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Resenha crítica: O aviador (2004)

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: ImDb / Divulgação

A jornada de Howard Hughes em direção ao isolamento e à obsessão, conforme retratada na obra de Scorsese, oferece um estudo de caso clínico sobre a intersecção entre a genialidade industrial e o colapso psíquico. Sob a lente de uma linguagem jornalística interessada na profundidade da mente, percebemos que a narrativa não é apenas sobre a aviação ou o cinema, mas sobre a tentativa fútil de um homem de exercer controle absoluto sobre um universo inerentemente caótico. Hughes não é apenas um visionário; ele é o arquétipo do ícaro moderno, cujas asas não são feitas de cera, mas de um perfeccionismo patológico que o eleva a altitudes insustentáveis enquanto corrói sua estrutura interna. A cinematografia utiliza cores saturadas para espelhar a euforia das descobertas técnicas, mas à medida que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) se intensifica, a paleta visual torna-se claustrofóbica, refletindo o estreitamento dos horizontes mentais do protagonista.

Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, as sementes da desintegração de Hughes são plantadas logo na sequência de abertura. O banho ritualístico ministrado por sua mãe não é apenas uma demonstração de cuidado, mas a imposição de um medo primordial: o medo do "outro" invisível, representado pelos germes e pela contaminação. Esse trauma infantil atua como o alicerce de uma personalidade paranoica. Na vida adulta, esse comportamento manifesta-se em uma busca incessante pela pureza, seja na aerodinâmica perfeita de suas aeronaves ou na limpeza obsessiva de suas mãos. A reportagem sobre sua vida não pode ignorar que a mesma força motriz que o levou a revolucionar a TWA e a produzir filmes como Hell's Angels — o desejo de eliminar qualquer imperfeição — foi o motor de sua ruína pessoal.

Imagem: ImDb / Divulgação

A relação de Hughes com o espaço e a tecnologia serve como uma compensação para sua fragilidade emocional. Quando ele está no cockpit, o mundo é mensurável, governado por leis da física e instrumentos de precisão. No entanto, em terra firme, nas interações sociais e nos bastidores de Hollywood, as variáveis são humanas e imprevisíveis. O jornalismo crítico deve notar que o filme utiliza o ruído dos motores e a grandiosidade dos hangares para abafar o silêncio ensurdecedor de sua solidão. A incapacidade de Hughes em lidar com o "sujo", o imprevisível e o orgânico o empurra para um estado de dissociação. Ele tenta mecanizar a própria existência, estabelecendo protocolos rígidos para suas refeições e comunicações, em uma tentativa desesperada de manter o ego intacto frente à invasão da angústia.

A dinâmica entre Hughes e as figuras femininas da época, como Katharine Hepburn, revela o contraste entre a vitalidade intelectual dela e a rigidez estrutural dele. Enquanto Hepburn representa a liberdade e a aceitação das idiossincrasias humanas, Hughes vê a vulnerabilidade como uma falha de engenharia. A ruptura entre eles não é apenas romântica, é filosófica. Ele não consegue habitar o mundo da espontaneidade. Para ele, o amor é um sistema que ele não consegue calibrar. Essa incapacidade de conexão profunda alimenta o ciclo de isolamento que o levará, eventualmente, a trancar-se em salas de exibição escuras, cercado por garrafas de urina e o brilho de filmes que ele repete incessantemente. A repetição, sintoma clássico do TOC, torna-se sua única forma de segurança.

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A luta contra a Pan Am e o senador Brewster funciona como o gatilho externo para o agravamento de seu estado clínico. A pressão do escrutínio público atua como um microscópio que revela suas fissuras. No tribunal, Hughes atinge um momento de clareza heróica, mas é um esforço que consome seus últimos resquícios de sanidade funcional. O triunfo político é, paradoxalmente, o início de sua retirada final da realidade. A linguagem jornalística observa que, para o público, ele venceu o sistema; para a psicologia, ele perdeu a batalha pela própria mente. A autonomia que ele tanto buscou através do dinheiro e do poder transformou-se em uma prisão solitária de autossuficiência delirante.

O clímax psicológico do filme não reside em uma explosão, mas no sussurro repetitivo de "o caminho do futuro". Essa frase, carregada de uma ironia trágica, simboliza o aprisionamento no loop temporal da obsessão. O futuro, para Hughes, deixou de ser um horizonte de inovação para se tornar uma repetição infinita de um comando que o cérebro não consegue processar. Scorsese não nos oferece uma saída redentora, mas um olhar honesto sobre como a mente pode se tornar o seu próprio carcereiro. O gênio, despido de sua armadura tecnológica, resta como uma criança aterrorizada em um quarto escuro, tentando desesperadamente encontrar uma ordem em um mundo que ele não consegue mais higienizar.

A ascensão aos céus em aeronaves de design cada vez mais agressivo funciona, no universo psíquico de Howard Hughes, como uma tentativa de transcendência da carne. O cockpit não é apenas um posto de comando; é um santuário de isolamento hermético onde a contaminação do mundo terrestre não pode alcançá-lo. O jornalismo de profundidade, ao investigar essa faceta, compreende que a aviação para Hughes era a materialização de uma fantasia de onipotência. Enquanto ele está no ar, as leis que regem a gravidade e o risco são as únicas que importam, substituindo a complexidade das leis sociais e das expectativas alheias. Voar é o ato máximo de controle em um cenário onde qualquer erro de cálculo resulta em aniquilação, uma metáfora perfeita para sua própria estrutura mental, que opera constantemente no limite entre o funcionamento de alta performance e o colapso catastrófico.

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A busca pelo recorde de velocidade e pela construção do H-4 Hercules, o "Spruce Goose", revela uma obsessão com o gigantismo que a psicologia frequentemente associa à compensação de uma fragilidade interna latente. Quanto mais vasta e imponente a máquina, mais ela serve como uma extensão de um ego que se sente ameaçado pela insignificância e pela vulnerabilidade biológica. O filme detalha meticulosamente como cada rebite, cada polegada de madeira ou metal, deve passar pelo crivo de um olhar que não admite a falha. Essa hipervigilância, embora tenha impulsionado a engenharia aeronáutica a patamares inéditos, é o sintoma externo de uma mente que não consegue mais filtrar o que é relevante do que é ruído. Para Hughes, um grão de poeira na asa de um avião possui o mesmo peso catastrófico que uma falha no motor, uma distorção cognitiva que o jornalismo técnico-científico identifica como a perda da hierarquia de importância dos estímulos.

O acidente com o XF-11 em Beverly Hills marca o ponto de inflexão onde a barreira entre o homem e a máquina é violentamente rompida. A destruição física do protagonista atua como um espelho da fragmentação de sua psique. A partir desse momento, a dor física crônica torna-se um combustível para o agravamento de seu quadro obsessivo-compulsivo. A linguagem jornalística deve enfatizar que o trauma não foi apenas orgânico, mas simbólico: a máquina perfeita falhou, e com ela, a ilusão de invulnerabilidade de Hughes. O isolamento subsequente em sua sala de projeção é a substituição do voo real pelo voo simulado da imagem cinematográfica. Incapaz de pilotar no mundo físico, ele se torna o espectador de seus próprios sonhos e obsessões, repetindo filmes e sequências em um ciclo infinito que visa estabilizar uma realidade que está escorrendo por seus dedos.

A aviação também representa a luta de Hughes contra a entropia. Em terra, as coisas apodrecem, as pessoas mentem e os micróbios proliferam. No ar, a baixas temperaturas e altas velocidades, existe uma clareza cristalina que ele tenta desesperadamente importar para sua vida cotidiana. No entanto, a tragédia reside no fato de que o ambiente controlado de um avião não é sustentável na vida social. Quando ele tenta aplicar a mesma lógica de precisão às suas relações com Ava Gardner ou com seus subordinados, o resultado é o afastamento e o terror. O aviador, em sua essência, é um ser solitário. O filme capta essa solidão não como uma escolha romântica, mas como uma consequência inevitável de uma mente que vê o contato humano como um risco de infecção, tanto física quanto emocional.

A análise da estrutura narrativa mostra que a aviação é o único momento em que Hughes parece verdadeiramente integrado. Nos céus, seu TOC parece encontrar um propósito funcional; a necessidade de verificar instrumentos repetidamente é, no voo, uma virtude de segurança. Fora dele, é uma patologia incapacitante. Essa dualidade é o que torna a figura de Hughes tão fascinante para a crônica psicológica: a mesma característica que o torna um gênio da indústria o torna um inválido social. O "aviador" é a máscara que permite ao homem doente operar no mundo, mas é uma máscara pesada demais para ser sustentada indefinidamente.

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A transição para o próximo estágio de sua vida envolve a completa interiorização desse voo. O avião torna-se uma cápsula, um útero tecnológico onde ele se refugia para evitar o confronto com a própria decadência. O jornalismo observador nota que, no final das contas, Hughes não estava fugindo para lugar nenhum; ele estava tentando alcançar um estado de purificação absoluta que só existe no vácuo. A aviação, portanto, deixa de ser um meio de transporte e torna-se um fim em si mesmo: a busca por um lugar onde o silêncio e a ordem sejam absolutos, longe da "sujeira" inerente à condição humana.

A imersão de Howard Hughes no universo de Hollywood não deve ser interpretada apenas como o capricho de um herdeiro excêntrico, mas como a extensão de sua necessidade de fabricar uma realidade sob medida. No jornalismo cultural de viés psicológico, compreende-se que o cinema, para Hughes, era o laboratório definitivo de manipulação simbólica. Se no cockpit ele controlava a física, no set de filmagens de Hell's Angels ele buscava controlar o tempo, a luz e a própria percepção do espectador. A obsessão com as sequências aéreas do filme, que consumiram anos de produção e fortunas pessoais, revela um padrão de fixação onde a obra nunca está terminada porque a perfeição é um horizonte móvel. Para a mente obsessiva, o "suficiente" é um conceito inexistente; apenas o absoluto é tolerável.

A relação de Hughes com as estrelas de cinema da época, como Jean Harlow e Ava Gardner, ilustra uma tentativa de catalogar a beleza e o comportamento humano como se fossem componentes de engenharia. O texto jornalístico precisa destacar que Hughes não buscava parcerias, mas sim a posse de ícones que pudessem ser moldados por sua vontade. O cinema permitia que ele transformasse mulheres reais em imagens bidimensionais controláveis, protegidas por uma tela que impedia o contato bacteriológico e emocional direto. Entretanto, Hollywood é, por natureza, o reino do efêmero e do imprevisível, o que gerava um conflito constante com sua estrutura mental rígida. A indústria cinematográfica servia como um espelho de suas próprias flutuações de humor: da grandiosidade das estreias mundiais ao isolamento paranoico nas salas de edição.

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Um aspecto fundamental da análise comportamental desse período é o uso do cinema como mecanismo de defesa. Quando Hughes se refugiava em sessões privadas que duravam dias, ele estava praticando uma forma de regressão. O projetor tornava-se o único mediador entre ele e o mundo. A luz que emanava da tela era a única que ele permitia entrar em seu campo visual, filtrando a complexidade da vida exterior em narrativas lineares que ele podia repetir à exaustão. No jornalismo de análise teórica, esse comportamento é visto como a substituição da vivência pela observação. Hughes parou de viver a própria história para se tornar o editor obsessivo de uma versão idealizada da realidade, onde ele poderia cortar os erros e as "sujeiras" do cotidiano.

A produção de The Outlaw e a batalha com os censores por causa do decote de Jane Russell revelam outra faceta de sua psicopatologia: o deslocamento do desejo para o detalhe técnico. Hughes chegou a desenhar um sutiã baseado em princípios de aerodinâmica, provando que, para ele, até a sexualidade e o corpo humano precisavam ser mediados pela lógica da máquina. O escrutínio público sobre essa fixação era visto por ele não como uma crítica moral, mas como uma interferência em sua precisão científica. A linguagem técnica jornalística observa aqui a manifestação de um fetiche pelo controle: o objeto do desejo não é a pessoa, mas a forma geométrica e a funcionalidade estética que ela representa.

Hollywood também foi o palco onde a paranoia de Hughes encontrou um terreno fértil. A vigilância constante que ele exercia sobre suas contratadas, utilizando detetives particulares e sistemas de escuta, antecipava o colapso que o levaria ao isolamento total. O que começou como um interesse pela produção cinematográfica degenerou em uma rede de monitoramento compulsivo. Do ponto de vista psicológico, esse comportamento reflete a insegurança de um ego que só se sente seguro quando possui o monopólio da informação. Ele via conspirações em cada sombra dos estúdios, e essa desconfiança crônica alimentava o ciclo de ansiedade que corroía sua capacidade de julgamento.

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Por fim, a transição da luz dos holofotes para a escuridão absoluta das salas de projeção marca o fim da fase produtiva de Hughes em Hollywood. O cinema deixou de ser uma ferramenta de conquista para tornar-se uma cápsula de sobrevivência. O homem que queria que o mundo inteiro o assistisse acabou por fechar as cortinas, preferindo a companhia de fantasmas de celulóide às pessoas de carne e osso. O jornalismo de análise deve concluir que Hollywood foi, para Hughes, tanto o auge de sua expressão criativa quanto o catalisador de sua retirada final da sociedade, provando que o poder de criar mundos na tela não garante a capacidade de habitar o mundo real.

O colapso definitivo da funcionalidade de Howard Hughes é um dos retratos mais viscerais da psiquiatria no cinema contemporâneo. No jornalismo de análise teórica, esse estágio é compreendido como a vitória da patologia sobre a vontade. O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), alimentado por uma paranoia crescente, transmuta o homem de negócios em um prisioneiro de seus próprios rituais de purificação. O isolamento em ambientes controlados, a recusa em ser tocado e a repetição incessante de frases são manifestações de uma mente que, ao tentar eliminar qualquer risco de contaminação externa, acaba por sufocar a própria consciência. O filme utiliza o som e a montagem para criar uma experiência sensorial claustrofóbica, onde o espectador é forçado a habitar o eco das obsessões de Hughes, sentindo o peso de cada repetição verbal como uma sentença de prisão.

A degradação física de Hughes, contrastada com sua imensa fortuna, oferece uma crítica pungente à crença de que o poder material pode comprar a sanidade. Sob o olhar da psicologia clínica, o que observamos é a desintegração do ego frente a um superego tirânico, herdado de uma infância marcada pelo medo higienista. As garrafas de urina organizadas e o medo de tocar em maçanetas não são meras excentricidades, mas tentativas desesperadas de manter uma ordem interna em um momento em que as fronteiras entre o eu e o mundo se tornaram perigosamente porosas. A linguagem jornalística deve pontuar que o império construído por Hughes continuava a crescer enquanto o homem por trás dele encolhia, refugiado em quartos escuros, nu e cercado por lenços de papel que serviam como barreiras estéreis contra uma realidade que ele não conseguia mais processar.

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No desfecho da obra, a persistência do lema "o caminho do futuro" soa como um epitáfio trágico para uma vida de inovações sem precedentes. A ironia reside no fato de que o homem que acelerou o progresso da aviação e do cinema terminou estagnado em um loop temporal privado. A análise jornalística conclui que o filme não é apenas uma biografia de um industrial, mas um tratado sobre a fragilidade da razão humana. Scorsese nos mostra que a mesma centelha de obsessão que permite a um homem construir o impossível é a mesma que pode incendiá-lo por dentro. O legado de Hughes, portanto, permanece como um monumento à complexidade da psique: uma mistura indissociável de visão profética e sofrimento paralisante, onde o triunfo tecnológico nunca foi capaz de silenciar os demônios do isolamento.

A jornada de Howard Hughes, conforme cristalizada em tela, encerra-se não com uma resposta, mas com uma interrogação sobre os limites da autonomia individual. No campo da saúde mental e da crônica social, sua história serve como um alerta sobre os perigos da desumanização do trabalho e do isolamento do afeto. Ele conquistou os céus e as telas, mas foi derrotado por um inimigo invisível que habitava suas próprias sinapses. Ao final, resta a imagem de um gigante que, em sua busca frenética pela pureza e pelo controle, acabou por se tornar a própria sombra do futuro que ajudou a criar, deixando para a história o registro de uma mente brilhante que se perdeu na imensidão de seu próprio vazio interior.

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