Resenha: A cor púrpura, de Alice Walker

Imagem: Arte digital

APRESENTAÇÃO

A cor púrpura, ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.

Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos. Entre eles está a inesquecível Shug Avery, cantora de jazz e amante de Albert.

Apesar da dramaticidade do enredo, A cor púrpura é uma história sobre mudanças, redenção e amor. A partir da vida de Celie, a aclamada escritora Alice Walker tece críticas ao poder dado aos homens em uma sociedade que ainda hoje luta por igualdade entre gêneros, raças e classes sociais. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo, A cor púrpura é um retrato da vivência da mulher negra na época da segregação racial, cujos reflexos ainda estão presentes na nossa sociedade.


RESENHA


A cor púrpura é um romance escrito pela renomada autora americana Alice Walker, editado no Brasil pela editora José Olympio, selo do Grupo editorial Record. A obra relata a vida de Celie, uma adolescente de 14 anos que vive um inferno pessoal: abusada pelo pai, forçada a se casar com um homem que a trata como propriedade e, posteriormente, separada de sua irmã Nettie, com quem tinha uma conexão profunda. Celie escreve cartas para Deus, revelando-nos a história. A cada poucas páginas, novas cartas sobre sua vida são o seu refúgio diante dos acontecimentos. Grávida antes de entender sobre sexo e bebês, Celie sabe que é por causa das violações de seu pai. Com o tempo, Celie é obrigada a ter dois filhos, com os quais não convive, pois eles lhe foram tirados, causando uma tristeza inconsolável em Celie, que passa a observar cada vez mais o desenrolar dos dias. Com o tempo, ela é vendida para se casar com um homem mais velho, Albert, que aos poucos, mostra-se um homem nojento e sem nenhum grau de piedade ou amor à ela.

Imagem: Detalhes da diagramação / Divulgação


A trama se desenrola em meio ao racismo e machismo enraizados no sul dos Estados Unidos, onde Celie luta para manter sua identidade e sua vida. O livro aborda questões como a opressão das mulheres, a falta de acesso à educação e a força da amizade e do amor, mesmo diante das adversidades. Acompanhamos sua jornada, desde a separação de sua irmã Nettie até o reencontro, que se torna missionária na África. Ela perde seus filhos logo após o nascimento e casa-se com um homem abusivo. É ao conhecer Shug Avery que Celie encontra o amor e é amada em retorno, pela primeira vez em sua vida.


A obra se inicia com uma carta escrita por Celie à Deus, nela ela menciona como era a sua relação conturbada com seu pai e a frequência dos abusos sexuais sofridos no decorrer dos dias, fazendo-a, fazer, o que, como ele disse 'o que sua mãe num quis': Ele nunca teve uma palavra boa pra falar pra mim. Só falava Você vai fazer o que sua mãe num quis. Primeiro ele botou a coisa dele na minha coxa e cumeçou a mexer. Depois ele agarrou meus peitinho. Depois ele impurrou a coisa dele pra dentro da minha xoxota. Quando aquilo dueu, eu gritei. Ele cumeçou a me sufocar, dizendo É melhor você calar a boca e acustumar (p.7). A mãe de Celie morreu pouco tempo depois de ficar muito tempo doente, desta forma, ela começou a ficar responsável por todos os afazeres da casa: 


Minha mamãe morreu. Ela morreu gritando e praguejando. Ela gritou comigo. Ela praguejou comigo. Eu tô de barriga. Eu num posso andar muito depressa. Na hora queu volto do poço, a agua tá morna. Na hora queu arrumo a bandeja, a cumida já tá fria. Na hora queu arrumo todas as criança pra escola, já tá na hora do jantar (pg.8)


Celie então teve dois filhos, um foi morto pelo pai, o outro doado: Ele levou meu outro nenê também, um minino dessa vez. Mas eu num acho que ele matou não. Acho que ele vendeu prum homem e a esposa dele, lá em Monticello. Eu fiquei com os peito cheio de leite iscorrendo encima de mim (p.9)


Alice Walker utiliza a escrita de forma única, retratando a realidade de Celie por meio de cartas escritas para Deus e Nettie, nunca enviadas. A linguagem simplória, repleta de erros gramaticais e regionalismos, aproxima o leitor da vivência da protagonista, tornando a narrativa ainda mais intensa e emocionante.


A narrativa começa a delinear seus contornos mais emocionantes, quando Abert (marido de Celie) traz para morar consigo, Shug Avery, uma paixão de anos, que, em primeira instância, maltrata Celie, porém, o tempo passa e ela percebe o quanto ela é especial, dando-lhe conselhos e encorajando-a, tornando-se muito mais que amigas confidentes, o que claro, desagrada Albert que se encontra cada vez mais propenso à agredir e desfazer de Celie, o que, em alguns momentos, é repreendido por Shug.


Shug Avery sentou um pouquinho na cama hoje. Eu lavei e pintiei o cabelo dela. Ela tem o cabelo mais pincha, curto, e enroscado queu já vi, e eu amo cada fio dele. O cabelo que ficou no meu pente, eu guardei. Quem sabe um dia eu faço uma rede. uma malha pra botar no meu próprio cabelo. (p.57)


A primeira vez queu vi inteiro o longo corpo negro da Shug Avery com os bico do peito que nem ameixa preta, parecendo a boca dela, eu pensei queu tinha virado homem (p.53)


A narrativa de A Cor Púrpura é impactante, transmitindo a realidade de Celie de maneira direta. Ela relata com detalhes o que passa, sem rodeios, diferente da maioria dos romances. A vida de Celie é como é, sem adorno. O sofrimento causado à Celie pelo destino é algo que não se mensura em palavras. Ela foi abusada pelo próprio pai tendo dois filhos dele, aos quais foram tirados dela e doados; posteriormente, ela e sua irmã foram vendidas separadamente. Celie foi vendida para se casar com um homem abusivo, Albert, que além de humilhá-la, deixava claro que nutria sentimentos apenas por Shug Avery. Ela foi privada de manter qualquer tipo de contato com sua irmã Néttie por anos a fio.

Imagem: Detalhes da diagramação / Divulgação



Walker habilmente aborda questões como violência doméstica, misoginia, preconceito racial e marginalização social, oferecendo uma visão autêntica e poderosa das experiências vividas pelas personagens principais, especialmente a protagonista Celie. Ao longo do livro, vemos como essas mulheres enfrentam adversidades e injustiças de cabeça erguida, encontrando forças umas nas outras e em suas próprias habilidades.


Além disso, a cor púrpura é uma ode à autoaceitação, ao amor próprio e à importância da solidariedade feminina. O livro nos mostra como a união e o apoio mútuo entre mulheres podem ser transformadores e empoderadores, e como a busca por identidade e autonomia é uma jornada contínua e significativa.


Em resumo, a cor púrpura é uma obra fundamental que merece ser lida e apreciada por sua narrativa envolvente, sua profundidade temática e sua capacidade de inspirar reflexões e diálogos sobre questões sociais e humanas essenciais. É um testemunho da resiliência e da beleza que podem ser encontradas mesmo nas situações mais difíceis, e um lembrete da importância de ouvir e valorizar as vozes das mulheres negras.


A AUTORA

Walker nasceu em 9 de fevereiro de 1944 na pequena comunidade rural de Eatonton, no estado da Geórgia, região sul dos Estados Unidos. Foi a mais jovem de oito irmãos, prole de um casal que ganhava seu sustento por meio da parceria rural (ou sharecropping), que, no contexto pós-guerra civil para os americanos negros, era na prática uma continuação da escravidão. Apesar das dificuldades, a mãe de Alice, que para ajudar a aumentar o salário miserável era também costureira, vislumbrava um futuro melhor para a filha. Por isso, impediu a caçula de seguir os trabalhos rurais dos mais velhos, inscrevendo-a em uma escola aos quatro anos de idade.

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