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Uma análise profunda de "Paixão Simples" de Annie Ernaux



APRESENTAÇÃO

Um dos livros de Annie Ernaux mais adorados pela crítica e pelo público, Paixão simples é também um dos mais ambiciosos por sua tentativa de dar conta da radicalidade da experiência de se apaixonar. Nas breves páginas deste relato profundamente humano, publicado pela primeira vez em 1992, a vencedora do prêmio Nobel de 2022 esmiúça o estado de enamoramento absoluto que experimentou quando, já divorciada e mãe de dois filhos crescidos, viveu um relacionamento com um homem casado. Durante os meses em que se relacionou com A., toda a existência da autora foi regida por um novo signo, que ela disseca com precisão e franqueza. “Graças a ele”, afirma, “eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de às vezes imaginar que iria chegar do outro lado”. Essa proximidade do limiar, tão própria do sujeito apaixonado, assume formas variadas no relato. A primeira fronteira a ser deixada para trás é a da razão, que cede espaço ao pensamento mágico por meio do qual se manifesta a expectativa agonizante de ser correspondida. Cada evento, palavra ou pessoa ao redor só tem interesse para Ernaux na medida em que a faz pensar em A. Cada minuto longe dele é uma espera que transcorre de forma diversa do ritmo da vida real. Tema recorrente na obra da escritora, o tempo em Paixão simples não obedece à lógica ou à História. “Para mim não havia essa cronologia em nossa relação, eu só conhecia a presença ou a ausência”, eis o aspecto radical da paixão. Uma vez terminada a relação, o tempo entra em cena novamente, desta vez como índice do rastro deixado por um acontecimento marcante: “Estava sempre calculando, ‘há duas semanas, cinco semanas, ele foi embora’, e ‘no ano passado, nessa data, eu estava aqui, fazendo isso e aquilo’ […]. Pensava que era muito estreito o limiar entre essa reconstituição e uma alucinação, entre a memória e a loucura”. Verdadeira anatomia da alma apaixonada, este livro é também uma reflexão sobre o poder da escrita e um elogio ao luxo que é viver um grande amor.

RESENHA




O livro paixão simples da autora francesa Annie Ernaux, ganhadora do prêmio Nobel de literatura em 2022, com tradução de Marília Garcia, com lançamento no Brasil através da Fósforo editora é a obra mais distinta da autora que se diferencia não em grandiosidade descritiva, mas em intensidade e paixão. A obra lançada originalmente em 1992 se debruça em descrever os períodos de paixão e êxtase absoluto enfrentados pela autora ao se relacionar com 'A', um homem casado que participou de sua vida durante o período turbulento da vida de mãe solo de um casamento recém-acabado.

Ao conversar com outras pessoas, os únicos assuntos que rompiam minha indiferença estavam relacionados a esse homem, ao trabalho dele, ao país de onde vinha, aos lugares que conhecia. (p.8)

Ernaux descreve os efeitos efêmeros provocados pelos encontros casuais sem hora marcada com A, e toda a rotina que precedia de um aviso prévio de que, talvez, em uma hora algo pudesse rolar, como em uma paixão febril e avassaladora que toma conta do corpo mediante a oportunidade de um encontro adolescente regrado de sensualidade.

Se ele anunciava que viria dentro de uma hora — uma “oportunidade” tinha aparecido, ou melhor, uma desculpa para chegar tarde em casa sem que sua mulher desconfiasse [...] Meu desejo era não fazer nada além de esperá-lo (p.9)

Os encontros demoravam a acontecer, e quando finalmente aconteciam, ela não parecia se conectar completamente com o momento. Apenas com a ilusão do efêmero, que sabia que acabaria de forma repentina. Havia um tempo para que tudo se desenrolasse, e isso a deixava apreensiva. Não pelo medo do fim, que sabia que iria ocorrer, mas sim pela forma como se desdobrava.

Ele parecia não sentir algo tão intenso como ela, o que a fazia descrever minuciosamente sua preocupação em relação ao tempo e ao relógio que evitava usar, ao contrário dele, que nunca tirava do pulso. Isso a deixava desconcertada, incomodada e questionando o verdadeiro significado de suas conexões.

Durava apenas algumas horas. Eu nunca cava de relógio, tirava logo antes de ele chegar. Ele mantinha o dele, e eu temia o momento em que o consultaria discretamente. Quando ia à cozinha buscar gelo, eu olhava para o relógio em cima da porta, “mais de duas horas”, “uma hora”, ou “daqui a uma hora estarei aqui e ele terá ido embora”

E, ao final de cada encontro, ela permanecia imóvel contemplando o ambiente e a forma como a qual tudo se desdobrou. Acabou. Ela permanecia imóvel refletindo sobre os copos, talheres e sobre a bagunça, que, de certa forma, mantinham o encontro vivo e palpável. Aqui, ela descreve como uma adolescente em chamas pela paixão, a tristeza e cansaço que lhe tomavam ao findar dos encontros.

Os encontros demoravam a acontecer, e quando finalmente aconteciam, ela não parecia se conectar completamente com o momento. Apenas com a ilusão do efêmero, que sabia que acabaria de forma repentina. Havia um tempo para que tudo se desenrolasse, e isso a deixava apreensiva. Não pelo medo do fim, que sabia que iria ocorrer, mas sim pela forma como se desdobrava.

Depois que ele saía, um cansaço extremo me paralisava. Não conseguia arrumar as coisas de imediato. Ficava um tempo olhando os copos, os pratos com as sobras, o cinzeiro cheio, as roupas e peças de lingerie espalhadas pelo corredor e pelo quarto, o lençol sobre o carpete. Minha vontade era manter aquela desordem tal como estava. (p.11)

Após os encontros e os pensamentos sobre as vezes que viriam ou que poderiam vir a ocorrer, ela passava dias pensando nas carícias, no sexo, na presença e na forma como tudo se conectava, ainda, que, para mim, seus desejos não eram tão correspondidos se levarmos em consideração a forma como ela se entregava ao esplendor do ambiente e dos momentos, em contrapartida, suas descrições sobre a forma como ele admirava o ambiente e preocupava-se com a fluidez líquida dos encontros. O que, de certa forma, comprova que todo este âmago, de certa forma, eram apenas um prazer efêmero da descoberta de novas aventuras sexuais em uma vida pós-abandono, o que, claro, não tira em nenhum instante o mérito inflamável das descrições acaloradas de um amor que se renovava no dia-a-dia.

Ela descreve suas preocupações sobre um período de distanciamento com A, o que a fez querer buscar respostas com cartomantes, mas o que abandonou de ímpeto após pensar na possibilidade, de, que, talvez, seus temores fossem confirmados em relação à ausência dele. O alto teor preocupante da narrativa se intensifica através de um único pensamento da autora:

Uma noite, fui tomada pela vontade de fazer um exame de HIV: “Pelo menos isso ele teria deixado em mim” (p.30)

O pensamento de que, talvez, ele tivesse à deixado com o vírus do HIV correndo em seu corpo durante um período sem cura ou sem grandes expectativas é preocupante, mas se iguala em nível de paixão avassaladora, sobretudo, apenas pela vontade de possuir algo dele ainda em si, o que, talvez, acabasse com o sofrimento de sua partida repentina. Algo que, nem se ele quisesse, poderia toma-la.

Ela passou o ver em sonhos, em pensamentos e no dia-a-dia até mesmo nas coisas mais banais, seus pensamentos eram tomados de súbito enquanto pensava nos horários de um trem ou durante uma anotação qualquer, ele estava sempre lá, sempre presente. E essa descrição da autora em relação a como se sucederam os outros dias e momentos são intensificadas por suas breves divagações em forma de diário onde ela expõe sua rotina com a presença quase que palpável dele.

A obra se finaliza com a constatação do retrocesso de uma vida passada ao lado de A, ela descreve com um sentimento de livramento o sentimento e o último encontro, sobretudo, do nascimento do presente livro, ao qual ela descreve sutilmente: Ora, mas não escrevi um livro sobre ele, nem sobre mim mesma. Apenas expressei com palavras — que talvez ele nem leia, e que não são destinadas a ele — o que a existência dele, por si só, me trouxe. Um tipo de dom reverso. A paixão descrita pela autora é, sobretudo, bela em sua essência e única em características próprias da autora: sua capacidade de descrever com clareza e sentimentalismo profundo o mais perfeito encontro de um ser humano com o sentimento do amor - ou da paixão - que nos toma sempre em um momento inesperado da vida. Diferente de tudo o que já li da autora, mas único e incomparável como qualquer coisa expressa por Ernaux, certamente, um livro merecedor de muitos outros prêmios.

Resenha: Um caminho particular do futuro, de Ricardo Bernhard


APRESENTAÇÃO

Francine não conhece mais o próprio filho. Um NÃO escrito num papel ― três letras e um til na caligrafia inclinada do Cláudio ― como um ponto de partida para a incompreensão. Cláudio não cuidava direito do adorado sítio da família. Cláudio não passava os fins de semana com a mulher e o filho. Cláudio estragou as suas finanças. Cláudio abdicou da sua vida. Cláudio fazia o que não se pode entender. O que, afinal, o Cláudio fazia? Sentindo-se isolada no Rio de Janeiro, depois da morte precoce do filho caçula, a viúva Francine decide se mudar para o sítio da família no vilarejo de Sebastião de Ararampava, na Região Serrana do estado. O seu objetivo era encontrar algum conforto nas memórias de um tempo em que ela, o marido Antero e os filhos Vicente e Cláudio viviam juntos, um tempo em que era possível entender quem eram os seus e o que faziam. Mas, àquele NÃO escrito no papel, juntaram-se outras perplexidades, trazidas pelas observações de Francine, pelas conversas com os habitantes do vilarejo, por lembranças até então sufocadas ou agora reinterpretadas. Não há conforto em Ararampava. Não é possível deixar Ararampava. Cláudio está morto, e Francine quer tentar compreender quem ele era. Romance de ideias em prosa transparente, Um caminho particular do futuro trilha rotas insuspeitas que ligam o certo ao errado, conforme são abertas por uma busca individual de entendimento. O radicalismo onde só se notava temperança, a intrepidez de quem só se sabia fraco, a grandeza quando só se podia supor a mesquinhez, numa obra em que os extremos se sobrepõem numa dinâmica sutil e, acima de tudo, ingovernável. Pois, ainda que a palavra queira guiar o destino, o futuro não se deixa levar por todos os caminhos.

RESENHA


O livro 'um caminho particular do futuro', do autor Ricardo Bernhard, explora a vida de Francine e seu marido Antero e seus filhos Cláudio e Vicente. A obra que explora as complexidades existentes no seio familiar e a busca individual pelo entendimento acerca do luto transforma toda trama do autor em um exercício de reflexão leitor-protagonista, o que faz o livro se tornar palpável de forma direta e sem rodeios. A obra se inicia com Francine, protagonista e figura central, que, chega à casa de sua propriedade, na companhia do motorista e da caseira Dona Almerinda. Ao observar a deterioração da casa, ela sente uma mistura de nostalgia e desolação. Ela decide não entrar e caminha até a mata para respirar ar fresco e se recuperar do enjoo da viagem. Na mata, ela se recorda de momentos passados com sua família e encontra conforto na memória. Francine então reflete sobre a necessidade de realizar reformas na casa, mas ainda não está pronta para enfrentar as mudanças necessárias.

Francine já nas primeiras páginas narra a perda de seu filho caçula, Cláudio, e a mudança de seu foco de vida para o sítio em Ararampava, que pertencia à família. Ela descreve a solidão que sente no Rio de Janeiro, apesar de ter companhia, e a forma como a casa da cidade ressalta a ausência e a separação da família. Ela reflete sobre as tentativas frustradas de se aproximar de sua nora, Júlia, após a morte do marido e a falta de reciprocidade. Com a morte do marido Antero, ela decide vender o sítio, mas o filho Cláudio se oferece para comprá-lo e mantê-lo como um espaço familiar. No entanto, ela se sente excluída e não visita o local, optando por ficar no apartamento no Rio de Janeiro.

Na infância dos meninos, Isabela era a única criança da vizinhança que sempre se encontrava nas idas a Ararampava. Os três formaram um trio inseparável, com as personalidades de Vicente e Cláudio se complementando para acolhe-la. Eles brincavam juntos, tomavam banho no riacho, visitavam o bar da Ruiva, acampavam no quintal, entre outros costumes. Com o passar dos anos, Isabela se tornou uma jovem bonita e graciosa, e tanto Vicente quanto Cláudio pareciam cativados por ela. No entanto,  Francine, mãe dos meninos, sentia-se desapontada e até mesmo indignada com a situação, achando que eles estavam perdendo tempo com a vizinha. Ela então reflete sobre seu ciúme como mãe e sua intolerância em relação à ideia de Isabela como uma potencial parceira para seus filhos. Conclui que, apesar de suas preocupações, o tempo mostrou que Isabela acabou se envolvendo com um jardineiro local, e não com seus filhos e isso, de momento, lhe deu alívio momentâneo.

Dona Francine, a caseira Dona Almerinda e o Seu Evanildo, na cozinha da casa conversam sobre se Júlia não conhecia a caseira e o Seu Evanildo, e descobre que o Cláudio, seu filho falecido, vinha sozinho à casa, encontrava-se com a vizinha Isabela e saía no mesmo dia. Dona Francine fica intrigada com essa relação e decide procurar a vizinha para descobrir o que ela queria falar com ela. O capítulo revela segredos e gera mais perguntas sobre a relação entre Cláudio, Isabela e a família.

Vicente visita de forma inesperada a sua casa no sítio em Ararampava, apesar de inicialmente parecer feliz, Vicente se mostra angustiado e desestabilizado durante a estadia, realizando ações estranhas como revirar os quartos da casa. Durante um passeio pela cidade, as pessoas confundem Vicente com seu falecido irmão Cláudio, aumentando ainda mais a tensão do personagem. Durante a madrugada, a protagonista flagra Vicente se encontrando com a vizinha Isabela no quintal, mas a interação entre os dois é tensa e sem romantismo, o que alivia suas expectativas. 

Francine então vai ao encontro do padre Eduardo, que revela a história de Isabela, uma moça da mesma idade que Cláudio, vizinha, que engravidou na adolescência. A tragédia resultou na morte de um dos gêmeos e na entrega do outro filho para adoção. O padre destaca a bondade e coragem de Cláudio em ajudar Isabela, mas a narradora fica perplexa com a revelação, questionando por que nunca soube da história. A narradora tenta processar a informação para entender o passado e as memórias que retornam. 

'Um Caminho Particular do Futuro' do autor Ricardo Bernhard é uma verdadeira obra-prima que explora de forma e sensível as complexidades existentes nas relações familiares e a busca individual pelo entendimento acerca do luto. Bernhard consegue criar uma trama emocionante e reflexiva, que nos faz refletir sobre nossas próprias vidas e relações. A obra é, senão, uma primasia da literatura brasileira contemporânea.

RESENHA: Eu só existo às terças-feiras, de Rodrigo Goldacker

APRESENTAÇÃO

Viktor tem sete personalidades, uma para cada dia da semana. O tímido Terça só existe às terças-feiras. Quando uma guerra interna entre os eus de Viktor começa, a única esperança de resolução pode estar em Terça e nas estranhas habilidades que ele está prestes a desenvolver.

RESENHA


O livro 'eu so existo às terças-feiras', finalista do prêmio Kindle de literatura, do autor Rodrigo Goldacker se inicia com o personagem, Viktor,  relatando sua rotina semanal em que ele compartilha seu corpo com mais seis personalidades, cada um representando um dia da semana. Cada dia tem suas próprias características e responsabilidades, como fazer registros diários em um notebook. Domingo é o mais organizado e misterioso, enquanto Sexta é problemático devido ao uso excessivo de álcool e cigarro. Após ler os registros dos outros dias, o personagem se prepara para uma consulta com um psicólogo, o que gera ansiedade e medo. No fim do capítulo, ele chega ao consultório e é recebido pelo psicólogo, David, sendo chamado pelo nome de um dia da semana, Terça, deixando-o surpreso.

David está em casa escrevendo sobre sua consulta com o psicólogo, sentindo medo e curiosidade após ouvir que o psicólogo "sabe de tudo". Ele mantém em segredo o que foi proposto pelo psicólogo para evitar que os outros fiquem chateados. Domingo está disposto a se sacrificar pela possibilidade de cura e David sente um vínculo de afeto com ele. Ele reflete sobre a ruptura de personalidade de quando tinham onze anos e teme ser o "Viktor original". Mesmo se sentindo conflituoso, David escreve um relatório demonstrando lealdade ao manter segredos necessários. Ele anseia pelo próximo encontro com o psicólogo para iniciar o processo de cura e unificação de seus dias, reconhecendo que em breve será chamado Viktor. Já Viktor, ao acordar, percebe os estragos causados por Sexta na última sexta-feira e decide ajudar Quarta a se comunicar mais com Bia. Ele reflete sobre a necessidade de ser mais comunicativo e evitar comunicações negativas.

Terça acompanha Viktor numa consulta com David e é orientada a relaxar e lembrar de algo anterior à sua cisão. Ele se esforça, mas não consegue encontrar nenhuma memória da infância. Depois de buscar caminhos menos óbvios, Terça se vê na pele de Quinta, sentindo-se poderoso e confiante. Ele se lembra de situações em que Quinta flerta com uma garota na academia e depois na escola. Ao se concentrar mais, Terça descobre que Quinta consegue acessar as memórias de Segunda, e percebe que Segunda é o Viktor original. David pede para que ele vá com calma nas conclusões.

Bia confronta Terça, revelando que sabe que ele não é Quarta. Após uma conversa, Terça decide se comunicar diretamente com Quarta através de um e-mail, desafiando as regras estabelecidas por Domingo. Ele cria um novo endereço de e-mail e envia uma mensagem para Quarta, pedindo que ele leia e devolva o papel para Bia, que deve entregá-lo a Sexta. Terça se sente culpado, mas também excitado com a ideia de ter um canal de comunicação secreto com Quarta. No final, Terça mente em seu diário sobre o que ocorreu no dia e se sente livre e poderoso, como Quinta.

Terça acorda com uma dor de uma ferida aberta em sua coxa, causada por automutilação. Ele tenta improvisar um curativo e descobre que alguém bloqueou seu acesso ao notebook e ao celular. Ao sair de casa, encontra o Pai, que revela saber sobre a situação dos alter egos e que está ciente de que Terça está prestes a deixar de existir. O Pai explica que ele foi escolhido para ir ao psicólogo devido à recusa dos outros alter egos. Terça tenta obter informações sobre os outros, mas o Pai não sabe de nada fora do habitual e sai para o trabalho, deixando Terça sozinho e desamparado.

Durante o intervalo escolar, Viktor recebe um e-mail de Sexta avisando que Sábado está tentando controlar todos os dias, acreditando ser o original e com medo de morrer. Sábado convenceu o Pai a ajudá-lo nesse plano e está substituindo os dias que compõem Viktor. Sexta sugere uni-los em um só, alertando que somente Terça pode ajudar a impedir o plano de Sábado. Viktor decide lutar contra Sábado e buscar a união dos dias. Terça confronta seu psicólogo, David, sobre sua lealdade e colabora com ele para deter Sábado. Terça elabora um plano de comunicação entre Segunda, Quinta e ele, com a ajuda de David, e se sente motivado em sua missão. Em um retiro de férias, Terça descobre que seus pais estão tentando ajudá-lo. Através das memórias de Quinta, ele descobre mensagens de Domingo e acessa registros diários, descobrindo que Fim de Semana está escrevendo por ele. Sem conexão com a Internet, Terça se sente perdido até a chegada de Bia, trazendo esperança e companhia.

Viktor acord ao som dos gritos dos pais em uma briga. Ele se envolve na discussão, mas é repreendido pelo pai. Na escola, ele é abordado pelos colegas, mas não compartilha seus problemas. Uma nova aluna, Bia, senta ao seu lado e ele fica confuso. Viktor rejeita convites para sair da aula e beber, mas uma de suas personalidades assume o controle e decide ir. Ele percebe que suas diferentes personalidades são mais fortes do que ele próprio. No final, ele reflete sobre sua existência como a "máscara das coisas que ninguém mais quis" e lamenta ser o caçula indesejado.

Bia e Viktor conversam sobre a necessidade de lidar com a personalidade de Quarta, criada especificamente para amar e agradar Bia. Bia decide trair Quarta para ajudar na cura das personalidades fragmentadas de Viktor. Terça é elogiado por ser o único que se importa em curar todos e lidar com situações difíceis. No final, Terça se anima para encontrar soluções e seguir em frente rumo à cura. Viktor reflete sobre os e-mails que recebeu de Sexta, David e Sábado, e entra em meditação para decidir se deve se juntar a Sábado para manter a separação das personalidades ou manter sua bondade como Terça. 

Terça passa o dia lidando com a presença crescente de Fim de Semana em sua vida e se preparando para resolver a situação e enviar sua epifania para Sábado. Enquanto isso, Viktor descobre que David traiu sua confiança ao não entregar o livro para Sábado, e Quarta, após algumas tentativas falhas, deide se sacrificar para ajudar Viktor a recuperar o livro e entregá-lo a Bia, antes de ser dominado por Fim de Semana. Viktor tem um leve fio de esperança, mas ainda está incerto sobre o que o futuro reserva.

As várias versões de Viktor estão cada vez mais desesperadas e em crise, vivendo em um mundo apocalíptico onde a planície está encolhendo e a estrela que os guia está se apagando. Enquanto tentam lidar com a situação, Quinta, uma das versões de Viktor, busca vingança contra Terça, que é a versão principal do protagonista. Mesmo diante da violência e da iminente morte, Terça mantém uma serenidade e aceitação, reconhecendo a futilidade da situação. Finalmente, ele e sua contraparte Segunda são empurrados para o abismo, encerrando suas existências de forma trágica. O capítulo traz reflexões sobre identidade, culpa e desespero, mostrando o estado de desintegração e desesperança das várias versões de Viktor.

Após um tempo em queda, ele chega a uma casinha onde encontra uma versão jovem de si mesmo, que vive em uma espécie de refúgio. O jovem Viktor não possui mais controle sobre a vida do narrador, que decide junto com Segunda retornar ao mundo lá fora. Eles enfrentam desafios juntos, até que encontram uma figura misteriosa que parece ser uma outra versão de Segunda. O capítulo termina com o narrador questionando sua sanidade diante da semelhança entre as duas figuras.

O livro se finaliza com uma revelação de Segunda sobre sua vida e a descoberta de sua intenção de morrer. Viktor acessa as memórias de Segunda e descobre seu desejo profundo de morrer e sua tentativa de criar uma nova melhorada de si própria. Viktor e segunda conseguem reunir todos os sete dias na planície para tentar retornar à estrela. Com sucesso, todos sobem em direção à luz, vivenciando uma profunda sensação de plenitude e realização.

"Eu só existo às terças-feiras" é uma obra interessante ao seu gênero, que explora de forma brilhante a complexidade da mente humana. O autor, Rodrigo Goldacker, constrói uma narrativa original, teletransportando o leitor em um universo de múltiplas personalidades e identidades fragmentadas. A forma como os dias da semana são representados como personagens distintos, cada um com suas características e desafios, é genial e nos leva a refletir sobre a nossa própria natureza.

Rodrigo Goldacker é um redator e escritor que atua na área de UX Writing. Além disso, é formado em Publicidade & Propaganda e Comunicação. Tem livros publicados em 2022 e mantém um blog no Medium onde escreve sobre diversos temas. Atualmente, vive em Indaiatuba, mas está prestes a retornar a São Paulo, sua cidade natal.

Resenha: O Brasil tem cura, de Rachel Scheherazade

APRESENTAÇÃO

"O Brasil tem cura" faz uma radiografia, sem máscaras, da nossa pátria. Em busca de soluções, põe sob os holofotes as principais mazelas que assolam o país. Partindo de uma análise histórica, Rachel Sheherazade identifica alguns dos problemas que adoecem o Brasil e propõe caminhos para saná-los. A obra se guia pelo pressuposto de que o país só será passado a limpo se cada brasileiro fizer a sua parte e passar a agir com integridade inegociável, ensinando essa postura às futuras gerações. Convido-o a, juntos, descobrirmos por que nosso país enveredou por caminhos tão penosos e a refletir acerca de quais escolhas nos têm feito pagar um preço tão alto por sermos brasileiros. Proponho-me a indicar e a contextualizar as que entendo ser algumas das principais mazelas do Brasil, de modo que sirvam de ponto de partida para repensarmos tudo o que precisa ser mudado. Rachel Sheherazade

RESENHA

O livro se inicia com uma apresentação autobiográfica de uma autora, que, cresceu durante a ditadura militar no Brasil. Ela relata como a censura e a perseguição política afluíam em sua infância e como, posteriormente, a redemocratização do país permitiu que ela se tornasse uma jovem ativista política. Ela participou de protestos estudantis e se envolveu em questões políticas, incluindo o impeachment do presidente Fernando Collor em 1992.

Ela também aborda na introdução a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente em 2002 e como a jornalista foi influenciada pela sua campanha e discurso de mudança. No entanto, ela também relata como a realidade do governo de Lula não atendeu às suas expectativas e como ela começou a questionar a sinceridade do discurso do PT.

O primeiro capítulo, diagnóstico, a autora explica que o Brasil é um país com muitas qualidades, mas enfrenta problemas graves como insegurança, violência, corrupção e injustiças. Apesar disso, o brasileiro comum tenta fazer sua parte, inspirando outros com seus exemplos. O brasileiro sofre de um "complexo de vira-lata", com baixa autoestima e uma autoimagem negativa, apesar dos avanços do país. Isso se deve em parte ao tipo de colonização portuguesa, que moldou o caráter do brasileiro como individualista, paternalista e patrimonialista. Os primeiros colonizadores portugueses vinham ao Brasil apenas em busca de riqueza fácil, sem interesse em se estabelecer ou construir um futuro para o país. Muitos eram degredados enviados pela coroa, o que contribuiu para a falta de senso de coletividade e compromisso com a nação. Essa herança colonial ajuda a explicar o comportamento individualista, a tendência ao paternalismo e a dificuldade de muitos brasileiros em se orgulhar e amar seu país, devido ao desconhecimento de sua história e trajetória.

Já o segundo capítulo intitulado 'doença',  discute a relação entre pobreza e violência no Brasil, argumentando que a pobreza não é a causa da criminalidade. Ele cita o exemplo do sertão nordestino, onde a população vive em condições de miséria, mas não apresenta altos índices de violência. O autor também menciona que a redução da desigualdade social durante o governo Dilma Rousseff não levou a uma diminuição proporcional da violência, contrariando a lógica de que a redistribuição de renda combate o crime.

Rachel ainda critica fortemente a impunidade de crimes de colarinho branco, usando como exemplo o escândalo do Mensalão. Apesar das condenações iniciais, os réus acabaram beneficiados por leis frouxas e recursos protelatórios, não cumprindo penas efetivas. O autor argumenta que a impunidade é o maior combustível da violência, pois aumenta a audácia dos criminosos. Outro fator mencionado é a legislação penal brasileira, considerada falha por não punir adequadamente os criminosos. O excesso de recursos em favor dos réus e a demora nos julgamentos também fortalecem a impunidade, como ilustrado pelo caso do assassinato da líder sindical Margarida Maria Alves. Desta forma, violência no Brasil não tem origem na pobreza, mas na impunidade, na legislação penal ineficiente e no sistema judiciário moroso, que não pune devidamente os criminosos, sejam eles pobres ou de colarinho branco.

Já no terceiro capítulo intitulado 'o tratamento', aborda a importância da participação política e da ética individual para a transformação do Brasil. Alguns pontos discutidos pela autora são: Política é a arte de convergir interesses individuais e beneficiar a maioria, não deve ser confundida com politicagem. O cidadão consciente vota com conhecimento dos candidatos e fiscaliza os eleitos, pois suas escolhas selam o destino da nação. A corrupção não se restringe aos políticos, mas é um problema de toda a sociedade, que precisa começar a mudar pelo exemplo individual. Atitudes éticas no dia a dia, como respeitar leis e denunciar abusos, têm grande poder transformador quando multiplicadas. A família é o primeiro referencial de conduta, então pais devem dar bons exemplos para os filhos. A Operação Lava Jato revelou um esquema de corrupção bilionário na Petrobras, mostrando como o desvio de recursos públicos causa grandes danos à sociedade. Apesar de condenações, muitos corruptos acabam beneficiados por leis brandas e impunidade, o que precisa mudar. Em resumo, o texto defende que a transformação do Brasil depende da participação política consciente e de uma revolução ética individual, começando pela família, para combater a corrupção sistêmica.

Scheherazade conclui seu relato destacando sua jornada de transformação como jornalista e cidadã engajada, que busca fazer a diferença no Brasil. Ela destaca a importância de se posicionar, de renovar a mente e agir para mudar a realidade do país. Inspirada por exemplos históricos de transformação, ela desafia os leitores a agirem, acreditando que cada indivíduo pode contribuir para uma mudança positiva. A autora enfatiza que a renovação da mente é essencial para mudar atitudes e que cada um deve fazer a sua parte para transformar a sociedade. Ela acredita que o Brasil pode ser transformado, desde que cada cidadão assuma sua responsabilidade e atue em prol de um país melhor.

O livro de Rachel Scheherazade é uma leitura envolvente e inspiradora, que nos leva a refletir sobre a realidade política e social do Brasil. A autora consegue abordar de forma clara as questões complexas, como a relação entre pobreza e violência, a impunidade nos crimes de colarinho branco e a importância da participação política e ética individual. Sua narrativa autobiográfica adiciona uma camada emocional e pessoal à análise política, tornando o texto ainda mais impactante. A mensagem final de esperança e transformação, incentivando cada cidadão a fazer a diferença, é extremamente inspiradora e nos desafia a agir em prol de um país melhor. Definitivamente, um livro que vale a pena ler e refletir.

O indomável: João Carlos Martins entre som e silêncio, de Jamil Chade


APRESENTAÇÃO

João Carlos Martins é considerado um dos maiores pianistas intérpretes de Johann Sebastian Bach, com quem divide, além do primeiro nome, um amor profundo, inquestionável e autêntico pela música. Nesta biografia, o jornalista Jamil Chade expõe suas facetas mais públicas e seus segredos: pianista prodígio, músico silenciado pelo próprio corpo, personagem com erros e acertos, reinvenção ambulante, maestro indomável.

Da infância debruçada sobre o piano, sob o olhar atento do pai obcecado pelo sucesso do filho e disposto a recorrer a métodos questionáveis para isso, a juventude como uma promessa realizada de talento e fama e a consagração interrompida em seu auge pela gradual atrofia nas mãos, João reinventou o conceito de sobrevivência a cada silêncio forçado a suportar. Mesmo quando esteve afastado dos palcos, como no curto período em que foi empresário esportivo e durante sua passagem breve e polêmica pela política, a esperança de que a música retornasse para ele o impediu de ficar à deriva.

Muitas sessões de fisioterapia o levaram de volta aos palcos, mas o agravamento de lesões neurológicas, acidentes e um episódio de violência forçaram a interrupção na carreira de pianista, dessa vez de forma definitiva. Mas suas mãos indomáveis não deixaram de ousar trazer Bach à vida, agora como maestro. Muito mais que um exemplo de superação e perseverança, no entanto, o que se destaca em sua trajetória é o talento e a profunda dedicação à música como ferramenta transformadora de vidas.

RESENHA

João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes de Johann Sebastian Bach, compartilha com o compositor um profundo amor pela música. Nesta biografia, o jornalista Jamil Chade revela as várias facetas de Martins: prodígio do piano, músico limitado por problemas físicos, figura com acertos e erros, reinventor constante e maestro inquebrável. Desde a infância dedicada ao piano, com um pai obstinado pelo sucesso do filho e disposto a usar métodos questionáveis, até a consagração interrompida pela atrofia nas mãos, Martins demonstra uma incrível capacidade de sobreviver aos desafios. Mesmo afastado dos palcos, seja como empresário esportivo ou político, a música sempre foi sua bússola.

O livro explora as nuances acerca do maestro, que, mesmo enfrentando lesões neurológicas, acidentes e violência, João Carlos Martins nunca deixou de trazer Bach à vida, agora como maestro. Sua jornada vai além da superação e da perseverança, destacando-se seu talento e dedicação à música como agente transformador.

João Carlos Martins, um pianista brasileiro, causou grande repercussão em sua viagem a Cuba em 1961, sendo elogiado pela imprensa local por sua técnica impressionante e interpretações brilhantes. No entanto, em meio a essa excitação artística e política, ele testemunhou a condenação à morte de um jovem acusado de atacar as instituições com granadas, o que o deixou chocado. Diante da situação caótica e do risco em que se encontrava, foi aconselhado a deixar Cuba imediatamente para evitar uma crise diplomática.

O livro ainda esclarece os desafios e traumas e convulsões não tratadas , somadas ao drama de um cisto na garganta. O pai de Martins, determinado, o incentivou e promoveu seu talento, levando-o a ter aulas com o professor de piano José Kliass. Apesar de sua ousadia e autoconfiança, João impressionou até mesmo o compositor Heitor Villa-Lobos. Sua jornada musical prometia uma carreira brilhante, apesar das adversidades enfrentadas desde cedo. Apesar do sucesso, João começou a enfrentar problemas de saúde, como um desconforto no braço durante as gravações. Mesmo assim, ele continuou a conquistar críticos e audiências nos Estados Unidos, consolidando sua reputação como um dos grandes pianistas da época. Sua jornada de sucesso foi marcada por desafios, mas João sempre se destacou como uma estrela brilhante no cenário musical.

João demonstrava talento musical desde a infância e, aos 23 anos, já se apresentava em grandes palcos internacionais. No entanto, no auge da carreira, ele começou a sentir dores e movimentos involuntários nas mãos, o que o levou a buscar ajuda médica. Os diagnósticos eram incertos, alguns apontavam para problemas psicológicos, enquanto outros indicavam causas físicas.  Apesar das dificuldades, João não desistiu da música. Ele adaptou suas técnicas e repertório, buscando maneiras de driblar a dor e continuar tocando. Com persistência e força de vontade, ele se apresentou em diversos países, emocionando o público com sua maestria e sensibilidade.

Com o passar do tempo, os problemas nas mãos de João se agravaram, tornando cada vez mais difícil a execução do piano. Em 1970, após uma crítica negativa no New York Times, ele tomou a difícil decisão de encerrar sua carreira aos 30 anos.

João Carlos Martins abandona a carreira musical em 197, se muda para São Paulo e assume o cargo de diretor da Turismo União, um braço inovador do Banco União Comercial. Na Turismo União, João utiliza seus contatos internacionais para trazer grandes shows e eventos para o Brasil, como Alice Cooper, Johnny Mathis e The Supremes. Essa iniciativa transformou a empresa em uma das maiores do ramo de entretenimento no país. Em seu escritório, João mantém um piano mudo, presente da pianista Guiomar Novaes. Em segredo, ele pratica exercícios para tentar recuperar o uso da mão afetada pela doença e voltar a tocar. 

O autor explora o papel do silêncio na música, desde as pausas nas partituras medievais até o silêncio deliberado dos sinos japoneses. Na vida de João, o silêncio do piano mudo representa a esperança de um retorno aos palcos. Em um encontro casual, João conhece o pugilista Eder Jofre, que havia perdido o título mundial de boxe anos antes. Ele decide patrocinar o retorno de Jofre às competições, buscando reerguer a carreira do esportista e promover o Brasil em um momento de instabilidade política. O autor destaca as semelhanças entre as trajetórias de João e Eder Jofre: ambos se tornaram ídolos nacionais na década de 1950, sofreram reveses em suas carreiras e contavam com o apoio de seus pais para alcançar o sucesso.

O livro destaca o talento excepcional de João Carlos Martins, reconhecido por sua técnica impecável, sensibilidade musical e capacidade única de interpretar as obras de Bach. Sua paixão pela música transcende os limites físicos, impulsionando-o a superar obstáculos e encontrar novas formas de se expressar artisticamente. Na obra testemunhamos sua luta contra a doença, as frustrações e as críticas, mas também sua capacidade de se reinventar, encontrar força na adversidade e jamais desistir de seus sonhos. Sua trajetória inspiradora serve como um farol para todos que enfrentam dificuldades em suas vidas.  Recomendamos essa biografia a todos os amantes da música clássica, aos admiradores da trajetória de João Carlos Martins e a todos que buscam histórias inspiradoras de superação. É um livro que toca o coração e nos faz refletir sobre o poder da música.

Resenha: Os diários de Albert Einstein: América do sul, 1925, org. Ze'ev Rosenkranz


APRESENTAÇÃO

Com Os diários de viagem de Albert Einstein em mãos, o leitor poderá conhecer a fundo os pensamentos, sentimentos e opiniões sem censura de um dos maiores gênios da ciência, durante a viagem de três meses pela América do Sul, incluindo sua estadia no Rio de Janeiro.

Na primavera de 1925, Albert Einstein embarcou em uma viagem para a Argentina, o Uruguai e o Brasil. Após inúmeros convites das comunidades científica e judaica, Einstein concordou com a visita prolongada por razões acadêmicas e humanitárias. Ao mesmo tempo ele tentava encerrar um caso com sua secretária, ansiando então pela fuga proporcionada por uma longa viagem a bordo do S.S. Cap Polonio.

Em seus diários de viagem, o cientista e ícone humanitário anotou suas primeiras impressões e reflexões mais profundas sobre as pessoas que conheceu e os lugares que visitou. Organizados pelo estudioso Ze’ev Rosenkranz, os diários demonstram – sem censura – um homem peculiar, violinista apaixonado, espirituoso e carismático, mas também intolerante e rabugento, isto é, o ser humano comum, com todos os seus defeitos e preconceitos, por trás do gênio e do maior físico da história.

RESENHA


O livro 'Os diários de Albert Einsten: América do Sul', organizado por Ze'ev Rosenkranz se inicia com Albert Einstein escrevendo sobre a pandemia de gripe de 1918 em cartas para sua família, expressando preocupação com a situação na Alemanha e na Suíça. Ele decidiu não viajar devido à pandemia, mesmo sem ver seus filhos há mais de um ano. Anos depois, em 1925, ele embarcou em uma viagem à América do Sul, que se tornou uma das mais desafiadoras para ele. Enquanto trabalhava nos Arquivos Albert Einstein, o autor refletiu sobre suas próprias viagens internacionais e a autenticidade dos diários de viagem de Einstein, que revelam suas impressões mais íntimas e imediatas. A experiência de mergulhar nesses documentos pessoais oferece insights sobre suas visões e também a oportunidade de examinar nossos preconceitos e vieses. O autor se sente privilegiado por compartilhar essa fascinante jornada com uma audiência mais ampla.

O diário é um dos seis diários escritos por Albert Einstein, revelando insights de suas experiências durante viagens ao Extremo Oriente, Palestina, Espanha e Estados Unidos. O diário em questão foi escrito durante uma viagem à América do Sul em 1925 e fornece detalhes sobre suas impressões, interações, observações políticas e sociais, além de reflexões sobre sua obra científica. A recepção da teoria da relatividade nos países visitados, como Argentina, Uruguai e Brasil, é discutida, destacando a influência de cientistas locais e a infraestrutura acadêmica. Os convites feitos a Einstein para palestras na América do Sul foram motivados por fatores científicos, políticos e culturais, demonstrando a importância de sua identidade como cientista judeu e suas conexões com a Europa.

A obra fornece insights sobre a viagem de Albert Einstein à América do Sul em 1925, com foco na Argentina, Uruguai e Brasil. Descreve o panorama político e social destes países na época, destacando aspectos como partidos políticos, reformas sociais, condições económicas e mudanças culturais. A narrativa investiga as percepções dos países europeus, especialmente da Alemanha, em relação à América Latina, enfatizando estereótipos históricos e pontos de vista em evolução. Além disso, aborda a recepção da visita de Einstein, os fatores políticos em jogo e o impacto da sua teoria da relatividade nas comunidades científicas locais.

A obra ainda discorre sobre sua viagem à América Latina em 1925, incluindo suas visitas ao Brasil, Argentina e Uruguai. Ele expressa sua surpresa com a falta de pensamento incisivo e a priorização da forma sobre a substância na Academia Brasileira de Ciências, atribuindo isso ao clima tropical. Einstein também comenta sobre sua interação com a comunidade judaica em cada país, destacando a recepção calorosa e a solidariedade judaica. Além disso, ele se refere à comunidade alemã em cada país, notando a falta de atenção em Buenos Aires devido à controvérsia em torno de seu artigo pacifista e a hostilidade política dentro da comunidade alemã. No entanto, em Montevidéu e no Rio de Janeiro, a comunidade alemã o recebeu de maneira mais polida e aconchegante.

A obra se inicia com os diários de viagem de Einstein à Argentina, Uruguai, Brasil. 

Ontem minha mulher, Katzenstein com a irmã e os Bärwald na estação ferroviária.2 O sol brilhou durante a jornada, mas o tempo estava encoberto ao chegarmos. 3 A sra. Robinow e o genro estavam na estação. 4 Tarde com a sra. Robinow, [toquei] Mozart em um violino infantil. À noite, refeição familiar no estilo de Hamburgo. Melchior também apareceu, 5 lúcido, espirituoso. Hotel a pé. Companhia sensível, decente. Hoje às 9 horas, embarque no navio 6 com genro R[obinow]. 7 Pessoa agradável, inteligente. Partida às 9h30 com sol, passando navios e armazéns. Foi uma despedida e tanto. Todo mundo reconhece minha cara, mas, até agora, não fui incomodado. 11 horas. Céu encoberto. A costa se afasta. Paz abençoada. Ontem à noite, recebi uma gravata preta enviada ao hotel, encomendada por telefone pelos Bärwald. Sujeitos bem-humorados e terrivelmente ágeis.

Einsten nos fala sobre estar lendo Meyerson e discutindo sua perspicácia e injustiça ao considerar as escapadas de Weyl e Eddington como parte essencial da teoria da relatividade. Também menciona uma comparação com o hegelianismo. Além disso, há uma menção a uma prova feita pelo autor sobre cones de luz fixos e órbitas dos elétrons. O texto também descreve a passagem por Tenerife, destacando a beleza dos picos sob a luz do sol e a iluminação para as 'montanhas verdejantes'.

Pela manhã, já estava tão quente (com céu claro) que não parecia que a janela da cabine estava aberta. Estou lendo Meyerson. 18 Muito perspicaz, mas injusto na medida em que as escapadas de Weyl e Eddington são consideradas parte essencial da teoria da relatividade. É assim que ele chega à comparação com o hegelianismo. Provei ontem que, com cones de luz fixos e as órbitas dos elétrons (de todos os ) com coordenadas definidas, absolutamente nenhuma mudança no campo é possível se derivarmos as equações das órbitas dos elétrons da propriedade extrema de Passamos por Tenerife. Picos sob a brilhante luz do sol. Maravilhosa iluminação para as escarpadas montanhas verdejantes.

Einstein fala sobre sua experiência em um navio, onde ele descreve suas impressões sobre as diferentes classes sociais presentes no navio, destacando a atitude blasé e infantil dos argentinos na primeira classe e a ingenuidade e gratidão das pessoas na segunda classe. Ele também menciona sua apresentação em um concerto na primeira classe, onde tocou músicas de Mozart e Beethoven. Além disso, ele comenta sobre sua interação com uma mulher judia russa, a quem ele se refere como uma pantera divertida e impertinente. Einstein demonstra um certo desprezo pelos argentinos, os considerando estúpidos e membros da classe rica e ociosa, enquanto elogia a música popular argentina originada nos incas. Ele reflete sobre a beleza e grandiosidade que possivelmente existia na civilização inca, que acabou se perdendo ao longo do tempo.

Antes de ontem, batismo equatorial na primeira classe; ontem, na segunda classe. Na primeira, os argentinos fizeram feio. Classe rica. Blasé, mas infantil. Na segunda, pessoas ingênuas e gratas. Capitão, boas brincadeiras (partículas na urina; paciente com dor viajando de cima para baixo). Hoje, visita às salas do motor e da caldeira. Grande impressão. À noite, concerto na primeira classe. Toquei em um quarteto, primeiro “Nachtmusik” de Mozart, e depois “Romance em fá maior” de Beethoven. Os argentinos são criaturas indizivelmente estúpidas. Estou livre deles, finalmente. No que diz respeito ao intelecto e outras questões, são membros da classe rica e ociosa. Jesinghaus me apresentou à música popular argentina, originada nos incas. Naturalista e grandiosa. Coisas gloriosas devem ter perecido com aquela nação. Provoco muito a pantera, que está sempre me interrogando. Ela é divertida, de sua maneira séria e impertinente; uma judia do tipo russo.

A obra segue expondo algumas cartas acrescidas à obra de Eintein em viagem à Montividéu, Uruguai, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Bilbao, dentre outras. Ele viajou para Hamburgo, Boulogne-sur-Mer, Bilbao, Corunha, Vigo, Lisboa, Tenerife, Fogo, Rio de Janeiro, Montevidéu, Buenos Aires, La Plata, Córdoba, Montevidéu, Rio de Janeiro e Boca de Valdivia.

Os diários de viagem de Albert Einstein oferecem uma perspectiva única e íntima sobre a personalidade e as reflexões do renomado cientista durante sua viagem pela América do Sul. A organização cuidadosa dos textos por Ze'ev Rosenkranz permite aos leitores mergulhar no mundo de Einstein, conhecendo não apenas suas observações científicas e acadêmicas, mas também suas interações sociais, pensamentos pessoais e opiniões sobre os países visitados. A obra revela um Einstein humano, com todas as suas peculiaridades e imperfeições, tornando-a cativante para todos aqueles interessados não apenas na ciência, mas também na história e na natureza humana. Além disso, a inclusão de cartas adicionais acrescenta ainda mais profundidade e contexto à experiência de leitura, proporcionando uma imersão completa no universo de um dos maiores gênios da história.

O livro terá seu lançamento oficial no dia 06 de Junho na Unibes Cultural, localizado na Rua Oscar Freire, 2500 em Sumaré, São Paulo. 

Por que ler Annie Ernaux: A voz poderosa da literatura contemporânea

Foto: Jovem Pam

Annie Ernaux é uma das escritoras mais aclamadas da literatura contemporânea e sua obra merece ser explorada por todos aqueles que buscam uma leitura envolvente e profunda. Em seus livros, Ernaux aborda temas como memória, identidade, relações humanas e sociedade de uma forma única e cativante. Se você ainda não teve a oportunidade de conhecer o trabalho dessa renomada autora francesa, não perca mais tempo e mergulhe em suas narrativas intensas e fascinantes. Embarque nessa jornada literária e descubra por que tantos leitores se apaixonaram pelo universo de Annie Ernaux.

Existem várias razões pelas quais alguém que nunca leu Annie Ernaux deveria começar o quanto antes. Aqui estão algumas delas:

1. Ernaux é uma escritora aclamada pela crítica e reconhecida internacionalmente por sua prosa única e poderosa. Suas obras frequentemente exploram temas como memória, identidade, classe social e gênero, oferecendo uma profunda reflexão sobre a condição humana.

2. O estilo de escrita de Ernaux é cativante e envolvente, fazendo com que seus livros sejam leituras envolventes e emocionantes. Sua capacidade de capturar a essência da experiência humana e transmiti-la de forma autêntica e comovente é impressionante.

3. As obras de Ernaux são conhecidas por sua honestidade brutal e sua capacidade de revelar a complexidade e a fragilidade das relações humanas. Seus livros são frequentemente descritos como honestos e cruéis, mas também como poderosos e emocionantes.

4. Ao mergulhar no mundo literário de Annie Ernaux, os leitores podem ganhar uma nova perspectiva sobre suas próprias vidas e experiências, o que pode levar a uma maior compreensão de si mesmos e do mundo ao seu redor.

Em resumo, ler Annie Ernaux pode ser uma experiência transformadora e enriquecedora, que pode abrir novos horizontes e oferecer uma visão mais profunda e perspicaz da condição humana. Por isso, vale a pena começar a explorar sua obra o quanto antes.

Foto: G1

Algumas obras de Ernaux:

UMA MULHER

Cinco anos depois de recompor a vida e a trajetória do pai em O lugar, Annie Ernaux retorna à autossociobiografia, gênero que inaugurou e que a consagrou, para narrar as memórias que guarda de sua mãe, escritas nos meses seguintes à morte dela. Com a tarefa de articular uma narrativa “entre o familiar e o social, o mito e a história”, Ernaux parte da mesma “linguagem neutra” de outros livros para escrever sobre a própria mãe, mas também sobre a vida de uma mulher. No entanto, a dor e a fragilidade do luto alteram essa equação de forma sutil, porém fundamental: em contato com a perda materna, o estilo seco assume um contorno visceral que vai direto ao coração das lembranças. À flor da pele, ela atenta para as muitas facetas da dor, desde as mais ínfimas. “Alguns pensamentos deixam um buraco em mim: pela primeira vez, ela não vai ver a primavera.” Apesar disso, reconhece a dimensão social de seu luto: “perdi o último vínculo com o mundo do qual vim”. Nascida no início do século 20, sua mãe foi operária desde os doze anos. Tinha orgulho do ofício e de buscar a independência. “Ir longe”, assim Ernaux define o princípio que regeu a vida dessa mulher. Depois de se casar, abriu com o marido o café-mercearia onde trabalhou até a terceira idade. Leitora voraz e aberta para o mundo, estimulava os estudos da filha na tentativa de lhe prover o que nunca tivera. Quando, já viúva, vai viver com Ernaux e os netos, mãe e filha experimentam nas miudezas do cotidiano a distância que a ascensão social da filha singrou entre as duas. Com precisão cirúrgica, a autora recupera os detalhes dos gestos maternos, as expressões, a inquietude e a vivacidade que a mãe manteve até o fim da vida, numa casa de repouso, já acometida pelo Alzheimer. Sóbrio e comovente, este livro é peça central no quebra-cabeças do projeto da autora de escrever a vida. Nele é possível acompanhar não só a trajetória de uma mulher da classe trabalhadora, mas os sentimentos viscerais de sua filha: amor, ódio, admiração, ternura, culpa e um vínculo inabalável.



PAIXÃO SIMPLES

Um dos livros de Annie Ernaux mais adorados pela crítica e pelo público, Paixão simples é também um dos mais ambiciosos por sua tentativa de dar conta da radicalidade da experiência de se apaixonar. Nas breves páginas deste relato profundamente humano, publicado pela primeira vez em 1992, a vencedora do prêmio Nobel de 2022 esmiúça o estado de enamoramento absoluto que experimentou quando, já divorciada e mãe de dois filhos crescidos, viveu um relacionamento com um homem casado. Durante os meses em que se relacionou com A., toda a existência da autora foi regida por um novo signo, que ela disseca com precisão e franqueza. “Graças a ele”, afirma, “eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de às vezes imaginar que iria chegar do outro lado”. Essa proximidade do limiar, tão própria do sujeito apaixonado, assume formas variadas no relato. A primeira fronteira a ser deixada para trás é a da razão, que cede espaço ao pensamento mágico por meio do qual se manifesta a expectativa agonizante de ser correspondida. Cada evento, palavra ou pessoa ao redor só tem interesse para Ernaux na medida em que a faz pensar em A. Cada minuto longe dele é uma espera que transcorre de forma diversa do ritmo da vida real. Tema recorrente na obra da escritora, o tempo em Paixão simples não obedece à lógica ou à História. “Para mim não havia essa cronologia em nossa relação, eu só conhecia a presença ou a ausência”, eis o aspecto radical da paixão. Uma vez terminada a relação, o tempo entra em cena novamente, desta vez como índice do rastro deixado por um acontecimento marcante: “Estava sempre calculando, ‘há duas semanas, cinco semanas, ele foi embora’, e ‘no ano passado, nessa data, eu estava aqui, fazendo isso e aquilo’ […]. Pensava que era muito estreito o limiar entre essa reconstituição e uma alucinação, entre a memória e a loucura”. Verdadeira anatomia da alma apaixonada, este livro é também uma reflexão sobre o poder da escrita e um elogio ao luxo que é viver um grande amor.



O LUGAR


Livro que lançou Annie Ernaux à fama, O lugar, inédito no Brasil, estabelece as bases para o projeto literário que Ernaux levaria adiante por três décadas de consagração crítica e sucesso de público. Nesta autossociobiografia, uma das mais importantes escritoras vivas da França se debruça sobre a vida do próprio pai para esmiuçar relações familiares e de classe, numa mistura entre história pessoal e sociologia que décadas mais tarde serviria de inspiração declarada a expoentes da auto ficção mundial e grandes nomes da literatura francesa como Édouard Louis e Didier Eribon. O resultado é um clássico moderno profundamente humano e original.






OS ANOS


Uma das principais escritoras francesas da atualidade, Annie Ernaux, empreende neste livro a ambiciosa e bem-sucedida tarefa de escrever uma autobiografia impessoal. Com ousadia e precisão estilística, ela lança mão de um sujeito coletivo e indeterminado, que ocupa o lugar do eu para dar luz a um novo gênero literário, no qual recordações pessoais se mesclam à grande História, numa evocação do tempo única. Nascida em 1940, em uma pequena cidade no interior da França, Ernaux pertence a uma geração que veio ao mundo tarde demais para se lembrar da guerra, mas que foi receptora imediata das recordações e mitologias familiares daquele tempo. Uma geração que nasceu cedo demais para estar à frente de Maio de 68, mas que ainda assim viu naquelas manifestações a possibilidade dos mais jovens de uma liberdade que por pouco não pode gozar. Finalista do International Booker Prize e vencedor dos prêmios Renaudot na França e Strega na Itália, Os anos é uma meditação filosófica poderosa e uma saborosa crônica de seu tempo. Pela prosa original de Ernaux, vemos passar seis décadas de acontecimentos, entre eles a Guerra da Argélia, a revolução dos costumes, o nascimento da sociedade de consumo, as principais eleições presidenciais francesas, a virada do milênio, o 11 de Setembro e as inovações tecnológicas, signo sob o qual vivemos até hoje.



O ACONTECIMENTO


Em 1963, Annie Ernaux, então uma estudante de 23 anos, engravida do namorado que acabara de conhecer. Sem poder contar com o apoio dele ou da própria família numa época em que o aborto era ilegal na França, ela vive praticamente sozinha o acontecimento que tenta destrinchar neste livro quarenta anos depois, quando já é uma das principais escritoras de seu país. Com a ajuda de entradas de seu diário e de memórias há muito guardadas, Ernaux reconstrói seu périplo solitário para realizar um aborto clandestino. Ao refletir sobre a onipresença da lei e seu imperativo sobre o corpo feminino, Ernaux nos apresenta mais uma face da mescla indissociável do íntimo e do coletivo tão característica de todo o seu percurso literário. Quando por fim encontra uma “fazedora de anjos” disposta a realizar o serviço, a jovem acaba na ala de emergência de um hospital. Anos se passam sem que ela tenha coragem de revisitar o episódio. Em sua relação radical com a escrita, porém, Ernaux encontra o caminho para falar publicamente de seu aborto e fazer da literatura uma profissão de fé, que comove pela honestidade cortante: “o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”.



O JOVEM

Se a capacidade de dizer muito com poucas palavras é um traço característico de Annie Ernaux, ela parece ter atingido um dos pontos mais altos de sua produção literária em O jovem. Nas breves páginas deste livro magistral, a escritora dá conta de uma miríade de temas e afetos ao rememorar o relacionamento que teve, aos 54 anos, com um estudante trinta anos mais novo. Como de costume, Ernaux nunca fala de uma só coisa ao escrever. Para além da diferença de idade dos amantes, estão presentes em O jovem reflexões sobre o desejo feminino, o relacionamento entre pessoas de classes sociais diversas, a passagem do tempo, a memória ― individual e coletiva ―, a escrita e o papel da mulher na sociedade francesa dos anos 1990, que pouco difere da nossa em certos aspectos. Absorta pelo romance, Ernaux descreve: “Meu corpo não tinha mais idade. Era necessário o olhar pesado e reprovador de clientes ao nosso lado num restaurante para que eu me desse conta desse corpo. Olhar que, longe de me envergonhar, reforçava minha determinação de não esconder meu relacionamento com um homem ‘que poderia ser meu filho’, enquanto qualquer sujeito de cinquenta anos podia se exibir com uma moça que claramente não era sua filha sem nenhuma reprovação”. Quando reflete sobre o papel do jovem em sua vida, Ernaux se dá conta de que não é tanto pelo que trouxe de novo, mas justamente pela repetição, que ele deixou sua marca: essa dimensão filosófica dos relacionamentos ― que já havia sido citada pela autora em Os anos com o nome de “sentimento palimpsesto” ― é destrinchada aqui com a maestria de uma escritora para quem a passagem do tempo acrescenta novas camadas àquilo que ela tem a dizer e à qualidade de sua escrita.




A OUTRA FILHA


No final da primeira década dos anos 2000, Annie Ernaux recebeu um convite para participar da coleção francesa Les Affranchis, que pede a escritores que façam a carta que nunca foi escrita. É este chamado do presente que a ajudará a abordar um trauma da infância e dará à luz este, que talvez seja seu livro em diálogo mais direto com a psicanálise. Aos dez anos, no verão de 1950, Ernaux escuta uma conversa da mãe com uma cliente e descobre que antes dela, seus pais tiveram outra filha, morta aos seis anos de difteria. A mãe relata à confidente que nunca contaram nada a Annie para não entristecê-la e emenda: “ela era mais boazinha do que aquela ali”.A irmã mais velha jamais voltou a ser mencionada, exceto quando tias ou amigos deixavam escapar alguma lembrança. Desde aquele dia na infância, Ernaux também oculta seu conhecimento: “Tenho a impressão de que o silêncio nos convinha, a eles e a mim”. Mas as palavras de sua mãe calaram fundo na criança, e mais tarde na mulher, cuja obra é marcada pelo pensamento crítico e pela renúncia de uma moralidade limitadora de sua liberdade. É então nesta pseudocarta endereçada à irmã ― à menina boazinha e espécie de santa ― que a autora destrincha suas memórias e os significados que essa ausência sempre presente teve em sua vida, sua identidade e sua relação com os pais. Ernaux escreve frases breves e cortantes para lidar com a sombra de alguém que nunca conheceu e com a dor da comparação implícita. “Você é a própria impossibilidade do erro e do castigo”, diz à irmã. E vai além, conectando a morte dela com o próprio princípio de sua existência: “eu vim ao mundo porque você morreu e eu te substituí”.Em seu esforço para dar contornos a um fato impreciso de sua história, Ernaux hesita entre interpretar a morte da irmã como a gênese de seu destino de escritora ou como um mero dado biográfico. Sem resolver essa ambivalência, ela testa os limites da linguagem e, como de costume, reflete a respeito da própria escrita: “Você está fora da linguagem dos sentimentos e das emoções. Você é a antilinguagem.”Num jogo de espelhos, A outra filha evoca duplos como pulsões de morte e vida, sonho e realidade, revelações e tabus e convida a uma leitura psicanalítica. Entretanto, a própria autora adverte que as matérias do inconsciente também têm a ver com a História e rejeita interpretações que não tenham em conta seu contexto. Para a vencedora do Nobel, atrelar memória, história privada e social é o único modo de escrever a vida.



Foto: Flip


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