Crítica: O som ao redor, 2012

SINOPSE
Não recomendado para menores de 16 anos

A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do Recife muda a vida dos moradores do local. Ao mesmo tempo em que alguns comemoram a tranquilidade trazida pela segurança privada, outros passam por momentos de extrema tensão. Ao mesmo tempo, casada e mãe de duas crianças, Bia (Maeve Jinkings) tenta encontrar um modo de lidar com o barulhento cachorro de seu vizinho.

CRÍTICA

"O som aniquila a grande beleza do silêncio", disse Charles Chaplin. Grande nome do cinema mudo, o ator e diretor resistiu por muitos anos a aderir à técnica da fala, por achar que algo se perdia na experiência de assistir a um filme. Se estivesse vivo, o eterno Carlito provavelmente estaria ainda mais preocupado com a situação do cinema nos dias de hoje. Desde os anos 80, principalmente depois da criação da MTV, nos deparamos com produções cada vez mais barulhentas e equivocadas do ponto de vista sonoro. Alguns diretores, como o brasileiro Eduardo Coutinho, ainda procuram reforçar a importância do silêncio, mas estão cada vez mais isolados nesse mundo de Michael Bays. Felizmente, "O Som ao Redor" surge carregando essa bandeira, mesmo que não intencionalmente. O filme fala de forma sutil e utiliza o som de uma forma pouco vista no cinema mundial.

Aqueles que acompanham o cenário de curtas-metragens no Brasil já tinham voltado seus olhos para Pernambuco há alguns anos. O crítico e jornalista Kleber Mendonça Filho vem desde o início dos anos 2000 produzindo curtas muito interessantes, sempre com algo a dizer. Foi assim com "Vinil Verde" (2004), "Eletrodoméstica" (2005) e, principalmente, "Recife Frio" (2009), que arrebatou prêmios pelo mundo inteiro e chegou a ser lançado comercialmente em DVD, algo raro no formato. Ele estreou em longas com o ótimo documentário "Crítico" (2008), mas só agora se arrisca no cinema de ficção. Com "O Som ao Redor", o diretor comprova que é um profissional a ser observado no cinema brasileiro.

Diante de uma onda de violência, os moradores de uma pacata rua na zona sul do Recife decidem contratar o serviço de seguranças particulares para vigiarem as redondezas. Liderados por Clodoaldo, os vigilantes assumem uma posição importante na região, caindo nas graças até mesmo do misterioso Francisco, uma espécie de coronel dos dias de hoje, com inúmeros imóveis na área e exercendo muita influência no bairro. Essa é a premissa principal da produção, mas a verdade é que o filme é muito mais do que isso. Mendonça Filho retrata de uma forma pouco vista a classe média brasileira, destacando personagens que se revoltam, mas não perdem tempo tomando atitudes contra o que lhes causa revolta. Isso fica evidente na ótima sequência da reunião de condomínio, em que um morador se diz contra uma demissão para logo em seguida abandonar a reunião por causa de outros compromissos.

Ao registrar a rotina de inúmeras casas, o diretor também estuda a relação entre patrão e empregado. É curioso notar como essa relação varia de personagem para personagem. Temos a dona de casa que não precisa de empregada, mas que sofre com a solidão nos momentos em que o marido e os filhos estão fora. Temos o homem bonito que conhece a empregada há vários anos e a trata como se fosse de casa. E temos ainda a mulher abastada que trata mal os funcionários. A dinâmica entre essas situações é feita de forma natural, favorecida pelo ótimo desempenho de todo o elenco. Irandhir Santos, mais uma vez, mostra que é um dos melhores atores do Brasil, mas ele não está sozinho. Gustavo Jahn faz um ótimo trabalho como João, neto de Francisco, enquanto Maeve Jinkings rouba a cena como Bia, conquistando e entretendo o público em sua rotina de ódio pelo cachorro vizinho.

Assim como a história, o título "O Som ao Redor" também diz muito. Não se trata de uma obra sobre crimes elaborados ou sobre relacionamentos individuais. É um filme sobre o que está ao nosso redor, sobre ruas cada vez mais vazias e muros cada vez mais altos. Sobre câmeras de segurança, cachorros e, principalmente, pânico. Não o pânico produzido por um grande susto, mas sim aquele que existe diante da certeza permanente de que algo ruim pode acontecer. E no mundo de hoje, isso está na mente de adultos e crianças, como mostrado no longa. Além de dirigir e escrever o roteiro, Kleber Mendonça Filho também foi responsável pela montagem (ao lado de João Maria) e pelo desenho de som (ao lado de Simone Dourado). Os quatro trabalhos estão totalmente ligados nessa produção. Direção, roteiro e montagem sempre caminharam juntos no cinema, mas aqui o trabalho de som também é um elemento chave na produção. Os efeitos sonoros, trilha sonora e design sonoro são ótimos, mas os elementos que roubam a cena são a captação e a mixagem. A forma como vários sons são inseridos em meio aos poucos diálogos é merecedora de aplausos.

"O Som ao Redor" não é um filme que precisa gritar para ser ouvido, não precisa de grandes cenas dramáticas para chegar ao seu objetivo ou mesmo para contar uma história. Evolui um relacionamento amoroso para depois dizer que ele terminou sem mostrar o fim ao espectador, que, surpreendentemente, ainda se dará por satisfeito. Afinal, está claro desde o início que a vida dos personagens não é o foco da trama, mas sim a rotina de uma comunidade.

Bonito, divertido, assustador e cativante. "O Som ao Redor" é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos. Talvez o mais impressionante desde "Cidade de Deus". Celebra o cinema de gênero de John Carpenter ao mesmo tempo em que investe em um tom mais realista. Passado no Recife, no bairro em que o próprio diretor vive, também poderia se passar em qualquer grande cidade do mundo, onde as relações sociais estão cada vez mais marcadas pela paranoia e pela impessoalidade. Não deixe de assistir e escutar esse longa.

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