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Resenha Crítica: Nise — O Coração da Loucura (2015)

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Imagem: MUBI / Divulgação

A chegada de Nise da Silveira ao Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro da década de 1940, estabelece o marco zero de uma colisão frontal entre o autoritarismo médico e a autonomia da subjetividade. A narrativa de Roberto Berliner evita o didatismo biográfico para focar na crueza da transição de paradigma. O hospital opera como uma extensão do Estado autoritário, onde o corpo do paciente é um território de conquista para técnicas invasivas como a lobotomia e o eletrochoque. Nise surge como a dissonância necessária em um sistema que reduz a existência humana à funcionalidade neurológica bruta. Ela carrega consigo a convicção de que o sofrimento mental não é um erro biológico a ser extirpado, mas um processo simbólico saturado de sentido que demanda escuta e espaço para manifestação.

A estrutura hospitalar retratada no filme espelha a falência do positivismo diante da complexidade do inconsciente. Os médicos, figuras de jalecos impecáveis e mentes rígidas, personificam a sombra de uma ciência que teme o irracional. Para eles, o silêncio do paciente lobotomizado representa o sucesso da técnica; para Nise, representa o assassinato da alma. Ao assumir o Setor de Terapêutica Ocupacional, ela não aceita um rebaixamento na hierarquia hospitalar, mas ocupa o único espaço onde a liberdade ainda é possível por não ser valorizada pelo poder vigente. A substituição da limpeza punitiva pelo manejo de tintas e pincéis constitui o primeiro ato de rebeldia clínica da psiquiatra.

O ateliê de pintura transforma-se em um temenos, um espaço delimitado e protegido onde a invasão dos conteúdos arcaicos do inconsciente encontra um recipiente seguro. A câmera captura o estranhamento inicial dos internos diante dos materiais de arte. Fernando Diniz, Adelina Gomes e Emygdio de Barros não são apresentados como artistas em potencial, mas como indivíduos fragmentados que buscam na cor e na forma um ponto de ancoragem para o ego devastado pela esquizofrenia. A linguagem visual de Berliner prioriza o detalhe: o pigmento que toca a tela, o olhar de concentração que substitui a apatia, o gesto que recupera a coordenação entre pensamento e ação. A arte aqui não possui finalidade estética; ela é a própria ferramenta de reorganização psíquica.

Imagem: MUBI / Divulgação

Nise adota o conceito de afeto catalisador como o motor central de sua prática. Ela compreende que a cura — ou a integração possível da personalidade — ocorre no campo da relação humana e não na imposição de estímulos dolorosos. O tratamento dado aos cães que circulam pelo hospital reforça essa tese. A interação entre os pacientes e os animais evidencia a preservação de núcleos saudáveis de afeto que a psiquiatria tradicional ignora. Enquanto seus colegas buscam a precisão cirúrgica do bisturi, Nise busca a precisão simbólica da imagem. Ela percebe que o delírio possui uma gramática própria e que as imagens produzidas no ateliê são pontes de comunicação entre o mundo interno do esquizofrênico e a realidade compartilhada.

A resistência institucional que Nise enfrenta reflete a misoginia e o preconceito intelectual de uma época que despreza a subjetividade em favor da ordem mecânica. O filme expõe o contraste entre o ruído metálico das máquinas de choque e o silêncio produtivo do ateliê. Essa oposição marca o início de uma revolução que ultrapassa os muros do Engenho de Dentro. Nise não interpreta as obras de imediato; ela permite que as imagens falem por si mesmas. Ela identifica a recorrência de formas circulares, as mandalas, que apontam para uma tentativa espontânea da psiquê de encontrar um centro de equilíbrio em meio ao caos.

A psiquiatra estabelece o território, conquista a confiança dos internos e inicia a coleta do que viria a ser o Museu de Imagens do Inconsciente. A obra de Berliner demonstra que a verdadeira loucura habita a pretensão de normalidade absoluta que nega o mistério da condição humana. Nise da Silveira não propõe uma reforma apenas nos métodos, mas na própria visão de mundo da medicina. Ela devolve ao "louco" a sua humanidade e, ao fazê-lo, expõe a desumanidade do sistema que o cerca.

A consolidação do ateliê de pintura no Engenho de Dentro marca a transição da contenção física para a expressão simbólica. O espaço físico, antes um depósito de móveis quebrados e pessoas esquecidas, transmuta-se em um laboratório de fenomenologia. Nise da Silveira estabelece uma metodologia de observação não interventiva, onde o monitor do ateliê atua como um facilitador e não como um pedagogo. Este isolamento produtivo permite que o fluxo de imagens do inconsciente ganhe densidade material. A tela branca deixa de ser um vazio para se tornar um campo de projeção para conteúdos que a linguagem verbal é incapaz de articular. O filme de Roberto Berliner utiliza a luz natural que entra pelas janelas do ateliê para contrastar com a penumbra dos corredores das enfermarias, criando uma metáfora visual sobre o esclarecimento através da liberdade criativa.

Imagem: MUBI / Divulgação

A produção artística de Adelina Gomes e Carlos Pertuis revela a emergência de arquétipos que desafiam a lógica da psiquiatria biológica. Quando Adelina pinta figuras femininas que se fundem com flores ou formas míticas, ela não reproduz apenas uma alucinação visual; ela externa o processo de metamorfose da própria identidade. A psiquiatra identifica nessas obras a manifestação de temas universais que transcendem a história pessoal do indivíduo. A linguagem jornalística do filme documenta o nascimento dessas imagens com um rigor quase científico, registrando a data, o autor e a ordem de produção. Esse cuidado arquivístico é fundamental: Nise compreende que a sequência das pinturas narra a evolução do estado psíquico do paciente, funcionando como um eletroencefalograma da alma.

O embate teórico com o Dr. Nelson e o corpo clínico se intensifica à medida que os resultados do ateliê se tornam incontestáveis. Para a ortodoxia médica do hospital, o interesse de Nise pelas pinturas é uma distração esotérica que atrasa o tratamento real. O filme expõe o cinismo dessa elite intelectual que prefere a eficácia muda da lobotomia à complexidade ruidosa da expressão artística. Nise é acusada de negligência por não aplicar os "métodos modernos", mas ela rebate com a evidência da melhora clínica de seus colaboradores — termo que ela utiliza para substituir a palavra "paciente". A redução da agressividade e o resgate da dignidade pessoal daqueles que frequentam o ateliê comprovam que a reorganização do mundo interno reflete diretamente na conduta social.

A recorrência de formas circulares e concêntricas nas telas desperta o interesse de Nise pela obra de Carl Jung. O filme retrata o momento em que a psiquiatra percebe que aquelas imagens não são aleatórias, mas possuem uma geometria sagrada e universal: as mandalas. A produção dessas figuras por indivíduos que jamais tiveram contato com tradições orientais ou estudos de história da arte sugere a existência de uma camada profunda da psiquê, o inconsciente coletivo. A mandala surge como um esforço de autorregulação da mente; um centro que tenta organizar a periferia fragmentada pela esquizofrenia. Este achado muda o status daquelas pinturas de "arte de loucos" para documentos de valor antropológico e psicológico inestimável.

A relação de Nise com o crítico de arte Mário Pedrosa introduz um novo vetor na narrativa. Pedrosa reconhece naquelas obras uma pureza estética e uma força expressiva que rivalizam com a arte moderna institucionalizada. Essa validação externa é um golpe na autoridade do corpo médico do hospital. O reconhecimento daquelas pinturas como arte retira o paciente do lugar de objeto de estudo e o coloca no lugar de autor. O filme sublinha essa mudança de status quando as obras saem dos muros do hospital para serem expostas em museus. A fronteira entre a sanidade e a loucura se torna permeável; se a obra é válida e bela para a sociedade, o indivíduo que a criou não pode ser reduzido a um cérebro defeituoso.

Imagem: MUBI / Divulgação

A cinematografia de Berliner foca no ato da criação como um processo de parto doloroso, mas necessário. A câmera demora-se nas mãos sujas de tinta, no olhar fixo de Emygdio de Barros sobre a tela e no silêncio que envolve o ateliê. Esse silêncio não é o vazio da apatia, mas a quietude da concentração profunda. Nise circula pelo ambiente como uma guardiã desse silêncio, garantindo que nada interrompa o diálogo entre o artista e sua obra. Ela abdica do papel de autoridade para se tornar uma servidora daquela expressão. Esta postura ética define a clínica de Nise: ela não busca explicar o mistério da loucura, mas criar as condições para que o mistério se revele de forma segura.

Ao permitir que os internos ocupem o espaço público com suas obras, Nise desafia a lógica da exclusão que sustenta o modelo manicomial. O hospital deixa de ser apenas um lugar de tratamento para se tornar um centro de produção cultural. A tensão entre o bisturi e o pincel atinge seu ápice, preparando o terreno para a institucionalização definitiva desse novo método. A revolução silenciosa de Nise da Silveira ganha corpo e cor, provando que o coração da loucura guarda, em sua essência, uma capacidade inabalável de regeneração através do símbolo.

A correspondência entre Nise da Silveira e Carl Gustav Jung estabelece o alicerce teórico que retira as produções do Engenho de Dentro do isolamento clínico para inseri-las no debate da psicologia profunda mundial. No filme, esse intercâmbio intelectual não aparece como mera vaidade acadêmica, mas como uma necessidade de validação para proteger os pacientes da fúria tecnicista dos demais médicos. Ao enviar fotografias das pinturas para Zurique, Nise busca um interlocutor que compreenda a gramática daquelas imagens. A resposta de Jung, que identifica nas telas dos internos brasileiros as mesmas estruturas de mandalas presentes em diversas culturas e épocas, funciona como um escudo político. Se o maior psicólogo da época reconhece ali uma manifestação da ordem psíquica, a psiquiatria brasileira não pode continuar a tratar tais obras como lixo ou subproduto de mentes avariadas.

A formalização do Museu de Imagens do Inconsciente surge como o desdobramento natural desse processo de legitimação. O museu não é apenas um arquivo, mas um organismo vivo que subverte a lógica da museologia tradicional e da psiquiatria forense. Cada obra catalogada por Nise e sua equipa representa um fragmento da história clínica de indivíduos que foram privados de sua identidade civil. O filme demonstra como a catalogação rigorosa serve para provar que a esquizofrenia possui ciclos e que a imagem é o rasto visível desse movimento pendular da alma. A preservação dessas telas impede que a história desses sujeitos seja apagada pela morte institucional. O museu torna-se, portanto, um bastião de resistência contra o esquecimento e a desumanização.

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A narrativa foca no impacto dessa descoberta dentro do hospital. O Dr. Nelson e os defensores da lobotomia sentem-se ameaçados pela autonomia que os pacientes ganham ao serem reconhecidos como artistas. A tensão escala quando Nise decide realizar uma exposição interna. Ver os quadros expostos nas paredes brancas, fora do ambiente de confinamento, obriga os funcionários e médicos a encararem os internos de uma forma nova. O olhar de estranhamento dá lugar a um reconhecimento involuntário da beleza. Berliner utiliza enquadramentos que valorizam a simetria das mandalas de Fernando Diniz, contrastando-as com a assimetria e o caos das celas de isolamento, reforçando que a organização da forma na tela é o prelúdio da organização do ego.

A relação com os animais, especialmente os cães que habitam o pátio, ganha uma nova dimensão teórica neste estágio. Nise percebe que o cuidado com um ser vivo exterioriza o afeto que estava congelado no autismo do paciente. O animal atua como uma ponte para o mundo externo, um suporte afetivo que não julga e não exige a norma. O filme retrata a morte trágica de um desses animais como o ponto de rutura que evidencia a crueldade do sistema hospitalar. Para os médicos organicistas, o cão é um vetor de doenças; para Nise, é um co-terapeuta. A perda do animal provoca uma regressão em alguns pacientes, demonstrando que a estabilidade psíquica deles estava ancorada naquela troca de afeto pura e desinteressada.

A influência de Jung na prática de Nise também introduz a noção de que o terapeuta não deve interpretar o paciente, mas sim acompanhá-lo no seu processo de "fazer alma". O filme mostra Nise sentada ao lado de Carlos Pertuis enquanto ele pinta visões cósmicas complexas. Ela não usa o jargão psicanalítico para explicar o que ele está a desenhar; ela simplesmente testemunha o ato. Essa postura de humildade diante do inconsciente é o que permite a emersão de imagens cada vez mais potentes. A teoria jornalística do texto fílmico destaca que essa abordagem é revolucionária porque retira o médico do pedestal de detentor da verdade e o coloca no papel de facilitador de um processo que pertence unicamente ao sujeito que sofre.

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O crescimento do museu atrai a atenção da imprensa e de intelectuais, criando uma rede de proteção externa ao hospital. A visibilidade das obras na revista O Cruzeiro e o interesse de críticos de arte transformam Nise em uma figura pública, o que dificulta a sua demissão ou a interrupção do projeto pelo diretor do hospital. O filme ilustra essa proteção política através da cultura: o reconhecimento da sociedade civil serve como um antídoto à opressão institucional. A imagem do inconsciente deixa de ser um segredo de consultório para se tornar um património cultural. A loucura, quando traduzida em arte, ganha o direito de existir no espaço público.

O Museu de Imagens do Inconsciente é o testemunho material de que a psiquê possui uma tendência inata para a cura, desde que encontre um ambiente que não a violente. A correspondência com Jung e a estruturação do museu consolidam a ideia de que o tratamento da loucura deve ser uma jornada estética e não uma intervenção mecânica. O palco está preparado para os desafios finais: a luta contra a reestruturação do hospital e a afirmação definitiva da reforma psiquiátrica que Nise ajudou a fundar sem precisar de decretos, apenas com pincéis e coragem.

A intensificação dos conflitos com a administração do hospital reflete o choque entre a burocracia do controle e a fluidez da subjetividade. A direção do Engenho de Dentro, amparada por uma visão tecnocrática da medicina, percebe o sucesso do ateliê e a repercussão do Museu de Imagens do Inconsciente como uma ameaça direta à hierarquia estabelecida. No filme, essa tensão se manifesta na tentativa de asfixiar o projeto através da retirada de recursos e da imposição de normas rígidas que visam descaracterizar o espaço de criação. Nise da Silveira responde a essas manobras com uma resistência silenciosa, mas inabalável. Ela compreende que a administração não teme apenas a desordem, mas a ordem nova e desconhecida que emerge das telas dos internos.

O processo de individuação, conceito central na psicologia analítica, ganha contornos visíveis na trajetória de pacientes como Fernando Diniz. A câmera de Berliner acompanha a evolução de suas pinturas: do caos inicial de manchas coloridas à estruturação de espaços arquitetônicos complexos e mandalas de precisão matemática. Essa mudança na produção artística sinaliza o fortalecimento do ego de Fernando. Ao organizar o espaço pictórico, ele organiza seu próprio mundo interno, criando fronteiras e conexões que a esquizofrenia havia apagado. A análise documental do filme revela que cada quadro é um degrau nessa escalada rumo à integração da personalidade. O hospital tenta reduzi-lo a um diagnóstico, mas a sua obra o afirma como um construtor de mundos.

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A profundidade desse processo também se observa em Adelina Gomes. Sua jornada de individuação é marcada pela transição de figuras sombrias e sufocantes para imagens de florescimento e transformação mística. O filme destaca como Nise respeita o tempo interno da paciente, sem forçar interpretações precoces que poderiam abortar o nascimento do símbolo. A relação de Adelina com a feminilidade, antes traumatizada e reprimida, floresce através do uso das cores. A administração do hospital, incapaz de ler esses sinais de melhora subjetiva, foca apenas na produtividade laboral, ignorando que a verdadeira reabilitação ocorre na reconciliação do indivíduo com suas próprias imagens arquetípicas.

O isolamento de Nise dentro da instituição aumenta à medida que ela se recusa a compactuar com a visão de que os pacientes são "casos perdidos". O filme utiliza o contraste entre a luz solar do pátio e a sombra dos gabinetes administrativos para ilustrar esse distanciamento. Enquanto os médicos discutem estatísticas de "sucesso" baseadas na passividade dos internos, Nise celebra a vitalidade, ainda que caótica, que emana do ateliê. O conflito deixa de ser apenas técnico e torna-se um embate ético sobre o que significa ser humano. A administração vê nos quadros apenas "borrões de loucos"; Nise vê o esforço heróico da psiquê para não se fragmentar totalmente.

A entrada de novos colaboradores e estagiários no ateliê renova as forças de Nise, mas também amplia o alvo da perseguição administrativa. O filme mostra como a equipe de Nise é submetida a humilhações cotidianas, desde a falta de material básico até a sabotagem direta das atividades. Essas dificuldades, no entanto, solidificam a coesão do grupo. A resistência torna-se coletiva. O ateliê deixa de ser apenas uma sala no hospital para se tornar uma zona autônoma de afeto. A linguagem jornalística da obra enfatiza que a inovação de Nise não reside apenas na introdução da arte, mas na criação de uma estrutura social alternativa dentro de uma instituição total.

Nise luta por cada indivíduo como se lutasse pela própria validade de sua ciência. Ela utiliza a documentação clínica e artística para provar que a interrupção do processo criativo equivale a um crime contra a saúde mental do paciente. O filme demonstra que a burocracia hospitalar é, em si, uma forma de patologia que nega a singularidade em favor da norma. A luta de Nise é para manter o portal do inconsciente aberto, apesar dos esforços da instituição para lacrá-lo com medicação e indiferença.

Ao final deste segmento, fica claro que a individuação não é um estado final de "cura" perfeita, mas um processo contínuo de diálogo com o inconsciente. Os pacientes de Nise, através da pintura, alcançam uma forma de equilíbrio que a psiquiatria clássica considerava impossível para esquizofrênicos. A administração, ao tentar destruir o ateliê, tenta destruir a prova viva de que o método de Nise funciona.

A projeção internacional do trabalho de Nise da Silveira e o impacto das exposições externas representam o rompimento definitivo do cordão sanitário que isolava a loucura da vida social. O filme de Roberto Berliner detalha o momento em que a produção do Engenho de Dentro atravessa os portões do hospital para ocupar o Museu de Arte Moderna e, posteriormente, os congressos internacionais de psiquiatria em Zurique. Esse movimento não constitui apenas uma vitória logística, mas uma subversão da ordem estabelecida: o indivíduo rotulado como incapaz pela medicina torna-se um emissor de cultura respeitado pela intelectualidade. A recepção das obras de Fernando Diniz e Emygdio de Barros pelo público e pela crítica de arte atesta que a linguagem do inconsciente é universal e que a beleza pode emergir do caos mais profundo da fragmentação psíquica.

A exposição no Museu de Arte Moderna funciona como um espelho invertido para a sociedade brasileira. Ao observar as mandalas e as paisagens oníricas dos internos, o público é confrontado com a humanidade daqueles que foram relegados ao esquecimento. O filme captura a reação de espanto e admiração dos visitantes, contrastando-a com o ceticismo agressivo dos médicos do hospital. Esta validação externa fortalece a posição política de Nise, fornecendo-lhe o capital simbólico necessário para continuar o projeto diante da hostilidade administrativa. A arte atua aqui como um passaporte de retorno à cidadania; o artista-paciente recupera o seu nome e a sua história através do reconhecimento de sua obra.

O intercâmbio com o pensamento europeu, personificado no interesse de Carl Jung pelas mandalas produzidas no Rio de Janeiro, eleva a experiência do Engenho de Dentro ao status de vanguarda científica. A narrativa fílmica sublinha que Nise não buscava apenas "curar" os seus colaboradores no sentido tradicional de eliminar sintomas, mas sim integrá-los em uma rede de significados mais ampla. O envio das fotos das pinturas para o II Congresso Internacional de Psiquiatria é um ponto de virada: a descoberta de que temas mitológicos e arquetípicos surgem espontaneamente em pacientes que nunca leram sobre mitologia confirma a tese de que existe uma estrutura psíquica comum a todos os seres humanos. A loucura, sob esta ótica, deixa de ser uma falha de caráter ou de biologia para se tornar uma manifestação, ainda que dolorosa, da psiquê objetiva.

A relação de Nise com o crítico Mário Pedrosa é explorada como uma aliança estratégica entre a psicologia e a estética. Pedrosa percebe que a arte produzida no hospital não é "arte de loucos", mas arte no sentido mais puro e visceral, livre das amarras das escolas acadêmicas e do mercado. Esta parceria é fundamental para a consolidação do Museu de Imagens do Inconsciente como uma instituição de pesquisa. O filme demonstra que a catalogação das obras não serve apenas para o registro clínico, mas para a construção de um novo campo do saber onde a psiquiatria se curva à arte para compreender a mente humana. O rigor científico de Nise ao arquivar milhares de telas e desenhos permite que se observe a progressão das patologias e os ensaios de cura de forma longitudinal, algo que nenhum tratamento de choque poderia oferecer.

Dentro do hospital, o sucesso externo do ateliê gera uma reação ambivalente. Se por um lado a fama protege Nise de uma demissão sumária, por outro, acirra o ressentimento de colegas que se sentem desmoralizados pela eficácia de métodos "suaves" e "não científicos". O filme retrata as tentativas persistentes da administração de sabotar o trabalho, seja cortando o fornecimento de materiais básicos ou tentando burocratizar o acesso dos pacientes ao ateliê. A resistência de Nise é jornalisticamente documentada como uma luta por direitos humanos fundamentais. Ela entende que a privação da expressão criativa é uma forma de tortura tão perversa quanto o eletrochoque, pois retira do indivíduo a sua última ferramenta de organização da realidade.

A transformação de pacientes como Carlos Pertuis e Isaac Liberato em figuras centrais dessa revolução demonstra que a individuação é um processo coletivo de resgate. A câmera de Berliner foca na transição do olhar desses homens: da vacuidade do isolamento para a intensidade da criação. A obra cinematográfica enfatiza que o ambiente do ateliê é o único lugar onde eles são chamados pelo nome e tratados como sujeitos de seus desejos. A psicologia aplicada por Nise foca na saúde, e não na doença; ela busca o que restou de íntegro na psiquê fragmentada e utiliza o afeto como o cimento para a reconstrução do ego. O filme é um testemunho de que a ciência, quando desprovida de humanismo, torna-se uma ferramenta de opressão, enquanto a arte, quando aliada ao rigor teórico, torna-se um instrumento de libertação.

A consolidação do método de Nise da Silveira culmina na percepção de que o hospital deve ser o lugar da vida e não da morte social. A projeção internacional de seu trabalho serve como o catalisador para uma mudança de mentalidade que levaria décadas para se institucionalizar na reforma psiquiátrica brasileira. O capítulo encerra-se com a imagem das obras de arte viajando pelo mundo, carregando consigo o grito silencioso daqueles que foram calados pelos manicômios. Nise prova que o inconsciente não é um porão escuro de traumas, mas um manancial de possibilidades criativas que, se devidamente acolhido, pode reconectar o homem com a sua própria essência.

A maturidade do projeto de Nise da Silveira no Engenho de Dentro coincide com a cristalização de uma nova ética no campo da saúde mental, onde a clínica se funde à pesquisa iconográfica de forma definitiva. Neste estágio da narrativa, o filme de Roberto Berliner evidencia que o ateliê já não é uma experiência isolada, mas o epicentro de uma revolução teórica. A institucionalização desse novo paradigma ocorre através da sistematização do Museu de Imagens do Inconsciente, que deixa de ser um depósito de produções para se tornar um centro de estudos sobre a fenomenologia da psiquê. A análise das obras agora se dá em camadas; Nise não busca apenas o alívio sintomático, mas a compreensão das estruturas universais que regem o delírio e a reconstrução do mundo interior dos pacientes.

A prática cotidiana revela que a manutenção do espaço de liberdade é uma tarefa política constante. O filme retrata como Nise precisa equilibrar o rigor científico necessário para catalogar as séries de pinturas com a flexibilidade humana exigida pelo convívio com os internos. A introdução de novos métodos de acompanhamento, que priorizam a presença silenciosa do monitor em vez da intervenção interpretativa, consolida a ideia do terapeuta como um "acompanhante terapêutico". Esta função é vital para que o paciente não se sinta invadido por uma lógica externa, mas encontre seu próprio ritmo de expressão. A linguagem cinematográfica reforça essa maturidade através de planos mais longos e contemplativos, permitindo que o espectador observe o tempo de maturação da imagem na tela.

O impacto da reforma psiquiátrica brasileira, embora em estágio embrionário no período retratado, encontra em Nise sua principal força motriz prática. Ela antecipa as discussões sobre a desinstitucionalização ao provar que o confinamento e a violência são os verdadeiros produtores da cronificação da doença. O filme demonstra que a agressividade dos pacientes, frequentemente usada como justificativa para o eletrochoque, desaparece quando o ambiente oferece acolhimento e ferramentas de comunicação não verbal. A psiquiatria de Nise é uma ciência do afeto que utiliza o saber acadêmico para validar a intuição humana. Ela demonstra que a "cura" na esquizofrenia não é o retorno a uma normalidade estatística, mas a conquista de uma estabilidade possível dentro da singularidade de cada um.

A relação com os pacientes atinge um grau de profundidade onde a barreira entre médico e doente se dissolve em prol de uma colaboração criativa. Fernando Diniz, ao organizar suas telas em complexos sistemas de planos e perspectivas, demonstra uma recuperação da função de realidade que a medicina tradicional julgava perdida. Adelina Gomes, ao transmutar o sofrimento em formas florais e mitológicas, realiza uma auto-terapia simbólica que dispensa a interpretação externa. O filme sublinha que Nise é a guardiã desses processos, protegendo a integridade dos artistas contra a curiosidade voyeurística ou o julgamento moral. A institucionalização do método, portanto, é a institucionalização do respeito à soberania do inconsciente.

As dificuldades orçamentárias e o descaso estatal continuam presentes, mas o projeto ganha uma inércia própria que o torna difícil de ser extinto. A rede de apoio formada por intelectuais, artistas e ex-pacientes cria uma blindagem em torno do Museu. O filme mostra que a ciência de Nise é indissociável da sua postura ética e política. Ela desafia a noção de que o hospital psiquiátrico deve ser um lugar de exclusão e o transforma em um lugar de produção de conhecimento sobre a condição humana. A análise documental das séries de pinturas prova que o inconsciente possui uma linguagem lógica, embora não cartesiana, e que aprender essa linguagem é a única forma real de auxiliar o sujeito em crise.

O desfecho desta fase da obra aponta para a perenidade do legado de Nise. O método que começou como uma recusa à violência torna-se uma escola de pensamento que influenciará gerações de profissionais da saúde mental e das artes plásticas. A força das imagens produzidas no Engenho de Dentro rompe definitivamente o estigma da periculosidade do louco, substituindo-o pela admiração diante da potência criadora da mente. Nise da Silveira encerra este ciclo não como uma vitoriosa em uma disputa de poder, mas como uma pioneira que abriu uma clareira na floresta do preconceito, permitindo que a luz da subjetividade finalmente iluminasse os corredores sombrios da psiquiatria brasileira.

O legado histórico de Nise da Silveira consolida-se como a transposição definitiva da psiquiatria punitiva para uma clínica da subjetividade, onde a transformação da percepção social da loucura é o resultado direto da exposição da potência criativa humana. O filme de Roberto Berliner encerra seu arco narrativo demonstrando que o trabalho iniciado no Engenho de Dentro não se restringiu a um método terapêutico, mas operou uma mudança ontológica no status do sujeito em sofrimento mental. A imagem do louco como um ser perigoso, desprovido de razão e destinado ao isolamento, é substituída pela figura do artista do inconsciente, cujas obras passam a integrar o acervo de grandes museus e a pautar discussões sobre a natureza da arte e da mente. Este processo de humanização é a pedra angular da reforma psiquiátrica brasileira, estabelecendo que a dignidade do paciente é inegociável e que o tratamento deve ocorrer no campo do afeto.

A análise histórica da obra revela que Nise antecipou décadas de discussões sobre a desospitalização. Ao provar que o ambiente hospitalar era, frequentemente, o agente causador da cronificação e da deterioração do ego, ela transferiu o foco da intervenção médica para a reconstrução do laço social e afetivo. O filme retrata essa transição através da valorização do convívio cotidiano e do reconhecimento de que cada indivíduo possui um núcleo de saúde que permanece intocado pela patologia. A institucionalização do Museu de Imagens do Inconsciente serve como o arquivo vivo dessa tese, preservando milhares de obras que documentam a capacidade de regeneração da psiquê. A linguagem jornalística da época, influenciada por críticos como Mário Pedrosa, ajudou a propagar essa nova visão, retirando a loucura do gueto médico e inserindo-a no debate cultural e filosófico.

A relação entre a estrutura psíquica e a expressão plástica torna-se o principal legado teórico deixado por esse período. Nise demonstrou que as imagens não são apenas subprodutos da doença, mas tentativas de autocura. A recorrência de padrões geométricos e mandalas, observada em pacientes que não possuíam referências culturais prévias dessas formas, serviu como evidência empírica para a teoria do inconsciente coletivo de Jung em solo brasileiro. Essa conexão entre a prática clínica no Rio de Janeiro e a psicologia analítica internacional elevou o trabalho de Nise a um patamar de reconhecimento global, provando que o sofrimento mental fala uma linguagem universal de símbolos que, se compreendida, permite a reconciliação do homem com sua própria sombra.

A transformação da percepção social também é visível na forma como a família e a sociedade passaram a lidar com os internos. O filme sugere que, ao verem seus parentes reconhecidos como artistas, os familiares recuperaram um vínculo que havia sido rompido pelo estigma da loucura. O reconhecimento público das obras de Fernando Diniz e Emygdio de Barros forçou a sociedade a encarar o hospital psiquiátrico não como um depósito de restos humanos, mas como um espaço de potencialidades reprimidas. A obra de Berliner enfatiza que a revolução de Nise foi, acima de tudo, uma revolução do olhar: ela ensinou a sociedade a ver beleza e sentido onde antes só se via medo e desordem.

O legado de Nise da Silveira também se manifesta na formação de uma nova geração de profissionais de saúde mental. O "método Nise" influenciou a criação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e mudou a forma como a terapia ocupacional é ensinada e praticada no Brasil. O foco mudou do fazer mecânico e repetitivo para o fazer criativo e expressivo. A análise técnica do filme mostra que a presença física e o silêncio atento de Nise eram tão terapêuticos quanto as tintas que ela oferecia. Essa pedagogia do afeto tornou-se a base para um atendimento humanizado que prioriza a autonomia do sujeito e a redução de danos, combatendo a lógica asilar que dominou a medicina brasileira por quase um século.

Este estágio da análise conclui que a maior vitória de Nise da Silveira foi a desconstrução da barreira entre "nós" e "eles". Ao revelar que todos os seres humanos compartilham as mesmas estruturas arquetípicas e o mesmo potencial criativo, ela democratizou a loucura e humanizou a sanidade. O filme encerra-se não apenas como uma homenagem a uma mulher corajosa, mas como um manifesto sobre a resistência da vida diante das instituições de morte. O legado histórico de Nise é a prova de que a ciência mais avançada é aquela que reconhece seus limites e se abre para o mistério da alma humana com humildade e respeito.

A síntese final da trajetória de Nise da Silveira e o impacto contemporâneo de sua obra confirmam que a ruptura operada no Engenho de Dentro não foi um evento isolado, mas a fundação de um novo humanismo clínico. O filme de Roberto Berliner, ao documentar esse processo, estabelece um diálogo permanente com as tensões atuais da saúde mental, onde a tentação do reducionismo farmacológico e a medicalização excessiva da existência reencontram a resistência do símbolo. A contemporaneidade de Nise reside na sua recusa em aceitar a morte do sujeito sob o peso do diagnóstico. Ela provou que a psiquê mantém uma capacidade de autorregulação e busca de sentido mesmo em estados de profunda fragmentação, desde que o ambiente ofereça o que ela chamava de "afeto catalisador".

O impacto duradouro do Museu de Imagens do Inconsciente transcende as fronteiras da medicina e da arte, consolidando-se como um patrimônio da subjetividade humana. Na atualidade, as séries iconográficas deixadas pelos seus colaboradores servem como objeto de estudo para neurocientistas, psicólogos e artistas plásticos, evidenciando que a fronteira entre o delírio e a criação é uma linha de força, não de exclusão. A análise final do filme revela que a maior inovação de Nise foi a introdução da ética do acompanhamento. Enquanto a psiquiatria clássica buscava dominar o objeto de estudo, Nise propôs uma ciência da presença, onde o terapeuta é um guardião do processo de individuação alheio, permitindo que a cura emerja de dentro para fora.

A herança política de Nise da Silveira reflete-se na Lei da Reforma Psiquiátrica brasileira e na luta antimanicomial. O filme serve como um lembrete visual e emocional de que a dignidade humana não pode ser sacrificada no altar da eficiência técnica. A substituição do modelo asilar pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) deve muito à comprovação prática de que a liberdade e a arte são mais eficazes na estabilização da esquizofrenia do que o isolamento e o choque. O legado contemporâneo de sua obra é um chamado à vigilância contra qualquer forma de tratamento que desumanize o indivíduo ou ignore a sua capacidade de produção de sentido através do afeto e da beleza.

Conclui-se que Nise: O Coração da Loucura não é apenas o retrato de uma psiquiatra revolucionária, mas a crônica do nascimento de uma nova forma de habitar o mundo. Ao dar voz e cor aos que foram calados, Nise da Silveira expandiu os limites da nossa própria humanidade. Ela nos ensinou que a loucura não é um abismo vazio, mas uma linguagem densa que exige coragem para ser decifrada. O filme encerra este ciclo de análise reafirmando que, enquanto houver espaço para o pincel, a tela e o afeto, a alma humana encontrará caminhos para resistir à opressão e buscar a sua totalidade, fazendo da arte o mais potente instrumento de resgate do ser.

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