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"Mendacium" é um Mergulho na Obsessão Mitológica e na Redenção pelo Caos

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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No vasto e muitas vezes polêmico universo do Dark Romance, onde a moralidade é cinza e o amor frequentemente se confunde com posse, L. Black entrega em "MENDACIUM" uma obra que não pede desculpas por sua intensidade. O título, que vem do latim para "mentira", é o primeiro indício de que pisamos em solo instável. Mas a verdadeira fundação desta história não é apenas o engano; é a inevitabilidade do destino travestida de obsessão.

A trama nos apresenta Elizabeth Addams, uma protagonista que carrega o arquétipo da "fugitiva". Ela chega à cidade fictícia de Thornfield com um objetivo claro: desaparecer. Elizabeth é a personificação do trauma que busca o silêncio, tentando se tornar invisível para escapar de um passado sombrio que o livro desenrola com paciência sádica. No entanto, no gênero Dark, o desejo de invisibilidade de uma mulher é frequentemente o farol que atrai o monstro.

Entra em cena Ares Lancellotti. Se o nome remete ao deus grego da guerra, a personalidade não fica atrás. Ares é o anti-herói por excelência: perigoso, influente e moralmente questionável. O encontro deles não é um "acaso" romântico, é uma colisão. Enquanto Elizabeth tenta ser uma sombra, Ares é a escuridão que a engole. A escolha do autor em fazer Ares chamar Elizabeth de "Psyché" (Psique) não é um mero detalhe estético; é a chave mestra da narrativa. Na mitologia, Psique é a alma, a mortal tão bela que ofendeu Afrodite e por quem Eros (o Amor) se apaixonou perdidamente. Aqui, Ares não é um cupido alado, mas um homem disposto a queimar o mundo para manter sua Psique segura — mesmo que, paradoxalmente, a maior ameaça para ela possa parecer ser ele mesmo.

A primeira metade do livro é uma aula de construção de tensão. A química entre os dois é forjada no medo e na fascinação. Black constrói uma atmosfera de stalker romance onde o leitor se vê cúmplice da obsessão de Ares. Ele a vê quando ninguém mais vê. Ele a quer quando ela só quer fugir. Essa dinâmica de "gato e rato", ambientada em uma Thornfield envolta em segredos, estabelece um ritmo frenético que torna difícil largar o livro.

Se o início nos seduz pelo perigo, a segunda metade de "Mendacium" nos prende pela vulnerabilidade. O grande trunfo de L. Black é a desconstrução gradual da "mentira" que dá título à obra. Elizabeth vive uma mentira para sobreviver; Ares vive uma verdade brutal que poucos conseguem suportar. O choque dessas duas realidades cria o conflito central.

A narrativa não foge dos tropos clássicos do gênero — o "toque nela e você morre", o passado traumático, a organização criminosa/poderosa ao fundo —, mas os executa com uma competência visceral. O leitor é convidado a questionar os limites do consentimento e da agência em um mundo onde a proteção vem acompanhada de controle. No entanto, o livro consegue equilibrar essa balança ao dar a Elizabeth uma espinha dorsal de aço. Ela não é uma donzela passiva; sua resiliência é o contraponto perfeito para a força bruta de Ares.

O clímax emocional reside na promessa de Ares: "Eu destruiria o mundo inteiro por você, Psyché". Em romances contemporâneos "vanilla", isso seria uma hipérbole. Em "Mendacium", é uma declaração de intenções literal. O livro brilha ao explorar essa moralidade distorcida onde o amor não é "paciente e bondoso", mas sim violento, ciumento e, estranhamente, a única coisa capaz de salvar os protagonistas da autodestruição total.

A Escrita e o Impacto:

A prosa de L. Black é fluida, carregada de diálogos afiados e cenas de intimidade (o spice) que servem tanto para titilar quanto para aprofundar a conexão psíquica entre os personagens. Não é uma leitura leve; é densa, com gatilhos que devem ser respeitados, mas que recompensam o leitor com uma catarse emocional poderosa.

Veredito:

"Mendacium" é um prato cheio para os fãs de Dark Romance. Ele entrega exatamente o que promete: um homem moralmente quebrado que encontra sua redenção na obsessão por uma mulher que luta para sobreviver. É uma história sobre como, às vezes, é preciso abraçar a escuridão de alguém para finalmente encontrar a própria luz. Para quem gosta de tramas onde o vilão é, na verdade, o herói da história errada (até encontrar a certa), este livro é um vício imediato.

Nota: ⭐⭐⭐⭐½ (Uma leitura viciante que transforma "bandeiras vermelhas" em um romance épico e sombrio).

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