Revisão atualizada e instigante do pensamento de Bakhtin: Uma leitura necessária.

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Mikhail Mikhailovitch Bakhtin (1895-1975) é um renomado teórico da linguagem que, apesar das dificuldades enfrentadas, deixou uma importante contribuição para as Ciências Humanas. Suas teorias têm sido amplamente estudadas e difundidas desde a publicação de um estudo de Julia Kristeva em 1967. Bakhtin desenvolveu uma teoria inovadora, abordando temas como literatura, cultura, povo e produção cultural, mantendo a centralidade da linguagem em sua obra interdisciplinar. Ele acreditava que a compreensão de um texto implica uma resposta ativa do leitor, que pode concordar, adaptar, acrescentar, retirar informações ou exaltar o texto lido. José Luiz Fiorin, professor da USP, busca uma compreensão responsiva ativa dos conceitos de Bakhtin em seu livro Introdução ao pensamento de Bakhtin.


A obra de Fiorin se desdobra em seis capítulos e numa breve introdução, onde o autor expõe seus objetivos e justifica a seleção dos conceitos presentes. Destaca-se a importância de Bakhtin como estudioso da linguagem, cujas concepções muitas vezes são citadas, mas nem sempre compreendidas. Para facilitar a compreensão, Fiorin destaca apenas os termos mais utilizados, deixando de lado ideias como ideologia, arquitetônica, evento estético, tema e significação. Além disso, não aprofunda nas concepções filosóficas e éticas da obra bakhtiniana.


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Fiorin ressalta a complexidade do trabalho de Bakhtin, que não elaborou uma teoria ou metodologia prontas, resultando em obras diversificadas e inacabadas. A polêmica em torno da autoria de alguns livros assinados por outros nomes também é abordada, gerando discussões até os dias atuais. As diferentes posições sobre a autoria são apresentadas, com Fiorin simpatizando com a ideia de co-autoria entre Bakhtin e outros autores.


Vida e obra, apresentando aspectos biográficos do filósofo Bakhtin, nascido ao sul de Moscou. Concluiu seus estudos em São Petersburgo, formando-se em Letras, História e Filologia, e cercando-se de amigos intelectuais, formando o Círculo de Bakhtin. Preso em 1929 por ligações filosófico-religiosas banidas na União Soviética, cumpriu exílio em Kustanai. Apresentou sua tese de doutorado em 1940, defendida em 1946, mas teve o título de doutor negado em 1952. Faleceu em Moscou em 1975. No segundo capítulo, destaca-se o Dialogismo como princípio central em sua obra, onde Bakhtin analisou as diversas vozes presentes em um discurso e sua historicidade.


Fiorin ressalta a importância dos diferentes significados que o conceito de enunciado pode assumir: a) aquele não expresso no próprio enunciado, mas construído em oposição a outro. Ou seja, todo enunciado é uma resposta a outro, originando-se a partir dele. Sempre se ouvem, pelo menos, duas vozes, mesmo que não se manifestem explicitamente no discurso; b) aquele que se manifesta pela incorporação de vozes de outros enunciados, podendo ser citado abertamente e separado do discurso citante ou de forma mais sutil, chamado bivocal; c) aquele relacionado ao indivíduo e à sua ação, ou seja, a resposta que cada pessoa dá às diversas vozes presentes na realidade em que está inserida


Os gêneros do discurso são discutidos no terceiro capítulo, onde Fiorin destaca que Bakhtin não se interessa pelas propriedades normativas dos gêneros, mas sim por como estes se constituem, sua conexão e interação com as atividades humanas, ou seja, seu processo de produção. Isso significa que os gêneros estabelecem uma interligação da linguagem com a vida social.


No quarto capítulo, intitulado Prosa e Poesia, são abordados os conceitos de polifonia e monologia. Bakhtin enfatiza que no romance está presente a pluralidade de vozes, caracterizando-se pela descentralização e interação com discursos alheios, ao contrário da poesia, que é monológica. Fiorin destaca as discordâncias em relação à interpretação da concepção bakhtiniana, mencionando autores como Cristóvão Tezza e Boris Schnaiderman.


A carnavalização é o foco do quinto capítulo, onde se explora a apropriação, pela literatura, das expressões da cultura popular. Essas ações são não oficiais e, segundo Bakhtin, representam uma segunda vida do povo, onde hierarquias são suspensas e o mundo real é transformado de forma invertida. A perspectiva carnavalesca permite uma familiaridade entre elementos diversos, possibilitando a expressão do reprimido através de uma linguagem obscena, sem as restrições da etiqueta, com atos e palavras excêntricos e profanos.

Neste capítulo, Fiorin discorre sobre a origem da literatura carnavalesca, que vem se renovando e ressignificando ao longo da evolução literária. Ele aborda de forma resumida o período helenístico, o diálogo socrático, a sátira menipéia e o carnaval na Idade Média.


O capítulo seguinte, intitulado "O romance", explora a teoria de Bakhtin sobre este gênero literário. O romance é considerado a expressão máxima do dialogismo, incorporando todos os outros gêneros, mesclando estilos e não respeitando os limites impostos pelo sistema literário. Bakhtin estudou sua natureza e evolução a partir de dois parâmetros: percepção da linguagem e representação de espaço e tempo. Para ele, o romance não está restrito à sociedade burguesa, mas permeia toda a história da literatura.


O livro se encerra com uma bibliografia comentada das obras de Bakhtin e de outros estudiosos nacionais com os quais Fiorin dialogou. Porém, é importante ressaltar que o autor poderia ter feito referência a outras obras, nacionais e estrangeiras, que contribuíram para a compreensão da obra de Bakhtin, como exemplificado com alguns títulos no final desta resenha.


Um segundo ponto a ser destacado é a fragilidade do argumento de Fiorin em relação à polêmica sobre a autoria das obras de Bakhtin. Ao defender a co-autoria dos textos, mesmo sendo simpatizante da ideia de que o teórico russo seja o único autor dos escritos em seu nome, Fiorin levanta a questão de por que não defende seu ponto de vista em vez de seguir a tradição.


Apesar desses problemas, os conceitos abordados por Fiorin são revisados de forma atual, analisando textos de diferentes gêneros e autores como Machado de Assis, José de Alencar, Gregório de Matos, entre outros. O livro desperta no leitor o interesse em aprofundar suas leituras, buscando outros autores e obras de Bakhtin. A grandiosidade dos escritos bakhtinianos, com conceitos se apoiando uns nos outros, sua heterogeneidade e contínuo inacabamento, demanda a consulta de outras publicações especializadas para compreender como esses conceitos foram construídos. Esta é a expectativa proposta pelo autor na introdução de seu livro.


Introdução ao Pensamento de Bakhtin é uma obra valiosa para estudantes, professores e pesquisadores que desejam compreender a obra de um dos mais importantes pensadores do século XX. A leitura do livro é um convite para mergulhar no universo do dialogismo e da polifonia, abrindo novas perspectivas para a análise da linguagem e da literatura.

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