3 Poemas de Gabriela Lages, autora de ''O mar de Vidro'' (2023)

Foto: Arte digital // Divulgação


A obra poética de Gabriela Lages Veloso é um mar de sensibilidade e profundidade, que conquistou leitores e críticos ao redor do mundo. Seu livro "O mar de vidro" (2023) é um testemunho da força e beleza de sua escrita, que já figura em bibliotecas renomadas em diversos países. Neste contexto, vamos explorar três poemas de Gabriela Lages, revelando a magia e a intensidade de sua poesia que encanta e emociona quem se debruça sobre suas palavras. 


Confira três poemas presentes na obra:


A origem


Me foi dada uma difícil missão,

Nomear todos os seres da terra.

Capturar-lhes a essência,

Identidade e significado,

Em uma única palavra.

Escolher um nome é contar uma história. 


Mas, o que veio primeiro?

O nome ou o significado? 


Nessa minha difícil missão,

Vivo sobressaltado 

E se um dia eu esquecer as palavras? 


Como algo tão pequeno pode conter o mundo?

A palavra contém o mundo.


Vida


Sou intensamente breve,

Como um sonho.

Feita de retalhos de instantes. 


E, nessa minha brevidade,

De segundos contados,

Devo ser tratada sabiamente. 


Nas tormentas, 

Os pesos devem ser arremessados 

Ao mar do esquecimento. 


Nas bonanças,

As lembranças devem ser recolhidas 

Ternamente, no abrigo da memória. 


Em mim, tudo é essencial

Chuva e aridez. 

Resisto ao tempo e às intempéries. 


Não tenho caminhos fixos,

Sou caleidoscópica.

Por isso, não se engane,

Não existe um único propósito para mim.

Sou um enigma a ser descoberto. 


Ouroboros

Desde o início dos tempos,
a raça humana buscou meios
para sobreviver. Quanto tempo
caminhou sem destino algum.

Não existiam raízes que ligassem-na
a terra. Os recursos eram sugados,
até a última gota. E, logo após, a
jornada continuava, sempre a mesma.

Em um certo dia, algo mudou,
o ser humano notou que poderia
cultivar o seu próprio alimento.

E, assim, plantou, bem fundo, suas
raízes e começou a se afeiçoar pelo
lugar onde estava. Um lar, quem sabe.

Entretanto, nos ciclos sem fim de Gaia,
a raça humana vaga novamente, na
eterna busca por algo inominado,
perdida em suas pegadas na areia.



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