às vezes, o cinema mais poderoso é aquele que simplesmente escuta. E, quando o que se escuta é a voz de uma criança em meio à guerra, o silêncio que se segue pode ser mais perturbador do que qualquer imagem.


