[RESENHA #956] O fascismo eterno, de Umberto Eco

APRESENTAÇÃOUni convite ― um alerta ― para "" esquecer""; para não não dar esse mal como superado ― é o que faz Umberto Eco neste O fascismo eterno. Para nos lembrar que o "Ur-Fascismo", como o autor nomeia, ""ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis"".

O termo "fascismo" é facilmente adaptável porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará a ser reconhecido como tal. Entre as possíveis características do Ur-Fascismo, o ""fascismo eterno"" do título, estão o medo do diferente, a oposição à análise crítica, o machismo, a repressão e o controle da sexualidade, a exaltação de um ""líder"" e um constante estádo de ameaça. Tais características não podem ser reunidas em um único sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

Publicado pela primeira vez em 1997, no livro Cinco escritos morais, esta nova edição chega aos leitores em um momento de ascensão mundial do flerte com o fascismo ― que, como denuncia Eco, longe de ser apenas um momento histórico vivo na Itália, na Europa (e no Brasil) do século XX, é uma ameaça constante à nossa sociedade. Esta reflexão, importante e necessária, ensina a pensar sobre o sentido da história e a importância da memória. 

"O Ur-fascismo, ou fascismo eterno, ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!'. Infelizmente, a vida não é tão fácil assim! O Ur-fascismo pode voltar sob vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas - a cada dia, em cada lugar do mundo." - Umberto Eco


RESENHA

O fascismo eterno é um ensaio famoso do escritor, filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco. Ele foi publicado pela primeira vez em 1995 e apresenta uma análise profunda do fascismo, sua definição e seus aspectos e características essenciais. O ensaio se baseia nas vivências pessoais de Eco que cresceu sob o regime de Mussolini na Itália e na sua ampla pesquisa sobre movimentos fascistas. O ensaio oferece insights valiosos sobre a essência do fascismo e suas formas de expressão. O fascismo eterno foi uma palestra proferida, em inglês, em um simpósio organizado pelos departamentos de italiano e francês da Universidade de Columbia, em 25 de abril de 1995, para comemorar a libertação da Europa.

O livro explora as principais características do fascismo. Eco identifica quatorze elementos ou características fundamentais, que ele chama de “formas”, que costumam aparecer em movimentos fascistas. Embora nem todas essas características estejam presentes em todos os movimentos fascistas, elas criam um padrão identificável. São elas:

O culto à tradição”, marcado pelo sincretismo cultural, mesmo que isso implique em contradição interna. Quando toda a verdade já foi revelada pela tradição, não há espaço para novos conhecimentos, apenas para maior interpretação e aperfeiçoamento.

A rejeição do modernismo”, que considera o desenvolvimento racionalista da cultura ocidental desde o Iluminismo como uma queda na degeneração. Eco diferencia isso de uma rejeição superficial do progresso tecnológico, já que muitos regimes fascistas usam o seu poder industrial como evidência da vitalidade do seu sistema.

O culto da ação pela ação”, que afirma que a ação tem valor em si e deve ser feita sem reflexão intelectual. Isso, segundo Eco, está relacionado ao anti-intelectualismo e ao irracionalismo, e se manifesta frequentemente em ataques à cultura e à ciência modernas.

Discordância é traição” – o fascismo desvaloriza o discurso intelectual e o pensamento crítico como obstáculos à ação, bem como por receio de que tal análise revele as contradições inerentes a uma fé sincrética.

Medo da diferença”, que o fascismo busca explorar e intensificar, muitas vezes na forma de racismo ou de oposição a estrangeiros e imigrantes.

Apelo a uma classe média frustrada”, temendo a pressão econômica das demandas e aspirações dos grupos sociais mais baixos.

"Obsessão por uma conspiração" e a exaltação de uma ameaça inimiga. Isso muitas vezes combina um apelo à xenofobia com o medo da deslealdade e da sabotagem por parte de grupos marginalizados que vivem na sociedade. Eco também menciona o livro de Pat Robertson, A Nova Ordem Mundial, como um exemplo notável de obsessão por conspiração.

As sociedades fascistas classificam retoricamente os seus inimigos como “ ao mesmo tempo muito fortes e muito fracos ”. Por um lado, os fascistas usam o poder de certas elites desprivilegiadas para estimular nos seus seguidores um sentimento de ressentimento e humilhação. Por outro lado, os líderes fascistas apontam para a decadência dessas elites como prova da sua derradeira fraqueza diante de uma vontade popular avassaladora.

O pacifismo é negociar com o inimigo” porque “ a vida é uma guerra constante ” – deve haver sempre um inimigo para combater. Tanto a Alemanha fascista sob Hitler como a Itália sob Mussolini trabalharam primeiro para organizar e limpar os seus respectivos países e depois construir as máquinas de guerra que mais tarde pretendiam e utilizaram, apesar da Alemanha estar sob as restrições do Tratado de Versalhes para não construir uma força militar. Este princípio leva a uma contradição fundamental dentro do fascismo: a incompatibilidade do triunfo final com a guerra perpétua.

Desprezo pelos fracos”, que está desconfortavelmente casado com um elitismo popular chauvinista, no qual cada membro da sociedade é superior aos estranhos por pertencer ao grupo interno. 

Eco mostra que o fascismo de Mussolini não tinha uma ideologia definida, mas sim uma retórica. Um movimento sem substância e cheio de ideias contraditórias. De acordo com o autor, talvez isso tenha sido a origem de um “totalitarismo nebuloso”.

Assim, por contradições internas do fascismo e por não ser uma organização de ideias com objetivos claros e fixos – sob o ponto de vista histórico – a tese de Eco é desenvolvida para afirmar que o conceito de “fascismo” é flexível, pois é possível retirar de um regime fascista algum dos seus aspectos e este ainda será fascista. Um exemplo dado pelo autor: remova do fascismo as ambições imperialistas, e será possível caracterizar Franco e Salazar.

A seguir, Umberto Eco aponta uma lista de características comuns daquilo que chamou de “Ur-fascismo” ou “fascismo eterno”. Um certo “tradicionalismo” - sob uma perspectiva de oposição à modernidade -, a “ação pela ação” sem o pensamento prévio, a repulsa aos estrangeiros, são algumas das características mencionadas e explicadas pelo autor para reconhecer o “ur-fascismo”.

Este é um livro inteligente e de leitura muito simples e agradável.

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