companhia das letras

Resenha: O quinze, de Rachel de Queiroz

domingo, 8 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta



Edição de luxo, com novos caderno de imagens, glossário, fortuna crítica e cronologia, que enriquecem este clássico da literatura nacional. Lançado originalmente em 1930, O Quinze foi o primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz. Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel expõe de maneira única e original o drama causado pela história seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro, sem perder de vista os dilemas humanos universais, que fazem desse livro um clássico de nossa literatura.

ISBN-13: 9788503012904
ISBN-10: 8503012901
Ano: 2016 / Páginas: 208
Idioma: português
Editora: José Olympio

RESENHA:

BIOGRAFIA DA AUTORA

Descendendo pelo lado materno da estirpe dos Alencar, parente, portanto do autor ilustre de O Guarani, e pelo lado paterno dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e em Beberibe, nasceu Rachel de Queiroz em Fortaleza, Ceará, a 17 de novembro de 1910. Em 1917, vai com os pais para o Rio de Janeiro, procurando a família, nessa migração, esquecer os horrores da terrível seca de 1915, que mais tarde a romancista iria aproveitar como tema de O Quinze. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, viajando logo para Belém do Pará, onde residiram dois anos. Em 1919, voltou a Fortaleza, matriculando-se R. Q., em 1921, no Colégio da Imaculada Conceição, dirigido por irmãs de caridade, onde fez curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade.

Em 1927, atraída pelo jornalismo, principia a colaborar no jornal O Ceara, de que se torna afinal redatora afetiva. Em fins de 1930, estreia com o romance O Quinze, com inesperada e funda repercussão no Rio e em São Paulo. Com vinte anos de idade apenas, uma quase desconhecida escritora provinciana, projeta-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca. Aparecendo quase três anos após a publicação de A Bagaceira (1928) – romance que “abriu nova fase na história literária do Brasil”, segundo a observação de Otto Maria Carpeaux - , O Quinze antecipa-se ao fecundo e importante ciclo do romance nordestino: “o grande êxito do livro firmou o novo gênero”, como nota ainda o emitente crítico.

Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na “Academia Brasileira de Letras”. Publicou 23 livros individuais e quatro em parceria. Sua vasta e preciosa obra está traduzida e publicada em francês, inglês, alemão e japonês. Além disso, traduziu 45 obras para o português, sendo 38 romances. Colaborou semanalmente com crônicas no jornal “O Estado de São Paulo”.

RESUMO DO ENREDO DE O QUINZE

A obra de Rachel de Queiroz retrata a seca de 1915 que ocorreu no Ceará. No enredo do livro, é possível observar o sofrimento e o drama do povo em que vivia pela região do nordeste atrás de ter o que comer, e em procura de trabalho.

O livro é basicamente dividido em duas partes que se interligam, os capítulos vão alternando, em um momento é contado o caminho que Chico Bento segue com a sua família, e logo no próximo capitulo já tem uma história de Conceição e Vicente.

Na primeira parte desenvolve-se a história dos primos Vicente e Conceição, e também a jornada de Chico Bento e sua família. Conceição passa as férias no Logradouro de sua avó Dona Inácia na região de Quixadá, e recebe a visita de Vicente, e nesse momento ela começa a ter uma pequena atração em seu primo. Até ela levar sua avó junto a ela para a capital, começar a trabalhar em um Campo de concentração, lugar onde os retirantes ficavam alojados, e encontrar Chiquinha Boa que conta para ela que Vicente estava tendo um caso com Zefinha, filha do fazendeiro Bernardo, a partir daí Conceição começa a tratar o primo com frieza e faz perguntas em relação ao assunto, que Vicente –segundo Conceição- finge não entender.

Na segunda parte está a viagem de Chico Bento e sua família através de emprego. Primeiro ele tenta conseguir passagens para o Amazonas com o intuito de trabalhar com borracha, mas como não consegue, segue a viagem a pé junto com sua esposa e seus cinco filhos. O maior aliado no caminho da família de Chico Bento é a fome, que teve como resultado a morte de seu filho Josias, quando comeu a raiz crua de mandioca. Ao ver sua mulher sofrendo em todo o percurso com seus filhos, Chico Bento lembra-se do dia em que casou com Cordulina e não aguentou a situação em que ele viu a sua esposa. No meio do caminho ao encontrar uma cabra, Chico Bento mata-a afim de dar o que comer para a família, porém, o dono chega e o xinga de ladrão, dando para Chico Bento somente as tripas. Após andar muito, ele sente a falta de seu filho Pedro, e segue seu caminho até Aracape, onde encontra seu compadre delegado e descobre que Pedro fugiu com camboeiros de cachaça.

Logo após esse momento Chico Bento segue sua viagem para a Fortaleza, em direção ao Campo de Concentração, onde reencontra Conceição, a qual o ajuda a conseguir um emprego, e fica com o seu filho menor que é seu afilhado, Duquinha. Depois, Chico Bento consegue uma passagem de trem e viaja com o que restou de sua família para São Paulo, desistindo assim de trabalha com borracha.

PERSONAGENS

Conceição – Com 22 anos, Conceição era uma professora que não tinha expectativas em romances. Até que Vicente lhe despertou desejos. Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes ousados, e que pecavam pela marca de casa.
Vicente – Vicente era filho de um fazendeiro rico, mas vivia todo dia a cavalo. Vicente sempre foi um homem trabalhador, alegre e dedicado. Próximo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Cresceu querendo ser vaqueiro, apesar de ter causado vergonha a família, por não ter sido doutor (promotor) como seu irmão, Paulo.
Chico Bento – Era um vaqueiro pobre, que trabalhava para Dona Maroca. Era pai de cinco filhos, e tinha uma esposa chamada Cordulina. Saiu de Quixadá, por causa da sua patroa e da seca, e foi em direção a Manaus com a família para trabalhar com borracha, viajem essa sofrida, em que ele perde dois filhos, Josias e Pedro. Antes de embarcar para São Paulo com a família em busca de uma vida melhor é obrigado a deixar Duquinha com Conceição.
Dona Inácia – Avó de Conceição, como se fosse uma mãe para a mesma. Mulher apegada aos seus santos que tinha um Logradouro na região de Quixadá. Não aprovava que a neta fosse uma solteira pelo resto da vida.
Cordulina – Mulher de Chico Bento, é uma mulher sofredora, que não teve estudo e viveu com o marido na miséria enquanto tentavam sair de Quixadá.
Mocinha – Irmã de Cordulina, seguiu viagem com a irmã, o cunhado e os sobrinhos. Até conseguir um emprego como empregada doméstica na cidade de Castro, e acabou ficando por lá.
Josias – Filho de Chico Bento, quando não aguentava mais de fome, comeu a raiz da mandioca crua, assim, morrendo envenenado.
Pedro – Filho mais velho de Chico Bento, com doze anos, se perdeu durante a viagem.
Duquinha – Filho mais novo de Chico Bento, com dois anos. Foi doado a Conceição, quando Chico Bento e Cordulina partem para São Paulo.
Paulo – Irmão mais velho de Vicente, quando estudava, noivou com uma moça de Fortaleza, que os pais só conheceram depois do casamento. Forçadamente egoísta, só se dedicava a mulher e a sua sogra, desvalorizando a vida no sertão, e tendo como ambição um emprego na Capital.
Zefinha – Filha do fazendeiro Zé Bernardo. Conceição acha que Vicente tem um caso com a mesma.
Chiquinha Boa – Trabalhou com Vicente na fazenda, e na época da seca foi para a capital achando que o governo iria ajudar os retirantes.

TEMPO

O período apresentado no livro é do ano de 1915, no Ceará. E mostra a realidade do povo daquela época de seca, em que eles eram obrigados a migrarem de sua região para outras mais distantes em busca de emprego, como no caso de Chico Bento. A história acontece em linha reta, sempre relatando o cotidiano dos personagens. A passagem de tempo no livro é normal, tendo início, meio e fim. O tempo psicológico é explorado através do sofrimento, da miséria e com um clima de inquietações em relação aos personagens. A história desenrola-se no século XX.

ESPAÇO

A história de O Quinze se passa no nordeste brasileiro, não particularmente em Quixadá (onde a família de Vicente e Dona Inácia vivem), a obra também percorre toda a região do Ceará onde ela se encontra com maior destaque para a capital, Fortaleza.

FOCO NARRATIVO

O romance O Quinze, é narrado na terceira pessoa, ou seja, o narrador é o próprio autor. É visto como tendo um narrador onisciente, por saber desvendar o que se passa no psicológico e no coração dos personagens. Tem um discurso livre indireto. Não apresenta os personagens de forma explícita, e sim de forma implícita.

ESTILO
 
O quinze é visto como um romance regionalista, que consegue mostrar tudo o que foi vivido no Ceará na grande seca do século XX. O que torna o livro mais interessante, é que Rachel de Queiroz enuncia as angustias e os anseios dos personagens, e ainda assim não é visto nenhum grande sentimentalismo.A seca é o tema central. Apresenta-se como algo que afeta a todos da região, não separando as classes sociais. A linguagem é utilizada de uma forma simples, coloquial, não tendo assim, complicações na leitura.

VEROSSIMILHANCIA

Com relação ao período literário inserido na obra, o apresentado, é o modernismo, em especial a 2ª fase, que como foi visto no romance tem como característica o desejo de mostrar um Brasil de verdade, mostrando uma crítica social e também sentimento humano. Em relação à realidade da época como a de atualmente, é possível ver o problema em que nós ainda vivemos com a seca. A miséria, a angústia e o sofrimento de todos aqueles que foram afetados pela mesma, principalmente em regiões rurais, como também ocorre em O Quinze.

MOVIMENTO LITERÁRIO

O livro está inserido no período literário, conhecido como Modernismo, e é apresentada a sua segunda fase. Os modernistas da segunda geração ainda se voltam para a realidade brasileira, porém, agora com a intenção de denúncia social e engajamento político.
O modernismo na segunda fase apresentou como características principais:

- Repensar a historia nacional com humor e ironia –
- Verso livre e poesia sintética
- Nova postura temática - questionar mais a realidade e a si mesmo enquanto indivíduo
- Tentativa de interpretar o estar no mundo e seu papel de poeta
- Literatura mais construtiva e mais politizada.
- Surge uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo
- Aprofundamento das relações do eu com o mundo
- Consciência da fragilidade do eu
- Perspectiva única para enfrentar os tempos difíceis é a união, as soluções coletivas.

CONCLUSÃO

Compreendemos que o livro O Quinze constitui um marco no Modernismo, principalmente expressões ligadas à segunda fase modernista.
O romance mais conhecido de Rachel de Queiroz evoca a traumatizante seca de 1915. Aborda uma temática social, retrata a fome, a morte, o medo e a tristeza, sentimentos esse que são possíveis observar em todo o enredo do livro, principalmente na história da Chico Bento. A morte aparece em qualquer momento, no Campo de Concentração, na caminha de Chico Bento, nas famílias de retirantes... Não só morte de pessoas, como também a de animais.
Não existe uma história de amor entre Vicente e Conceição, há falta de comunicação entre os dois, à cultura de ambos não são similares e esses são apenas um dos motivos que contribuíram para que eles não tivessem um final feliz.
Em todo o livro, a seca é realmente responsável por todas as coisas ruins que aconteceram para os personagens, sem exceção. Para os que tinham consciência da miséria, era visto que seria impossível alguém ser feliz.

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