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Como trabalhar a imersão sensorial em um livro

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Existe um equívoco comum de que Worldbuilding (Construção de Mundo) é exclusividade de autores de fantasia como Tolkien ou de ficção científica como Frank Herbert. Isso é mentira. Um romance policial ambientado na São Paulo dos anos 90 exige tanto worldbuilding quanto uma ópera espacial em Marte. O autor precisa definir as regras sociais, a gíria, a tecnologia disponível (existia celular? como se rastreava alguém?) e a atmosfera política. Um mundo mal construído é como um cenário de teatro feito de papelão: se o ator se encostar na parede, ela cai. 

1. Macro vs. Micro: O Erro da Enciclopédia

Muitos escritores sofrem da "Doença do Geógrafo". Eles passam anos desenhando mapas, criando árvores genealógicas de reis mortos há 500 anos e decidindo as rotas de exportação de trigo, mas esquecem de escrever a história. O leitor não se importa com a macroeconomia do seu império, a menos que isso afete o preço do pão que o protagonista está tentando comprar.

A Regra do Foco: Construa o mundo de dentro para fora, não de fora para dentro. Não comece explicando a Constituição da Federação Galáctica. Comece descrevendo a sujeira na bota do soldado e a comida sintética com gosto de plástico que ele odeia. O mundo deve ser visto através da experiência imediata do personagem.

  • Exemplo: Em Neuromancer (William Gibson), não recebemos uma aula sobre geopolítica no capítulo 1. Vemos o protagonista tentando vender órgãos roubados no mercado negro. Através dessa transação, entendemos a economia, a tecnologia e a moralidade daquele mundo.

2. Leis da Magia e Tecnologia: Sanderson estava certo

Brandon Sanderson, um dos maiores autores de fantasia moderna, criou as "Leis da Magia", que se aplicam a qualquer sistema especulativo (inclusive tecnologia Sci-Fi ou regras de uma sociedade distópica).

  • 1ª Lei: A capacidade do autor de resolver conflitos com magia/tecnologia é diretamente proporcional a quão bem o leitor entende essa magia/tecnologia.

    • Se você não explicar as regras, a magia é apenas um Deus Ex Machina (solução milagrosa). Se Gandalf pudesse voar e soltar raios laser pelos olhos a qualquer momento, o Anel não seria uma ameaça. Sabemos que a magia dele é limitada e sutil, por isso tememos pelos Hobbits.

  • Limitações > Poderes: O que torna um sistema interessante não é o que ele pode fazer, mas o que ele não pode. O Super-Homem é chato porque é invencível; a Kryptonita é o que o torna interessante. O combustível da nave acaba? A magia drena a vida do usuário? O hacker precisa estar fisicamente conectado ao servidor? São as limitações que geram tensão.

3. Cultura e Religião: Não é apenas "Cristianismo com outro nome"


Ao criar culturas fictícias, evite o "Planeta dos Chapéus" (trope onde todos em uma cultura agem exatamente da mesma forma). Culturas são contraditórias e diversas. Para dar profundidade, pergunte-se:

  • O que eles comem? A comida diz muito sobre o clima e o comércio.

  • Como eles xingam? Palavrões geralmente profanam o que é sagrado ou tabu. Em uma sociedade teocrática, xinga-se com nomes de deuses. Em uma sociedade higienista, xinga-se com sujeira.

  • O que eles consideram "educado"? Em Duna, cuspir na mesa é um sinal de respeito (você está doando a umidade do seu corpo). Isso inverte nossa expectativa e mostra a escassez de água no planeta Arrakis sem precisar de um parágrafo explicativo.

4. A Estética do "Futuro Usado" (Used Future)

Antes de Star Wars (1977), a ficção científica era geralmente brilhante, limpa e cromada. George Lucas introduziu o conceito de "Universo Usado". A Millennium Falcon está caindo aos pedaços, cheia de graxa e fios soltos. Isso dá veracidade. Em qualquer mundo (medieval, contemporâneo ou futurista), as coisas envelhecem, quebram e são remendadas. Se o seu herói puxa uma espada, ela não deve estar sempre brilhando. Ela pode ter dentes na lâmina, o couro do cabo pode estar gasto pelo suor. Se ele entra em uma nave, deve haver cheiro de ozônio e óleo queimado. A perfeição estética cria distância; a imperfeição cria intimidade.

5. O "Infodump" e o Diálogo da Empregada e do Mordomo

Como apresentar as informações do mundo sem entediar o leitor? Evite o "Infodump" (despejo de informação), que é quando a narrativa para para o autor dar uma palestra de história. E, principalmente, evite o diálogo "Como você sabe, Bob".

  • Errado: "Como você sabe, Bob, nosso rei declarou guerra aos Orcs há dez anos por causa das minas de ouro, o que causou inflação." (Ninguém fala assim).

  • Certo: Mostre dois soldados reclamando que o salário atrasou de novo e que a cerveja está aguada porque o Rei está gastando tudo na fronteira. O leitor deduz a guerra e a crise econômica sem precisar de aula.

Use o Personagem "Watson": Um personagem que é novo naquele mundo (como Harry Potter no mundo bruxo ou Luke Skywalker saindo da fazenda). Ao explicar as coisas para ele, você explica para o leitor de forma natural. Se todos os personagens já conhecem o mundo, as explicações soam forçadas.

6. Cenário como Personagem


Os melhores cenários têm vontade própria. O Overlook Hotel (O Iluminado), Hogwarts, a Gotham City de Frank Miller, o Sertão de Grande Sertão: Veredas. O cenário deve exercer pressão sobre o protagonista.

  • Se faz frio, o frio deve dificultar a ação (dedos dormentes não conseguem puxar o gatilho).

  • Se é uma cidade grande, o trânsito e o barulho devem aumentar o estresse.

  • Se é uma casa mal-assombrada, a arquitetura deve confundir.

Não descreva o cenário apenas como pano de fundo estático. Descreva-o como um antagonista ou um aliado. O cenário age.

Se o Worldbuilding é a engenharia, a Atmosfera é a decoração e a iluminação. É o que define se o leitor vai sentir medo, nostalgia ou excitação. Muitos escritores falham aqui por dois extremos: ou descrevem pouco (a "Sala Branca", onde os diálogos acontecem no vácuo) ou descrevem demais (a "Prosa Roxa", cheia de adjetivos floridos que travam o ritmo). 

1. A Pirâmide da Abstração e a Descrição Concreta

O cérebro humano não processa conceitos abstratos com emoção.

  • Abstrato: "A criatura era aterrorizante e grotesca." (O leitor tem que adivinhar o que isso significa).

  • Concreto: "A criatura tinha pele de cera derretida e cheirava a carne podre e enxofre. Sua mandíbula pendia solta, expondo fileiras de dentes de tubarão." (Agora o leitor e cheira).

A regra de ouro da atmosfera é: Especificidade gera Credibilidade. Não diga que o personagem comeu "um jantar delicioso". Diga que ele comeu "um guisado de carne com batatas, carregado no alho, que queimou o céu da boca". O detalhe específico (alho, queimar o céu da boca) ancora a cena na realidade física.

2. O Domínio dos Cinco Sentidos

Escritores iniciantes são obcecados pela visão. Eles descrevem cores, tamanhos e formas. Mas a visão é um sentido "frio". Para imersão profunda, use os sentidos "quentes": Olfato, Paladar e Tato.

  • Olfato: É o sentido mais ligado à memória e à emoção primitiva. O cheiro de ozônio antes da chuva. O cheiro adocicado de sangue velho. O cheiro de mofo em uma biblioteca.

  • Tato: A textura das coisas. O volante pegajoso do carro. A areia áspera entrando na bota. O vento cortante no rosto.

  • Audição: Não apenas diálogos, mas o som ambiente. O zumbido da geladeira no silêncio da noite (cria solidão). O som de passos no andar de cima (cria suspense).

Exercício: Pegue uma cena que você já escreveu e adicione um cheiro e uma textura. Veja como a cena ganha vida imediatamente.

3. A Falácia Patética e o "Objective Correlative"

Na crítica literária, "Falácia Patética" é quando o clima espelha a emoção do personagem (chove no funeral, faz sol no casamento). Embora seja um clichê, funciona se usado com sutileza. T.S. Eliot falava do Correlato Objetivo: encontrar uma série de objetos, uma situação ou uma cadeia de eventos que sejam a fórmula daquela emoção específica. Em vez de dizer "Ela estava triste", descreva o quarto dela: as cortinas fechadas ao meio-dia, a xícara de café com nata formando uma película de bolor na mesa de cabeceira, as roupas amontoadas na cadeira. A desordem do ambiente é a tristeza dela materializada. Mostre o ambiente, e o leitor sentirá a emoção sem que você precise nomeá-la.

4. Ritmo e Atmosfera: A Pontuação como Trilha Sonora

A atmosfera também é ditada pelo ritmo da leitura.

  • Terror/Ação: Use frases curtas, palavras duras, consoantes percussivas (T, K, P, B). Corte as conjunções. "Ele parou. Ouviu. Nada. Então, o grito." Isso cria um ritmo estaccato, como um coração batendo rápido.

  • Romance/Fantasia Épica: Use frases longas, fluidas, sons sibilantes e vogais abertas. Deixe a frase serpentear pela página, envolvendo o leitor em um transe hipnótico.

5. Metáforas e Símiles: O Tempero Perigoso

Metáforas são poderosas, mas perigosas. Uma metáfora ruim tira o leitor da história.

  • Ruim: "Seus olhos eram como bolas de gude azuis caindo em um oceano de esperança." (Isso é confuso, brega e exagerado).

  • Boa: "O céu tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar." (A famosa abertura de Neuromancer. É cínica, moderna, tecnológica e cinza).

As melhores metáforas não servem apenas para descrever visualmente; elas descrevem tematicamente. Se você está escrevendo um livro sobre um assassino, as metáforas dele devem ser violentas. Ele não vê um pôr do sol "vermelho como uma rosa"; ele vê um pôr do sol "vermelho como um ferimento arterial". O mundo é filtrado pela psique do narrador.

6. Subvertendo Expectativas de Gênero

Cada gênero tem sua atmosfera padrão.

  • Terror: Escuro, claustrofóbico.

  • Comédia Romântica: Luminosa, arejada.

  • Noir: Sombras, chuva, fumaça.

Às vezes, a melhor atmosfera vem da subversão. O filme Midsommar é um terror que acontece inteiramente sob a luz do sol brilhante. Isso cria uma dissonância cognitiva perturbadora: o horror está exposto, não há onde se esconder. Considere colocar sua cena de término de namoro em um parque de diversões barulhento e colorido, em vez de na chuva. O contraste entre a felicidade externa e a miséria interna dos personagens amplifica a dor.

7. O Pacto Ficcional (Suspensão de Descrença)

John Gardner descreve a ficção como um "sonho vívido e contínuo". O trabalho do autor é não acordar o leitor. O que acorda o leitor?

  • Erros de continuidade (o personagem tinha olhos azuis e agora são verdes).

  • Anacronismos (um personagem medieval usando a gíria "ok").

  • Quebra da quarta parede não intencional (o autor aparecendo para explicar algo).

A imersão é frágil. Ela depende de consistência. Se você estabeleceu na página 10 que a gravidade naquele planeta é baixa, na página 200, quando alguém derruba um copo, ele deve cair devagar. Se cair rápido, você quebrou o feitiço. O leitor confia em você para ser o Deus daquele mundo; não seja um Deus negligente.

Conclusão: A Realidade é Superestimada

Escrever ficção não é copiar a realidade; é criar uma realidade mais concentrada, mais significativa e mais intensa. No mundo real, as pessoas tossem sem motivo, os cenários são genéricos e o clima é aleatório. No seu livro, a tosse é um presságio, o cenário é um símbolo e a chuva é um batismo ou um afogamento. Ao dominar o Worldbuilding e a Atmosfera, você deixa de contar uma história para alguém e passa a convidar essa pessoa para viver dentro da sua cabeça. E se você fizer isso direito, quando ela fechar o livro e olhar para o mundo real, ele parecerá, por um breve momento, um pouco menos real do que o mundo que você criou.

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