CRÍTICA: Ó Paí, Ó (2007)

 


Dirigido por Monique Gardenberg, não é apenas um filme; é um documento antropológico, musical e social disfarçado de comédia rasgada. Baseado na peça homônima do Bando de Teatro Olodum e estreitamente ligado à minissérie exibida pela Rede Globo, o longa-metragem consolida a estética e a voz do Pelourinho no cinema brasileiro contemporâneo. A narrativa se desenrola no último dia do Carnaval baiano, transformando o microcosmo de um cortiço no coração histórico de Salvador em um palco onde tensões de classe, raça, arte e sobrevivência se encontram. Analisar Ó Paí, Ó exige olhar para além da superfície frenética e compreender como ele dialoga com a identidade baiana, com o legado do cinema nacional e como estabelece as bases para sua sequência, Ó Paí, Ó 2 (2023), que aborda a maturidade e a persistência desses personagens décadas depois.

A escolha do Pelourinho como cenário principal é fundamental para a atmosfera do filme. Diferente da visão turística e higienizada que muitas vezes é vendida, o filme retrata o bairro como um espaço de contradições: vibrante, artístico e histórico, mas também precário, negligenciado e palco de uma luta diária pela moradia. A direção de arte não se limita a emoldurar as cenas, ela pulsa. O uso das cores fortes das fachadas, a música onipresente — que vai do samba de roda ao reggae, passando pela axé music — e a movimentação incessante da câmera criam um ritmo frenético, espelhando a intensidade do Carnaval.A narrativa linear é estruturada pelo desejo coletivo dos moradores: conseguir água para o banho pós-carnaval. O fechamento do registro de água pela síndica arrogante, Dona Joana, atua como o catalisador que une personagens díspares em um objetivo comum. Esse arco simples permite que a trama se ramifique para explorar a vida de cada morador, criando uma estrutura episódica que, no entanto, mantém a coesão graças ao espaço físico compartilhado e ao inimigo comum.

O elenco de Ó Paí, Ó é um dos pilares de seu sucesso. Lázaro Ramos interpreta Roque, o protagonista cujas aspirações artísticas e amorosas movem boa parte da trama. Roque é o arquétipo do sonhador suburbano: talentoso, mas limitado pelas circunstâncias socioeconômicas. Seu arco envolve a busca por reconhecimento musical (a composição de um samba para o bloco Ara Ketu) e o amor platônico por Rosa, a dançarina que sonha com a Europa. A performance de Ramos é sutil, equilibrando a indignação com a leveza do deboche baiano.Em contrapartida, temos personagens como Reginaldo (Stênio Garcia) e Maria (Dira Paes), que representam a busca por ascensão social através da exploração comercial e do gringo, respectivamente. O arco de Rosa, interpretada por Emanuelle Araújo, é crucial para discutir a ilusão do 'paraíso europeu' versus a realidade da precarização do trabalho imigrante. A cena em que ela narra sua experiência na Suíça, revelando a dura realidade de lavar pratos e a solidão, em contraste com a fantasia vendida aos amigos, é um dos momentos mais tristes e profundos do filme. Fecha-se o arco dela com o retorno ao lar, encontrando valor na sua própria identidade.Dona Joana, vivida por Luciana Souza, é a antagonista perfeita: a pobre que se sente rica, oprimida que se torna opressora, representante de uma burocracia mesquinha que pune os próprios vizinhos. Sua obsessão com a ordem e sua religiosidade intolerante espelham conflitos sociais reais dentro da periferia brasileira. Por fim, o personagem de Wagner Moura, Boca, traz a tensão da criminalidade periférica, mas despido de glamour, focado na sobrevivência bruta e na relação complexa com o pai, Gerônimo.

Ó Paí, Ó utiliza o humor não apenas para entreter, mas como uma forma de resistência. O 'baianês', com suas expressões únicas, a velocidade das respostas e o deboche (o 'dendar', no contexto do filme), é fundamental para a construção da identidade dos personagens. O riso nasce da tragédia cotidiana: a falta de água, o preconceito racial, a brutalidade policial e a desigualdade econômica são abordados de maneira direta.A crítica à polícia é explícita. A violência policial é tratada com uma mistura de medo e resignação, mas também com a desmoralização através da inteligência dos moradores. A sequência do assalto à loja de Gerônimo e a subsequente vingança dos moradores contra os ladrões mostra como a comunidade, à margem do Estado, cria suas próprias regras de justiça e convivência.

Analisar o filme de 2007 isoladamente é limitar sua compreensão. A franquia estabelece uma trajetória de amadurecimento. Enquanto o primeiro filme trata da juventude, dos sonhos e da luta imediata pela sobrevivência no calor do Carnaval, Ó Paí, Ó 2 traz o peso do tempo. Roque, agora um artista mais experiente, enfrenta os desafios da longevidade na carreira e na vida familiar. A crítica social se expande: a gentrificação do Pelourinho, tema apenas pincelado no primeiro, torna-se central na sequência.A relação com a religiosidade também evolui. O candomblé, presente na trilha e na cenografia do primeiro filme, assume um papel mais central na narrativa do segundo, reafirmando a força cultural de matriz africana como pilar de resistência daquela comunidade. Os arcos abertos em 2007 — a busca por sucesso de Roque, a estabilidade de Rosa, o papel de líder de Boca — encontram resoluções (ou novas complexidades) no segundo filme, mostrando que a vida no Pelourinho não é estática.

A trilha sonora não é apenas um acompanhamento, é um componente narrativo. A fusão de Caetano Veloso (na clássica música-tema) com a força do samba-reggae cria uma identidade sonora única. A mixagem de som, que mistura diálogos acelerados com o barulho da rua, reforça a sensação de caos organizado do bairro.A fotografia, assinada por José Roberto Eliezer, utiliza uma paleta de cores vibrantes, mas sem medo de mostrar a sujeira e a precariedade das habitações. O filme não tenta esconder a pobreza, mas busca beleza nela, através da composição dos quadros e da iluminação que destaca os rostos e as expressões dos atores, valorizando o trabalho de elenco do Bando de Teatro Olodum.

Ó Paí, Ó é uma obra fundamental que sobrevive ao teste do tempo. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, um retrato fiel de uma realidade local e uma metáfora universal sobre a resiliência humana diante da exclusão. A força do filme reside na sua autenticidade; ele não foi filmado sobre o Pelourinho, foi filmado com o Pelourinho. Ao integrar teatro, cinema e música, Monique Gardenberg criou um objeto cultural complexo que diverte, emociona e, acima de tudo, convida à reflexão sobre o Brasil que se esconde atrás dos cartões-postais.

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