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Entrevista com Rô Del Carlo: "O Ano que Tudo Mudou"

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: Acervo pessoal / Divulgação


Nesta conversa exclusiva, mergulhamos no universo de "O Ano que Tudo Mudou", a nova obra de Rô Del Carlo. Longe de ser apenas uma narrativa sobre o ambiente escolar tradicional, o livro é descrito pela autora como uma "escola de sentimentos intensos", onde o foco sai dos boletins e se volta para as complexas descobertas da juventude. A trama acompanha a jornada de Humberto, um adolescente que enfrenta os desafios de uma mudança de cidade, as pressões familiares e o peso das escolhas de seus pais. Entre dramas, comédias e o conceito marcante dos "entrelaçados", Rô Del Carlo nos transporta para uma Acácia nostálgica, inspirada em referências dos anos 80 e 90, onde amizades improváveis e encontros inesperados — como o com a enigmática Marina — forçam o amadurecimento "na marra".

A trama acompanha a jornada de Humberto, um adolescente que enfrenta os desafios de uma mudança de cidade, as pressões familiares e o peso das escolhas de seus pais. Entre dramas, comédias e o conceito marcante dos "entrelaçados", Rô Del Carlo nos transporta para uma Acácia nostálgica, inspirada em referências dos anos 80 e 90, onde amizades improváveis e encontros inesperados — como o com a enigmática Marina — forçam o amadurecimento "na marra".

REDAÇÃO: Rô, o livro nos convida a voltar para a "escola dos sentimentos intensos" e não a dos boletins. Qual foi a sua maior motivação para revisitar esse universo da adolescência?

RÔ DEL CARLO: O livro é uma volta ao passado. Com um formato mais voltado para o drama e a comédia, sem muitas disputas ou coisas semelhantes, é quase uma realidade. A escolha do tema, o personagem central e tudo que o envolve compõem quase um diário contando uma passagem da vida de um adolescente complicado que queria resgatar a relação com a mãe, mas que acabou "fugindo" das regras.


REDAÇÃO: Humberto, o protagonista, lida com as expectativas da família e as inseguranças da idade. O quanto de "Humberto" existe nos jovens que você observa hoje em dia?

RÔ DEL CARLO: O personagem, apesar da pouca idade, sofre com algumas pressões — não por motivos próprios, mas pelas consequências das escolhas de seus pais. Na família, ninguém o criou como uma vítima e, assim, ele segue com a vida, a rotina escolar e os privilégios da idade. Na verdade, não sei se existem muitos "Humbertos" por aí.


REDAÇÃO: Marina é descrita como uma presença que desperta perguntas sem respostas. Ela simboliza aquele tipo de encontro que nos força a amadurecer "na marra"?

RÔ DEL CARLO: A Marina não deveria existir na vida do personagem; não estava nos planos da sua estadia em Acácia, mas acaba sendo um "sim". É um amadurecimento na vida do rapaz, que entra nos velhos dilemas de se aproximar e, depois, permanecer.

Imagem: Arte digital 

REDAÇÃO: O título sugere uma divisão clara entre o "antes" e o "depois". Na sua vida pessoal, qual foi o ano que mudou tudo para você?

RÔ DEL CARLO: Olha, eu poderia dizer que foi 2008, o ano em que me casei, pois um dia olhamos no calendário e decidimos: "É este ano!". No entanto, tratando-se do livro, que é nostálgico e fala das expectativas e medos da adolescência, direi que foi 1994. Foi o ano em que entrei na quinta série do ensino fundamental e sentia aquela expectativa de usar canetas esferográficas e cadernos de dez ou vinte matérias! Era o máximo!

                                                             

REDAÇÃO: Mudança de casa e de escola são eventos traumáticos para muitos jovens. Por que escolher esses gatilhos para iniciar a jornada do Humberto?

RÔ DEL CARLO: Concordo, pois passei por algo semelhante e tive, sim, o que hoje chamamos de gatilhos. No caso do personagem, deixei as coisas fluírem melhor. Ele não é tão seguro de si, mas, no caso do Humberto, a sorte sorriu mais.         


REDAÇÃO: "Os entrelaçados" aparece como um conceito forte na sinopse. Você acredita que algumas pessoas entram em nossas vidas apenas para bagunçar nossa estrutura e nos reconstruir?

RÔ DEL CARLO: Acredito que tudo faz parte do crescer, de saber lidar com o outro e com as próprias frustrações. No decorrer da trama, Humberto e seus novos amigos lidam com diversas pessoas que vivem em outras sintonias. Como o tema também é sobre a amizade, ficam os fios emaranhados onde sobram apenas eles: "os entrelaçados".


REDAÇÃO: Como foi o processo de escrita a "quatro mãos" (ou sob dois nomes) e como você equilibra a sensibilidade feminina ao dar voz aos dilemas de um protagonista masculino?

RÔ DEL CARLO: Em alguns dos meus livros, deixo o leitor saber o ponto de vista do personagem masculino; fiz isso no penúltimo capítulo do livro Um Amor de Aluguel. Agora, O Ano que Tudo Mudou foi mais desafiador porque é todo visto por ele. Muitas vezes, tive que parar e pensar para qual direção ele estava indo: se seguiria o óbvio ou se seria mais paciente.


REDAÇÃO: Como a literatura pode ajudar o adolescente a entender que seus medos são, muitas vezes, proporcionais ao seu crescimento?

RÔ DEL CARLO: Dizem que a vida é uma repetição, mas, no caso da adolescência, não acredito nessa ideia. Nessa fase, você não é mais a criança adulada pela família, nem adulto o suficiente para decidir. Você vive nessa corda bamba. Além disso, surgem a rebeldia e os sonhos que alguns deixam pelo caminho. Por fim, é uma formação de destino.


REDAÇÃO: Qual feedback mais te emocionou até agora sobre a história de Humberto e Marina?

RÔ DEL CARLO: O livro ainda é novo na Amazon, mas as avaliações têm sido positivas. Fiquei feliz que minha irmã leu e riu muito com os comentários dela, que mudavam ao passar das páginas; agora ela aguarda o livro da Marina. Também gostei de uma mensagem de uma colega que foi em busca do sorvete citado no livro, pois, como vivenciou os anos 80 e 90, sentiu saudades daquele tempo.


REDAÇÃO: Marina possui um "silêncio cheio de significado". Foi difícil construir uma personagem que se comunica tanto através do que não é dito?

RÔ DEL CARLO: O encontro de Humberto com Marina já é cheio de significados, pois ela estava apenas sobrevivendo aos seus dias. A personagem é mais complexa que ele. O leitor pode pensar: "Que menina cabeça-dura!", mas depois tudo fica esclarecido.


REDAÇÃO: Qual o papel dos amigos nesse período de transição onde a família parece não entender o que estamos passando?

RÔ DEL CARLO: Eles foram fundamentais na caminhada do Humberto, tornando a estadia em Acácia menos pesada. Cada um tinha suas características e problemas. O início é quase igual a tudo: o vizinho, o colega da mesa ao lado, o colega desafiador que tem os mesmos gostos... Sem esquecer das amizades femininas, que são cativantes e corajosas à sua maneira.


REDAÇÃO: Você busca um estilo de escrita mais cinematográfico ou foca na introspecção dos personagens?

RÔ DEL CARLO: Particularmente, gosto dos dois estilos. Até gostaria que fosse mais cinematográfico, mas acredito que meu foco acaba sendo nos personagens e em seu mundo.


REDAÇÃO: Quais foram as suas referências literárias ou cinematográficas para compor esta obra?

RÔ DEL CARLO: Nos livros: A Marca de uma Lágrima, de Pedro Bandeira, e Confissões de Adolescente, de Maria Mariana. Nos filmes: Conta Comigo, Código de Honra, Agora e Sempre, Kids e Submarine. Algumas músicas do Pearl Jam e do Tom Petty também me ajudaram, por alguma razão, a criar os "Entrelaçados".


REDAÇÃO: Qual cena foi a mais prazerosa de escrever e qual mais exigiu emocionalmente?

RÔ DEL CARLO: Há uma boa ligação entre Humberto e Gustavo, então as conversas dos dois foram divertidas de escrever, principalmente quando falavam sobre a Marina. Os diálogos com Bernardo (o centrado da turma) e Leonardo (o transgressor) também foram interessantes de costurar. Agora, o que mexeu comigo foi a relação do Humberto com o avô Vitório. Havia uma tensão e um autoritarismo que exigiam calma para não "pesar a mão" na escrita.


REDAÇÃO: Em que momento o Humberto para de apenas existir e passa a realmente viver a própria história?

RÔ DEL CARLO: O momento da "virada de chave" é quando ele decide pagar o preço para estar ao lado de Marina.


REDAÇÃO: Você acredita que a dor é um ingrediente indispensável para o amadurecimento real?

RÔ DEL CARLO: Para o personagem, sim, pois é na ficção que a mão do escritor conduz a dor; na vida real, pode não ser bem assim. No caso do Humberto, o conflito vem desde a infância, com a figura de um pai que muitas vezes estava presente apenas por figuração ou interesse. As descobertas são feitas nas entrelinhas.


REDAÇÃO: Sobre a trilha sonora, quais bandas ou músicas acompanhariam a leitura?

RÔ DEL CARLO: Eu fiz uma lista no Spotify e no Deezer (o link está no eBook). No livro há várias citações, muitas de Rock, pois o Humberto toca bateria. Todas são dos anos 80 e 90, músicas que tocaram nas rádios ou ficaram "escondidas" no lado B.


REDAÇÃO: Qual o principal conselho que você daria para o Humberto no início do livro?

RÔ DEL CARLO: O mesmo conselho que o Leonardo deu a ele após uma prova difícil da turma.


REDAÇÃO: Teremos uma continuação para os "entrelaçados"?

RÔ DEL CARLO: Em breve teremos o segundo livro, contando a história da Marina. O título (ainda não sei se definitivo ou provisório) é Os Dias que Nunca Esqueceremos.


REDAÇÃO: O que você espera que o leitor sinta ao ler a última frase do livro

RÔ DEL CARLO: Espero que ele termine, respire e sorria! 

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