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Vitor Zindacta fala sobre seu novo romance LGBT 'Linha de colisão'

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM

No panteão da literatura contemporânea que ousa tocar nas feridas abertas da masculinidade hegemônica, poucos cenários são tão hostis quanto o vestiário da National Football League (NFL). É neste ambiente de testosterona monetizada e violência tática que o autor Vitor Zindacta situa sua mais recente e visceral obra, "Linha de Colisão". Longe dos clichês do romance desportivo convencional, Zindacta entrega um thriller psicológico que opera na frequência da dor física e do silêncio ensurdecedor.

O romance nos apresenta Liam "The Wall" Davis, um linebacker de elite cuja carreira é construída sobre a capacidade de destruir oponentes e proteger segredos. Em rota de colisão está Evan Hayes, um jornalista esportivo cujo cinismo serve como bisturi para dissecar a mitologia do herói americano. O que se desenrola não é apenas uma história de amor proibido, mas um estudo técnico sobre o custo humano da performance — tanto atlética quanto de gênero — em uma indústria que exige que seus gladiadores sejam feitos de aço, e não de carne.

"Linha de Colisão" é uma obra que transpira a urgência de um cronômetro zerando. Zindacta utiliza a estrutura rígida de uma temporada de futebol americano para criar uma panela de pressão onde a privacidade é o inimigo e a vulnerabilidade é uma falta técnica. A narrativa não pede permissão para entrar na mente de seus protagonistas; ela a invade com a força de um tackle, expondo o medo paralisante que reside sob a armadura de milhões de dólares.

Nesta entrevista exclusiva, conversamos com o autor sobre a arquitetura narrativa de seu novo livro, a decisão de desmantelar o arquétipo do "macho alfa" e a pesquisa técnica necessária para transformar jogadas defensivas em metáforas de repressão emocional.


REDAÇÃO: Vitor, em "Linha de Colisão", você abandona o cenário colegial de suas obras anteriores para entrar na arena multimilionária da NFL. Qual foi o imperativo narrativo para essa mudança de escala e como a "hipermasculinidade" do futebol americano serviu de alicerce para a tensão central do livro?

VITOR ZINDACTA: A mudança foi uma necessidade estrutural. O ensino médio é sobre descoberta; a NFL é sobre sobrevivência e performance. Eu precisava de um ambiente onde a masculinidade não fosse apenas uma característica social, mas uma commodity, um produto vendido em horário nobre. O futebol americano é o coliseu moderno. Ao colocar Liam Davis, um homem cuja carreira depende de sua violência física, dentro de um armário de vidro, eu criei uma panela de pressão onde a "linha de colisão" deixa de ser apenas a scrimmage line e passa a ser o ponto de fratura entre quem ele é e quem ele é pago para ser.

REDAÇÃO: Liam "The Wall" Davis é construído como uma fortaleza impenetrável. Literariamente, como você trabalhou a dicotomia entre a brutalidade física dele em campo e a fragilidade emocional que ele esconde em quartos de hotel?

VITOR ZINDACTA: O desafio técnico foi evitar que Liam se tornasse uma caricatura. A brutalidade dele é uma linguagem. Quando ele derruba um quarterback adversário, ele está exercendo controle, algo que ele não tem em sua vida pessoal. A escrita reflete isso: as cenas de jogo são descritas com verbos de ação, frases curtas, violentas. As cenas com Evan são mais lentas, sensoriais, focadas no silêncio. A fragilidade de Liam não está na fraqueza, mas na exaustão de sustentar a armadura.

REDAÇÃO: Evan Hayes, o jornalista, representa o olhar externo, o "panóptico" da mídia. Como você equilibrou a ética jornalística dele com o desejo pessoal, evitando o tropo do "repórter predador"?

VITOR ZINDACTA: Evan é o antagonista moral de si mesmo. Ele não é um predador; ele é um analista. Ele começa o livro querendo desvendar o jogador, não o homem. A virada acontece quando ele percebe que expor Liam seria destruir a única coisa verdadeira que ele encontrou naquele meio artificial. A tensão não é apenas sexual; é epistemológica. É sobre o que temos o direito de saber sobre as figuras públicas.

REDAÇÃO: A química entre os protagonistas é descrita como um "jogo de gato e rato de alto risco". Em termos de pacing (ritmo), como você manteve essa tensão sem que ela se resolvesse ou se dissipasse prematuramente antes do Super Bowl?

VITOR ZINDACTA: Através da contenção. Em um romance convencional, o clímax sexual libera a tensão. Em "Linha de Colisão", o sexo aumenta o perigo. Cada encontro clandestino eleva a aposta. Eu usei o calendário da temporada da NFL como um metrônomo. À medida que os playoffs avançam, o espaço para o erro diminui. A tensão é mantida não pelo que eles fazem, mas pelo medo constante do que podem perder.

REDAÇÃO: Há uma crítica contundente à mercantilização dos atletas. Em determinado momento, Liam se refere ao próprio corpo como uma "máquina alugada". Isso é uma crítica direta à indústria do esporte?

VITOR ZINDACTA: Absolutamente. A NFL, e o esporte de elite em geral, moem carne humana em troca de entretenimento. Liam é um ativo depreciável. O fato de ele ser gay adiciona uma camada de risco de mercado. Se ele sai do armário, ele não perde apenas a privacidade; ele perde valor de patrocínio, ele se torna um "risco de vestiário". O livro examina o custo humano desse capitalismo atlético.

REDAÇÃO: O título "Linha de Colisão" sugere impacto físico, mas o livro é repleto de colisões ideológicas. Qual é a colisão mais fatal na história: a dos corpos em campo ou a da verdade contra a imagem pública?

VITOR ZINDACTA: A colisão física é recuperável; ossos colam, músculos regeneram. A colisão fatal é a da identidade. Quando a imagem pública de Liam (o Deus do Estádio) colide com sua necessidade humana de conexão (com Evan), não há sobreviventes. Uma das personas tem que morrer. O livro é o registro desse óbito e do renascimento subsequente.

REDAÇÃO: Você optou por não dar a eles um final "fácil" dentro do sistema. A decisão de Liam de abandonar a carreira no auge foi planejada desde o início ou foi uma exigência da evolução do personagem?

VITOR ZINDACTA: Foi inevitável. Se Liam ficasse na NFL e se assumisse, a história se tornaria sobre a luta dele para ser aceito pelo sistema, tornando-se um "ativista". Eu não queria isso. Eu queria que fosse sobre ele escolhendo a si mesmo acima do sistema. Sair de campo antes do cronômetro zerar é o ato final de autonomia. É ele dizendo: "Vocês não podem me demitir, eu me demito".

REDAÇÃO: A narrativa utiliza muitos termos técnicos de futebol americano. Como foi o processo de pesquisa para garantir que a descrição das jogadas soasse autêntica para os fãs do esporte, sem alienar os leitores de romance?

VITOR ZINDACTA: Foi uma imersão tática. Estudei playbooks, assisti a horas de filmes de jogos defensivos. Eu precisava que o leitor sentisse o impacto de um blitz ou a complexidade de uma cobertura em zona. Mas a técnica serve à emoção. Quando descrevo uma jogada, estou descrevendo o estado mental de Liam: o foco, a visão de túnel, a dor. O jargão técnico é a poesia da violência dele.

REDAÇÃO: O medo do "outing" (ser exposto forçosamente) permeia a obra como um thriller. Como você trabalhou a atmosfera de paranoia que cerca o casal?

VITOR ZINDACTA: A paranoia é construída nos detalhes sensoriais. O som de um obturador de câmera, o flash de um celular, o silêncio repentino em uma sala quando eles entram. Eu queria que o leitor sentisse a claustrofobia de ser uma figura pública escondendo um segredo. Eles nunca estão sozinhos, mesmo quando estão sozinhos. O mundo está sempre assistindo, esperando um deslize.

REDAÇÃO: Evan Hayes é cínico, mas acaba sendo o catalisador da libertação de Liam. Podemos dizer que Evan é o verdadeiro herói da história, ou ele é apenas o facilitador?

VITOR ZINDACTA: Evan é o espelho. Ele obriga Liam a olhar para si mesmo sem o capacete. Ele não é o herói salvador; Liam se salva sozinho. Mas Evan é a prova de conceito. Ele é a evidência de que existe uma vida possível fora da arena, uma vida onde a vulnerabilidade não é punida com uma derrota.

REDAÇÃO: A capa do livro, com o capacete abandonado, é emblemática. Qual a importância da semiótica visual na construção da expectativa do leitor para esta obra?

VITOR ZINDACTA: A capa é um spoiler emocional. Ela diz ao leitor que este não é um livro sobre ganhar o Super Bowl. É um livro sobre o que acontece quando você tira a armadura. O capacete no chão representa a abdicação. É uma imagem de deserção, não de conquista esportiva.

REDAÇÃO: As cenas de sexo são descritas como viscerais e urgentes. Qual a função narrativa dessa intensidade erótica na construção do arco dos personagens?

VITOR ZINDACTA: O sexo é o único momento em que Liam não precisa se segurar. Em campo, ele canaliza a energia para a destruição; com Evan, ele canaliza para a conexão. A urgência vem do fato de que cada encontro pode ser o último. Não é apenas prazer; é uma reivindicação de humanidade. É Liam retomando a posse do próprio corpo, que até então pertencia à franquia.

REDAÇÃO: Você aborda a homofobia internalizada de Liam. Como foi escrever o processo de desconstrução desse preconceito contra si mesmo?

VITOR ZINDACTA: Foi doloroso. Liam odeia a parte de si que ama Evan porque essa parte ameaça tudo o que ele construiu. A desconstrução não acontece através de discursos bonitos, mas através da exaustão. Chega um ponto em que o ódio a si mesmo consome mais energia do que ele tem disponível. Ele se rende ao amor por cansaço de lutar contra sua natureza.

REDAÇÃO: O livro toca na questão da saúde mental dos atletas. Isso foi uma resposta consciente às discussões atuais sobre CTE (encefalopatia traumática crônica) e burnout no esporte?

VITOR ZINDACTA: Sim. O corpo de Liam é um mapa de dores crônicas. Ele vive à base de analgésicos e gelo. Ignorar isso seria romantizar o esporte. A saúde mental dele está por um fio, segurada apenas pela rotina e pela repressão. O livro argumenta que o custo psicológico da excelência é, muitas vezes, a sanidade.

REDAÇÃO: A relação de Liam com o técnico e os companheiros de time é complexa. Como você evitou transformar todos os coadjuvantes em vilões unidimensionais?

VITOR ZINDACTA: A vilania na vida real é sistêmica, não individual. Os companheiros de time não são monstros; eles são produtos do mesmo sistema que moldou Liam. Eles reproduzem a toxicidade porque é a linguagem que aprenderam. Mostrá-los como humanos falhos, e não apenas como antagonistas, torna a traição do sistema ainda mais trágica.

REDAÇÃO: O diálogo final entre Liam e Evan é sobre "coragem". Como você redefine o conceito de coragem masculina neste livro?

VITOR ZINDACTA: A definição tradicional de coragem masculina é suportar a dor em silêncio e conquistar territórios. Eu proponho uma redefinição: coragem é a capacidade de ser vulnerável e de renunciar ao poder em nome da integridade. Sair da NFL exige mais "testosterona", no sentido figurado de bravura, do que ganhar um anel de campeonato.

REDAÇÃO: O estilo de escrita em "Linha de Colisão" parece mais "seco" e direto do que em "A Teoria do Caos". Essa mudança estilística foi deliberada?

VITOR ZINDACTA: Completamente. "A Teoria do Caos" era barroco, emocional, adolescente. "Linha de Colisão" é adulto, profissional, frio. A prosa imita a eficiência de um relatório de jogo ou de uma notícia de jornal. Não há espaço para floreios quando se está operando em modo de sobrevivência.

REDAÇÃO: O livro deixa uma ponta solta sobre o futuro profissional de Liam. Por que não mostrar o "depois" detalhadamente?

VITOR ZINDACTA: Porque o "depois" é irrelevante para a tese do livro. O livro é sobre a decisão. O que ele faz depois — se vira comentarista, técnico ou abre uma padaria — não importa. O que importa é que ele é livre para escolher. O final aberto é a representação dessa liberdade não roteirizada.

REDAÇÃO: Qual a mensagem que você espera que o público heterossexual, especificamente os fãs de esporte, tire dessa leitura?

VITOR ZINDACTA: Que os heróis que eles idolatram são humanos que sangram, e que a armadura que eles aplaudem muitas vezes está sufocando o homem lá dentro. Espero que vejam que a diversidade não enfraquece o esporte; o que enfraquece é a mentira obrigatória.

REDAÇÃO: Vitor, para encerrar: se "Linha de Colisão" fosse uma manchete de jornal, qual seria?

VITOR ZINDACTA: "O Rei Abdica do Trono para Salvar a Própria Alma: A Vitória Final de Liam Davis."


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