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RESENHA: Vida social no Brasil em meados do século XIX

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX, de Gilberto Freyre, buscando desvelar as estruturas de poder, as dinâmicas de classe e as interações cotidianas que definiram o Império Brasileiro em um período de transição fundamental. Freyre, mestre em integrar a micro-história à análise macro-sociológica, utiliza uma vasta gama de fontes primárias — como anúncios de jornais, diários de viajantes e inventários domésticos — para reconstruir a "atmosfera" de uma época em que o Brasil começava a ensaiar sua modernização sob a sombra persistente do arcaísmo escravocrata. Através desta análise, percebemos que o autor não se limita a descrever fatos; ele interpreta a materialidade da vida social como um sistema de signos que revela a hierarquização profunda e as tensões culturais de uma sociedade agropastoril e patriarcal que tentava, com dificuldade, adaptar-se aos novos tempos cosmopolitas.

A obra se debruça sobre o momento em que a autoridade absoluta do senhor de engenho e a centralidade da "casa-grande" começavam a dividir espaço com a crescente influência urbana e a burocracia estatal. Freyre argumenta que a vida social brasileira em meados do oitocentos era regida por uma ética da aparência e da hospitalidade que escondia sob sua superfície desigualdades abissais. O sociólogo destaca como o espaço doméstico funcionava como o laboratório central das relações de poder, onde "o patriarcalismo brasileiro foi um sistema de vida social que se baseou na família extensa e na exploração do trabalho servil, criando uma cultura de mando e obediência que extravasava as paredes das residências". Essa estrutura, segundo a análise técnica da obra, impediu o desenvolvimento de uma cidadania plena, uma vez que as relações eram mediadas pelo favor e pelo clientelismo, e não por direitos universais.

Do ponto de vista sociológico, um dos aspectos mais relevantes destacados por Freyre é o papel da escravidão como a espinha dorsal não apenas da economia, mas da própria subjetividade brasileira. O sistema escravista impregnava todos os poros da vida social, desde a organização das refeições até as formas de lazer e a própria arquitetura das cidades. Freyre nota que a presença constante do elemento escravizado criava uma zona de contato ambivalente, onde o sadismo do mando coexistia com uma intimidade forçada. Como o autor aponta em suas observações sobre a rotina doméstica, a vida social era marcada por uma "promiscuidade de classes e raças que, longe de apagar as fronteiras sociais, as reforçava através de rituais cotidianos de submissão e pequenos privilégios concedidos". Essa dinâmica complexa é fundamental para entender a formação do caráter nacional brasileiro, conforme a perspectiva freyriana, na qual a "doçura" aparente das relações esconde uma violência estrutural.

A transição para a modernidade urbana também ocupa lugar de destaque na obra. Freyre analisa com precisão técnica a evolução dos costumes nas cidades imperiais, onde a influência europeia, especialmente a francesa, passava a ditar o comportamento das elites. O sociólogo observa que o "ser moderno" no Brasil de 1850 significava, muitas vezes, apenas o consumo de bens importados e a imitação de etiquetas estrangeiras, sem que houvesse uma mudança real nas estruturas de produção. A vida social nas cidades era um teatro de vaidades, onde as novas formas de sociabilidade — como os bailes, os teatros e as confeitarias — serviam para consolidar o status de uma aristocracia que, embora urbana, ainda mantinha seus pés no latifúndio. Freyre descreve este cenário como uma tentativa de "vestir o Brasil com roupas europeias que não lhe cabiam, resultando em um hibridismo cultural onde o novo e o velho conviviam de forma desconexa".

Outro ponto crucial na análise sociológica de Freyre é a questão da higiene e da saúde pública, tratadas não apenas como temas biológicos, mas como marcadores de distinção social. O autor demonstra como as condições sanitárias precárias e o medo das epidemias influenciavam a organização das residências e os hábitos de higiene pessoal, criando novas barreiras sociais entre aqueles que podiam acessar os parcos serviços médicos e a massa da população, entregue às mandingas e aos curandeiros. A ciência médica começava a ser utilizada pelas elites como uma ferramenta de controle social e de civilização dos costumes, muitas vezes em detrimento das tradições populares. Esta tecnicidade da análise sociológica permite-nos ver o corpo humano como um território de disputa política e social na metade do século XIX.

A análise técnica da obra também revela a sensibilidade de Freyre para as transformações na vida privada e nas relações de gênero. O patriarcalismo, embora ainda dominante, começava a enfrentar rachaduras com a lenta emancipação feminina nos centros urbanos, onde as mulheres das elites começavam a ter acesso à educação literária e a circular mais livremente pelos espaços públicos. No entanto, Freyre é cauteloso ao notar que essa mudança era limitada e submetida à supervisão masculina. A casa continuava a ser o império da mulher, mas uma casa que agora se abria para o mundo através do piano, da moda e da literatura. O autor ressalta que "a educação da mulher no Império visava transformá-la no adorno da vida social do marido, e não em um sujeito autônomo de direitos", sublinhando a continuidade das hierarquias de gênero.

Por fim, o legado de Gilberto Freyre nesta obra reside na sua capacidade de demonstrar que a sociologia não se faz apenas com estatísticas frias, mas com a observação atenta da vida vivida. Ao olhar para os meados do século XIX, Freyre nos oferece um espelho para o Brasil contemporâneo, revelando as raízes de nossos preconceitos, de nossas desigualdades e de nossa peculiar forma de sociabilidade. "Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX" é um documento científico indispensável para quem deseja compreender como a fusão entre o patriarcalismo e a tentativa de modernização forjou um país marcado por contradições permanentes. A obra nos ensina que para entender a estrutura social de uma nação, é preciso primeiro compreender o seu coração doméstico e as relações cotidianas que tecem a teia da história.

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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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