CRÍTICA: Deu a Louca na História (2019)

O subgênero da comédia histórica encontrou em Horrible Histories um nicho vibrante e educativo, adaptando o sucesso literário e televisivo britânico para as telas de cinema em Horrible Histories: The Movie - Rotten Romans (2019). Dirigido por Dominic Brigstocke, o filme não busca a precisão acadêmica, mas sim a desconstrução satírica da imagem glorificada do Império Romano, contrastando-a com a visão estereotipada da Grã-Bretanha celta. Ao analisar este longa-metragem no contexto da franquia, observa-se uma expansão do formato de esquetes curtas para uma narrativa linear, que mantém o humor irreverente, mas enfrenta desafios na construção dramática.

O filme inicia estabelecendo seu tom irreverente ao apresentar uma Roma decadente, longe da grandiosidade de outros épicos de Hollywood. A sátira recai intensamente sobre a figura do Imperador Nero, interpretado com um frenesi carnavalesco por Tom Stourton. Diferente de representações mais sombrias, Nero é retratado como um adolescente mimado, inseguro e obcecado por sua própria imagem e por espetáculos de mau gosto. Esta interpretação reflete a abordagem da franquia de transformar figuras históricas em caricaturas de comportamentos modernos. O arco de Nero é de pura vaidade e busca por validação, o que o torna um vilão inofensivo, mas funcional para a comédia.

O protagonista, Atti (Sebastian Croft), é um romano atípico: inteligente, mas covarde e sem aptidão física, o oposto do ideal romano. Sua jornada de Roma até a Grã-Bretanha serve como fio condutor para explorar a arrogância romana em face de uma terra que eles mal compreendem. A queda de Atti em desgraça perante Nero — causada por um mal-entendido sobre loções de beleza e xixi de cavalo — é o catalisador que move a trama para o território britânico.

Em contrapartida, somos apresentados à tribo celta de Orla (Emilia Jones), uma jovem aspirante a guerreira que luta contra o machismo de sua própria comunidade. A representação dos celtas oscila entre a paródia de sua suposta selvageria e uma valorização de sua conexão com a natureza, criando um contraste visual e comportamental direto com a rigidez romana. A franquia Horrible Histories é conhecida por humanizar o passado, e aqui isso é feito através da amizade improvável que se forma entre Atti e Orla.

O momento mais significativo do arco de Orla é quando ela captura Atti, invertendo a lógica de poder. A interação entre os dois personagens é o coração do filme, permitindo que o roteiro faça comentários sobre como o conhecimento e a força são relativos. A dinâmica funciona bem como uma comédia de costumes, embora a resolução de seus conflitos internos seja previsível.

Um dos principais desafios da adaptação cinematográfica da franquia foi transpor o ritmo acelerado de esquetes televisivas para uma narrativa de longa duração. O filme muitas vezes se sente como uma série de cenas cômicas conectadas por um enredo tênue. Os números musicais, marca registrada da franquia, estão presentes, mas têm um impacto variado. Alguns funcionam como sátira afiada, enquanto outros quebram a fluidez da narrativa principal.

O ponto alto do humor reside no anacronismo. A constante referência a conceitos modernos — como a obsessão por selfies, a burocracia excessiva, filas de arena e marketing de celebridades — serve para aproximar o espectador do absurdo da situação. No entanto, em comparação com os melhores momentos da série de TV, o filme às vezes recorre a um humor mais físico e infantilizado para sustentar o ritmo.

O clímax do filme, situado na batalha entre romanos e celtas, é uma subversão dos filmes de guerra. A vitória não é decidida pela força bruta, mas por uma combinação de estratégia celta e incompetência romana, culminando em uma confusão generalizada. O arco da Rainha Boudicca (Kate Nash) é retratado de forma satírica, focando mais na sua busca por fama e vingança do que na estratégia política. A resolução da batalha reflete o tema central do filme: a história é contada pelos vencedores e, muitas vezes, é construída sobre mal-entendidos e sorte.

Deu a Louca na História é um exercício divertido de paródia que cumpre o papel de desmistificar o passado para um público jovem. Como parte da franquia, ele expande o universo para além das esquetes, mas não consegue atingir a mesma consistência narrativa de seus melhores episódios de TV. É um filme que brilha no detalhe cômico e na crítica de costumes, mas que sofre com uma estrutura linear que prioriza a piada em detrimento da profundidade dos personagens. Em última análise, é uma celebração do humor histórico que lembra ao espectador que, independentemente da época, a humanidade sempre foi um tanto absurda.

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