Resenha: A linguística hoje: Múltiplos domínios, contexto e paradigmas, org. Gabriel Ávila Othero e Valdir do Nascimento Flores

Foto: Arte digital / divulgação

APRESENTAÇÃO

A linguística é um campo amplo e complexo. Mesmo com o interesse comum pela linguagem humana, não existe uma única maneira de se fazer linguística. Os objetos de estudo e as perspectivas escolhidas para abordá-los são muito diversos. Esta obra, escrita principalmente para estudantes da área, traz um panorama inédito, atual e abrangente da linguística contemporânea. De caráter introdutório, o volume está organizado de modo a abarcar todos os grandes vieses de investigação (o social, o biológico, o formal, o cultural, o tecnológico, o aplicado etc.). Os capítulos, escritos por especialistas, apresentam de forma didática cada um dos domínios: da geolinguística à linguística forense, da linguística computacional à neurolinguística, entre outros.

Autores: Alena CiullaAna Suelly Arruda Câmara CabralAniela Improta FrançaCarlos PiovezaniCarmen Rosa Caldas-CoulthardCléo Vilson AltenhofenEduardo KenedyElisa BattistiIngrid FingerLeonel Figueiredo de AlencarLilian FerrariMarilisa ShimazumiSanderson Castro Soares de OliveiraSimone SarmentoSimone Vieira ResendeSírio Possenti e Tony Berber-Sardinha

RESENHA

A linguística hoje: Múltiplos domínios, contexto e paradigmas é um livro de estudos linguísticos organizados por Gabriel Ávila Othero e Valdir do Nascimento Flores, que conta com contribuições dos autores Alena CiullaAna Suelly Arruda Câmara CabralAniela Improta FrançaCarlos PiovezaniCarmen Rosa Caldas-CoulthardCléo Vilson AltenhofenEduardo KenedyElisa BattistiIngrid FingerLeonel Figueiredo de AlencarLilian FerrariMarilisa ShimazumiSanderson Castro Soares de OliveiraSimone SarmentoSimone Vieira ResendeSírio Possenti e Tony Berber-Sardinha. A obra é o segundo de dois volumes publicados que se propõe à apresentar o panorama atual do campo disciplinar linguística, sendo o segundo a obra A linguística hoje: historicidade e generalidade.

No contexto da atual heterogeneidade da linguística, diversas questões emergem sobre as teorias, métodos, escolas de pensamento, autores e interfaces disciplinares presentes na área. A principal indagação é se há algo capaz de unificar a linguística de forma que o uso do artigo definido "a" indique uma expressão referencial definida. Contudo, a busca por essa unificação esbarra na diversidade de opiniões sobre o objeto e a configuração científica do campo. No livro "Conceitos básicos de linguística" (Battisti, Othero e Flores, 2022), os autores enfatizam a complexidade do tema e, baseando-se em Saussure, defendem a existência de linguísticas no plural, cada uma com seus próprios objetos de estudo. Assim, fica evidente a necessidade de superar respostas simplistas em relação à natureza da linguística e considerar sua diversidade epistemológica.

A partir da abordagem foucaultiana, a linguística se apresenta como um campo epistemológico, no qual se reconhecem as diversas formas de conhecimento empírico que o constituíram ao longo da história. Esta perspectiva permite não apenas compreender a complexidade teórica e metodológica do campo, mas também reconhecer as condições e configurações que possibilitam a validade do saber linguístico em relação a outras áreas de conhecimento.

No entanto, a heterogeneidade do campo linguístico apresenta desafios epistemológicos que exigem uma reflexão mais profunda. Como abordar essa diversidade? Qual ponto de vista adotar? Quais princípios orientam as escolhas dentro desse campo?

Essas questões levantam a necessidade de uma análise cuidadosa sobre a natureza e os fundamentos da linguística como disciplina acadêmica. Ao reconhecer a multiplicidade de abordagens teóricas e metodológicas que caracterizam o campo, é possível desenvolver uma visão crítica e reflexiva sobre as diferentes perspectivas que o constituem.

A linguística se apresenta como um campo epistemológico rico e complexo, que demanda uma constante reflexão sobre suas bases e fundamentos. A abordagem foucaultiana permite uma compreensão mais profunda da diversidade do campo linguístico e das condições que o tornam um saber válido e relevante no contexto acadêmico.

A linguística é uma área do conhecimento complexa, que envolve diversos paradigmas, escolas, teorias, níveis de análise, fenômenos e interfaces. Diante dessa realidade, é necessário um estudo epistemológico detalhado para compreender as diferentes abordagens e perspectivas dentro da linguística.

A aquisição da linguagem, por exemplo, pode ser estudada de diferentes maneiras, como a partir de uma perspectiva gerativa, no quadro da teoria de princípios e parâmetros, ou sob a ótica da teoria do valor de Ferdinand de Saussure. Esses dois exemplos ilustram a intersecção de paradigmas, teorias e níveis de análise linguística para investigar o fenômeno da aquisição da linguagem.

Assim, a epistemologia da linguística se torna essencial para compreender como essas diferentes abordagens se relacionam e contribuem para o conhecimento sobre a linguagem. É a partir dessa reflexão epistemológica que podemos avançar no entendimento da linguística como campo de estudo e pesquisa, ou seja, a reflexão sobre como se produz e se valida o conhecimento em uma determinada área do saber. Nesse sentido, os livros procuram apresentar não apenas diferentes abordagens teóricas da linguística, mas também discutir como essas abordagens se relacionam com o conhecimento produzido e validado na área.

Assim, os exemplos apresentados nos livros demonstram que a linguística é uma disciplina diversa e em constante evolução, com múltiplas maneiras de ser praticada e compreendida. A partir de diferentes perspectivas ético-políticas e epistemológicas, os autores dos textos buscam oferecer uma visão ampla e representativa das diversas correntes teóricas e metodológicas que permeiam o campo da linguística.

Os autores discutem a ideia de pensar a linguística como uma epistemologia, seguindo o pensamento de Benveniste. Para tornar essa abordagem consistente, é necessário estabelecer as condições de existência da linguística como forma de conhecimento e mostrar como ela se torna uma ciência. No próximo item, a ideia de "linguística como uma epistemologia de si própria" é desenvolvida, resumindo a proposta para entender a linguística atualmente.

Para ilustrar esse processo, suponha que um linguista esteja investigando a hipótese de que a ordem das palavras em uma frase afeta o seu significado. Para testar essa hipótese, ele utiliza ferramentas experimentais, como a análise de corpus linguísticos ou experimentos de produção e compreensão de frases. Essas ferramentas permitem ao linguista construir um observatório, ou seja, um conjunto de observações que serão utilizadas para refutar ou confirmar a hipótese. No entanto, segundo Milner, para que esse processo seja válido, as ferramentas experimentais devem ser independentes das proposições teóricas em análise, ou seja, elas não devem estar subordinadas a uma teoria específica. Isso garante que as observações feitas sejam imparciais e objetivas, permitindo uma análise mais precisa e confiável dos dados linguísticos. Dessa forma, a linguística se torna uma ciência experimental, capaz de testar e refutar teorias com base em evidências empíricas sólidas.

Nesse sentido, "A linguística hoje: Múltiplos domínios, contexto e paradigmas" é um livro fundamental para aqueles que desejam se aprofundar na complexidade e diversidade da linguística como campo disciplinar. Ao reunir contribuições de diversos autores, a obra oferece um panorama abrangente das diferentes abordagens teóricas e metodológicas que permeiam a área, proporcionando uma reflexão profunda sobre os fundamentos epistemológicos que norteiam o estudo da linguagem. A diversidade de temas abordados e a pluralidade de perspectivas apresentadas tornam o livro uma leitura imprescindível para estudiosos e estudantes de linguística que buscam ampliar seus horizontes e enriquecer seu entendimento sobre a complexidade da linguagem e seus múltiplos aspectos.

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