Resenha: Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor, de Lia Vaine Schucman

Explorando as Dinâmicas Raciais nas Relações Familiares: Uma Análise Profunda das Famílias Inter-raciais no Brasil

Arte digital

O livro "Entre a Cor e o Amor: Famílias Inter-raciais" de Lia Vainer Schucman, realiza uma análise aprofundada através de entrevistas com cinco famílias inter-raciais. O objetivo é compreender como as questões de cor, raça e racismo são vivenciadas e interpretadas pelos diferentes membros da família e como são transmitidas entre gerações. O livro também aborda as dimensões psicológicas das experiências, mostrando que dentro dessas famílias é possível desenvolver estratégias de resistência ao racismo, acolher e processar a violência, mas também é um ambiente onde o racismo pode ser legitimado e perpetuado. A autora conclui apontando a importância de reconhecer os danos causados pela desigualdade na vivência social da raça e na racialização dos indivíduos, bem como a necessidade do letramento racial como uma forma de adotar um novo modo de ser, agir e pensar para superar a branquitude.

As relações familiares podem ser tanto fontes de amor e afeto quanto de violência e repressão racial. A questão torna-se ainda mais complexa em famílias inter-raciais, onde o combate ao racismo se torna urgente. Lia Vainer Schucman analisa como a raça influencia dinâmicas, discursos e hierarquias dentro das famílias, como no caso dos Alves, onde a identidade racial de um membro é negada pela mãe, perpetuando assim o racismo internalizado.

O livro-estudo revela relatos de diferentes famílias inter-raciais, mostrando tanto o sofrimento causado pela violência racial quanto a conscientização coletiva sobre a questão. São discutidos conceitos como as "máscaras brancas" de Fanon e a "dupla consciência" de Du Bois, além da dificuldade de classificação racial e da fluidez da identidade mestiça. Famílias inter-raciais se destaca por sua linguagem acessível e sensível, abordando a importância de combater o racismo para reduzir a desigualdade e a crise social no Brasil.

As famílias que participaram das entrevistas têm suas vozes amplificadas, revelando suas histórias e como o racismo permeia as relações afetivas. Lia Schucman, de forma original, destaca como o racismo se enraíza nas estruturas familiares, moldando hierarquias de poder. O livro não apenas explora a complexidade das relações familiares, mas também examina como a raça influencia essas dinâmicas. A autora convida o leitor a percorrer os caminhos que levam das palavras aos afetos, e finalmente à compreensão de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural. A coragem de Schucman em abordar temas incômodos e pessoais é admirável, colocando-a como uma das principais pesquisadoras brasileiras da questão racial. Seu trabalho transcende a psicologia social, servindo de referência para diversas áreas das ciências humanas. Ao analisar as tensões raciais nas famílias, a autora enfatiza a subjetividade como um aspecto político fundamental, ressaltando a importância de compreender a interseção entre política, afeto e raça. Em última análise, a transformação social e a luta contra a desigualdade exigem uma compreensão profunda da economia racial dos afetos, reconhecendo que o amor também é uma questão política.

A obra de Lia Vainer Schucman apresenta uma abordagem inovadora ao tema do racismo no Brasil, ao incorporar uma perspectiva psicanalítica nas dinâmicas familiares inter-raciais. Através de entrevistas com famílias inter-raciais, Lia explora a forma como a cor, a raça e o racismo são vivenciados afetivamente e transmitidos entre gerações. Enquanto o racismo no Brasil tem sido estudado principalmente em suas dimensões socioculturais, Lia destaca a importância das experiências intrapsíquicas e interpessoais no contexto familiar.

Em seu livro, Lia demonstra como a cor da pele ganha significados diversos dentro das famílias, influenciada pela complexidade das relações afetivas. A cor e a raça não são objetividades simples, mas reflexos das relações conscientes e inconscientes que permeiam o tecido familiar e a sociedade hierarquizada em que vivemos. A obra destaca as dinâmicas psíquicas de afetos e identificações que moldam a percepção da cor da pele e do racismo, enfatizando a importância da Psicanálise para compreender e desconstruir tais processos.

O livro de Lia Schucman é um convite para refletir sobre as manifestações do racismo no âmbito familiar e social, oferecendo insights valiosos para o enfrentamento dessas questões. Sua obra destaca a interseção entre as dimensões sociológicas, psíquicas e relacionais do racismo, apontando para a necessidade de uma abordagem integrada para compreender e superar as desigualdades e privilégios que marcam nossa sociedade.

Arte da capa / Fósforo

A obra, em síntese, aborda as relações afetivo-sexuais inter-raciais no Brasil, evidenciando um aumento significativo ao longo dos anos. Dados censitários apontam um crescimento de 8% para 31% de casamentos inter-raciais entre 1960 e 2010, sendo a configuração mais comum a do homem negro com a mulher branca. No entanto, há poucos estudos na psicologia brasileira sobre a estrutura das famílias inter-raciais em relação às hierarquias raciais. A literatura existente sobre casamentos inter-raciais no Brasil tende a focar mais nos sujeitos negros dessas relações, deixando de lado os aspectos relacionados aos brancos nessas uniões. Poucos estudos abordam a racialização dos filhos de casais inter-raciais, refletindo a complexidade histórica e social da mestiçagem no Brasil.

Por fim, discute a ideologia do branqueamento como estratégia racista de embranquecimento da nação brasileira, destacando a ambiguidade da identidade do mestiço e sua relação com estereótipos e representações raciais negativos. Considera-se a dificuldade dos mestiços em se identificar como negros devido à influência dessa ideologia, o que perpetua a exclusão das experiências e identidades mestiças na discussão racial brasileira.

O capítulo "Minha mãe pintou meu pai de branco" aborda o mecanismo de negação da negritude em famílias inter-raciais, destacando dois casos específicos. Em um dos casos, a mãe nega a negritude do filho, mesmo ele se identificando como negro, o que é um exemplo de negação. Em outro caso, uma filha relata como a mãe sempre tentou esconder qualquer traço de negritude, como trançar os cabelos do lado negro da família. A negação é um mecanismo complexo que demonstra como pessoas brancas em famílias inter-raciais podem não reconhecer a negritude do outro, mesmo se relacionando afetivamente com negros. Isso perpetua estereótipos e preconceitos raciais, evidenciando a dualidade do racismo no Brasil.

A entrevista com uma das famílias, sobretudo, por Mariana revela a violência racista que ela sofreu dentro de sua própria família, principalmente por parte de sua mãe, que cantava músicas racistas para ela na infância. Mariana é filha de uma mãe branca e um pai negro, e ela descreve sua família como inter-racial, com diferentes tonalidades de pele e características físicas. Mariana se identifica com o fenótipo de seu pai e se considera a mais negra da família, sendo inclusive chamada de "Nega" desde pequena. O relato de Mariana evidencia a importância de confrontar e contestar o racismo familiar para construir uma identidade negra positiva e autêntica. Em uma dinâmica familiar marcada por conflitos raciais, a entrevista com Mariana revelou como a temática da raça influenciou sua criação. Sua mãe, Ivone, constantemente fazia comentários racistas, chamando Mariana e seu pai de macacos e utilizando termos pejorativos. Mesmo seu pai, um homem negro, internalizou o racismo da sociedade e se colocou em uma posição de inferioridade. Curiosamente, Ivone se envolvia apenas com homens negros, possivelmente buscando uma sensação de superioridade. Mariana relatou que a mãe fazia comentários sexualizados sobre homens negros, o que sugere uma relação ambígua entre desejo e dominação. A família de Mariana reproduz as hierarquias raciais presentes na sociedade, destacando como o racismo pode influenciar profundamente as relações familiares.

A autora segue em uma transição latente da democracia racial para a descoberta do racismo na vida do outro, uma família de casamento inter-racial revela a negação do racismo por parte do patriarca, mesmo diante de evidências de discriminação. A aparente harmonia da família é quebrada quando a esposa e filhos revelam a existência do racismo sofrido por ele, evidenciando mecanismos de defesa e proteção contra a dor do preconceito. A entrevista revela as contradições entre a construção social da democracia racial e a experiência da realidade racista no Brasil, mostrando a necessidade de reconhecer e enfrentar as desigualdades raciais.

Em síntese, a obra foi responsável por analisar como membros de famílias inter-raciais lidam com questões de raça e racismo dentro do contexto familiar. Cinco famílias foram estudadas, cada uma mostrando diferentes formas de responder às hierarquias raciais presentes na sociedade brasileira. Foram identificadas complexidades nas relações familiares, incluindo negação da alteridade, processos identificatórios, vivências racistas na infância e sensibilidades antirracistas. As famílias foram consideradas como espaços importantes para lidar com o racismo, incluindo desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e acolhimento. Os relatos de exclusão racial dentro das famílias reforçaram a importância de abordar abertamente a questão do racismo, especialmente em contextos psicológicos.

A obra "Entre a Cor e o Amor: Famílias Inter-raciais" de Lia Vainer Schucman é uma leitura essencial para quem busca compreender a complexidade das relações familiares inter-raciais e como o racismo se manifesta dentro desses contextos. A autora apresenta um estudo profundo e sensível, destacando a importância de reconhecer e confrontar o racismo nas relações afetivas. O livro traz à tona questões cruciais sobre identidade, pertencimento e resistência, oferecendo insights valiosos para a transformação social. Lia Schucman demonstra uma abordagem original e perspicaz, consolidando seu trabalho como uma contribuição significativa para o debate sobre raça e afeto no Brasil.

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