Resenha: Terra, céu e mar, de Ivo Barreto

Foto: Arte digital


APRESENTAÇÃO

"Por que deixaram um menino que é do mato amar o mar com tanta violência?", escreveu Manoel de Barros no desfecho do poema "Na enseada de Botafogo". Mineiro do Vale do Rio Doce e morador de Cabo Frio há 15 anos, Ivo Barreto elabora respostas e percepções em Terra, céu e mar — poemas e linhas, seu primeiro livro de poesia. Ivo faz da sutileza uma prática de observação do mundo a partir da memória e das observações cotidianas. Os poemas, breves e delicados, são intercalados por ilustrações do próprio autor, que é arquiteto, pesquisador e professor universitário. Ivo escreve mineirês ("qui nem daltin / bão de papo / coladim / nimim") ao mesmo tempo em que revisita o patrimônio histórico da Região dos Lagos, o que inclui, por exemplo, a Casa da Flôr de São Pedro, a canoa de borçada de Arraial e os casarios históricos da Passagem, em Cabo Frio. Observa Giorge Bessoni no posfácio: "Terra, céu e mar  é um livro de poemas necessários nas durezas dos dias atuais; acompanhados por ilustrações que, mais que enfeitam, complementam a poesia como verdadeiros versos e estrofes que tornam mais bela e satisfatória a leitura. Este livro que se nos apresenta é arte. E, certamente, ao lê-lo, vós haveis de concordar comigo."

RESENHA

Terra, céu e mar é uma obra poética escrita pelo autor e arquiteto Ivo Barreto, publicado pela Sophia Editora. A obra é dividida em quatro capítulos: ar, terra, brisa e oceano. A obra, poética, elucidativa, provocativa e transformadora é uma brisa de verão em dias quentes. Com artes elaboradas pelo próprio autor, o que complementam graciosamente a escrita do autor que percorre locais e revisita a percepção cotidiana através de uma ótica sublime e doce.

No capítulo ar, o autor se debruça na observação do cotidiano por meio da visão inocente da infância, descrevendo situações como a observação de pássaros atobá-pardos, nas andanças de esquadrinhadas das lembranças dos caminhos e das caminhadas, das memórias em terra batida de manga descascada no dente, a beleza do milharal, as andaças através do breve orvalho das paisagens em vista atenta, uma beira de rio e o passar dos tempos.

Em terra, o autor delineia as nuances explicitas nos desenhos da realidade, como em um croqui arquitetônico através do ponto de encontro das linhas pontilhadas, das caminhadas e andanças em volumes de água no interior, dos traços de vida e lembranças de uma casa e de suas lembranças em uma casa de taipa a pique de barro, do afeto e da saudade da infância mineira e das 'gentes' queridas e vividas nos pontos dos contos.

Em brisa, o autor intensifica suas provações elaborando um chamado para os pequeno momentos de valor da vida. ' [...] e marcantes cai a tarde e as memórias do cotidiano, nos amores presentes na vida, no amor, no namoro e na lembrança, dos caminhos do fiel andante, do papel do tempo desconcertante que aquece o peito, dos chamegos em frente fria, a lembrança de uma mina da cria e das árvores plantadas. Um capítulo que, diferente doutros, revisitas as lembranças de uma forma mais madura e assertiva. A leitura deste capítulo configura a obra uma conjuntura de não mais lembranças, mas agora, de vivência, do agora, dos momentos que ocorrem no exato momento em que acontecem, da forma como a qual vivemos e apreciamos o que é palpável, tangível.

Em oceano, as reflexão do autor se intensifica nas emoções presentes do momento do encontro dos olhos com as cores em uma navegação azul do mar, sobre a luz que escapa da janela invadindo a fresta do dia por frente ao breu seduzindo o ambiente, do orgulho expresso na raiz as heranças dos ancestrais da terra pura, da cor e do cheiro da manga rosa, das caminhadas e estrepadas em árvores, do cheiro da manhã, das alegrias presentes nos sorrisos e do universo particular da vivência em mergulho profundo em si e em suas entranhas de forma abstrata.


Foto: Arte digital


A obra evoca, em sua maior parte, grande parte da formação do autor em arquitetura, não somente pelas imagens como referência, mas pelas citações acerca de linhas e criações pontilhadas acerca do desenvolvimento de uma vida, de um sonho e de uma vivência acerca da realização presente na construção de um projeto [arquitetônico, de vida, pessoal]. A obra possui uma linguagem as vezes própria e retinta de personalidade própria, as vezes local, mas sempre atemporal. Percorrer as palavras de Ivo é entender através de suas nuances a certeza de que as lembranças constituem parte do processo de construção de uma casa, de uma identidade e de uma vida. Construir memórias, cultivar momentos e aproveitar o tempo. Uma obra, certamente, incrivelmente linda e cativante para os amantes de uma poesia revigoradora e transformadora.


SOBRE O AUTOR | Arquiteto pela UFF (2004) e especialista em Preservação do Patrimônio Cultural pela UFPE (2010), Ivo Barreto é mestre em Projeto e Patrimônio pela UFRJ (2017) e doutorando em Arquitetura pela mesma instituição. Arquiteto do corpo técnico do Iphan há quase duas décadas, é professor do curso de Arquitetura da UNESA, em Cabo Frio, onde leciona as cadeiras de Projeto de Arquitetura, Desenho e Patrimônio Cultural. Conta com livros publicados nos campos da Arquitetura, do Patrimônio e das Artes Visuais. Navegante das múltiplas linguagens em sua produção, o autor promove em Terra, céu e mar o diálogo entre o desenho e a palavra, abrindo rota para provocações ora semânticas, ora gráficas, costurando uma troca contínua entre letras e traços. Emerge daí uma poética leve e sensível, capaz de tocar, ao longo da leitura, sentidos variados da percepção e dos afetos.



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