Resenha: Vidas secas, de Graciliano Ramos

Arte digital

APRESENTAÇÃO

Certa vez Graciliano Ramos disse que uma de suas missões pessoais era registrar, através da ficção, a intensidade trágica do cotidiano de retirantes do início do século XX que buscavam esperança longe da seca nordestina. Tarefa magistralmente executada com o livro Vidas secas.

Construída pela escrita precisa e penetrante do autor, a narrativa é permeada pelo desamparo e pela desesperança. Um enredo impactante, uma história de coragem, de encontros, de saberes e de dissabores de seres humanos e animais que persistem à procura de seu lugar no mundo.

Peça fundamental da literatura nacional, Vidas secas é um retrato em várias dimensões do Brasil a partir do relato da história de uma família sertaneja. O casal Fabiano e Sinha Vitória, seus dois filhos, "o menino mais novo" e "o menino mais velho", e a cachorra Baleia tentam fugir de uma situação de extrema pobreza e carência. Cada personagem é a encarnação de tantas e tantas pessoas que sofrem com as desigualdades e dramas de nosso país.

Para fazer jus a sua relevância, o volume conta composfácio de Alfredo Bosi, um dos maiores críticos literários brasileiros.

RESENHA

Nova edição do livro pela Global Editora

O livro vidas secas, do autor Graciliano Ramos, narra a história de uma família de retirantes que caminha exausta e faminta em busca de sombra e água no sertão. O pai, Fabiano, a mãe, Sinha Vitória e os dois filhos, que são apresentados unicamente como 'filho mais velho' e 'filho mais novo', e a cachorra, comicamente chamada baleia, devido à desnutrição . A obra se inicia com o pai, Fabiano, irritando-se com a lentidão dos passos do filho mais novo, chegando a cogitar abandoná-lo durante o percurso em busca de sombra, água e alimento. A família, ao chegar a uma fazenda abandonada, encontram um preá morto e acendem uma fogueira para cozinhar a carne. Fabiano, otimista, imagina um futuro próspero para sua família naquele local. A esposa, Sinha Vitória, e os filhos encontram alívio temporário da sede e fome. A cachorra Baleia aguarda pacientemente sua vez de comer os ossos do animal. A narrativa termina com a esperança de uma nova vida para a família naquela terra.

Graciliano Ramos retrata, em "Vidas Secas", uma trama repleta de personagens em negação, enfrentando obstáculos físicos e sociais, sem apelar para discursos políticos panfletários. No ambiente de imposição arbitrária e relações de trabalho baseadas na obediência e dominação, o romance flerta com o sistema patriarcal e a reprodução do latifúndio, onde os camponeses são alheios aos seus direitos. Sem participação política, vivem em condições semelhantes à escravidão ou a práticas feudais.

O livro permite um estudo do contexto político e social do Brasil nos anos 1930, destacando-se pela estética literária. A montagem da obra permite a apreciação das histórias individualmente. "Mudança" apresenta a família fugindo da seca, ambientando-nos no sertão. "Fabiano" analisa o pai que luta para sustentar a família, enquanto "Cadeia" aborda o poder estatal e opressor, ressaltando as dificuldades enfrentadas pelo grupo de pessoas marginalizadas.

O quarto capítulo do romance "Vidas Secas", intitulado "Sinhá Vitória", é tão impactante quanto o segundo, pois destaca a importância da matriarca da família na narrativa. Ela é retratada como uma figura sábia que não aceita a pobreza e a miséria como algo natural, mas sim como um obstáculo a ser superado. Nos capítulos seguintes, conhecemos mais sobre os filhos da família: o mais novo deseja seguir os passos do pai e se tornar um homem do sertão, enquanto o mais velho se interessa pela linguagem e seus significados.

Em "Inverno", a natureza castiga os personagens com chuvas intensas que ameaçam inundar a casa da família. Apesar de ser um momento de aparente calmaria, todos sabem que uma seca devastadora está por vir. Na festa de Natal da cidade, em "Festa", a família se sente inferiorizada diante das pessoas mais abastadas e aparentemente felizes. Esse encontro desperta sentimentos de humilhação e melancolia, que culminam em um dos momentos mais intensos do livro: a morte da cadela Baleia, um dos personagens mais marcantes da literatura brasileira.

No décimo capítulo de "Vidas Secas", intitulado "Contas", Sinhá Vitória mostra sua astúcia ao perceber que o dono da fazenda está enganando Fabiano nos cálculos, aproveitando-se de sua falta de instrução. Diante disso, Fabiano se sente inferiorizado diante do poder opressor e conclui que é um renegado. No capítulo seguinte, "O Soldado Amarelo", Graciliano Ramos aborda o autoritarismo militar, mas mostra o soldado em desvantagem no espaço de Fabiano, na caatinga.

No penúltimo capítulo, "O Mundo Cheio de Penas", a família sente a seca se aproximando cada vez mais, refletindo sobre sua condição e se preparando para a "Fuga", desfecho cíclico da narrativa que revela a luta pela sobrevivência da família ao retornar ao sertão.

"Vidas Secas" é um livro essencial para os brasileiros, com seu estilo conciso e incisivo. Graciliano Ramos constrói os capítulos como contos que se unem para formar a estrutura do romance, destacando-se na construção dos personagens como Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos, Baleia, o papagaio, o fazendeiro e o soldado amarelo. Esses personagens juntos representam as ideias do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre e alcançam um apuro político e estético que o coloca como uma das obras-primas da literatura brasileira do século XX.

Vidas Secas de Graciliano Ramos é uma obra que expõe de forma crua e realista a exploração e miséria enfrentadas pelos trabalhadores rurais no sertão brasileiro. O autor mostra de forma contundente como Fabiano é enganado e oprimido pelo seu patrão, sendo obrigado a aceitar condições desumanas e injustas.

A situação de Fabiano como homem bruto o torna vulnerável à exploração e ao abuso de poder por parte daqueles que detêm o controle sobre ele. A obra denuncia a falta de assistência e compaixão por parte das autoridades e da sociedade em geral, que ignoram a miséria e o sofrimento daqueles que mais precisam de ajuda.

A morte de Baleia, que simboliza a única fonte de conforto e lealdade para a família, é um momento tocante que revela a profunda humanidade e compaixão que falta nos personagens humanos da história. A linguagem regional e a escrita próxima da fala tornam a narrativa ainda mais envolvente e realista, fazendo com que o leitor se sinta parte da dura realidade retratada.

Em suma, Vidas Secas é uma obra poderosa e impactante que questiona as injustiças sociais e a opressão enfrentada pelos mais vulneráveis na sociedade brasileira. Uma leitura obrigatória para quem deseja entender as profundas desigualdades e desafios enfrentados pelos trabalhadores rurais no Brasil.

© all rights reserved
made with by templateszoo