Resenha: Rauai: o patrão do polígono da maconha, de Katyuscia Brito

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO

De agricultor pobre do sertão pernambucano a um dos patrões do Polígono da Maconha, Rauai era o que chamam de “pessoa errada”. No entanto, ao seu modo, fez o que julgava ser certo. Quem nos conta é Neto, primo de Rauai e narrador deste romance de estreia de Katyuscia Brito, que revela as áridas relações do mundo do crime em um dos lugares mais perigosos do Nordeste. Depois que decidiram parar com a plantação de alimentos para montar o próprio bando de roubo de cargas na estrada, Rauai e Neto tiveram que arcar com as consequências de seus atos. Passaram a ser temidos e respeitados, mas também perseguidos e odiados por muitos. Entre negociações delicadas e emboscadas, viveram sob a mira dos inimigos e, também, de seus próprios fantasmas. Neste livro, Katyuscia Brito passa ao largo de concepções estáticas do que é “bom” ou “mau”. Por isso, Rauai e Neto podem ser, ao mesmo tempo, cabras arretados e jovens frágeis em busca de respostas. São personagens construídos e reconstruídos durante um caminho de vida e morte, paixão e traição e guerra e paz no sertão pernambucano.


RESENHA

Rauai era um homem cercado por pessoas, mas se sentia sozinho. Ele questionava se as pessoas realmente o adoravam ou apenas o temiam. Aos 27 anos, ele havia acumulado um grande patrimônio e sonhava em deixá-lo para seus futuros filhos. Nascido em uma comunidade hippie no Ceará, ele aprendeu que seu nome era uma homenagem a um lugar nos Estados Unidos. Apesar de ter realizado muitas aventuras radicais e viajado pelo mundo, Rauai ainda buscava algo mais para preencher a solidão que sentia. A morte de seus pais em um acidente de carro, quando ele tinha 9 anos, foi um ponto de virada em sua vida. Ele se tornou o único sobrevivente e foi morar com um tio no sertão pernambucano, no Polígono da Maconha. A construção de hidrelétricas no Vale do São Francisco atraiu muitos trabalhadores rurais em busca de emprego, impulsionando o cultivo e comércio de maconha na região, conhecida como Polígono da Maconha. Desde o século XIX, a planta já era presente na área. As décadas de 1930 e 1970 marcaram a repressão e a popularização da maconha. Os agricultores do Polígono, divididos em categorias, sonham em se tornar patrões, os verdadeiros líderes do tráfico. Em 1997, a operação "Cactos" tentou combater o plantio, mas a atividade continuou após a prisão de alguns envolvidos. Alguns mudaram de região, investiram na política ou se tornaram patrões.

Neto continua narrando como durante uma formatura, eles comemoraram uma promoção no Vip Night Club, fechado por uma mulher chamada Dona Nena. Ela ofereceu garotas como presente e os chamou de novos patrões do sertão. Neto e Rauai cresceram juntos, com um vínculo forte após perderem os pais. A entrada no mundo do crime parecia ser a melhor opção, devido à falta de oportunidades na agricultura que enfrentavam. A história narrada por Neto descreve como Rauai e seus amigos decidiram montar um bando para roubar cargas na estrada, visando mudar de vida. Tenorinho, um poderoso do Tráfico de drogas, decidiu comprar o sítio deles e oferecer ajuda para começar o negócio ilegal. Com a ajuda dele, Rauai e seus amigos conseguiram o equipamento necessário para iniciar e fecharam um acordo para vender as cargas roubadas a Tenorinho. Finalmente, a propriedade do sítio foi transferida para uma das primas de Tenorinho. Eles saem do sítio para realizar roubos de carga, seguindo a liderança de Rauai, que dá as ordens e organiza as ações. Após várias tentativas frustradas, finalmente conseguem cometer um roubo bem-sucedido, que lhes traz um bom lucro. Com o tempo, cada membro encontra seu papel dentro do grupo e decidem alugar um lugar para morar em Salgueiro. O relato revela a dinâmica da gangue e o desejo de progredir por meio dos roubos de carga.

Após quase cinco meses desde a primeira carga, eles decidiram pagar a promessa ao Galego e foram ao Recife assistir a uma partida de futebol do Sport.  Após alguns meses desde a chegada deles de Recife, os negócios estavam indo bem e eles continuavam a roubar cargas na estrada. Em uma noite, descobriram que uma carga que haviam roubado estava recheada de maconha, pertencente a um dos patrões do Polígono. Apesar da tentação de lucrar com a droga, decidiram devolver a carga para o dono, mesmo sem encontrar o motorista. Com isso, foram até a fazenda do Zé Maria, onde foram recebidos e agradecidos pela devolução da carga. No final, decidiram que não valia a pena ficar com aquela maconha, e seguiram com seus negócios na estrada.

Neto e Rauai decidem subir de posto no mundo do crime e se tornam empregados de Tenorinho, um criminoso perigoso. No entanto, após perceberem que estão sendo explorados e descobrirem que Tenorinho lucra muito mais do que eles, decidem seguir por conta própria. Um novo comprador para as cargas roubadas é encontrado por eles e conseguem negociar um acordo melhor. No entanto, Tenorinho não aceita a traição e tenta matar Beto, um dos membros do grupo. Após o ataque, eles mudam de endereço e se preparam para uma possível retaliação. A guerra entre Tenorinho e o grupo de Neto e Rauai estava apenas começando.

Zé Maria decidiu passar a administração de seus roçados no Polígono da Maconha para dois amigos, Neto e Rauai, que haviam demonstrado sinceridade e lealdade ao devolver um carregamento de maconha que encontraram em sua fazenda. Ele estava cansado da vida no crime e desejava paz para desfrutar de sua família. Os amigos aceitaram a proposta e se tornaram os novos patrões do Polígono, com o apoio de Flávio, os negócios foram prósperos e Zé Maria seguiu para uma nova vida no Pantanal. A história demonstra como escolhas e boas ações podem mudar o rumo das vidas das pessoas.

Após o término da "Cactos", alguns dias se passaram e eles retornaram à estrada para ganhar dinheiro e iniciar o plantio de maconha. Aprenderam a cultivar a planta e organizaram roçados com trabalhadores rurais, utilizando ilhotas para dificultar o acesso e se proteger de possíveis descobertas. Após enfrentarem problemas com Tenorinho, tiveram que repensar seus negócios e acabaram expandindo a produção de maconha, conseguindo dobrar a safra no ano seguinte e fornecendo para três estados do Nordeste, incluindo maconha de alta qualidade. Eles então se tornaram patrões do Polígono, acumularam bens materiais, mas também assumiram mais responsabilidades e problemas, principalmente com Tenorinho, que se tornou deputado. Após uma comemoração no cabaré, Tibla (amigo de Tenorinho) causou um clima pesado, porém eles não se sentiram intimidados. Rauai fez uma viagem, e ao retornar, Luizinho informou que Anne, uma pessoa importante para eles, havia voltado.

Seis anos haviam se passado desde que Anne partira. Durante esse tempo, ela visitara a família apenas três vezes, mas não havíamos conhecimento das vezes em que estivera no sertão. Como não moravam mais na mesma cidade, Luizinho nunca comentava sobre Anne, pois Rauai proibia qualquer menção ao seu nome. O retorno de Anne para ficar trouxe uma reviravolta na situação. Rauai, ao descobrir da presença de Anne e de seu filho, decidiu confrontar seu passado e seu sentimento por ela.

Luizinho revelou a Rauai que Anne havia presenciado uma cena que a fizera pensar que seu sentimento por ele não era mais correspondido. Apesar dos anos de separação e das mágoas, Rauai decidiu dar uma nova chance a Anne e ao filho. Após uma intensa conversa, Rauai e Anne se acertaram e decidiram ficar juntos. Reintegrada à família, Anne trouxe alegria e uma nova dinâmica para a vida de todos. O casamento civil entre Rauai e Anne foi celebrado com uma linda festa na chácara.

A vida seguia tranquila, mas Anne começou a pedir para que Rauai mudasse de vida. Apesar de ser feliz com Anne, Rauai ainda gostava da vida que levava. O futuro reservava novas reviravoltas, mas, por enquanto, a felicidade reinava na vida deles.

Foto: Detalhes da diagramação / Sophia Editora / Divulgação


Pouco tempo depois, um distribuidor indicou a eles um famoso traficante do Rio de Janeiro para expandir seus negócios. Com a parceria firmada, os protagonistas estavam ansiosos pela nova oportunidade. No entanto, Tenorinho, um rival ambicioso, tentou intimidá-los para desistirem do negócio. Logo depois, eles foram atacados e um dos seguranças foi morto. Diante da situação, decidiram aumentar a segurança na fábrica e tomar mais cuidado.

Meses depois, durante a colheita, Rauai, o líder do grupo, viajou para o Rio de Janeiro para receber o pagamento e verificar a operação. No retorno, foram emboscados e Rauai foi baleado.

A guerra por territórios no Polígono, região marcada pela violência e pelo tráfico de drogas, teve início muito antes de Rauai e Tenorinho se tornarem patrões na área. Rauai e sua equipe se tornaram um problema para Tenorinho ao tomarem suas próprias decisões e adentrarem em novas regiões do país. Após uma emboscada fatal, Rauai acabou sendo preso por tráfico de drogas e porte de arma.

Anne, o amor de Rauai, seguiu em frente, vendeu os bens e montou um restaurante. Galego, outro membro da equipe, se casou e virou pastor, enquanto Tenorinho se reelegeu e continuou seus negócios, consolidando seu poder na região.

Mesmo na solidão da prisão, a leitura foi um refúgio para Rauai. Ele mergulhou em livros e encontrou na literatura um escape para a realidade cruel que o cercava. A leitura o transportou para outros mundos, proporcionando-lhe momentos de paz e reflexão.oi a única fonte de alegria para Rauai durante aqueles anos difíceis.

Apesar de ser um livro denso e abordar temas controversos, "Rauai: o patrão do polígono da maconha", de Katyuscia Brito, é uma obra que merece destaque por sua narrativa envolvente e personagens complexos. A autora consegue criar uma trama instigante que prende a atenção do leitor do início ao fim, explorando os dilemas e escolhas de Rauai em meio ao universo do tráfico de drogas no sertão nordestino. A história de superação e transformação do protagonista, bem como a representação das relações humanas e das nuances do poder na região, são pontos fortes do livro. Além disso, a obra traz reflexões sobre solidão, lealdade, amor e redenção, fazendo com que o leitor se envolva emocionalmente com os personagens e suas jornadas. Com uma escrita fluída e envolvente, "Rauai: o patrão do polígono da maconha" é um livro que, mesmo abordando temas complexos, consegue transmitir mensagens poderosas e inspiradoras.

Sobre a autora | Katyuscia Brito é nordestina, pernambucana, jornalista por formação e escritora de coração. Casada, tem dois filhos. Descobriu a paixão pela escrita aos 13 anos durante as aulas de redação do 7º ano do ensino fundamental, antiga 6ª série. Mudou-se para o estado do Rio de Janeiro com 11 anos. No entanto, costuma dizer que nunca se distanciou do Nordeste. Não por acaso, carrega hoje um sotaque misturado e carregado de brasilidade. Katyuscia Brito escreveu esta obra em 2017, em menos de um mês, durante uma jornada pessoal em busca de autoconhecimento através das palavras.

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