Resenha: A forma do fogo, de Felipe Rodrigues

Foto: Arte digital

A forma do fogo é um livro de poesias escrito pelo poeta e advogado Felipe Rodrigues. A obra se inicia diretamente com o sumário, essa escolha pessoal do autor em não utilizar uma introdução, prólogo, nota de abertura ou semelhante é uma característica distinta que evoca no leitor a necessidade de aprofundar nos escritos de maneira mais verossímil, com mais afinco, o que denota a possibilidade de andar pelos degraus dos sentimentos presentes em cada linha de forma mais nivelada, possibilitando uma compreensão mais assertiva dos fatos, o que claro, torna a leitura mais instigante, causando um sentimento de inovação do contexto em relação as expectativas dos caminhos descritos e propostos pelo autor. Outra análise possível é o fato do fogo não ser contido, controlado, por suas chamas ascenderem de forma instantânea dentro de seus limites da existência, ardendo. Este arder das chamas provoca uma reflexão latente acerca dos temas abordados, como se o medo, angústia e os demais sentimentos queimassem o interlocutor, em outras palavras, é um texto sobre tudo o que destrói o ser humano, como as chamas de um incêndio.


A obra consta com 95 poemas ao todo, um marco em uma publicação deste gênero, o que torna o mix de assuntos laborados mais diverso, tornando a esfera da leitura uma experiência agradável para todos os públicos. Estruturado em estrofes com ora rimas, ora formas fixas, a obra possui características descritivas e estruturais únicas que modificam-se a cada novo poema, revelando desta forma, uma nova estética de se reinventar por meio de características singulares entre as emoções destacadas.


Analisando temas como sentimentalismo, amor, esperança, solidão, ânsia, âmago e outros tópicos, o autor nos convida a refletir acerca de nossa existência e de tudo o que cerca nosso redor, como descrito no poema abaixo:


a doença da liberdade

Ansiedade é a doença da

Liberdade.

 

Menos infeliz quem,

Não sabendo que não pode ser,

A não ser, infeliz

Do que quem a crê e a vê

Em todo lugar, a todo instante

E perde-se no oásis de escolhas

Em meio ao deserto de sentido,

Ficando triste, doente, ansiosa

Esquecendo o que, lá no íntimo único,

Era e queria de verdade.

 

Multiverso, metaverso,

Relacionamentos abertos,

Fé, a falta ou excesso de Deus ou heróis,

Imagens e governantes,

Ideias, discursos e narrativas

Contra "eles",

Sobretudo vidas e coisas tão longe de mim!

 

Tantas formas de vida para escolher

No tempo tão curto de viver!

 

Ah, liberdade, liberdade...

Quando quase tudo é possível

Mas quase nada convém.

O poema aborda a liberdade como uma fonte de ansiedade e doença na sociedade contemporânea. Ele reflete sobre a ideia de que, apesar de termos a liberdade de escolha em diversos aspectos de nossas vidas, essa liberdade pode nos levar a uma sensação de desorientação, falta de sentido e insatisfação, destacando a pressão da sociedade moderna para fazer escolhas em todas as áreas da vida, desde relacionamentos até crenças religiosas e políticas. Isso cria um sentimento de estar perdido em meio a tantas opções e expectativas, levando à infelicidade e ansiedade.

A liberdade é retratada como algo paradoxal, em que quase tudo é possível, mas quase nada realmente é satisfatório. Isso sugere uma reflexão sobre as consequências da liberdade excessiva, levando as pessoas a perderem de vista suas verdadeiras vontades e desejos.

Dessa forma, o poema aborda a liberdade sob uma perspectiva sociológica, explorando como as pressões sociais e as expectativas da sociedade contemporânea podem afetar nosso senso de identidade, propósito e bem-estar. Ele levanta questões sobre como lidamos com a liberdade e as escolhas que enfrentamos, e como isso pode contribuir para sentimentos de descontentamento e doença.


Seguindo com os poemas:


a dança das estrelas

O meu saber dos astros não alcança

O imprevisível andar das tuas cenas

O acerto e o erro em ser, com os pés na dança

Do que é teu e somente teu, apenas.

 

Contigo o mau futuro não me cansa

Quando envolvido em tuas mil morenas

O meu saber dos astros tem confiança

No pleno ajuste das coisas terrenas...

 

Por mais que os astros girem sobre nós

Contando confidências, e tramando

O alegre e o triste na pequena noz

 

Satélite inexato, eu sempre aéreo

Ciência ou religião... Nunca a alcançando

Flor astral, esotérico mistério.


Sob uma perspectiva sociológica ao explorar conceitos como individualidade, liberdade e destino, o poeta descreve a dança das estrelas como algo imprevisível e incontrolável, refletindo a ideia de que cada indivíduo tem seu próprio destino e caminho a seguir. Além disso, o poema sugere que o conhecimento dos astros pode oferecer alguma segurança, mas que, no final das contas, somos responsáveis por nossas próprias ações e escolhas. Isso pode ser interpretado como uma crítica à ideia de determinismo social ou à influência de forças externas sobre nossas vidas. Ao falar sobre o envolvimento com "mil morenas" e o aclaramento das coisas terrenas, o poema também pode ser interpretado como um comentário sobre a interação entre o indivíduo e a sociedade. A ideia de estar imerso em um contexto social, mas confiante em suas próprias decisões, sugere uma abordagem individualista em relação à vida. Em última análise, o poema aborda questões de destino, liberdade, confiança e mistério, que são temas sociais e filosóficos importantes que permeiam a vida de todos nós.


silêncio

Por muito tempo temi a solidão

E refugiei-me, como vocês,

No incessante e colorido mundo exterior

Onde, ansioso,

Refletia cores alheias para o vazio de meu coração,

Coroava meu céu com brilhantes, inseguras estrelas

Enquanto tempo era-me roubado

Para que eu me esquecesse de mim.

 

Mas de tanto estar ausente

Perdi o medo da solidão - ou da liberdade,

Do julgamento também,

E agora reconheço-me em mim, em silêncio,

Como reencontrando um velho amigo desencontrado

Na roda do tempo, no sem sentido da vida,

E comigo sou e comigo estou

Na mais serena e autêntica paz.

O poema “Silêncio” pode ser interpretado sob uma perspectiva como uma reflexão sobre a condição humana na sociedade moderna. O eu lírico expressa inicialmente um medo da solidão, que é uma experiência comum em um mundo onde as relações sociais podem ser superficiais e efêmeras. A busca por refúgio no “mundo exterior” e a tentativa de se encaixar, refletindo “cores alheias”, pode ser vista como uma crítica à conformidade social e à perda da individualidade.

A solidão, muitas vezes vista negativamente, é reavaliada pelo poeta como um espaço de liberdade e autoconhecimento. A ausência de julgamento externo permite uma introspecção profunda, onde o eu lírico encontra paz e autenticidade. Isso pode ser interpretado como um comentário sobre a importância da autonomia e da identidade pessoal em uma sociedade que valoriza a extroversão e o desempenho social.

O “reencontro com um velho amigo desencontrado” simboliza a reconexão com a essência do ser, muitas vezes perdida na “roda do tempo” e no caos da vida cotidiana. O poema termina com uma nota de serenidade, sugerindo que a verdadeira paz vem de estar em harmonia consigo mesmo, além das expectativas e pressões sociais.


O PERSEGUISSONHO


Se tenho sonhos?

Não sei se os tenho ainda,

Mas sei que os tinha...

Se persigo meus sonhos?

Persigo, sim,

Perseguissonho de outras pessoas.

Mas não sei se são reais

- Esses sonhos e essas pessoas -

Porque eu mesmo não sonho

E não tenho nada de absolutamente tão claro

A viver e morrer por, a sonhar!

- Tenho sim objetivos:

Não sou preguiçoso, apenas não sou sonhador...

A vontade vacila, sempre.

Não consigo “Viver o presente...”

Nem uns sonhos próprios, inexistentes.

Mas gostaria de reencontrá-los

Assim, como por acaso,

E que me perdoassem...

Porque o perseguissonho persegue-me

Numa sensação de desperdício

Do tempo e da força que ainda me restam

Para viver e só viver,

Mas nada sonhar...


O poema “O PERSEGUISSONHO” apresenta uma reflexão profunda sobre a condição humana na sociedade contemporânea, especialmente no que tange à perseguição de sonhos e objetivos. Do ponto de vista, o poema pode ser interpretado como uma crítica à pressão social para que se tenha ambições e sonhos claramente definidos, o que pode levar a um sentimento de inadequação e perda de identidade.


O eu poeta revela uma luta interna entre a expectativa social de ter sonhos e a realidade de não possuir nenhum que seja genuinamente seu. A sociedade muitas vezes valoriza aqueles que têm grandes aspirações e desvaloriza os que não se encaixam nesse ideal. Isso pode gerar uma sensação de alienação e de estar vivendo através dos sonhos de outros, o que o poeta chama de “Perseguissonho”.


A vontade que “vacila, sempre” pode ser vista como a incerteza e a inconstância que muitos enfrentam ao tentar se conformar com as normas sociais. A dificuldade em “Viver o presente” pode refletir a ansiedade e a pressão para planejar o futuro, muitas vezes à custa de apreciar o momento atual.


O desejo de reencontrar seus sonhos “como por acaso” sugere uma esperança de redescobrir uma paixão ou propósito perdido, livre das imposições sociais. O poema termina com uma expressão de resignação, onde o eu lírico aceita a perseguição dos sonhos como uma parte inevitável da vida, mesmo que isso signifique não ter sonhos próprios.


A obra "A forma do fogo" de Felipe Rodrigues é uma verdadeira obra-prima da poesia contemporânea. Com uma linguagem poética única e uma profundidade emocional que envolve o leitor, o autor nos convida a refletir sobre temas universais como liberdade, solidão, amor e identidade. Cada poema é uma janela para o mundo interior do poeta, revelando uma sensibilidade única e uma capacidade de expressão que toca o coração de quem lê.


Os temas abordados nos poemas, como ansiedade, liberdade, solidão e busca por identidade, são extremamente relevantes para a sociedade contemporânea, refletindo as angústias e as contradições do mundo moderno. A maneira como o autor explora esses temas, com uma sensibilidade aguçada e uma linguagem poética envolvente, faz com que o leitor se identifique e se emocione com as palavras do poeta.


Em suma, "A forma do fogo" é uma obra que transcende as barreiras do tempo e do espaço, tocando o âmago do leitor com sua beleza e profundidade. Felipe Rodrigues é uma voz poética que merece ser ouvida e apreciada, e sua obra é um verdadeiro tesouro da literatura contemporânea. Recomendo fortemente a leitura deste livro a todos os amantes da poesia e da beleza das palavras.

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