[RESENHA #982] Norton, de T.R. Sacoman

Norton é um garoto que, como toda criança nascida no início da década de 1980, gosta de jogar bola na rua com os colegas, subir nas árvores da praça e olhar as estrelas, mas que vê sua vida mudar quando, aos sete anos, ouve seu avô chamá-lo de “mariquinhas”.

Entre a descoberta do significado dessa palavra e o entendimento de seus sentimentos, Norton travará uma luta contra quem ele realmente é. Na tentativa de atender às expectativas de sua família, irá magoar a si e aos amigos mais próximos, até descobrir o verdadeiro amor.

Uma história emocionante de descobertas e de busca por identidade numa época em que ser diferente era arriscar a própria existência. Mas o que é a vida senão um grande risco?


RESENHA


Norton é um livro interessante em sua premissa, mas, que, infelizmente, não se destaca muito dos outros livros do mesmo gênero. O autor busca em seu livro com 396 páginas desenvolver a caminhada da história de Norton, desde a descoberta de sua sexualidade até a chama do primeiro amor. Norton mora com seus pais, ele é descrito um garotinho meigo e atencioso, o que acaba provocando em sua mãe pensamentos de que, talvez, seja necessário fazer algo a respeito, uma vez, que, ele precisava ser influenciado por hábitos de homens, dentre outras coisas que estamos habituados à ouvir em relação à descoberta da sexualidade. O comportamento da mãe rente ao filho desperta comentários na família que se torna ainda mais incomodada com o filho pelas diversas conversas que pairam no ar sobre o fato de Norton andar rodeado de garotas e gostar de fofocar, como diz sua mãe. O pai de Norton é o típico pai que não quer acreditar em nada do que estão espalhando, então, desta forma,  ele busca inserir o garoto em seu dia-a-dia para apresentar à ele o universo masculino com mais afinco, como leva-lo para assistir um jogo de futebol em sua companhia, o que faz Norton querer entrar em um time de basquete, uma vez, que, seu pai acha, que, de alguma forma, seria um esporte de homem.


Deixando um pouco de lado a vida de Norton com a família, do outro lado, temos a vida escolar de Norton que é rodeada de preconceito, chacotas e abusos. Norton possui algumas amigas com nomes peculiares: a Rê, a Lu, e a outra Lu, Lu R. A partir deste ponto, o autor trabalha a proximidade entre os personagens e os encontros fomentados pela sexualidade entre Norton e seu primo Caio. Caio é descrito como uma figura masculina respeitada pela mãe de Norton, por sempre estar acompanhado de uma garota diferente. Caio é enrustido, e abusa de Norton em diversos momentos da narrativa. Norton chora em todos os encontros, mas, pasmem, ele acaba gostando (uma narrativa problemática que levanta questões e debates acerca da existência de que, talvez, ele só seja gay por ter sido, em síntese, fruto de abuso).


Norton estava com raiva. E nojo. Caio havia abaixado suas calças, deixando seu pau à mostra. Ereto. Duro. [...]

- Não precisa chorar. É só um beijinho! Além disso, eu disse que faríamos coisas de homem. Homens brincam com outros homens, só não beijam na boca. Eu e seu irmão brincamos sempre.

Caio colocou as mãos dentro das calças de Norton. Palpou-lhe. Lágrimas corriam pelo seu rosto. Caio ria. Parecia estar se divertindo com a situação. Mais do que isso, parecia gostar do que estava fazendo.

- Vamos, faz em mim também. Vamos fazer juntos.

Norton obedeceu. Apesar do medo que sentia de ser pego e do ódio que nutria por Caio, a sensação do toque da mão do primo era agradável. [...] Norton sentiu, pela primeira vez, a sensação do gozo. Era bom.


Após este encontro, a insistência de Caio e de uma de suas amigas, Rê, em ficar com Norton são latentes e nojentas. Ela sabe que ele é gay, mas suas insistência doentia em querer-lhe é algo extremamente estranho, sobretudo, se levarmos em consideração de que eram amigos de longa data. Caio, primo, namorava e insistia freneticamente usando o discurso de amar Norton para possuí-lo novamente. A narrativa segue acrescentando novos personagens, novos garotos, novos romances, e novos relacionamentos que se desfazem por conta de segredos, intrigas e revelações. Caio chega defender Norton de um outro rapaz, Fernando, de uma nova tentativa de abuso, sob a justificativa, claro, de amor.


O autor também realiza a introdução de uma outra figura na narrativa, Hugo. Norton o conhece no time de basquete e eles desenvolvem uma química, que em suma, é interessante, eu diria que é o melhor ponto da narrativa de toda obra. Hugo namora uma moça de nome Lívia. Apesar do bullying sofrido por Hugo, a narrativa ganha forma com a evolução das conversas e da forma como o autor construiu a revelação da sexualidade de Hugo. A obra se finaliza com um final que deixa possibilidades para uma continuação. Espero eu, que, nesta nova obra, o autor trabalhe um relacionamento mais maduro e menos repleto de tantos tabus relacionados ao meio gay. A questão da família de Norton também é muito bem elaborada e toda ausência de apoio da família é apenas um quadro frequente do que a maioria dos gays passam em casa ao se revelarem ou demonstrarem diferentes dos outros garotos.



Ah, e a diagramação da obra está impecável. 
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