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Entre confetes, crítica social e romance: seis livros que mostram o Carnaval além da festa

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Quando se fala em Carnaval, a primeira imagem que costuma surgir é a da música alta, das fantasias coloridas e das multidões nas ruas. No entanto, a festa mais popular do Brasil também é matéria-prima para escritores, pesquisadores e cronistas que enxergam na folia muito mais do que um momento de diversão coletiva. Ao longo da história, o Carnaval se transformou em cenário de romances, objeto de investigação histórica e símbolo de conflitos sociais, políticos e culturais. Seis livros, de gêneros e épocas diferentes, ajudam a revelar como essa celebração pode ser interpretada pela literatura, seja como pano de fundo para dramas pessoais, seja como retrato de um país em transformação.

O primeiro deles é O País do Carnaval, romance de estreia de Jorge Amado. Publicado quando o autor tinha apenas 18 anos, o livro apresenta a história de Paulo Rigger, filho de fazendeiro que retorna ao Brasil após sete anos estudando na França. Ao chegar ao Rio de Janeiro, ele percebe um país diferente daquele que guardava na memória, já em processo de modernização e afastamento do passado oligárquico.

A narrativa acompanha o deslocamento do protagonista até Salvador, onde ele se junta a um grupo de poetas frustrados e jornalistas corruptos, todos mergulhados em dúvidas existenciais. O Carnaval, nesse contexto, não é apenas uma festa, mas um símbolo das contradições do país. O romance foi escrito em um período marcado pela Revolução de 1930 e pela ascensão de Getúlio Vargas, e as inquietações dos personagens refletem o clima de instabilidade política e social da época.

Já em Uma História do Samba: As Origens, o jornalista e escritor Lira Neto assume um caminho completamente diferente. Em vez da ficção, o livro se apoia em documentos, registros fotográficos e relatos históricos para contar a trajetória do samba urbano. A obra investiga o percurso do ritmo desde suas raízes no Recôncavo Baiano até o momento em que se consolida como símbolo cultural nas cidades, especialmente no Rio de Janeiro.

O livro se concentra nas décadas de 1920 e 1930, período em que o samba se fortaleceu com o crescimento do mercado fonográfico e da radiodifusão. Esses elementos ajudaram a transformar o gênero musical em expressão popular de alcance nacional. Ao acompanhar o nascimento das escolas de samba e os primeiros desfiles carnavalescos, a obra mostra como a festa se tornou um espaço de afirmação cultural e identidade coletiva.

Se as duas primeiras obras dialogam com o passado e com a formação histórica do país, o romance Carnaval, de Luiza Trigo, leva o leitor para um cenário contemporâneo e mais leve. A história acompanha Gabriela, jovem que decide passar a folia em Recife ao lado das primas depois de sofrer uma decepção amorosa.

O que começa como uma tentativa de superar o fim de um relacionamento se transforma em uma semana intensa de festas, passeios, descobertas e novos romances. O livro se aproveita do ambiente carnavalesco para criar uma narrativa de amadurecimento emocional, na qual a protagonista se permite experimentar novas possibilidades enquanto circula por cenários turísticos, shows e praias do Nordeste.

Em O Canto da Sereia, o escritor Nelson Motta adota uma abordagem bem diferente, misturando mistério policial com o universo da música baiana. A trama começa com o assassinato de uma cantora de axé no meio do desfile de Carnaval, em pleno percurso do trio elétrico. A partir desse evento, o detetive particular Augustão assume a investigação, tentando desvendar o que levou à morte da artista.

O romance se constrói como um “noir baiano”, combinando suspense, bastidores da indústria musical e referências a figuras reais do Carnaval, como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Caetano Veloso. O resultado é uma narrativa que mistura ficção e realidade para explorar o lado menos idealizado da festa, onde fama, poder e interesses pessoais se cruzam.

Outra obra que se afasta da ficção é Ecos da Folia, de Maria Clementina Pereira Cunha. O livro é resultado de uma pesquisa histórica que reúne fontes diversas, como jornais da época, relatos de viajantes, textos literários e registros policiais. A autora reconstrói o Carnaval carioca do final do século XIX e início do século XX, período de profundas transformações sociais no Brasil.

A obra passa por manifestações como o entrudo, os mascarados e os zé-pereiras, além de retratar a participação de intelectuais, foliões e comunidades negras nos bairros populares. O Carnaval aparece como espaço de disputa política e social, atravessado por debates sobre abolição, racismo, monarquia e república. Mais do que uma festa, ele surge como palco simbólico das tensões de uma sociedade em transição.

O último livro da lista é Febre de Carnaval, da escritora equatoriana Yuliana Ortiz Ruano. Embora não trate diretamente da festa brasileira, a obra se passa na província de Esmeraldas, região costeira do Equador marcada pela cultura afrodescendente. A protagonista, a menina Ainhoa, vive em meio a conflitos familiares e violência social, sendo obrigada a amadurecer precocemente.

Nesse contexto, o Carnaval funciona como alegoria para os conflitos da sociedade. Ele aparece tanto como espaço de alegria quanto como cenário de tensões, refletindo as contradições da vida da protagonista. A festa não é apenas um momento de celebração, mas também um elemento simbólico que revela desigualdades, traumas e sonhos coletivos.

A variedade de obras mostra como o Carnaval pode assumir significados diferentes conforme o olhar do autor. Em alguns casos, ele surge como metáfora de um país em crise, como no romance de Jorge Amado. Em outros, funciona como objeto de pesquisa histórica, como no livro de Maria Clementina Pereira Cunha. Há também narrativas que usam a festa como cenário para romances leves ou investigações policiais, além de histórias que exploram o simbolismo da folia em contextos sociais complexos.

Essa diversidade revela que o Carnaval não é apenas um evento festivo, mas um fenômeno cultural capaz de refletir as transformações da sociedade. Ao longo do tempo, ele serviu como palco para disputas políticas, expressão artística, afirmação de identidades e também como cenário para histórias pessoais. A literatura, por sua vez, se apropria dessas múltiplas dimensões para construir narrativas que vão do romance ao ensaio histórico.

O interesse dos escritores pela festa também se explica pela sua própria natureza. O Carnaval é um momento de suspensão das normas sociais, em que papéis podem ser invertidos e identidades reinventadas. Essa atmosfera de liberdade e transformação oferece um terreno fértil para a ficção, permitindo que personagens experimentem situações extremas ou revelem aspectos ocultos de suas personalidades.

Ao mesmo tempo, o Carnaval é um fenômeno coletivo, profundamente ligado à história e à cultura popular. Ele carrega marcas de desigualdade, resistência e transformação social, o que o torna também um objeto de estudo para historiadores e pesquisadores. Obras como Uma História do Samba e Ecos da Folia demonstram como a festa está conectada a processos históricos maiores, como a urbanização, a abolição e a formação das identidades culturais brasileiras.

A presença do Carnaval na literatura, portanto, não é apenas um reflexo de sua popularidade, mas de sua complexidade simbólica. Ele pode representar alegria, excesso, crítica social, identidade cultural ou transformação pessoal. Cada livro da lista explora uma dessas dimensões, oferecendo ao leitor diferentes formas de compreender a festa.

Ao reunir obras tão distintas, a seleção mostra que o Carnaval não pertence apenas às ruas, aos sambódromos ou aos trios elétricos. Ele também vive nas páginas dos livros, onde continua sendo reinventado por autores de diferentes épocas e estilos. Seja como cenário de romances, tema de investigações históricas ou metáfora de conflitos sociais, a folia segue inspirando narrativas que ajudam a entender não apenas a festa, mas o próprio país que a celebra.

No fim das contas, essas obras revelam que o Carnaval é muito mais do que um feriado ou um espetáculo turístico. Ele é um espelho cultural, capaz de refletir desejos, tensões e transformações sociais. E, como mostram esses livros, a literatura continua sendo um dos espaços mais ricos para observar e interpretar essa festa que, todos os anos, transforma o Brasil em um palco de música, fantasia e histórias.

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